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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

CARTAS DA LITERATURA

«Quero falar a sós contigo, dizer-te tudo pela primeira vez; hás-de ficar a saber toda a minha vida que sempre foi tua e acerca da qual jamais soubeste. Contudo apenas hás-de ficar a saber do meu segredo quando estiver morta, quando já não tiveres de responder-me, quando chegar verdadeiramente ao fim aquilo que agora me estremece pés e mãos, ora me afrontando ora me enregelando. Caso fique viva, então rasgarei esta carta e guardarei silêncio como sempre fiz. Caso a tenhas em teu poder, ficas então a saber ser uma morta quem te conta aqui a sua vida, que foi a tua desde a sua primeira até à sua última hora (...).»

Stefan Zweig, Carta de uma desconhecida, a esfera dos livros

Era o dia do seu quadragésimo aniversário e o conhecido romancista R. recebia, entrea habitual correspondência, uma misteriosa carta. Escrita à pressa, com letra de mulher, duas duzias de páginas de uma confissão que começava assim: «Para ti que nunca me conheceste.» Um relato dramático de uma mulher que ama, desesperadamente, um homem incapaz de amar alguém.

Carta de uma desconhecida é um dos mais aclamados livros de Stefan Zweig que traça um profundo retrato psicológico de uma mulher que amou sem ser amada. Uma relíquia literária onde o autor austríaco descreve com mestria os sentimentos humanos e o drama das suas condições.

(informação da contracapa)

sábado, 13 de novembro de 2010

CARTAS DA LITERATURA

De A para X é um fascinante romance epistolar (nomeado para Booker Prize em 2008) sobre o amor e que nos concede paralelamente uma análise da forma como a humanidade se afirma pela luta. A’ida, farmacêutica, escreve cartas a Xavier - o seu amante recluso condenado a prisão perpétua por actos de terrorismo - contando-lhe pequenos acontecimentos do seu quotidiano que sabe que o alimentam e podem apaziguar a sua dor. Aqui vai uma carta entre tantas outras (encontradas na cela de Xavier) que fazem este romance. Prometo outras, para mais tarde:
«Acordei às três da manhã. Onde quer que incidisse, a luz era cor de cinza. Levantei-me, vesti-me e, sem perguntar a mim mesma porquê, saí para a rua. As luzes estavam apagadas. Por hábito, fui andando em direcção à farmácia. A certa altura vi uma raposa e pensei no Ved. As noites são mais simpáticas, dizia ele. Esta não, disse eu para mim mesma, esta faz tudo parecer lixo.

   Comecei a andar mais depressa, a ouvir o som dos meus próprios passos e o silêncio à espera de os abafar. E pensei: uma mulher pode sentir pena de um homem, ela pode consolá-lo, no entanto a consolação não dura muito. Pensei nos homens e em como eles gostam de se apresentar uns aos outros como vencedores – mesmo que as suas pequenas vitórias tenham de ser inventadas. No entanto, a provação mútua que eles dedicam uns aos outros não dura mais do que o nosso breve consolo.
A seguir ouvi o barulho de um comboio a aproximar-se e tive medo porque não existe nenhuma linha-férrea. Carruagem atrás de carruagem. Fechei os olhos. Um comboio de mercadorias, não de passageiros, com muitos de nós agarrados aos tejadilhos dos vagões.
Com os olhos fechados, pensei: aquilo que dura é o facto de as mulheres reconhecerem os homens por quem se apaixonam como vencedores, independentemente do que acontecer, e os homens se honrarem uns aos outros pela sua experiencia partilhada da derrota. É isto que dura!
O comboio ia a passar, apitou, e o apito recordou-me o meu avivo em Tora. Ele ganhava a vida a limpar comboios de passageiros à noite e referia-se às suas gares como dormitórios.
- As locomotivas dormem lá! – dizia-me ele quando eu tinha cinco anos.

A tua A’ ida

John Berger, De A para X - Cartas de Amor, Civilização Editora

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

CARTAS DA LITERATURA


Deixo mais um excerto de uma carta literária com grande peso no nosso Romantismo (que já não consta do programa de Português do ensino secundário e que, por isso mesmo, pode tornar-se, quiça, mais apetecível para todos)... desta vez é Carlos que escreve a Joaninha, o par amoroso e adorado de Viagens na minha Terra de Almeida Garrett. Aqui vai:

                                        Évora Monte, ... de Maio de 1834

Viemos para Portugal; e o resto agora da minha história sabes tu.



Cheguei por fim ao nosso vale, todo o passado me esqueceu assim que te vi. Amei-te…não, não é verdade assim. Conheci, mal te vi entre aquelas árvores, à luz das estrelas, conheci que era a ti só que eu tinha amado sempre, que para ti nascera, que teu só devia ser, se eu ainda tivera coração que te dar, se a minha alma fosse capaz, fosse digna de juntar-se com essa alma de anjo que em ti habita.


Não é Joana; bem o vês, bem o sentes, como eu sinto e o vejo.


Eu sim tinha nascido para gozar as doçuras da paz e da felicidade doméstica; fui criado, estou certo, para a glória tranquila, para as delícias modestas de um bom pai de famílias.


Mas não o quis a minha estrela. Embriagou-se de poesia a minha imaginação e perdeu-se: não me recobro mais. A mulher que me amar há-de ser infeliz por força, a que me entregar o seu destino, há-de vê-lo perdido. Não quero, não posso, não devo amar a ninguém mais.


A desolação e o opróbrio entraram no seio da nossa família. Eu renuncio para sempre ao lar doméstico, a tudo quanto quis, a tudo quanto posso querer. Deus que me castigue, se ousa fazer uma injustiça, porque eu não me fiz o que sou, não me talhei a minha sorte, e a fatalidade que me persegue não é obra minha.


Adeus, Joana, adeus, prima querida, adeus, irmã da minha alma! Tu acompanhas nossa avó, tu consola esse infeliz que é o autor da sua e das nossas desgraças. Tu, sim, que podes; esquece-me.


Eu, que nem morrer já posso, que vejo terminar desgraçadamente esta guerra no único momento em que a podia abençoar, em que ela podia felicitar-me com uma bala que me mandasse aqui bem direita ao coração, eu que farei?


Creio que me vou fazer homem político, falar muito na pátria com que me não importa, ralhar dos ministros que não sei quem são, palrar dos meus serviços que nunca fiz por vontade; e quem sabe?... talvez darei por fim em agiota, que é a única vida de emoções para quem já não pode ter outras.


Adeus, minha Joana, minha adorada Joana, pela última vez, adeus!


Almeida Garrett, Viagens na minha Terra

domingo, 31 de outubro de 2010

CARTA DE UM JOVEM - HERMANN HESSE

Mais uma carta inesquecível da literatura, sobretudo para ti Caridee. E porque este é um autor que vale a pena ler:

Excelentíssima Senhora:

Convidou-me um dia a escrever-lhe. Pensou que seria muito agradável para um jovem com tendências literárias poder enviar cartas a uma bela e prezada dama. Tem razão, é muito agradável.

E além disso, também notou que escrevo muito melhor do que falo. Por conseguinte eis-me a escrever-lhe. É a minha única oportunidade de lhe dar um pequenino prazer, e é isso o que eu muito gostaria de fazer. Porque eu a amo, minha senhora. Permita-me ser mais pormenorizado! É necessário , porque de outro modo não me poderá compreender, e talvez se justifique porque esta será a única carta que lhe escrevo. E basta de introduções!

(…)

Um dia apaixonei-me e, sem esperar, tinha de novo todoas as ligações com a vida, mais fortes e mais multifacetadas do que nunca antes.

Desde então tenho vivido horas e dias maiores e mais deliciosos, mas nunca essas semanas e meses, tão quentes e tão plenos de um sentimento permanentemente torrencial. Não lhe quero contar a história do meu primeiro amor, não tem importância, e as circunstâncias exteriores bem podiam ter sido diferentes. Mas a vida, que então vivi, gostaria de a descrever um pouco, se bem que saiba que não vou conseguir. A busca apressada teve um fim. Encontrei-me de repente no meio do mundo vivo e estava ligado por inúmeros filamentos à terra e às pessoas. Os meus sentidos pareciam estar mudados, mais aguçados e mais vivos. Especialmente os olhos. Via tudo diferente do que via anteriormente. Via cores mais claras e mais variadas, como um artista, e sentia prazer na simples contemplação.

O jardim do meu pai estava no seu esplendor estival. Tinha arbustos em flor e árvores com uma espessa folhagem de Verão contra o céu profundo, a hera subia pelo grande muro de suporte e em frente descansava a montanha com rochedos avermelhados e florestas de abetos azuis-escuros. E eu ficava a ver e sentia-me tocado porque tudo era tão lindo e vivo, colorido e brilhante. Muitas flores baloiçavam nas hastes de uma maneira tão delicada e tinham um aspecto tão comovedoramente fino e íntimo nos seus calicezinhos coloridos que eu as amava e as apreciava como as canções de um poeta. Também muitos sons, a que antes nunca tinha ligado, chamavam-me agora a atenção e diziam-me coisas e ocupavam-me: o som do vento nos pinheiros e na relva, o barulho dos grilos nos campos, o trovejar das tempestades ao longe, o murmurar do rio na represa e as muitas vozes dos pássaros. À tardinha via e ouvia os enxames das moscas na luz dourada do entardecer e escutava as rãs no lago. Mil pequenas coisas passaram a ter importância para mim e eu passei a gostar delas e tocavam-me como se fossem vivências. Por exemplo, quando de manhã regava alguns canteiros para passar o tempo e a terra e as raízes bebiam a água tão ávidas e agradecidas. Ou via uma pequena borboleta azul cambalear como ébria na luz do meio-dia. Ou observava o abrir de um botão de rosa. Ou deixava à tardinha pender a mão do barco para dentro da água e sentia nos dedos o puxar suave e tépido do rio.

Enquanto o sofrimento de um desconsolado primeiro amor me atormentava e e enquanto me moviam uma necessidade incompreendida, uma saudade diária e uma esperança e desilusão, sentia-me a cada instante feliz no meu mais profundo íntimo, apesar da melancolia e do medo do amor. Tudo o que estava à minha volta era-me agradável e tinha sempre qualquer coisa para me dizer, não havia nada morto nem vazio no mundo. Nunca mais perdi isto inteiramente, mas também nunca mais foi assim forte e permanente. E viver isto de novo, assenhorear-me disto e guardar tudo, é essa agora a ideia que tenho da felicidade.

Quer saber mais coisas? Desde essa altura até hoje nunca mais me voltei a apaixonar verdadeiramente. De tudo o que conheci nada me pareceu mais nobre e fogoso e arrebatador do que amar uma mulher. Nem sempre tive relações com senhoras ou com raparigas, também nem sempre amei conscientemente uma delas, mas os meus pensamentos tiveram sempre ligados ao amor e a minha veneração pelo belo foi sempre uma constante adoração de mulher.

Não lhe vou contar histórias de amor. Tive uma vez uma apaixonada, durante alguns meses, e colhi realmente um beijo e um olhar e uma noite de amor quase sem querer, assim de passagem, mas se amei de facto, foi sempre uma infelicidade. E se me recordo bem, o sofrimento de um amor sem esperança, o medo e a timidez e as noites em branco eram muito mais belos do que todos os pequenos casos de felicidade e de sucesso.

Sabe que estou muito apaixonado por si, minha senhora? Conheço-a já há quase um ano, se bem que só tenha estado em sua casa quatro vezes. Quando a vi pela primeira vez, tinha, sobre a blusa de um cinza claro, um broche com um lírio de Florença. Vi-a uma vez na estação a entrar para o rápido de Paris. Tinha um bilhete para Estrasburgo. Nessa altura ainda não me conhecia.

Fui depois com o meu amigo a sua casa, já eu estava apaixonado por si. Só reparou nisso na terceira vez que a visitei com a música de Schubert. Pelo menos foi o que me pareceu. A princípio troçou da minha seriedade, depois das minhas expressões líricas, e à despedida foi simpática e um pouco maternal. E a última vez, depois de me ter facultado a sua morada de Verão, permitiu-me que lhe escrevesse. E foi o que fiz hoje, após longa meditação.

Como é que devo acabar a carta? Digo-lhe que esta minha primeira carta será também a minha última. Aceite as minhas confissões que talvez tenham o seu quê de ridículo, como a única coisa que lhe posso oferecer e com que eu lhe posso mostrar que muito a prezo e a amo. Enquanto penso em si e me confesso a mim próprio que desempenhei muito mal perante si o papel do apaixonado, sinto no entanto um pouco do milagre de que lhe falei. Já é noite, os grilos cantam ainda diante da minha janela no relvado húmido e há muita coisa que está como naquele Verão fantástico. Talvez, penso, possa vir a ter tudo de novo e viver outra vez as mesmas coisas se me mantiver fiel ao sentimento que me envolveu ao escrever-lhe esta carta. Gostaria de renunciar ao que a maior parte dos jovens se segue ao ficar apaixonado e que eu próprio conheci mais do que bem – o jogo semiverdadeiro, semiartificial dos olhares e dos gestos, o tocar dos pés por baixo da mesa e o abuso de um beijo na mão.

Não consigo exprimir plenamente aquilo que quero dizer. Talvez me compreenda apesar disso. Se é como eu a imagino, poderá rir-se do fundo do coração com esta minha escrita confusa, sem me menosprezar por isso. Possivelmente irei também eu um dia rir-me sobre isto, mas hoje não posso e também não quero.

Com o mais profundo respeito,

                                                    B.

                                                 (1906)

Hermann Hesse, Contos de Amor

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

CARTAS DA LITERATURA


Mais uma carta da literatura portuguesa (como prometi a Caridee), esta do primoroso romance O Primo Basílio, do grande Eça. A 1ª edição deste romance data de 1878. Lembro-me que  li este livro há muitos anos, num tempo em que o universo do Eça de Queirós era como uma cadeira de baloiço para a minha alma, lendo-o apenas num balanço. Dele retirei  uma carta de amor que Luísa escreve secretamente a Basílio, seu primo, com quem mantém um caso extra-matrimonial:


«Meu adorado Basílio
Não imaginas como fiquei quando recebi a tua carta, esta manhã ao acordar. Cobri-a de beijos...
(...)
Que tristeza que fosse a carta e que não fosses tu que ali estivesses! Estou pasmada de mim mesma, como em tão pouco tempo te apossaste do meu coração, mas a verdade é que nunca deixei de te amar. Não me julgues por isto leviana, nem penses mal de mim, porque eu desejo a tua estima, mas é que nunca deixei de amar e ao tornar a ver-te, depois daquela estúpida viagem para tão longe, não fui superior ao sentimento que me impelia para ti, meu adorado Basílio. Era mais forte que eu, meu Basílio. Ontem, quando aquela maldita criada me veio dizer que tu te vinhas despedir, Basílio, fiquei como morta; mas quando vi que não, nem eu sei, adorei-te!E se tu me tivesses pedido a vida dava-ta, porque te amo, que eu mesma me estranho...Mas para que foi aquela mentira, e para que vieste tu? Mau!  Tinha vontade de te dizer adeus para sempre, mas não posso, meu adorado Basílio! É superior a mim. Sempre te amei, e agora, que sou tua, que te pertenço corpo e alma, parece-me que te amo mais, se é possível...»

Eça de Queirós, O Primo Basílio, Europa-América, p.137