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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A VOZ QUE EM LITERATURA DIZ EU




Sempre me deixei impressionar pelas dissimulações descaradas dos escritores ao tomarem nos seus escritos literários a voz de um outro. Esse grau de distanciação fantástica que a separa (muito ou pouco) da voz autoral, por si só, já torna, para mim, um texto literário num texto interessante. Por isso adorei deparar com esta temática no texto ensaístico de Alberto Manguel a que deu o título "A voz que em literatura diz «eu»", publicado na Ler deste mês. Sempre valeu a pena comprar a revista...
Também a mim me encantou a literatura em tenra idade por querer ver até que ponto o escritor era capaz de "mentir" num pressuposto artístico. Gostava sempre muito daqueles que se distanciavam do eu de forma exagerada pois antevia na escrita a possibilidade inteligente de representar outros papeis, de experimentar vidas, supremas ou desgraçadas, e sentir naquelas palavras a capacidade desses mesmos escritores se transformarem. Como o demonstra o conto de Henry James, A coisa propriamente dita, aprecio a capacidade transformativa dos artistas, nomeadamente daqueles cuja arte depende da palavra e do gesto. Ser outra coisa que não aquilo que somos (ou nos habituamos a ser) é fascinante... a literatura prova bem isso. É também ideal o modo como através do universo literário andamos atrás de nós próprios  (tanto quando leio como quando escrevo), à procura das emoções que nunca tivemos, à procura de uma identidade que não nos pertence até a esse momento. Lembro-me a este propósito de Oscar Wilde e do que disse sobre a pintura e, mais concretamente, o retrato. Assim testemunha que os retratos que são pintados com emoção são retratos do artista e não do modelo que o serviu. Aquele que o artista pintou tão cheio de sentimento não é quem ele observou, não, mas sim o próprio artista que se revela. Concordo plenamente com Wilde pois mesmo descrevendo aquilo que não sinto, parto do que sinto, projectando o seu inverso. Quando em palavras me delicio com algo repugnante, parto sempre do belo, aliás, do meu conceito de belo até chegar ao extremo antitético daquilo que me fascina. Qualquer voz que simule, que distancie da minha (esticando a minha capacidade de mentir até ao limite como um elástico...), mete em evidencia tudo o que sinto, mesmo quando não me pareço comigo própria. 
Concluindo, acho a escrita assustadoramente bela nesse mistério que se desprende dela,  criando outras vozes que  aproximam o escritor de um demiurgo.
Gostaria de passar para este post todo o extenso texto de Alberto Manguel, mas não posso fazê-lo por questões de tempo. Passo apenas, para finalizar, a citação que  o abre, de Samuel Beckett, na língua francesa (aquela que parece cantada pelos pássaros), acabando assim a minha breve reflexão da forma inversa da que ele, Alberto Manguel, começou. Tenho pena de te dar tão pouco acerca do tema em questão, mas haverá tempo de to ler, em presença ou ao telefone (com muita magia dentro da voz, simplesmente humana), linda amiga... Aqui vai a citação soberba:
 « Je dis je en sachant que ce n'est pas moi»


quinta-feira, 30 de setembro de 2010


Um caso de literatura transnacional em francês: exílio e escrita  na obra de Chahdortt Djavann

por Cristina ÁLVARES /Universidade do Minho)


A comunicação centra-se no romance Comment peut-on être français?, de Chahdortt Djavann, escritora iraniana exilada em França, situando-o no contexto da sua obra ficcional e ensaística e delineando as suas coordenadas ideológicas e estratégias narrativas gerais.

A particularidade deste romance reside na representação do exílio da personagem, Roxane, como um projecto de desenraizamento ontológico, relevando do ideal iluminista e moderno (ideal partilhado por outras escritoras exiladas como Ayaan Hirsi Ali e Wassyla Tamzali) que consiste em cortar radicalmente com as tradições particulares para lhes substituir a lei na sua universalidade e neutralidade. A forma da lei é a língua francesa. A aprendizagem do Francês, através da prática da escrita epistolar, faz emergir Roxane como um sujeito esvaziado das suas representações e conteúdos particulares, sustentado apenas pelo desejo da lei-língua, e coloca-a num espaço de intersecção vazia, que anula tanto a identidade iraniana (inata e rejeitada)como a identidade francesa (escolhida e desejada). Esta experiência de não-identidade e de não-pertença, dita e escrita em Francês, funda uma ideia comum a vários escritores oriundos de países tão diversos como a China, a Eslovénia, o Irão, Israel, Hungria, entre outros, e que escrevem em francês: desprovidos de identidade e nacional, eles pertencem à literatura. ‘L’exil est mon essence et l’écriture ma naissance’, escreve Djavann no seu último ensaio. A produção literária de Djavann insere-se assim no âmbito daquilo a que Michel Le Bris chama a literatura-mundo em francês: uma literatura que liberta a língua do pacto exclusivo com a nação, ao mesmo tempo que ultrapassa o contexto pós-colonial das literaturas francófonas, situadas num espaço de tensão entre ex-metrópole e excolónias, entre centro e margens (a crítica de Le Bris ao conceito de Francofonia aponta precisamente o seu efeito marginalizante). Daí que muitos estudiosos qualifiquem a literatura transnacional em Francês como literatura pós-francófona ou pós-pós-colonial.
O romance de Djavann apresentar o Francês como uma língua de libertação (e não de opressão como é frequente entre os escritores pós-coloniais), uma língua que liberta de formas de opressão outras que não as coloniais (neste caso as praticadas pela República Islâmica do Irão). O Francês permite ao sujeito transcender a sua cultura de origem (família, língua, religião) e abrir no seu seio um espaço de indeterminação, de liberdade.

Referências

DJAVANN, C., Je viens d’ailleurs, Paris, Autrement, 2002

DJAVANN, C., Bas les voiles !, Paris, Gallimard, 2003

DJAVANN, C., Que pense Allah de l’Europe ?, Paris, Gallimard, 2004

DJAVANN, C., Comment peut-on être français ?, Paris, Flammarion, 2006

DJAVANN, C., À mon corps défendant, l’Occident, Paris, Flammarion, 2007

DJAVANN, C., La muette, Paris, Flammarion, 2008

domingo, 22 de novembro de 2009

Discurso Directo de David Mourão-Ferreira



Perante a questão " Que dez romances levaria para a Lua?", o teu querido David Mourão-Ferreira responde o seguinte, provando que é um leitor de bom gosto: «... imaginando-me na Lua por tempo indeterminado, creio que seleccionaria dez romances que constituíssem dez imagens diversas, no plano da ficção, daquela realidade cultural e afectiva - ou afectiva e cultural - em que nasci, em que me criei, e a que me sinto profundamente ligado. se é preciso dar-lhe um nome, chamemos-lhe : Europa. Seriam, portanto dez romances "europeus"; seriam talvez estes: As Metamorfoses, de Apuleio; A Demanda do Santo Graal; D. Quixote, de Cervantes; Les Liaisons Dangereuses de Laclos; Guerra e Paz de Tolstoi; Os Maias de Eça de Queirós; À la Recherche du Temps Perdu de Proust; Doctor Faustus de Thomas Mann; The Waves de Virginia Woolf (ou Ulisses de James Joyce ?); Alexandrian Quartet de Lawrence Durrell.

É claro que nem todos estes romances foram eleitos pelas mesmas razões. (...)