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segunda-feira, 21 de junho de 2010

AS PEQUENAS MEMÓRIAS - JOSÉ SARAMAGO


«Nem tudo foram sustos nas salas de cinema aonde o garoto de calções e o cabelo cortado à escovinha podia entrar. Havia também fitas cómicas, em geral curtas, com o Charlot, o Pamplinas, o Bucha e o Estica, mas os actores de quem eu mais gostava eram o Pat e o Patachon, que hoje parece terem caído em absoluto esquecimento. Ninguém escreve sobre eles e os filmes não aparecem na televisão. Vi-os sobretudo no Cinema Animatógrafo, na Rua do Arco do Bandeira, aonde ia de vez em quando, e recordo quanto me ri numa fita em que eles (estou a vê-los neste momento) faziam de moleiros. Muito mais tarde viria saber que eram dinamarqueses e que se chamavam, o alto e magro, Carl Schenstrom, o baixo e gordo, Harold Madsen. Com estas características físicas era certo e sabido que chegaria o dia em que teriam de interpretar Dom Quixote e Sancho Pança, respectivamente. Esse dia chegou em 1926, mas eu não vi a fita. »
in As Pequenas Memórias, José Saramago

Procurei um excerto fílmico do par "Bucha e Estica", representado pelos actores Stan Laurel e Oliver Hardy, que também acho tão engraçados. (Guardo um porta-livros muito antigo cá em casa que são dois bonecos de porcelana antiga com as caras muito sorridentes, as cabeças cobertas com os chapéus muito negros e os corpos (sentados) destes amigos a quem acho muita piada e que, afinal, são uma referência não só para mim e para o Tiago, a quem acabei por oferecê-lo, mas também para Saramago.)
É caso para dizer "Recordar é viver":
«Na verdade, eu também tive os meus toques de dislexia, ou algo que se lhe parecia, não foi só o Leandro. Por exemplo, embirrei que a palavra sacerdote deveria ler-se saquerdote, mas como, ao mesmo empo, suspeitava que devia estar enganado, se a tinha de pronunciar (tratando-se de termo tão «erudito» esses casos não podem ter sido muitos, ainda que menos seriam hoje, quando os sacerdotes são tão poucos), arranjava-me de maneira a que se percebesse mal o que dizia para que não tivessem que corrigir-me. Devo ter sido eu quem inventou o chamado benefício da dúvida. Ao cabo de algum tempo consegui resolver a dificuldade com os meus próprios meios e a palavra passou a sair-me direitinha da boca. Uma outra que me vinha retorcida (isto são histórias da época da escola primária) era a palavra sacavenense. Além de designar um natural de Sacavém, povoação hoje engolida pelo dragão insaciável em que Lisboa se tornou, era também o nome de um clube de futebol que não sei se terá conseguido sobreviver aos atropelos do tempo e aos purgaórios das segundas e terceiras divisões. E como a pronunciava eu então? DE forma absolutamente chocante que escandalizava quem me ouvia: sacanavense. Ainda recordo o meu alívio quando fui capaz, finalmente, de inverter as posições das mal-educadas sílabas.»

in Pequenas Memórias, José Saramago