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sexta-feira, 16 de abril de 2010



Fico grata ao Manuel Alegre por oferecer ao leitor este momento de despedida de Sophia, por ser poeta mesmo quando opta pela narrativa, por tentar esta encantadora novela.


“( …) O miúdo ouvia o roçagar da caneta no papel e pressentia que naquela grafia havia uma flauta a cantar dentro das sílabas. Era uma liturgia quase mágica, uma escrita nova e dentro dela um mundo novo que nascia. Algo que só muito mais tarde sentiria, mas em sentido inverso, como se um mundo se estivesse a extinguir, quando, pela última vez, visitou Sophia no quarto do hospital. Estava recostada numas almofadas muito brancas, ela própria também de branco, estranhamente esplendorosa e bonita, a princípio abriu muito os olhos, parecia que nos reconhecia e não reconhecia, uma das filhas disse-me: Fala-lhe. Eu falei e então ela murmurou o meu nome e o de minha mulher. Sentei-me ao pé dela e comecei a dizer-lhe um dos seus poemas: Ia e vinha / E a cada coisa perguntava, e então ela terminou: Que nome tinha. Fui dizendo poemas de que me lembrava, dela própria, de outros poetas, sobretudo de Camões, que ela pediu, ela ia repetindo comigo, até que, a certa altura, já não dizia as palavras, só a batida das sílabas, poesia em estado puro, só o ritmo, só a cadência, só a respiração do poema na sua própria respiração.”

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Caim - o novo romance de Saramago

Podemos ler num dos paratextos linguísticos deste novo romance a seguinte evidência que anuncia o romance Caim:
“A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele”

Em "Caim", novo romance de José Saramago, Deus e qualquer crença sucumbem sob uma narrativa em que se equilibram humor, ironia e muitas palavras duras. Sobra para cristãos e judeus. Em menos de 200 páginas, espalham-se embates quase filosóficos entre Caim e seu criador, no qual um discute a capacidade do outro de julgar ou ser julgado. Espectadores dessa luta, os leitores viajam por diversos episódios da Bíblia, da destruição de Sodoma e Gomorra ao dilúvio que exterminou a Humanidade, sempre pela óptica questionadora do rebelde Caim. Ou melhor, do ateu Saramago que, em entrevista por e-mail, diz que se limita a escrever o que pensa, deixando cada leitor fazer sua própria interpretação. Embora não tenha escrito ali nada de novo para aqueles que conhecem a sua profunda e propagada aversão às religiões, Saramago afirma que “Caim” tem um papel fundamental na sua bibliografia e na sua vida.


- Entre “O Evangelho segundo Jesus Cristo” e “Caim” passaram-se quase 20 anos. Durante todo este período o senhor continuou a falar sobre a inexistência, a inconfiabilidade ou a intransigência de Deus, mas não em forma de literatura. Como se deu a volta ao tema em livro?

“O Evangelho segundo Jesus Cristo” é literatura, não uma mera glosa dos episódios registados no “Novo Testamento”. O regresso ao tema religioso deu-se, portanto, de maneira natural, quase como uma continuidade de trabalho. O Caim que o senhor constrói é a voz da razão, da clareza de raciocínio, mostrando um Deus tão tirano e incompreensível que torna qualquer crença patética. - Qual foi sua intenção ao escrever o livro? E como acha que será a reacção a ele?

No fundo, o problema não é um Deus que não existe, mas a religião que o proclama. Denuncio as religiões, todas as religiões, por nocivas à humanidade. São palavras duras, mas há que dizê-las. Quanto às reacções, não estão na minha mão. Cada um dirá o que entender conforme as suas convicções e as suas crenças.

- Entre tantas figuras bíblicas, por que a escolha de Caim? O que é que ele representa?

Desde há muitos anos que penso que a história de Caim, como tantas outras histórias bíblicas (por exemplo, a de David e Golias ou a de Job), é uma história mal contada. Não absolvo Caim, mas acuso Deus de ser o responsável do assassínio ao recusar a oferenda dele. Que diabo de Deus é este que para enaltecer um irmão despreza o outro?

- O senhor já disse várias vezes que cresceu sem formação religiosa. Chegou a ler ou a reler a Bíblia para escrever melhor os episódios do livro?

Para mim, a “Bíblia” é um livro a mais. Importante, sem dúvida, mas um livro. Como tal li-o e consultei-o sempre que necessitei. Desta vez concentrei-me no Génesis onde se encontram as figuras que tomei como personagens do livro.

- Outros ateus convictos, como Richard Dawkins e Christopher Hitchens vêm dedicando boa parte do tempo a uma espécie de cruzada antirreligiosa, lançando livros e participando de eventos nos quais reafirmam as suas ideias. Como é que o senhor vê essa empreitada?

Por mim não o faria. É praticamente impossível convencer alguém a virar as costas às suas crenças. Limito-me a escrever o que penso do assunto e deixo aos leitores a inteira liberdade de fazer o que entendam. O único que peço para mim é respeito.

- O senhor acredita que ainda é possível a existência de um mundo sem religião? O pessimismo de Caim em relação à Humanidade é também o seu?

Penso que não merecemos a vida, penso que as religiões foram e continuam a ser instrumentos de domínio e morte. Em suma, Caim teve razão para tentar impedir que outra humanidade substituísse a que teria morrido no dilúvio. Afinal, se a primeira era má, esta é péssima.. Apesar disso, todo o livro é pontuado por muito humor, com cenas que convidam o leitor a reflectir sobre a narrativa.

- Divertiu-se ao escrevê-lo?

Diverti-me bastante, mas sobretudo gozei com o facto de ter podido meter a ironia e o humor num tema em princípio tão dramático.

- Qual o papel de “Caim” em sua bibliografia? Já disse que não é um acerto de contas com Deus. Mas vê nele um significado especial?

Pela maneira como enfrentei o assunto, pela linguagem com o que o tratei, considero este livro fundamental, quer na minha bibliografia, quer na minha vida.

Prosa & Verso, O Globo (!com correcções minhas no Português!)


Um excerto da obra para os curiosos ou apaixonados por Literatura:

"(...) Sucedeu então algo até hoje inexplicado. O fumo da carne oferecida por abel subiu a direito até desaparecer no espaço infinito, sinal de que o senhor aceitava o sacrifício e nele se comprazia, mas o fumo dos vegetais de caim, cultivados com um amor pelo menos igual, não foi longe, dispersou-se logo ali, a pouca altura do solo, o que significava que o senhor o rejeitava dia ser que houvesse ali uma corrente de ar que fosse a causa do distúrbio, e assim fizeram, mas o resultado foi o mesmo. Estava claro, o senhor desdenhava caim. Foi então que o verdadeiro carácter de abel veio ao de cima. Em lugar de se compadecer do desgosto do irmão e consolá-lo, escarneceu dele, e, como se isto ainda fosse pouco, desatou a enaltecer a sua própria pessoa, proclamando-se, perante o atónito e desconcertado caim, como um favorito do senhor, como um eleito de deus. (...) A cena repetiu-se, invariável, durante uma semana, sempre um fumo que subia, sempre um fumo que podia tocar-se com a mal e logo se desfazia no ar. E sempre a falta de piedade de abel, os dichotes de abel, o desprezo de abel. Um dia caim pediu ao irmão que o acompanhasse a um vale próximo onde era voz corrente que se acoitava uma raposa e ali, com as suas próprias mãos, o matou a golpes de uma queixada de jumento que havia escondido antes num silvado, portanto com aleivosa premeditação. Foi nesse exacto momento, isto é, atrasada em relação aos acontecimentos, que a voz do senhor soou, e não só soou ela como apareceu ele. (...) Que fizeste com o teu irmão, perguntou, e caim respondeu com outra pergunta, Era eu o guarda-costas de meu irmão, Mataste-o, Assim é, mas o primeiro culpado és tu, eu daria a vida pela vida dele se tu não tivesses destruído a minha, Quis pôr-te à prova, E tu quem és para pores à prova o que tu mesmo criaste, Sou o dono soberano de todas as coisas, E de todos os seres, dirás, mas não de mim nem da minha liberdade, Liberdade para matar, Como tu foste livre para deixar que eu matasse a abel quando estava na tua mão evitá-lo, bastaria que por um momento abandonasses a soberba da infalibilidade que partilhas com todos os outros deuses, bastaria que por um momento fosses realmente misericordioso, que aceitasses a minha oferenda com humildade, só porque não deverias atrever-te a recusá-la, os deuses, e tu como todos os outros, têm deveres para com aqueles a quem dizem ter criado, Esse discurso é sedicioso, É possível que o seja, mas garanto-te que, se eu fosse deus, todos os dias diria Abençoados sejam os que escolheram a sedição porque deles será o reino da terra, Sacrilégio, Será, mas em todo o caso nunca maior que o teu, que permitiste que abel morresse, Tu é que o mataste, Sim, é verdade, eu fui o braço executor, mas a sentença foi dada por ti, O sangue que aí está não o fiz verter eu, caim podia ter escolhido entre o mal e o bem, se escolheu o mal pagará por isso, Tão ladrão é o que vai à vinha como aquele que fica a vigiar o guarda, disse caim, E esse sangue reclama vingança, insistiu deus, Se é assim, vingar-te-ás ao mesmo tempo de uma morte real e de outra que não chegou a haver, Explica-te, Não gostarás do que vais ouvir, Que isso não te importe, fala, É simples, matei abel porque não podia matar-te a ti, pela intenção estás morto, Compreendo o que queres dizer, mas a morte está vedada aos deuses, Sim, embora devessem carregar com todos os crimes cometidos em seu nome ou por sua causa (...)"


Uma pequena amostra da crítica da obra:

Segundo Juan Arias "Para Saramago, deus não é mais que um pretexto para que as religiões possam melhor escravizar a consciência humana. Com “Caim”, ele trata de deitar, literariamente, sobre o tapete do mundo, esta crua realidade. Ao mesmo tempo, e apesar de seu ateísmo, devemos a ele uma das definições mais poéticas da divindade: “Deus é o silêncio do universo, e o homem o grito que dá sentido a esse silêncio”, afirmou ele em certa ocasião. Afinal, deus não é para ele tão indiferente como possa parecer. “Caim”, definitivamente, é também um grito contra todos os deuses falsos e ditadores criados para amordaçar o homem, impedindo-o de viver, em total liberdade, sua vida e seu destino."
Um sítio em que se pode ver um videoclipe do lançamento de Caim em Penafiel: