18 de Junho. Morre José Saramago. Que faremos com este autor? sexta-feira, 18 de junho de 2010
SARAMAGO - QUE FAREMOS COM ESTE AUTOR?
18 de Junho. Morre José Saramago. Que faremos com este autor? sexta-feira, 4 de junho de 2010
Deste livro, escolhi três excertos das cartas que nos oferecem o mais íntimo de Kafka e que (tal como com Pessoa) nos levam a confundir a sua vida com a literatura. Milena foi identificada como a personagem Frieda da obra mais complexa que escreveu, O Castelo. Também o marido de Milena Jesenská (Ernst Polak) parece projectar-se na personagem «senhor Klamm», assim como a relação de inteira dependência que se criou entre os dois casais. Max Brod afirma mesmo que «a trama do romance (…) constitui a projecção simbólica e romanesca do drama vivido por Kafka na vida real.» A escrita demorada d' O Castelo, que ocorreu entre os anos de 1921 e 1922, parece reflectir alguns dos dramas pessoais deste autor, vividos no ano anterior à sua criação, 1920.
Interessante é a forma como Kafka e Milena se conheceram e aproximaram: através da literatura. O primeiro contacto deste par deu-se no ano de 1919 quando ela, impressionada com a qualidade excelente da escrita deste homem, lhe envia uma carta a pedir autorização para traduzir alguns dos seus textos mais famosos. Esta carta é o marco da abertura de uma longa correspondência entre este par. O tom amigável e sério com que a relação começa acaba por se transformar gradualmente numa relação epistolar apaixonadíssima, relação esta que terá a duração de 2 anos. Cada um deles passará por muito sofrimento pois se Milena é casada e vive em Viena com um marido que pouco lhe liga, e um pai que a renega precisamente por esta ter casado com ele, Kafka é noivo da judia Julie Woryzek, contrariando igualmente o desejo de seu pai. Assim, depreende-se que a paixão de Milena e Kafka acontece num contexto emocional tempestuoso e muito complicado. Kafka vai depositar em Milena, que considera como a sua alma gémea, os seus mais profundos segredos, mostrando-se tão humano e interessante como qualquer uma das personagens que prodigiosamente inventou.
“(…)As mais belas das tuas cartas (e isso é dizer muito, pois são, no seu todo, quase linha por linha, o que de mais belo aconteceu na minha vida) são aquelas em que justificas o meu «medo» e simultaneamente procuras explicar que não tenho de o ter. Pois também eu, por muito que às vezes pareça um defensor subornado do meu medo, no fundo o justifico, provavelmente, mais, sou feito dele e ele talvez seja o que eu tenho de melhor. E já que ele é o melhor de mim, talvez seja também a única coisa que te agrada. Porque, de outro modo, que se poderia encontrar em mim que fosse tão digno de ser amado. Isto é, no entanto, digno de ser amado.”
“ É tão triste a tua carta hoje e sobretudo encerra de tal modo a dor em si que me sinto completamente excluído. Quando por vezes tenho de sair do quarto, subo e desço as escadas a correr para apenas estar de novo lá e encontrar o telegrama em cima da mesa: «Também eu estarei no sábado em Gmund . (…)”
in Três Cartas a Milena Jesenská, Franz Kafka
terça-feira, 25 de maio de 2010
EDOARDO SANGUINETI
Para lembrar o poeta italiano falecido recentemente, Edoardo Sanguinetti, uma frase sobre a sua poesia:
"Toda a minha obra poética é uma escrita contra o esquecimento"
“Nascido em Génova, em 1930, o seu nome destaca-se entre os mais importantes poetas, autores de peças de teatro, críticos, romancistas, ensaístas e activistas italianos. Sanguineti passou também pela política, ao ser deputado independente pelo PCI entre 1978 e 1983.
Indicado como um dos maiores especialistas em Dante foi professor de Literatura nas universidades de Turim, Génova e Salerno. Enquanto activista, foi um dos fundadores do controverso Grupo 63, onde a poesia experimental explorava o que considerava ser a “dissolução” da linguagem quotidiana. Os jogos de palavras por que era conhecido levaram a “Laborintus”, o seu primeiro livro de poesia publicado em 1956, e a várias outras obras.
Afirmando-se como “o poeta mais patético do século XX”, escreveu poemas até 2004 e após o fim da sua carreira académica, em 2000, passou a dedicar-se à militância da esquerda radical, prosseguindo, no entanto, com a escrita.”
In http://www.publico.pt/
Este poeta e intelectual, crítico e ensaísta foi um dos teóricos mais importantes do "Gruppo 63", o movimento cultural que revolucionou nos anos 60 a literatura italiana, juntamente com Umberto Eco, Nanni Balestrini, Alfredo Giuliani e Elio Pagliarani .
Um poema com tradução de Maurício Santana Dias:
[em ti dormia como um fibroma enxuto...]
em ti dormia como um fibroma enxuto, como uma tênia magra,
[um sonho;
agora pisa o pedrisco, agora espanta a própria sombra; agora grita
deglute, urina, tendo sempre esperado o gosto
da camomila, a temperatura da lebre, o rumor do granizo,
a forma do teto, a cor da palha:
......................sem remédio o tempo
voltou-se para os seus dias; a terra oferece imagens confusas;
saberá reconhecer a cabra, o camponês, o canhão?
não estas tesouras realmente esperava, não esta pera,
quando tremia naquele teu saco de membranas opacas.
Desta vez com tradução de Egito Gonçalves:
1.
falemos, por favor, dos prazeres da vida, por uma vez (disse eu
à mulher de Van Rossum, na segunda-feira às 11 horas): (que é alemã de Munique,
realmente, com menos de 30 anos, creio, branca de pele como clara de ovo): e o primeiro
prazer é o de penetrar, evidentemente: e depois, para mim, dormir ao sol (como dormia agora,
disse eu, antes de ela chegar: torso nu como podia ver, e pés
descalços, etc.): e o terceiro é beber vinho (francês, se possível, como aquele
que bebemos no sábado com Berio, e também na sexta-feira em Roterdão e aqui):
(e concluí que o paraíso será penetrar ao sol, talvez encharcados de Saint-Emilion):...
2.
Ensinei aos meus filhos que o pai foi um homem extraordinário: (poderão
contá-lo assim a qualquer um, um dia, se o quiserem): e depois que todos
os homens são extraordinários:
e que de um homem sobrevivem, não sei,
pelo menos umas dez frases, talvez (juntando tudo: os tiques,
os ditos memoráveis, os lapsos):
e isso nos casos afortunados:
Para terminar deixo uma amostra do seu Alfabeto Apocalíptico:
VILLA-MATTAS
IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII
VVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVV
RRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR
OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
SSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSS
Soube no Diário Volúvel de Vila-Matas, entusiasmada como sempre que sei sobre os livros que qualquer escritor que aprecio tem vontade de ler, os títulos dos livros que ele tem (ou antes teve, naquela ficção) a intenção de ler .
« No meu caso, não costumo ter livros na mesinha-de-abeceira, mas há vários numa mesinha da sala. Acabam sempre por ser lidos convenientemente. Anoto o autor e o título de alguns que hoje estão na mesinha:
- Giorgio, Agamben, Profanaciones.
- Cristina Fernandez Cubas, Parientes pobres del diablo.
- Laurence Sterne, Viaje sentimental.
- Pierre Michon, Cuerpos del rey.
- Julien Gracq, Leyendo escribiendo."
Comento que até pelas referências bibliográficas que atraem Villa-Matas concluo que ele é um grande escritor e antes disso um verdadeiro cisne (como disse Jorge Luis Borges) da leitura...
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Sobre Boris Pasternak - Gonçalo M. Tavares
Foto Uma árvore não é assim tão branca (H.P. Ahnit Nof)
Hoje a Anabela entrou pela minha casa dentro em formato de jornal. Transformou a sua ternura e a beleza do seu pestanejar em cada edição do JL que quinzenalmente recebo, tão feliz, no espaço mais íntimo que tenho.Edito o texto da biblioteca dedicado nesta quinzena ao poeta russo e autor do imortal "Dr. Jivago", que achei mais uma manifestação da inteligência e sensibilidade invulgares de M. Tavares. Obrigada Anabela, pela felicidade que me trazes a toda a hora.
Sobre Boris Pasternak
De um lado, a neve. Do outro, a neve.
Podes partir para um lado ou para outro.
Encontrarás o mesmo.
Se ficares no mesmo sítio, só esperando alguns meses deixarás de ter neve. Se te mexeres, só esperando alguns meses deixarás de ter neve.
Que estranho, pensa ele.
Andando ou ficando parado: tens de esperar.
(Que lindo caminho que Gonçalo M. Tavares constrói para comunicar coisas tão simples como esta: há cicunstâncias em que o único remédio é aguardarmos por um dia melhor...A neve como elemento constrangedor da resolução humana e a perplexidade criada à volta do personagem, que todos nós somos, foram opções estupendas do autor para conseguir um texto, aparentemente redundante, porém essencialmente fascinante.Fico pasmada com o facto das frases serem reproduzidas pelo processo de repetição, ainda que partindo de expressões instauradores de contraste, de forma a causarem a mesma sensação de irresolução, de impotência que um nevão produz naquele que quer decidir-se pelo caminho melhor,quando todo ele é invencível. Boris Pasternak teve na realidade que esperar para ter reconhecimento no seu próprio país pois a obra Dr Jivago foi proibida na URSS por mostrar como se vivia o comunismo. O autor não pode, inclusive, receber o prémio nobel da literatura por razões políticas criadas pelo seu próprio país. Neve e mais neve que até se derreter - em 1989 com a queda do muro - o levou a ver passar como uma paisagem quase toda a sua vida.)
Deixo ainda um poema sublime de Boris Pasternak:
Também a vida é só um instante,
apenas um dissolver-se,
de nós mesmos nos outros,
Como um dom que se faz.
Apenas um rumor de bodas que,debaixo,
irrompe pelas janelas,
nada além de um canto, um sonho,
uma pomba azul-cinzentada.