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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

À VOLTA DA EPÍGRAFE

«Que seria, pois, de nós, sem a ajuda do que não existe?»

Paul Valéry, Breve Epístola sobre o Mito


Não resisto a esta epígrafe que Mario Vargas LLosa transpõe para o romance " O Paraíso na outra esquina". Na verdade são as coisas que não existem que nos fazem sonhar e andar de roda de tudo o que é palpável - pessoas, objectos, sítios - como se a partir deles pudéssemos tocar nesse bem maior chamado felicidade.

À VOLTA DA EPIGRAFE

Não posso deixar de transcrever a epígrafe tão rica e polissémica de "A Tia Júlia e o Escrevedor"de Mario Vargas LLosa que tanto me ocupa a imaginação, sentindo-me tonta como se tivesse acabado de andar num carrossel, em grandes círculos que incluem mais pequenos movimentos circulares, cada vez que a leio. Está aqui explícita a ideia que o autor teve relativamente à experiência da escrita dentro da escrita e da memória de quem escreve e se lê na própria escrita,  de que se alimenta a personagem e o autor, ele próprio.


«Escrevo. Escrevo que escrevo. Mentalmente, vejo-me a escrever que escrevo e também posso ver-me a escrever que escrevo. Recordo-me já escrevendo e, também, vendo-me que escrevia. E vejo-me recordando que me vejo a escrever e recordo-me vendo-me recordar que escrevia e escrevo vendo-me escrever que recordo ter-me visto escrever que me via a escrever, que recordava ter-me visto a escrever que escrevia, que escrevo que escrevia. Também posso imaginar-me escrevendo que já tinha escrito que me imaginaria escrevendo que tinha escrito que me imaginava escrevendo que me vejo a escrever que escrevo.”

El Grafógrafo de Salvador Elizondo

terça-feira, 8 de junho de 2010

À VOLTA DA EPÍGRAFE

«Sabiamente, Henry James aconselhava os escritores a não escolher um louco para personagem principal de uma narração, pois não sendo o louco moralmente responsável, não haveria verdadeira história para contar.»

Gore Vidal
in Delírio, Laura Restrepo


Mas é precisamente em Delírio, de Laura Restrepo (traduzida para a nossa língua recentemente, e editada no passado mês de Maio pela Editorial Presença), obra de onde transcrevi esta interessante epígrafe, que toda a história gira, ironicamente, à volta de Agustina, uma personagem feminina em estado de loucura.
A obra começa precisamente com Aguilar (marido de Agustina) a confessar que soube que algo de terrível tinha acontecido com ela no momento em que, devido a um telefonema de um desconhecido que recebeu, vai buscar a sua mulher a um hotel e se apercebe, no preciso momento em que um homem veio abrir a porta do quarto, da imagem dela sentada ao fundo, a olhar pela janela de modo que achou muito estranho. A partir deste momento, Aguilar não reconhece mais a sua mulher e vai empreender o papel de um detective de forma a descobrir o que provocou esse estado de loucura, esse delírio em que a mesma vive.
Lembro-me também, rumando no sentido contrário daquele que nos é sugerido por Henry James, do Diário de um Louco do conceituado autor russo Nikolai Gógol, onde assistimos ao quotidiano infernal do funcionário de uma repartição que se apaixona loucamente pela filha do seu director e fica sujeito, por esse motivo, a “ouvir e ver coisas que ainda ninguém viu nem ouviu”. Ao longo do conto assistimos ao desmoronamento da razoabilidade humana, insuflado pelo sofrimento provocado por essa paixão que o leva inclusive a perseguir, de forma patológica, o animal de estimação da amada, com o anseio de perceber o que este pensa.
De Rosa Montero, destaco A Louca da Casa, no qual mais uma vez impera a extravagância, a loucura, o sonho pela descrição dos comportamentos mais íntimos dos escritores, assumindo-se um discurso próprio ora do romance autobiográfico ora da biografia (e, resumindo, um discurso sobre cada um de nós, leitores) …
Gonçalo M. Tavares com os seus "livros pretos", nomeadamente com a série O Reino investe no retrato da loucura através de variadas personagens.
Em Jerusalém, Mylia, por exemplo, fica aterrorizada desde o início da diegese com a possibilidade de alguém “olhar para si e murmurar: eis uma louca!”. Também Hinnerk é um homem cujo medo aumentava de dia para dia, sentindo-se cada vez mais ameaçado por qualquer acontecimento que aconteceria, na sua cabeça, para breve, atemorizando as crianças com o seu próprio temor ou terror.
Em Klaus Klump, vários são os loucos que vão sendo retratados primorosamente -desde Catharina, viúva e mãe de Joanna (namorada de Klaus), até à perspectivação do real e dos outros pelo próprio Klaus, o absurdo é uma marca viva na escrita desta história passada em tempo de massacre e de guerra (tão viva que chega a dialogar com o universo da loucura e do horror de Kafka).
Também em Aprender a Rezar na Era da Técnica, Gonçalo M. Tavares aborda a esquizofrenia com uma naturalidade chocante, baptizando uma das suas personagens com o nome de Buchner, fazendo com que esta personagem, através do seu nome, reavive a referência à primeira descrição pormenorizada de um estado de esquizofrenia na literatura alemã com a obra Lenz do dramaturgo Georg Buchner.
De facto, o conselho de Henry James é, pelos vistos, levado pouco a sério por tantos autores que por investirem na loucura como personagem ou como tema ou, até mesmo, como substância criativa da escrita demonstram a evidência de novos caminhos, desenhando mais do que aquilo que nos cerca e aquilo que somos, a face completamente imprevista da realidade e da existência humana, o avesso daquilo com que habitualmente contamos, definindo-nos como não somos ou não queremos ser, em última instância.
Venham os loucos à flor da literatura! No nosso século a narrativa literária é tão estilhaçada e confusa como a mente de um louco, e não deixa, desse modo, de contar histórias com verdade.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

À volta da Epígrafe

Paul Delvaux

«What we want», said Harris, «is a change»

Jerome K. Jerome, Three Men on the Bummel

Esta é a segunda epígrafe escolhida por Mário de Carvalho para abrir o seu cronovelema " A arte de morrer longe".
A mudança, seja ela interior ou exterior, é uma necessidade primária do ser humano e não passa de uma tentativa de ficar mais perto de uma ilusória perfeição. Neste caso alude à necessidade de separação das personagens, Bárbara e Arnaldo.

sábado, 20 de março de 2010

À Volta de Epígrafes



Do mesmo romance de Tabucchi, Tristano Morre:

"Quem testemunha pela testemunha?"
Paul Celan

É caso para perguntar Afinal onde está a verdade absoluta?  A testemunha final, irredutível, iniludível? Onde está a justiça das coisas? A tua palavra vale mais do que a minha? É necessário pesar as palavras em balanças várias? Quem são os juízes dos juízes dos juízes? Poderemos ser testemunhas de nós próprios? É útil olharmos para dentro de nós num momento crucial de crime ou pecado? Testemunhar será apenas ver? Afinal, quem é a última testemunha? Só as palavras testemunham, cegas? E as palavras que se perdem pela sala de audiência? E aquelas que ficaram no local implicado? Neste caso, há que convocar os sítios? Os objectos? Os animais circunstantes? Os pedintes ou apenas os polícias? As crianças e os velhos poderão testemunhar sem lhes medirem cada palavra soletrada e insegura? E os vidros dos cafés onde parte da verdade se reflectiu? Levam-se vidros sujos para o Tribunal? Poderão eles espelhar a decisão final? O arvoredo com os seus pássaros escondidos, calados só para ouvirem passar o abominável? Arranca-se pela raíz, carrega-se cantante aos ombros dos homens que nada sabem para testemunhar pela testemunha? De quem é a última questão? De quem é a última palavra? O último ponto final? É sempre bom perguntar.

sábado, 13 de março de 2010

À Volta de Epígrafes


Jacques-Louis David, The Death of Marat

"É difícil contradizer os mortos"
Ferruccio

Esta é uma das epígrafes do romance Tristano Morre de Antonio Tabucchi . 

Gosto de reflectir sobre isto...as palavras dos mortos são definitivas pelo simples motivo deles já não as poderem modificar, ainda que elas estejam erradas. Não é impossível contradizê-los, é apenas difícil. A dificuldade de contradizer os mortos virá do facto dessa contradição ferir a recordação que temos deles em vida...Talvez se trate da nossa parte de uma espécie de tentativa de prolongamento desse alguém que morreu através da repetição da consistência ou da insignificância das suas palavras... por simples afecto ou mera questão moral. E no campo científico?  Na ciência, as palavras dos mortos não são poupadas quando não podem ser comprovadas como verdade.  Que achas, linda amiga?
O quadro que escolhi para esta epígrafe foi também polémico por ser um retrato da morte (o quadro é de  1793 e levantou questões do tipo: Desde quando a morte deve ser representada pela arte como se fosse bela? Como se não ferisse a dignidade daquele que está prestes a morrer... ).

quinta-feira, 11 de março de 2010

À volta de Epígrafes

 Sinto um deslumbramento pelas epígrafes de alguns livros que tenho em casa ou abro por aí nas livrarias, em bibliotecas, em casa de amigos ou familiares... por isso me lembrei de registar algumas no nosso blogue. A de hoje retirei-a do livro de poesia de  Fernando Pinto do Amaral Pena Suspensa e coloco-a  abaixo desta fotografia que roubei descaradamente neste mundo virtual onde tudo se permite (mesmo o roubo ao lado da poesia). A magia das epigrafes passa muito pelo facto de nos depararmos com frases ou versos da literatura mundial que os escritores não esquecem. São uma espécie de amostras de ideias ou arranjos linguísticos que o escritor que as seleccionou não se importaria nada que lhes pertencesse... mostram normalmente os gostos literários dos autores que as querem exibir. São escolhas que devem ser uma espécie de ilhas por onde os autores passaram e ficaram, deslumbrando-se. Muitas vezes, por isso, pela sua genialidade, apetece-me mais ler o livro donde a epigrafe tombou do que aquele que seguro nas mãos com a intenção de ler.
"Poetry is not a turning loose of emotion, but an escape from; it is not the expression of personality. But, of course, only those who have personality and emotions know what it means to want to escape from this things."  
T.S. Eliot