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sábado, 13 de novembro de 2010

EXCERTOS QUE FICAM

«Um escritor bem conhecido foi abordado por um estudante universitário que lhe perguntou: «Acha que eu tenho hipóteses de vir a ser escritor?»

«Bom», respondeu o escritor, «não sei…Gosta de frases?»
O escritor podia ver que o espanto do estudante era palpável. Frases? Se eu gosto de frases? Tenho vinte anos e gosto de frases? Se ele gostasse de frases escusado será dizer, poderia começar como um pintor meu conhecido que teve essa sorte. Perguntei-lhe como é que se tinha tornado pintor. Ele disse: « Gostava do cheiro da tinta».

Annie Dillard, The Writing Life

domingo, 3 de outubro de 2010

«O infinito, meu caro, é bem pouca coisa; é uma questão de escrita. O universo só existe no papel.»



Paul Valéry, Monsieur Teste

quinta-feira, 15 de julho de 2010

A ESCRITA PARA BARTHES



Barthes , por uma metamorfose mútua da escrita em leitura e da leitura em escrita, define esta, simultaneamentte, como «uma fala criada» e uma «fala recebida», em que o outro é ao mesmo tempo objecto e sujeito do desejo de escrever: «a escrita é com efeito, a todos os níveis, a fala do outro, e pode ver-se nesta inversão paradoxal o verdadeiro«dom» do escritor». A relação com o outro implicada pela escrita é assim, originariamente, uma relação erótica: «não há um significado primeiro para a obra literária que não seja um certo desejo: escrever é um modo de Eros».

sábado, 19 de junho de 2010

SARAMAGO PONTUA


Incomoda-me quando ouço alguns pretensos leitores dos livros de Saramago dizerem que ele não pontua os textos e que por isso não o lêem. É das coisas mais absurdas mas que realmente se ouve repetidamente como desculpa da rejeição em absoluto da sua obra.

Habituei-me a deixar passar estas incompreensíveis palavras de alguns, mantendo silêncio, porque, no fundo, sei que são pessoas que nunca o leram de facto, provavelmente por preconceito político ou religioso (ou então por não terem capacidade para a leitura de uma obra maior da literatura universal, isto também pode ser um facto) - senão não poderiam dizê-las.
Agora que Saramago nos falta e jamais poderá esclarecer esse equívoco, mostro o excerto que guardo para ler aos alunos (com a alegria da sua necessária tradução para o português) que um dia encontrei na revista Books nº8, como resposta a uma entrevista feita ao nosso Nobel:


«C'est dans une sorte d'abolition de la ponctuation que José Saramago a trouvé sa voix?

Il ne s'agit pas d'abolition de la ponctuation. Je crois que nous parlons avec les mêmes éléments que nous faisons de la musique: des sons et des pauses, brèves ou longues. J'ai appliqué ce principe oral et musical à mon style, en ne conservant que des mots et des pauses - les virgules et les points. Cette façon d'écrire donne la primauté à la valeur mélodique de la phrase, dont l'organisation rapproche l'écrit de l'oral.Attention, il ne s'agit pas de transcrire le discours oral à l' écrit, ce qui ne fonctionne jamais; mais de transposer à l'écrit le mécanisme du langage parlé. Au fond, ce ton n'est pas celui d'une oralité mais une "auralité", au sens où mes mots sont faits pour être entendus.»


A última entrevista dada à Books quando editou A Viagem do Elefante pode ler-se na íntegra (vale bem a pena) neste endereço, onde de resto se explica um estilo de escrita único, inovador, inaugural de uma nova literatura no mundo:

http://www.booksmag.fr/magazine/a/jose-saramago-ce-sont-les-lecteurs-qui-ont-fait-de-moi-un-ecrivain.html

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Deixa repousar este texto - Maria Filomena

A Arte dorme
Hoje, lanço mais um texto de Maria Filomena produzido para ser representado na sua escola, a propósito da Revisão Textual, passo basilar para a aprendizagem da escrita. Falta dizer que o adorei, sem surpresa minha...
Deixa repousar este texto

Precisa de dormir a sesta. Deita-o aqui, assim, bem confortável, sobre os travessões. Ainda é pequenino. Não o deixes sair nem andar por aí. Pode acontecer-lhe alguma coisa. Sei lá, raptarem-no. Nos dias que correm, nunca se sabe a que um texto é chegado. Se quiser levantar-se, faz-lhe festinhas nas vírgulas, passa-lhe a mão pelos acentos, apalpa-lhe os substantivos, afaga-lhe os verbos e faz-lhe cócegas nas cedilhas. Olha que às vezes arma-se em engraçadinho e, quando deres conta, começa a revirar os olhos, a enrolar o rabo em forma de ponto de interrogação - a rebolar-se no chão em verso, a seguir-te por todo o lado com a língua de fora. E tu não lhe resistes. Pegas nele ao colo e, quando dás conta, já o estás a ler. Deixa-lo fazer o que ele quer, ir para onde quer, dás-lhe trela e tudo. É, é. O texto quando quer convence qualquer um. E às vezes dão-lhe uns ataques de birra… Irra!. Começa a retorcer-se, a ficar com as letras esquisitas, a pôr acentos circunflexos a torto e a direito, a esfregar o til e as cedilhas, a espumar palavras, a largar frases inteiras espalhadas pelo chão adiante… E tu corres a socorrê-lo. Muito aflito, juntas as frases, as subordinantes com as subordinadas. Não te esqueces dos articuladores do discurso. Dos «emboras», dos «portantos» «apesar de», «de tal modo que», «todavia», «contudo». Com tudo na devida ordem, não ao «calhex», à trouxe-mouxe, à toa. E metes as palavras outra vez lá dentro, depois de as lavar, e de lhes pôr as pintas nos is, é claro. De lhes retirares aqueles adjectivos pegajosos, aquelas repetições enjoativas, os erros que arranham como espinhas. Não é fácil. É preciso passá-lo muitas vezes pelos olhos bem abertos. Arregalados! Que eu não suporto um texto sujo e mau. Quero um texto limpo, vivo.
Mas por agora que durma bem e que tenha sonhos cor-de-rosa. Schiuuu…
Dorme, dorme, meu textinho,
que a mãezinha logo vem….
Tra-ra-ra-ra-ra-ra-ra-ra-ra…..
Schiuuu…
Maria Filomena