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sábado, 22 de maio de 2010

DIÁRIO VOLÚVEL - ENRIQUE VILA-MATAS

Este diário literário é um livro híbrido em que se sente a tensão constante que a leitura e a entrega à escrita provocam no narrador. Adorei a capa (como te confessei, Anabela) em que Vila-Matas nos vira as costas, deixando desde logo antever o seu cariz fictício-confessional... recusa-nos assim o direito à sua verdadeira identidade, desta forma tão original. Onde está o rosto como nas comuns capas de diários? Os olhos nos olhos, de pupilas dilatadas de pretensa sinceridade universal?... No entanto, conta-nos como ninguém inúmeras páginas de experiências de viagens, de reflexões íntimas sobre os sítios por onde vai passando, sobre as casas, os quartos de hotel, as ruas, os cafés, os livros de autores que leu como pequenos universos, ... uma delícia a voz deste autor que, uma vez mais, se mostrou capaz de escrever e emocionar como poucos.





"Este livro, pretenso diário, baseia-se no caderno pessoal de Enrique Vila-Matas. Trata-se de um diário literário com origem na leitura, uma obra escrita desde o próprio centro da escrita.
Combina os comentários sobre livros lidos com a experiência e a memória pessoal, e vai propondo o desaparecimento de certas fronteiras narrativas e abrindo caminho para a autobiografia ampla, sempre na busca de que o real seja visto como espaço idóneo para albergar o imaginário e assim romancear a vida. Diário Volúvel não se afasta, de resto, dos procedimentos literários mais habituais em Vila-Matas, onde as diferenças estilísticas entre livros de ficção e colecções de ensaios são cada vez menos relevantes e mais fieis a uma feliz linha de literatura híbrida e fragmentária na qual os limites se confundem sempre e a realidade baila na fronteira com o fictício, e o ritmo apaga essa fronteira. (...)"

O excerto (das moscas) prometido e mais alguns que valem bem a pena:



  • “De novo na esplanada do café de Perec, espero, em vão como sempre, que passe Catherine Deneuve, que vive na praça. Mas, uma vez mais, ela não aparece. Surpreende-me, um pouco mais tarde, ler na revista Lire que Vargas Llosa também vive nessa praça, tem um dúplex num edifício do século XVIII: «Neste bairro, sinto-me como em casa. É um bairro muito literário. Umberto Eco também vive na praça. Há quinze anos que espero ver Catherine Deneuve, mas ela nunca aparece.»
    Nesse momento, aparece Deneuve. Fico mudo de surpresa e pergunto-me se, durante um momento, Deneuve não foi «o que se passa quando não se passa nada».”



    Sophie Calle, Fiction

  • «E Sophie Calle? aceitei a sua proposta de lhe escrever uma história que ela depois procurará viver. Prometi-lhe no Café de Flore. E umas horas mais tarde voltei a prometer-lho, desta vez mentalmente, no meio dessa maravilhosa estação de correios que fica na rue Litré, na esquina com a rue de Rennes: estação de ambiente descontraído, potente aquecimento central, cordialidade, e hoje, ainda por cima, com Billie Holliday como portentosa música ambiente. Digam o que disserem, a França é fantástica.»

    «As moscas são todas diferentes, mas são tão parecidas entre si que há quem acredite que , na realidade, só existiu uma mosca em toda a história do universo. Nunca conheci melhor especialista em insectos do que Augusto Monterroso, que escreveu em certa ocasião: «A mosca que hoje poisou no teu nariz é descendente directa da que ficou parada no nariz de Cleópatra.» O mundo das moscas sem lei atraiu-o sempre e planeou uma antologia universal sobre esse emaranhado universo. Finalmente, acabou por abandonar o projecto, porque viu que o volume teria de ser forçosamente infinito. Mas em Movimiento Perpétuo ofereceu aos seus leitores uma pequena mostra da história mundial das moscas. Movimiento Perpétuo começava assim: « Há três temas: o amor, a morte e as moscas.» Um categórico início para um livro inclassificável, escrito muito antes de haver tantos livros híbridos ou inclassificáveis, como agora. Nele, Monterroso ziguezagueia entre um e outro género, passa do ensaio ao conto, e deste à digressão ou ao divertimento. O ziguezaguear está ao nível do melhor voo da melhor mosca mundial. Os diferentes fragmentos estão unidos por citações literárias em que as moscas têm o seu protagonismo. Não há um único escritor profundo que nunca tenha dito qualquer coisa sobre as moscas. Assim, temos, por exemplo, Ludwig Wittgenstein, que escreveu em Investigações Filosóficas: «O que é que nos propomos com a filosofia? Ensinar a mosca a sair do frasco.» Sobre os mosquitos escreveu-se menos. Quem melhor se aproximou deles foi um escritor da sua mesma espécie, um escritor-mosquito, Ramón Gómez de la Serna: «Ainda bem que os mosquitos não se lembraram de tocar saxofone.» No Verão as moscas – que não costumam falar com os mosquitos – reúnem-se em termas, apartamentos e hotéis. No seu esmerado concerto, bailam à meia-noite. Ou atacam, sem unhas. O zumbido da sua música é inconfundível. Marcel Proust dizia que elas compunham pequenas sinfonias que eram como a música de câmara do Estio. Escrevo no Hotel Charleston, de Cartagena das Índias, frente ao Pacífico e sitiado por moscas tropicais, rodeado por um mundo alucinante de moscas sem lei. «Alguma vez ouviu as moscas tossir?», perguntavam os irmãos Grimm num conto que li quando era criança e cujo título esqueci, mas não aquela pergunta que me tem acompanhado sempre me persegue agora, aqui na esplanada do Charleston, enquanto uma mosca me zumbe à orelha e tenta poisar no meu nariz. Uma enorme chatice, até que começa a afogar-se, imprevisivelmente, num sumo de tomate. Acabo com ela como um criminoso, mato-a com toneladas de sal e pimenta. Não sou Cleópatra, digo para comigo, satisfeito. A mosca morreu às doze e cinco da manhã.


  • "Na verdade (dizia o doutor), o tempo que passamos fora é delicioso e, ao mesmo tempo e de certo modo, instrutivo; mas parece ausente da nossa existência substancial e autêntica e nunca se liga bem a ela. Para o Doutor Johnson, os que desejam esquecer ideias dolorosas fazem bem em ausentar-se durante um tempo, mas só podemos dizer que cumprimos o nosso destino no lugar que nos viu nascer. Por isso, gostaria muito de passar o resto da minha vida a viajar pelo estrangeiro, se noutro lugar pudesse pedir emprestada outra vida, para depois a passar em casa."

Enrique Vila-Matas, Diário Volúvel, Ed. Teorema


domingo, 7 de março de 2010

Os Objectos Chamam-nos, Juan José Millás

Mais um livro de Juán José Millás cheio do seu humor característico, prova da sua inteligência e sensibilidade na escrita. Parte de uma ideia fabulosa: criar uma história para cada objecto que o marcou na vida. Esses objectos causam inúmeras reflexões interessantes, servindo de ponto de partida para revelações sobre o narrador e aqueles que o rodeavam na mágica infância, com especialíssimo destaque para a mãe que apresenta como personagem tão rica como caricata. Cada capítulo, de reduzida extensão (página e meia a duas páginas) é consagrado a um objecto  que tem o poder de nos chamar, também a nós, para sempre. A verdade é certa: os nossos objectos, explicam-nos!

Um mistério


A minha mãe passou por várias fases, como Picasso, só que ela, em vez
de pintar, andava de cá para lá. A meio da manhã dirigia-se ao mercado. Às vezes deixava-me acompanhá-la (nem sempre, porque também gostava de estar sozinha ou era o que dizia) e eu entretinha-me,como quase todos os rapazes, nos talhos, fascinado com os corpos dos animais abertos de cima a baixo. Como não  acreditava na morte, pensava que aquelas vacas esfoladas ainda estavam vivas, embora não tivessem maneira de o expressar porque lhes tinham arrancado os nervos. Hoje posso dizê-lo com toda a tranquilidade e com toda a segurança às pessoas que duvidem como eu duvidava: as vacas dos talhos estão mortas, completamente mortas, e já não lhes dói que as cortem em bifes ou as transformem em carne picada. Os cordeiros também estão mortos, e os coelhos e os porcos. Às vezes, até o próprio talhante está morto. Digo isto porque o do talho do mercado do meu bairro tinha os olhos esbugalhados, como os das vacas sem pele, e uma palidez geral que metia medo. Quando vi o meu primeiro filme de zombies, compreendi o assunto. Um dia, a minha mãe comprou um frango inteiro, com todos os miúdos, cada qual colocado no seu lugar, embora estivesse completamente morto. Depois voltámos para casa e cada um pôs-se a fazer as suas
coisas. À hora de almoço, eu esperava ver o animal aparecer na mesa, mas em vez disso comemos uns ovos estrelados. Fiquei surpreendido,mas nada disse. Pensei que o frango era para o jantar ou para o dia seguinte. Mas nem ao jantar, nem no dia seguinte, nem no outro, nem no que veio a seguir o bicho apareceu.
Naquela época não se congelavam os alimentos, porque os frigoríficos não tinham estrelas, de modo que o assunto era de difícil explicação. – O que aconteceu ao frango, mamã? – perguntei passadas uma ou duas semanas.
– Esquece-te do frango.
– Porquê? – insisti.
– Porque sim, porque é isso que te estou a dizer.
Como eu não era um rapaz especialmente difícil, obedeci e esqueci-me do frango até a minha mãe morrer. Ela tinha no terraço um vaso muito grande, com umas sardinheiras que tratava cuidadosamente. Quando esvaziámos a casa, disse aos meus irmãos que gostava de ficar com aquele vaso, e esvaziei‑o para o transportar até à minha casa, pois mesmo sem terra era muito pesado.Ao esvaziá‑lo,encontrei os restos ósseos dofrango, que fora evidentemente enterrado ali havia muitos anos. Por que razão a minha mãe fez aquilo com aquele animal? Jamais o saberei.Os pais, quando se vão, deixam mais mistérios que bens materiais.