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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

EXCERTOS QUE FICAM

Michael O' Brien


«O que nas pessoas estranhas, desviadas por passo próprio ou enxotadas pelos outros, o fascinava era a absoluta liberdade individual com que faziam as suas escolhas. Num louco ou num pedinte que vagueava pelas ruas a pedir pão e sopa e que, de noite, tal qual os outros humanos, só queria dormir, Buchmann via quem poderia escolher em liberdade pura, e sem consequências, a sua moral individual. Moral que nem sequer tem um par, um elemento que a acompanhe.

Quem iria contestar a «vida imoral» de um pedinte ou de um louco? Aqueles homens tinham já em si, pela sua diferença, uma carga de imoralidade universal e profunda, que os tornava imunes às pequenas imoralidades praticadas.

Um louco, tal como um pedinte, não era imoral. Eram indivíduos sem cópia, semelhantes a um rei; alguém que não tem par, que não tem aquele que está ao seu lado. E por isso não há para esses homens escorraçados, como não há para o homem mais poderoso, qualquer critério de comparação.

Buchmann olhava com admiração para aqueles homens que traziam no bolso um sistema jurídico único, com o seu nome no fim.

De certa maneira, era isso que Buchmann desejava; ser portador de um sistema legal cujas leis só fossem aplicadas a si; ser portador de uma moral que não é a do mundo civilizado nem a do mundo primitivo; que não é a moral da cidade ou sequer a moral da sua família mas a moral que tem o seu nome, apenas o seu, escrito por cima. »
 
Gonçalo M. Tavavres, Aprender a Rezar na Era da Técnica

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

LIVRO DO DESASSOSSEGO - EXCERTOS QUE ABALAM


«As figuras imaginárias têm mais relevo e verdade que as reais.
O meu mundo imaginário foi sempre o único mundo verdadeiro para mim. Nunca tive amores tão reais, tão cheios de verve, de sangue e de vida como os que tive com figuras que eu próprio criei. Que loucos! Tenho saudades deles porque, como os outros, passam...»

Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Assírio e Alvim, p. 358

quarta-feira, 10 de março de 2010

Paulo Kellerman, contista

No fim desta mesa-redonda, não me contive e comprei o livro de contos de Paulo Kellerman - o que foi premiado, "Gastar Palavras", com vontade de testar a crítica. Acabo sempre por ver uma ponta de razão nos livros que ganham prémios. Gostei muito de alguns contos.
Li-o em viagem, em voz alta, com a estrada a ameaçar-nos brilhante da chuva que caía, e gostei da escrita dele, projectada pela minha voz contra as luzes dos outros carros, em surdina contra o vidro da frente, quase a deixar-se de ouvir quando o granizo alvejava com violência, enfim,  morrendo aos pés de cada ponto final.
Cabe num bolso este livro que graças ao vidro e ao tejadilho não encharquei.

Excerto de uma entrevista:
"Nos últimos anos fui acumulando estórias, que espalhei por inúmeras edições de autor. Quando surgiu a oportunidade de publicar este livro, peguei nalgumas das minhas preferidas e dei-as ao editor. Ele eliminou metade, por questões de espaço, e transformou as outras em livro. Foi ele que escolheu o título, a minha sugestão era “Um destes dias, morro”. A estória “Gastar palavras”, que parece ser a preferida de toda a gente, era a única que eu eliminaria sem hesitação; tinha outro título, chamava-se “O dia em que fiz trinta e dois anos”, mudei para “Gastar palavras” no último momento. Só depois do António Luís Catarino, o editor, ter decidido que seria esse o título é que comecei a perceber o encanto da expressão.

Quanto à estória em si, foi escrita num momento menos bom e ficou excessivamente pessimista. Sou uma pessoa silenciosa e tento usar as palavras com moderação; não temo que, um dia, se me acabem mas receio que deixem de produzir efeito. A banalização das palavras é uma coisa terrível, assustadora. A minha filha, que tem cinco anos, diz frequentemente que me adora; das primeiras vezes era um deslumbramento; agora, com a repetição, e tendo ela consciência do poder da palavra e das possíveis consequências do seu uso, percebo que é apenas mais uma palavra que ela aprendeu e usa. De certo modo, gastou-a. A estória é, em parte, sobre isto: as palavras que se dizem e não significam nada."

in http://www.ruadebaixo.com/paulo-kellerman.html

domingo, 20 de dezembro de 2009

O Senhor Walser - Gonçalo M. Tavares



A leitura de O Senhor Walser (Robert Walser, o famoso contista suiço), o vizinho mais periférico do bairro de Gonçalo M. Tavares, fez uma das delícias do meu sábado. Este "avatar filosófico" é um verdadeiro concentrado do poder narrativo (e imaginativo) de M. Tavares, que consegue através deste personagem misantropo corroborar a tese de que não há invasão mais violenta do que a da nossa própria intimidade, a do nosso espaço físico privado. A casa novíssima que o Senhor Walser constrói na floresta, esta última anunciada no desenho da capa pelos espessos e concêntricos círculos negros que inviabilizam uma visão perfeita do azul do céu, é invadida contra as maiores expectativas do personagem (que se imaginava a ser visitado por Thereza M., a quem esperava beijar brevemente no seu sofá cinzento ) por uma série de técnicos especializados em diversas avarias e remendos. Um atrás de outro lhe entram em casa, derrubam e constroem paredes a seu bel-prazer, deitam abaixo janelas que tapam provisoriamente recorrendo a cartões que fixam à parede com fita-cola forte, sobem andaimes até ao telhado rumo a uma fenda imprevista, levantam o soalho em vários compartimentos devido a problemas de infiltração, retiram rodapés, etc., etc., etc., passando a noite inclusivamente no seu espaço, já irreconhecível, dormindo no chão e onde lhes parecia mais cómodo de forma a evitar a escuridão que tinham que percorrer durante vários quilómetros, a uma hora já tardia, até ao bairro mais próximo. Mas para além de um enredo promissor, que se impõe por uma focalização inovadora relativamente aos aspectos mais rotineiros e desapercebidos dos "narradores normais" como, por exemplo, a forte sugestividade de uma torneira pousada no soalho, destaca-se a genialidade de uma escrita que faz cintilar o pormenor linguístico nos diferentes modos de expressão, tornando-o tão grande e importante como o motivo central que parece ter estado na génese desta obra. Assistimos, de resto, à celebração da simplicidade e da acutilância da palavra a par de um tema e de um nome da literatura alemã que não quer deixar esquecidos.




O caos imposto pela Natureza (a floresta) e pela sociedade (os vizinhos do bairro) de que aparentemente o senhor Walser se quer afastar acaba por ultrapassar a distância a que o mesmo se colocou, derrubando a barreira entre o saber comum e a intelectualidade esteta ao entrar pela porta da sua casa inaugural, com a forma humana de sucessivos canalizadores, electricistas, carpinteiros e demais técnicos de (re)construção do seu projecto de vida...que pela enorme casa concebida, seria pleno de expectativas discordantes das peripécias aqui descritas. Agradeço à Anabela este belo presente cheio da amizade dela, inscrita numa dedicatória que nunca esquecerei, como incentivo para a cura de alguns dos meus problemas existenciais que facilmente me tornam noutra pessoa, mais triste e ausente...



E agora não posso dispensar palavras deste escritor que nunca deixa de me causar espanto, de resto como a minha amiga Ana Bela Ana. Aqui seguem palavras que valem a pena ler e reler que remetem para o momento anterior à odisseia do ultimar técnico da casa, ainda quando Walser se regozijava de tanto usufruir de todas as suas novidades domésticas e decorativas:

"Na cozinha, Walser passava a mão curiosa pelos ladrilhos de parede. Um ou outro mais para fora e outros (claro) demasiado metidos para dentro, mas no geral todos no mesmo plano. (...) Abriu então a torneira e sem utilizar qualquer copo, inclinando como na infância o pescoço, bebeu a mais saborosa água de que se recordava. Com a mão limpou os ingos que lhe caíam do queixo e quase soltou um urro de contentamente por aquele tempo, finalmente, de clara solidão.Por ali, nem um único ruído de homem.


E os rodapés, por toda a casa, que perfeitos! Mais: que sentido estético! Que entendimento exacto da maneira como cor e forma se devem misturar como se existissem já assim (os rodapés) na natureza, desde o início.


Suspira, então, fundo, Walser, com a sensação de que encontrou algo de que jamais poderá abdicar.


Não se poderá acusar pois como excessivo esse movimento de quase dança com que Walser acaricia mobílias, roda manípulos de portas, se senta e levanta das várias cadeiras. Depois, deixa-se afundar no sofá cor de cinza, para dois, imaginando já a sua companheira, a forma como lhe afastaria os cabelos, como se aproximaria dela. O terreno está conquistado. A sua nova morada!


Walser senta-se então à mesa da sala e escreve a carta que há muitos anos lhe parece indispensável, dirigida a Thereza M. Nas suas linhas descreve, de modo contido, o espaço, e convida-a, com os mais recatados termos, para ua visita. Quanto tempo demorou a escrever aquela carta? Muito. Cada palavra no seu sítio, escrita cada letra como se da sua forma dependesse a própria estrutura da casa, as suas fundações. Que concentração, a de Walser!


Por fim, se bem que a morada estivesse bem clara no exterior do envelope, Walser não se coibiu de a repetir, bem como de desenhar na carta um mapa rudimentar com um enorme X assinalando o local. Queria ter a certeza de que ela - a "sua" Thereza - alcançaria, sem desvios ou equívocos, a porta da sua casa nova." (p. 18)

domingo, 13 de dezembro de 2009

Os Cantores de Leitura - Maria Gabriela LLansol

Deixo um excerto que cristalizou uma tarde em que tivemos tempo para a leitura cantada:


Eu,
um de nós, talvez a geométrica flor, tenho experimentado
a sensação - que até agora desconhecia -, que estar
vivo e estar só é um sinal de alegria,
semelhante ao tombar da neve.

Se as espirais delicadas do contacto com os outros (cada
vez mais delicadas) se transformam em mais frágeis à medida
que a sensibilidade aos actos de linguagem - e aos
actos -
cresce,

esta face a face sem intermediários humanos com as coisas
pode fazê-las transparecer num espaço máximo.

É talvez uma fase nova da aprendizagem da leitura - será
preciso entrar nesse espaço em que dos flocos já caem le-
tras para usar finamente o privilégio de ensiná-las aos ani-

mais do Mosteiro, chamamento que aqui demos à sua
contemplação. Mosteiro e monstro - e os caminhos
transitáveis entre eles;
por fim, suponho que o nosso cântico de leitura dará nas-
cimento a híbridos.

Maria Gabriela LLansol, Os Cantores de Leitura, Assírio & Alvim,
p. 22