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sexta-feira, 16 de abril de 2010

Not even the rain



http://www.youtube.com/watch?v=EGIKsW_VeGs



somewhere i have never travelled, gladly beyond
any experience,your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near


your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully, mysteriously) her first rose


or if your wish be to close me, i and
my life will shut very beautifully, suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;


nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility: whose texture
compels me with the color of its countries,
rendering death and forever with each breathing


(i do not know what it is about you that closes
and opens; only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody, not even the rain, has such small hands



e. e. cummings


quinta-feira, 11 de março de 2010

Alice no País das Maravilhas


Vale bem a pena ver o filme de Tim Burton para apreciar sobretudo duas personagens: a   Rainha de Copas e o Chapeleiro Maluco. O País das Maravilhas materializa uma infância que arrastamos até sermos adultos e faz-nos sentir vontade de nos dedicarmos exclusivamente às nossas fantasias... a transformação que operamos como espectadores ao colocarmos os óculos 3D ajuda a termos a sensação de que também nós andamos perdidos num mundo sério demais...  o que é uma pena pois conforme nos diz tão bem  Alice "os loucos são sempre as melhores pessoas".
Fiquei com muita pena de uma das passagens que mais me emocionam não ter sido produzida no ecrã. Apago um pouco dessa desilusão deixando um pequeno excerto:

"(...) porque eu nunca fui assim tão pequenina, nunca! E digo que isso é demasiadamente mau, é sim!"
Enquanto dizia essas palavras, o seu pé escorregou e, num instante, splash!, estava mergulhada at´ao queixo em água salgada. A sua primeira ideia foi a de que tinha caído ao mar, "nesse caso, posso regressar de combóio", disse Alice para si mesma. (Alice tinha ido para a praia apenas uma vez na vida e concluíra que, para qualquer lugar da costa inglesa que se fosse, haveria sempre algumas barracas de praia, crianças a escavar na areia com  pás de madeira, lá atrás uma fileira de pensões, e mais atrás ainda, a estação do comboio). Mas logo percebeu que estava no lago de lágrimas que derramara quando estava com dois metros e meio de altura.
-Quem me dera não ter chorado tanto! - disse Alice enquanto nadava, tentando encontrar a saída. -Deve ser que o meu castigo por isso é afogar-me nas minhas próprias lágrimas, suponho eu!"

Faltaram entre Alice, o Chapeleiro e a Lebre de Março os diálogos tão engraçados que põem à prova a polissemia das palavras, as constantes charadas que mostram como o mundo pode ser virado do avesso dependendo quase exclusivamente da disposição das palavras nas frases, enfim da nossa capacidade de imaginar e estilhaçar o real:
"- Que relógio tão engraçado! - comentou [Alice]. - Ele mostra o dia do mês mas não as horas!
- Por que razão deveria? - resmungou o Chapeleiro. - Por acaso o teu relógio mostra o ano em que estás?
- É claro que não! - relicou Alice prontamente. - Mas isso é porque o ano permanece o mesmo muito tempo.
- Esse é exactamente o caso do meu - disse o Chapeleiro.
Alice sentia-se terrivelmente confusa. O comentário do Chapeleiro soava-lhe completamente absurdo (...)
- Já resolveste a charada? - perguntou o Chapeleiro, virando-se novamente para a Alice.
-Não, eu desisto - respondeu Alice. - Qual é a solução?
- Não faço a mínima ideia - disse o Chapeleiro.
-Nem eu - disse a Lebre de Março.
Alice suspirou enfastiadamente.
-Penso que deveria usar melhor o seu tempo -disse- , em vez de o gastar com charadas que não têm resposta.
- Se conhecesses o Tempo tão bem como eu conheço - disse o Chapeleiro -, não falarias em gastá-lo, como se fosse uma coisa. Ele é uma pessoa.
-Eu não sei do que estás a falar - disse a Alice.
-Claro que não! - retorquiu o Chapeleiro, sacudindo a cabeça desdenhosamente. - Poderia jurar que tu nunca falaste ao Tempo!
- Talvez não - disse Alice, cauteosamente -, mas eu sei que tenho de marcar o tempo quando aprendo música.
-Ah! Isso explica tudo concluiu o Chapeleiro. - Ele não suporta ficar a marcar o compasso, mas, se estiveres de boas relações com ele, poderás fazer o que quiseres com o relógio. Por exemplo, supõe que são nove horas da manhã, aquela hora a que começam as aulas, apenas tens de segredar uma sugestão ao ouvido do Tempo e lá vão os ponteiros num abrir e fechar de olhos! Uma e meia, hora do almoço!(...)

Este é um dos livros que me apetece ter repetidamente pois há edições muito variadas que são autênticos convites à entrada neste mundo fantástico (tanto das potencialidades semânticas da linguagem, como das imagens, como das sucessivos motivos da intriga) ... Saiu mesmo há pouco tempo, uma nova edição, fruto da parceria entre o Círculo de Leitores e a Arte Plural, daquelas que eu invejo, apesar de já não ser criança. É uma adaptação de Harriet Castor  com ilustrações do croata Zdenco Basic. Que linda capa!


terça-feira, 9 de março de 2010

CONTO DE SARAMAGO ADAPTADO AO CINEMA

Embargo, de António Ferreira

SINOPSE

Nuno é um homem que trabalha numa roulotte de bifanas, mas que inventou uma máquina que promete revolucionar a indústria do calçado - um digitalizador de pés. No meio de um embargo petrolífero e deparando-se com uma estranha dificuldade, Nuno tenta obstinadamente vender a máquina, obcecado por um sucesso que o fará descurar algumas das coisas essenciais da sua vida. Quando Nuno fica estranhamente enclausurado no seu próprio carro e perde uma oportunidade única de finalmente produzir o seu invento, vê subitamente a sua vida embargada…

Realização: António Ferreira
Produção: ZED FILMS – CURTAS E LONGAS
Co-Produção: Vaca Films (Espanha), Diler e Associados (Brasil), Sofá Filmes (Portugal)
Produtores: Tathiani Sacilotto e António Ferreira
Produtores Associados: Borja Pena, Emma Lustres, Diler Trindade.
Elenco: Filipe Costa, Cláudia Carvalho, Pedro Diogo, Fernando Taborda, José Raposo, Miguel Lança, Eloy Monteiro.
Argumento: Tiago Sousa, a partir da obra homónima de José Saramago
Fotografia: Paulo Castilho
Música Original: Luís Pedro Madeira
Produção Executiva: Tathiani Sacilotto
80 min - Portugal/Espanha/Brasil 2010


Vê o trailer aqui:
 http://www.youtube.com/watch?v=z0fgM_cQvH0

O bom humor de Saramago

A estreia de Embargo, a adaptação ao cinema de um conto de Saramago, deverá ocorrer apenas no Verão. Mas nós já vimos e gostámos do filme, que só está terminado há duas semanas, e passou em ante-estreia mundial, no Fantasporto.
Nós já vimos, mas José Saramago ainda não. Com algum nervoso miudinho, estão à espera da estreia para mostrar o filme ao Nobel. E depois logo se vê. Esperamos que goste. E o António Ferreira, claro está, também. A estreia de Embargo, a adaptação ao cinema de um conto de Saramago, deverá ocorrer apenas no Verão. Mas nós, privilégio dos privilégios, fomos dos poucos que já vimos o filme, que só está terminado há duas semanas, e passou em ante-estreia mundial, no Fantasporto, no Pequeno Auditório do Rivoli (onde só cabem 150 pessoas). E, imagine-se lá, António Ferreira, o autor de Esquece Tudo o que te disse, fez da história de Saramago uma comédia. "O conto tem aquela ironia do Saramago, mas é muito mais sério do que o filme", explicou o realizador ao Final Cut.



Nós rimo-nos quase do princípio ao fim, graças aos excelentes diálogos de António Ferreira e a interpretação dos actores (os principais são pouco conhecidos), com destaque para Filipe Costa, no papel principal. É que, apesar de ser visivelmente uma comédia, também o humor de António Ferreira é inteligente e nada alarve. E coseu as pontas da história original, com apenas 12 páginas, para se manter fiel ao conceito, e não ao texto. O mais importante está lá: Embargo é uma reflexão sobre a dependência do petróleo e do automóvel, criando duas situações extremas - um embargo petrolífero que faz com que a gasolina seja racionada e um homem que, por mistério, não consegue sair do seu automóvel.






António Ferreira lembrou-se de adaptar Saramago muito antes de Fernando Meirelles. Há 15 anos, ainda estudante de cinema, pegou no texto e até filmou algumas cenas para uma curta. "Era tudo muito diferente, eu próprio era o actor", explica. O projecto ficou na gaveta, até que, com a greve dos camionistas, ocorreu-lhe ressuscitá-lo. Ganhou o subsídio para a curta-metragem, mas dois meses antes de filmar resolveu passar a longa. "Um filme não é um livro e tivemos de acrescentar muitas coisas, pois o conto só tem12 páginas. Tivemos de dar uma história ao Nuno".

Embargo é uma co-produção ibero-brasileira, filmada em digital, que tal como em Esquece Tudo o que te disse, encontra um caminho alternativo para o cinema português: uma obra de qualidade acessível ao grande público. Tem tudo para ser o grande filme do próximo Verão.

http://aeiou.visao.pt/o-bom-humor-de-saramago=f550579