domingo, 7 de março de 2010

Os Objectos Chamam-nos, Juan José Millás

Mais um livro de Juán José Millás cheio do seu humor característico, prova da sua inteligência e sensibilidade na escrita. Parte de uma ideia fabulosa: criar uma história para cada objecto que o marcou na vida. Esses objectos causam inúmeras reflexões interessantes, servindo de ponto de partida para revelações sobre o narrador e aqueles que o rodeavam na mágica infância, com especialíssimo destaque para a mãe que apresenta como personagem tão rica como caricata. Cada capítulo, de reduzida extensão (página e meia a duas páginas) é consagrado a um objecto  que tem o poder de nos chamar, também a nós, para sempre. A verdade é certa: os nossos objectos, explicam-nos!

Um mistério


A minha mãe passou por várias fases, como Picasso, só que ela, em vez
de pintar, andava de cá para lá. A meio da manhã dirigia-se ao mercado. Às vezes deixava-me acompanhá-la (nem sempre, porque também gostava de estar sozinha ou era o que dizia) e eu entretinha-me,como quase todos os rapazes, nos talhos, fascinado com os corpos dos animais abertos de cima a baixo. Como não  acreditava na morte, pensava que aquelas vacas esfoladas ainda estavam vivas, embora não tivessem maneira de o expressar porque lhes tinham arrancado os nervos. Hoje posso dizê-lo com toda a tranquilidade e com toda a segurança às pessoas que duvidem como eu duvidava: as vacas dos talhos estão mortas, completamente mortas, e já não lhes dói que as cortem em bifes ou as transformem em carne picada. Os cordeiros também estão mortos, e os coelhos e os porcos. Às vezes, até o próprio talhante está morto. Digo isto porque o do talho do mercado do meu bairro tinha os olhos esbugalhados, como os das vacas sem pele, e uma palidez geral que metia medo. Quando vi o meu primeiro filme de zombies, compreendi o assunto. Um dia, a minha mãe comprou um frango inteiro, com todos os miúdos, cada qual colocado no seu lugar, embora estivesse completamente morto. Depois voltámos para casa e cada um pôs-se a fazer as suas
coisas. À hora de almoço, eu esperava ver o animal aparecer na mesa, mas em vez disso comemos uns ovos estrelados. Fiquei surpreendido,mas nada disse. Pensei que o frango era para o jantar ou para o dia seguinte. Mas nem ao jantar, nem no dia seguinte, nem no outro, nem no que veio a seguir o bicho apareceu.
Naquela época não se congelavam os alimentos, porque os frigoríficos não tinham estrelas, de modo que o assunto era de difícil explicação. – O que aconteceu ao frango, mamã? – perguntei passadas uma ou duas semanas.
– Esquece-te do frango.
– Porquê? – insisti.
– Porque sim, porque é isso que te estou a dizer.
Como eu não era um rapaz especialmente difícil, obedeci e esqueci-me do frango até a minha mãe morrer. Ela tinha no terraço um vaso muito grande, com umas sardinheiras que tratava cuidadosamente. Quando esvaziámos a casa, disse aos meus irmãos que gostava de ficar com aquele vaso, e esvaziei‑o para o transportar até à minha casa, pois mesmo sem terra era muito pesado.Ao esvaziá‑lo,encontrei os restos ósseos dofrango, que fora evidentemente enterrado ali havia muitos anos. Por que razão a minha mãe fez aquilo com aquele animal? Jamais o saberei.Os pais, quando se vão, deixam mais mistérios que bens materiais.

Mutus Liber, Dino Valls

 
 
   Apetece citar Jorge Luís Borges:
 
"Há aqueles que não podem imaginar um mundo sem pássaros; há aqueles que não podem imaginar um mundo sem água; ao que me refere, sou incapaz de imaginar um mundo sem livros."


Jorge Luis Borges

sábado, 6 de março de 2010

Mark Rothko e Barnnet Newmann

Mark Rothko
"A simplicidade é o último degrau da sabedoria."

Gibran


Barnnet Newmann, Who's afraid of Red, Yellow and Blue?

Ricardo Menéndez Salmón

(n. 1971; gijón) é licenciado em Filosofia e desde 2005 que mantém a coluna La Clepsidra, no jornal El Comercio. Escreve na revista Tiempo e no suplemento El Viajero, do diário El País. Entre Abril de 2007 e Dezsembro de 2008 exerceu crítica literária no suplemento cultural do ABC, o que faz actualmente na revista El Mercurio. Estreou-se na literatura com "Los desposeídos", Premio Asturias Joven de Narrativa, Oviedo, 1997. Era já autor de uma obra diversificada quando, em 2007, com a publicação de "A Ofensa", se transformou numa das referências da nova literatura espanhola.

No ano seguinte publicou "Derrumbe", que a Porto Editora traduziu para português´- "Derrocada" (e esteve à venda na Casa da Juventude na Póvoa de Varzim, nas Correntes d'Escrita).
Já em 2009, veio a lume o seu mais recente romance, El Corrector.

Este foi o escritor que mais me impressionou ouvir falar, no lançamento do seu livro "Derrocada". Lembrou o público do que nos disse Kafka a propósito do que deve ser um romance (as margens do livro devem coincidir com as margens do mundo) e explicou um pouco o seu interesse literário pela investigação sobre o mal. Tem um livro de ensaios que fiquei com vontade de ler, com o título " Travesías del Mal: Conrad, Celine e Bolaño", que é precisamente uma tentativa de explicar a razão dessa sua obsessão  por este tema. Revelou que para isso estabeleu um diálogo essencialmente com três livros desses autores: "O Coração nas Trevas" ; "Viagem ao Fim da Noite" e "2666".
Falou muito sobre os medos contemporâneos, desde os mais inexplicáveis, metafísicos até aos mais óbvios, lembrando que para si o atentado terrorista ocorrido no seu país criou um clima moral de medo que se expandiu também na área da escrita literária. Enfim,... ficaria muito mais tempo a ouvi-lo falar dos seus livros e da literatura espanhola, se pudesse ...

A propósito das obras que foram matéria do seu ensaio disse:
" Creio que cada uma destas obras  encarna um tipo distinto de maldade, em épocas diferentes: o Mal como indiferença em Conrad; o Mal como natureza em Céline e o Mal como disciplina em Bolaño."

Um facto óbvio que na boca dele vale a pena ouvir:
 " Todos nós somos memória, e a memória para o bem e para o mal, é a única coisa que não nos podem roubar."


Um cheirinho da crítica de nuestros hermanos

Los miedos contemporáneos, desde los más inmediatos a los más metafísicos, se esconden y perciben en las imágenes, fogonazos y potentes elipsis que ha trazado el asturiano Ricardo Menéndez Salmón en su nueva novela, "Derrumbe".

Entrevista a Ivo Machado

Entrevista a Ivo Machado - "Dentro da corrente, de certo modo ele [o poeta] é a onda."

[15-02-2010] Pedro Teixeira Neves

http://www.pnetliteratura.pt/cronica.asp?id=1768

Ivo Machado nasceu nos Açores em 1958. Publicou: Alguns Anos de Pastor, poesia, 1981; Três Variações de um Sonho, poesia, 1995; O Homem que nunca existiu, teatro, 1997; Cinco Cantos com Lorca e Outros Poemas, poesia, 1998 (homenagem particular ao poeta de Granada, tendo sido convidado a apresentar o livro naquela cidade andaluza durante as comemorações do centenário do nascimento de Garcia Lorca e, em Fevereiro de 2002, traduzido e editado naquele país numa edição bilingue, pela LITERASTUR); Nunca Outros Olhos Seus Olhos Viram, novela, 1998; Adágios de Benquerença, poesia, 2001; Os Limos do Verbo, poesia, 2005; Verbo Possível, poesia, 2006. Ainda em 2006, publica Poemas Fora de Casa, antologia que reúne a sua poesia, celebrando assim os vinte e cinco anos da publicação de Alguns Anos de Pastor, seu primeiro livro. Parte da sua poesia está traduzida para castelhano, inglês, eslovaco, húngaro, italiano e bósnio. Tem colaboração dispersa por revistas literárias no país e estrangeiro, estando ainda representado em inúmeras antologias. Do primeiro livro, Fernando Lopes-Graça, musicou para canto lírico sete poemas a que chamou — Sete Breves Canções do Mar dos Açores. Em 1987 deixou as ilhas para viver no Porto.
És um escritor bisexto, não muito regular, pelo menos em matéria de publicação; a que se deve isso?
Há uma vida para além dos versos, e necessito de a viver intensamente.

A poesia intende responder ou antes questionar?
A poesia é uma interrogação permanente, e o poeta é aquele que utiliza o idioma da nossa perplexidade.

Procuras a poesia ou és por ela procurado?
O poema move-se lentamente em sedução até que me disponha a recolher as palavras, como se elas navegassem num ribeiro e as recolhesse uma a uma, para as cuidar e lhes dar uma outra roupagem.

Achas verdade aquilo que se diz de que hoje em dia há mais gente a escrever poesia do que a lê-la?
Sempre foi assim, creio, pois a história do Homem é a história da Poesia. Muitos são os que não lêem um verso, mas é ao verso que recorrem quando se manifesta o desassossego, ou simplesmente para interrogar o mundo.

Quais os poetas que te influenciaram?
Desde logo, e entre nós, Camilo Pessanha e Sophia. Mas fora de portas António Machado e Lorca. Na década de noventa chegou-me a poesia do brasileiro Lêdo Ivo.

Ser poeta é estar à vida em estado de vigília? O que é ser poeta?
Os povos inventaram e renovaram a língua e as linguagens, e o poeta descobriu a sua abundância e a vastíssima riqueza dos seus vazios, dos vazios que é preciso ocupar com a necessidade de dizer e de escutar como numa declaração de amor repetida sempre e sempre como as palavras que os amantes exigem para viver. Poeta é aquele que estende a sua mão para que as borboletas e os tentilhões, direi que todos os seres, alcancem o porvir infinito.

Os versos assumem muitas vezes na tua poesia a função de regresso, à infância, ao passado, às ilhas que deixaste, aos amigos idos. Em que medida te é necessária a poesia nesse regressar?
A poesia de algum modo é uma imobilidade, e o poeta aturdido pelos ruídos do universo e pelos brilhos das viagens, cedo entende que o seu maior segredo é uma imobilidade porque poesia é, também, uma evasão da qual a partida corresponde sempre a um regresso.

A poesia é filha do silêncio?
Filha, irmã e noiva. E da luz.

Quanto há de inspiração e quanto de transpiração na tua poesia?
Nem uma coisa nem outra, antes trabalho e muita alegria.

A poesia ajuda-te a viver?
Naturalmente. A poesia é também a água que mata a minha sede.

E tens alguma ideia acerca do que as pessoas procurem na poesia?
Como leitor, e para além de respostas, sinto que ela é um dos raros territórios possíveis de habitar.

Tens algum livro prestes a publicar?
Sim, no começo do próximo ano, três décadas após o aparecimento do meu primeiro livro.

Quando soubeste que querias ser poeta?
Sem qualquer hesitação no dia em que, quieto como uma mosca, me comovi (teria os meus catorze anos) ao escutar o pai de um amigo dizendo de memória Llanto Por Ignacio Sánchez Mejías, de Lorca. Ainda trago no ouvido alguns dos seus versos:

A las cinco de la tarde.
Eran las cinco en punto de la tarde […]
Eran las cinco en todos los relojes.
Eran las cinco en sombra de la tarde.

Recordo esse dia e essa leitura com alguma frequência. E lembro ainda que nesse dia, de regresso a casa, senti que queria ser como aquele homem. Ele, o pai do meu amigo, era poeta. Chamava-se Emanuel Félix.

Nas Correntes os poetas nadam contra a corrente?
Dentro da corrente, de certo modo ele é a onda.

O que te faz gostar de ir às Correntes?
Vou às correntes com o mesmo espírito que me levou à primeira, e de todas as edições seguintes, isto é, participar com humildade numa festa que é um encontro e reencontro de amigos (a cada ano um novo amigo chega) e uma mesa enorme ao redor das palavras.

Malangatana




Considera que os seus quadros são poemas e di-lo numa voz tão grossa, tão cheia de impurezas da terra vermelha, tão impregnada do calor de Moçambique que é impossível não o sentir, mesmo antes de apreciar as suas telas. Telas repletas de olhares e emoções fortes. Como tu gostas amiga.

sexta-feira, 5 de março de 2010

IVO MACHADO

Linda amiga,
Nas Correntes d'Escritas senti-me acorrentada às palavras (e à voz poderosa) de Ivo Machado. Ele é o verdadeiro poeta. Vê como ele faz correr as ondas sobre as palavras...

« “Não há limites para as palavras. Nós é que impomos limitações à palavra”, referiu Ivo Machado que revelou que o “poema surge como uma rebentação, uma maré de palavras que vêm contra nós”. “A poesia é que nos vem dizer o quão pouco claras são as coisas que nos aparecem claras”, acrescentou.»

Um poema dele que serve de abrigo. Sinto-lhe o telhado bem inclinado, mesmo por cima da primeira estrofe. Ler o poema-casa é abrir a porta da poesia de Ivo Machado...Lê tu, agora, mesmo sem a chave:



CASA



Das casas sobram sempre lamentos,
languidez do amor nos rios dum lençol, a mão
disforme nos lábios húmidos duma palavra;
das casas restam sempre nomes, vozes


das casas cresce uma alma
que esmaga o tecto minúsculo das mariposas
do Verão; das casas sempre um cheiro de nascer;
das casas sempre o roçar das asas da morte.

Nascer e morrer na mesma casa é privilégio,
sabedoria, ou sublime instante de passagem,
apenas.


Montevideo, 28 de Janeiro de 2006
(inédito)

terça-feira, 2 de março de 2010

Ondjaki e ynari: a menina das cinco tranças



Era uma vez uma menina que tinha cinco tranças lindas e se chamava Ynari. Ela gostava muito de passear perto da sua aldeia, ver o campo, ouvir os passarinhos, e sentar-se junto à margem do rio.
Certa tarde, já o Sol se punha, Ynari ouviu um barulho. Não eram os peixes a saltar na água, não era o cágado que às vezes lhe fazia companhia, nem era um passarinho verde. Do capim alto saiu um homem muito pequenino com um sorriso muito grande. E embora ele não fosse do tamanho dos homens da aldeia de Ynari, ela não se assustou.
O homem muito pequenino andava devagarinho e devagarinho se aproximou.
– Olá! – cumprimentou.
– Olá – respondeu Ynari, receando que estivesse a falar alto de mais para o tamanho do ouvido do homem muito pequenino. – Desculpa, mas não sei o teu nome...
– Eu também não sei o meu nome... – desculpou-se o homem muito pequenino. – Mas chamam-me homem pequenino.
– Ah, está bem... – sorriu Ynari, enquanto se deitava na relva para ficar mais perto dele.
– Eu tenho um nome só, quer dizer, uma só palavra: chamo-me Ynari.
– Ynari é um nome muito bonito – o homem pequenino sentou-se, ficando, assim, ainda mais pequeno.
– Posso fazer uma pergunta, homem muito pequenino?
– Podes fazer muitas perguntas.
– De onde vens?
– Venho da minha aldeia, que fica mais para cima, junto à nascente do rio.
– E lá, na tua aldeia, são todos pequeninos?
– Sim, somos todos mais pequenos que vocês, quer dizer, depende daquilo que entendemos por «pequeno». Não achas?
– Nunca tinha pensado nisso. Sempre pensei que uma coisa menor fosse uma coisa pequena...
– Pode não ser assim... Conheces a palavra «coração»?
– Conheço! – sorriu Ynari. – E não é só uma palavra, é isto que bate dentro de nós – e mostrou no seu peito onde o coração batia.
– Claro, e... O coração é pequeno para ti?
– É... e não é! Cabe tanta coisa lá dentro, o amor, os nossos amigos, a nossa família...
– Vês? – disse o homem mais pequeno que ela. – Às vezes uma coisa pequenina pode ser tão grande...
Os dois ficaram por um tempo calados, olhando o Sol que, do outro lado do rio, quase já tinha desaparecido. Assim, tão amarelada que estava a tarde, parecia que o Sol se ia afogar no rio e que os peixes, saltando, se queimavam nos seus raios avermelhados. Estiveram algum tempo assim, até que Ynari começou a brincar com as suas tranças: eram cinco tranças lindas, negras, compridas.
A menina tinha olhos enormes que brilhavam muito e lábios carnudos muito bonitos.
– E tu, de onde vens? – perguntou o homem mais pequeno que Ynari.
– Eu venho daquela aldeia ali – apontou a menina na direcção das cubatas. – Vivo ali com a minha mãe, o meu pai, a minha avó e o meu povo.
– E quem te faz as tranças?
– Ninguém me faz estas tranças, porque elas não se desfazem... A minha avó diz que eu já nasci com as tranças e que um dia vou saber porquê. Eu gosto muito de brincar com as minhas tranças.
Levantaram-se, os dois, e caminharam junto ao rio. Agora o homem mais pequenino que Ynari já não lhe parecia tão pequenino, nem era estranho caminhar ao seu lado, embora ele fosse muito mais baixo do que a menina. De vez em quando, Ynari afastava os capins mais altos para que o homem mais pequeno pudesse caminhar livremente.
– Não tens medo dos bichos? – ela perguntou.
- Não. Os bichos não fazem mal nenhum... E mesmo a palavra «medo» pode ser vivida de várias maneiras.
– Mas quando estás perto de uma palanca negra gigante, tens medo, ou não?
– Sabes, Ynari, nunca estive muito perto de uma palanca negra gigante embora já a tenha visto muitas vezes. E tu?
– Eu só a vejo de longe.
– A palanca negra gigante correu até perto de ti, fez-te mal?
– Não, nunca.
– Vês... Não precisas de usar a palavra «medo».
– Também acho... – disse Ynari, dando a mão ao homem simplesmente

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A viagem da Pat

Nadir Afonso

"Morre lentamente quem não viaja,
Quem não lê,
Quem não ouve música,
Quem destrói o seu amor-próprio,
Quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito,
Repetindo todos os dias o mesmo trajecto,
Quem não muda as marcas no supermercado,
Não arrisca vestir uma cor nova,
não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem evita uma paixão,
Quem prefere O "preto no branco"
E os "pontos nos is" a um turbilhão de emoções indomáveis,
Justamente as que resgatam brilho nos olhos,
Sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho,
Quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho,
Quem não se permite,
Uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da
Chuva incessante,
Desistindo de um projecto antes de iniciá-lo,
não perguntando sobre um assunto que desconhece
E não respondendo quando lhe indagam o que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves,
Recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior do que o
Simples acto de respirar.
Estejamos vivos, então!"
  
Pablo Neruda

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Receita para que não murchem (nem se assista à sua agonia, que é obsceno) amores plantados nas margens do rio vida-vidinha

Magritte, A Leitora Submissa

(Há textos a que me submeto irremediavel e inteiramente. Este foi-me oferecido pela Filomena após a sua leitura de "Materiais para confecção de um Espanador de Tristezas" de Ondjaki. Por ser verdade o que me disse (que esta última obra é um esplêndido instrumento contra qualquer tipo de infelicidade), comprei-o duas vezes. É igualmente verdadeiro o facto deste livro ser inspirador da escrita lúdica e uma obra de arte de referência que deve constar em qualquer
oficina de escrita criativa. O ideal seria juntar estas duas personalidades magníficas: Filomena e Ondjaki. Deixo o poema para não o distanciar muito mais do título que o explica).

Há que ser árvore antiga e ter o tronco oco recheado de silêncios e os ramos carregados de palavras frescas e maduras.
É preciso ter cuidados de peixe para desovar carinhos em covas de abraços ao abrigo da boca do Tempo.
Deve haver um princípio activo de Primavera que alcatife o quarto com flores chamadas desejos, sorrisos, beijos, risos.
Não deve faltar a sabedoria dum perito em desminações de mal-entendidos com ferramentas lógicas.
Há que ser pássaro para estar pronto a levantar voo antes que marés amargas inundem as margens de lodo.

Filomena Teixeira
Já agora deixo um dos meus poemas preferidos desse mesmo livro do mesmo maravilhoso Ondjaki. É óptimo ondjakiar lentamente, soprando o mais levemente possível estas palavras obscenas (ou ondjakiscenas?):
O Obsceno, A Obscena
era que: obsceno, ou obscena, eram palavras bonitas.
adoro apreciar um corpo pela obscenidade - fica bonito
até excitar a comoção.
já vi uma boca obscena que era um poema vivo.
uma mão obscena já me desconcentrou a existência.
línguas obscenas trazem paz ao caos de um orgasmo.
mais até:
uma vez, uma nuvem obscena fez o arco-íris corar.
o céu ficou lindo.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

A Fotografia (A História do Vampiro de Belgrado) - Gonçalo M. Tavares

Um excerto deste conto:
(…)
3.
Se, de um lado, do lado de fora da porta, a noite fazia, com a paisagem, uma paisagem nocturna, do outro lado a noite era uma estranheza obscena.
Neste lado meio-diabólico (palavra que representa o dobro da quantidade de maldade que existe num espaço apenas diabólico por inteiro. Meio-diabólico: ainda mais indefinível, pois), neste espaço então a paixão fazia abanar o pequeno globo que alguém colocara docemente sobre a mesa de jantar. Com o balançar que dos movimentos rápidos da fornicação passara para o soalho de madeira, depois para as pernas da mesa e por fim, para o globo, fazendo tremer, como nunca a costa de África, o centro da Europa, a América e todo o globo de uma forma solidária e sincronizada como jamais o mais poderoso terramoto conseguira.
Meio-diabólico, sim, mas que nomes tinham ele e ela?
Ela era uma prostituta que não lera uma das primeiras entradas do diário do seu companheiro; companheiro dessa localizada missão de tirar prazer das partes que nop corpo desde há milénios se especializaram nisso, em produzir prazer. Radislav Gunvaz Vujik: eis o nome do seu companheiro que, debaixo da data de 12 de Setembro, escrevera, de uma forma que só mais tarde se percebera o quão explícita era e, ao mesmo tempo, tão ambígua: GOSTO DE SANGUE, gosto de sangue, gosto de sangue.
4.
A fornicação prossegue, apesar de ninguém a poder ver pois o que vemos são apenas os seus efeitos que nada têm de simbólicos. Eis o globo na mesa, abanando. Oceano Atlântico, o Mediterrâneo, o Pólo Sul, o Pólo Norte, a Rússia, como ela treme, toda a Mongólia treme – nem de transiberiano se vê a Sibéria assim, como se tivesse frio, tremendo. Como fornicam, Radislav Gunvaz Vujik, um homem que, com 18 anos, percebera que gostava de sangue, e essa mulher, uma prostituta que fora encontrada por Vujik numa esquina do centro de Belgrado.
(…)

Contos de Vampiros, coordenação de Pedro Sena-Lino, Porto Editora


Com este conto do vampiro de Belgrado, Gonçalo M. Tavares chupou todo o sangue aos parceiros-contistas que também nos contam histórias, que valem sempre a pena ler (embora a pena seja outra!), em sucessivas páginas com uma cruz impressa a negro no canto superior direito a arredar qualquer possível atentado canino contra o leitor. O imparável M. Tavares deu tudo o que tinha neste pequeno conto, aliás, como já é o seu costume em qualquer narrativa curta (ou longa!) por que se decida. A sua originalidade é realmente invencível.
Deixo uma prova irredutível de que existe, sem querer ferir qualquer um dos outros escritores representados nesta antologia, (e conforme Saramago escreveu no seu Caderno, tão perspicaz!) na Literatura Portuguesa um antes e um depois de Gonçalo M. Tavares. Tão feliz fico por ser sua contemporânea…
É difícil encontrar quem descreva tão bem um momento de “fornicação”, que muitas vezes fere e atrai o leitor em simultâneo pela rudeza descarada das palavras, dos gestos (que os narradores exibem pensando que na literatura tudo cabe, pegando em corriqueiras e nojentas palavras da família do verbo “fo…”, descrevendo gemidos, esgares, corpos em erupção, olhos revirados, centrando a sua atenção naquilo que o leitor já visualizou…) O narrador de M. Tavares é inteligente como o seu autor (não gosto de endeusar ninguém, mas esta é a verdade!)…descreve o acto sexual, descentrando a sua descrição do óbvio, do rotineiro, construindo um ambiente de excitação completamente novo, transferindo todo o orgasmo para os países de um globo que periférica e metonimicamente também explodem de prazer… E é assim, diria, quase diabolicamente, que este escritor concebeu a introdução dos personagens do conto, revelando aos poucos, em repetições que tocam a infantilidade (acho fabuloso este aspecto da narração), as suas identidades, os seus segredos, os espaços privilegiados em que ambos actuam e habitam … enfim, assim, não me canso de pensar, que vale a pena ser leitora



P.S: Vale a pena comprar a revista Máxima do mês de Fevereiro para ler a Crónica Visual que Gonçalo M. Tavares assina. Vi a revista e li a crónica num hipermercado, desconfortavelmente em pé e rodeada de vultos que desfolhavam, vorazes, outras publicações, apercebendo-me de que ele inibe toda a necessidade de vislumbre de beleza naquelas páginas coloridas e cheias de objectos e pessoas ultra-modernes, toda a tentação de achamento da última novidade, apenas com as suas palavras. Com a sua sensibilidade literária. Aquela página, apercebi-me, da crónica de que te falo, destruiu qualquer possibilidade de interesse das restantes páginas da revista. A página da crónica é irredutivelmente poderosa, contém as possibilidades de todas as imagens das restantes tristes folhas consagradas maioritariamente à mode e ao fait-divers. Não comprei a revista nessa tarde de sexta-feira porque estava lá para comprar outras coisas urgentes. Não programei aquele encontro tão rico. Arrependi-me de não comprar a revista. De deixar para trás a Crónica Visual que não consigo encontrar na Net.

Correntes d´escritas 2010



Programa Correntes 2010[1] ">

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Neruda: Cartas de amor inéditas a Matilde Urrutia


Carta manuscrita do poeta



“Todo mi cuerpo está saturado de tí. Eres parte de mí”



[Carta manuscrita en cuatro páginas pequeñas, con membrete del Hôtel D'Angleterre de Roma. La única indicación de fecha que tiene es “Hoy es el sábado 28”. No sabemos de qué mes, pero sí podemos colegir que es de 1952 por la alusión en clave que hace a la primera edición del libro Los versos del capitán, que apareció ese año.]





Hoy es el sábado 28 y he amanecido sin tus pies. Fue así. Me desperté y toqué al fin de la cama una cosa durita que resultó ser la almohada, pero después de muchas ilusiones mías. El hijo de nuestra tía se portó indiferente, me esperaba un auto (del impresor) y marché raudo. Tu hijo será gordo y maravilloso, tendrá 180 páginas. Y tendrá dibujitos en la frente y trasero.[Sin duda se trata de Los versos del capitán, dedicado a Matilde] . Bueno, parece que mi tía no quiere que vuelva a Italia y debes preparar tu viaje, pero con calma, como cuando comemos. Hasta ahora es así. No sé si en el día se cambiarán las cosas. Esta mañana me llevaron a un sitio con una tina blanca, no comprendí al principio, pero me metí, con miedo de disolverme. Había una gran toalla, qué pérdida de trapo, en S. Angelo se hubiera cortado en 12 y hubiera servido hasta junio 1953. Cuando me levanté y abrí a la camarera vi que me faltaba una parte de pyjama que según me dicen se llama pantalón. Es así: [dibujo de un pantalón.] Patoja mía estoy contento, soy como un soldado con su retaguardia segura. No me importa el fuego. No sé si estoy aun con mar o agua de Patoja, todo mi cuerpo está saturado de tí. Eres parte de mí, como la pirinola de su cane, sólo que tengo pirinolas tuyas hasta en el alma. Recién me llaman, esta tarde te escribiré de nuevo, acumularé todo el día besos para todo tu cuerpo que es interminable para mí, aunque la vida me la pasaré besándolo no lo terminaré de besar. Desperté a las 6 ½ a las 8 estaba vestido, son las 9 salgo a los tickets. Hay algo más importante que tu y que yo, somos tu y yo. Juntos somos lo que la pobre gente no alcanza jamás, el cielo en la tierra. Te aprieto a mi corazón, amor mío, con cuerpo, alma y amor.



Tuyo

Tu capitán

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Dino Valls

Insânia
Linda amiga,


conheci este pintor há pouco mais de um mês e fiquei deslumbrada com o modo tão especial como retrata sobretudo a mulher, o espaço, a sexualidade. Agora lembrei-me de que uma vez que estás a ler um romance escrito por um escritor-médico (ou médico-escritor) é a altura ideal para conheceres mais um médico-pintor. Este é espanhol e transporta para as pinturas uma visao vulgarizada da medicina e dos seus objectos. Comove-me a condição mortal do ser humano aqui tão bem retratada. Houve um quadro dele que me fez lembrar a loucura retratada em Jerusalém por Gonçalo M. Tavares. Poderia fazer a capa desse romance tão negro. Deixo-te a página de Dino Valls para te deliciares como eu.


http://www.dinovalls.com/

Slepless Heart

As palavras que transcrevo do Livro de San Michele fizeram-me lembrar outras que em tempos me ofereceste do nosso Pessoa. Gostei do diálogo e aqui o deixo para ti com mais uma música esta do Rodrigo Leão....

-As tuas palavras são superiores à tua idade. Quem tas ensinou?
-Aprendi-as hoje na ilha (ilha de Capri); compreendi esta boa gente, que não sabe ler nem escrever, é bem mais feliz do que eu, que desde criança fatigo os olhos para adquirir sabedoria.

Heart Skipped a Beat na Solidão

Amiguinha, neste post dedico uma das muitas músicas que me deste, e pela qual estou apaixonada de momento, à nossa amizade... acrescento-lhe um poeminha lindo, num dia cinzento de solidão feliz....

A SOLIDÃO ERA ETERNA, Juan Ramón Jiménez

A solidão era eterna
e o silêncio inacabável.
Detive-me com uma árvore
e ouvi falar as árvores.


Nas Nuvens (Up in the air) - Jason Reitman

No cinema está este filme que conta a história de um homem que se habituou a ser livre e a viver feliz entre constantes viagens de avião e paradeiros novos até que conhece uma mulher que abala a sua maneira de estar na vida. A solidão e o desemprego são temas tratados com inovação. O cinema é assim...surpreende-nos.


http://www.youtube.com/watch?v=_m-Da8Tz4_E

SINOPSE
Nas Nuvens

Ryan Bingham (George Clooney) está velho mas talvez ainda vá a tempo de descobrir o sentido da vida enquanto se passeia nas nuvens. No filme Nas Nuvens, Clooney tem uma interpretação que, há quem diga, é merecedora de Óscar, ao dar corpo a Ryan. Este homem sofisticado que adora o seu trabalho - é consultor de outplacement, especializado em despedir funcionários de empresas em dificuldade - exalta a sua filosofia desprendida, tanto de pessoas como de lugares. Mas quando é superado por Natalie (Anna Kendrick) os espaços anónimos e impessoais de aeroportos e quartos de hotel e as relações frias deixam subitamente de ser suficientes para preencher a sua existência... Uma trágico-comédia assinada por Jason Reitman, realizador de Juno e Obrigado por Fumar, recheada de ironia e humor negro.


Em nome da amizade (Reign over me) - Mike Binder


 "Em nome da amizade"é um bom filme em que é marcante o brilhante desempenho do actor americano Adam Sandler. Ele interpreta o papel comovente de um viúvo do atentado de 11 de Setembro que encontra numa amizade antiga, um escape para a sua existência alienada.  

Deixo o trailler do filme:


Adam Sandler, Don Cheadle, Jada Pinkett Smith e Liv Tyler protagonizam esta comovente história sobre Charlie Fineman (Sandler), um homem que ficou alheio à realidade à sua volta desde que perdeu a mulher e as suas filhas.
Mas a vida de Charlie muda para melhor quando encontra por acaso Alan Johnson, um velho colega de faculdade (Cheadle), cuja vida se desenrola entre as exigências da sua carreira profissional e a vida familiar.
A sua renovada amizade reaviva os seus laços há muito deixados para trás, e ambos saem desta nova experiência enriquecidos.

sapo.pt

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Rodrigo Leão em Concerto - "Mãe"

Era uma música redonda, não virava esquinas, não desaparecia de nenhum prisma daquela sala e qualquer espectador tinha a sensação de lhe poder tocar com um dedo. Um dedo apenas, mesmo que fosse muito fino ou muito curto. Qualquer um pensava que ela se dirigia a si. Que o contava num segredo descoberto, ao ritmo da bateria agressiva, ao sopro da voz que ainda faltava no palco.

Essa música tinha uma espessura cuja sonoridade parecia ter vindo da infância ou dum passado que nunca realizei senão em sonho, senão em choro. Era tão forte que o círculo que desenhavam os violinos e o acordeão não era mais do que uma tristeza instintiva, uma tristeza muitas vezes minha, circularmente bem demarcada, lembrando uma carícia de mãe, mas cantada pela voz de outra mulher que não me conhecia e todavia me dizia. E a tua mão percebia e apertava-me.

Vi que por detrás do seu peito, por detrás do vestido negro de seda, se escondia a tal voz com que cantava tudo. E quando os músicos tocavam as notas previsíveis, as notas ensaiadas para que não saíssem para além daquela sala, os seus olhos negros como o vestido abriam-se e deixava de estar só. Tudo o que trazia dentro dos olhos se esbanjava numa emoção que se julgava não estar lá de início, no momento em que entrava cambaleante em desacerto mudo e atravessava o mesmo espaço que todos os olhos da plateia iluminavam. Mas afinal para lá das suas pernas pouco convictas, por dentro das suas pálpebras fechadas, estava lá a dor embrulhada, estava lá o riso e a lembrança enleando tudo o que vivi. Apenas precisava das luzes dos instrumentos certos para cantar por dentro dos ouvidos dos outros com uma voz que se estendia como uma onda muito alta. Como uma onda que nos levasse até à altura das nossas ilusões.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

O livro de San Michele


Por agora rendo-me aos encantos deste livro: O livro de San Michele.
Adquirido sem saber porquê, peguei nele e não consegui deixá-lo de lado! A sinopse deixou-me fascinada e está a valer cada segundo que invisto no livro... Aí vai:


"O Livro de San Michele é, como diz o seu autor, "o livro da vida". Da vida que transforma o mundo, da vida que não descansa, que não se imobiliza nunca, mas que, se acaso apresenta a cada passo novos aspectos, fisionomia nova, nova aparência, é sempre e essencialmente a mesma.
Axel Munthe, que o não ignora, sabe também que só o amor da humanidade, que só o humaníssimo amor do próximo- gente ou bicho, adulto ou criança, pessoa ou animal- nos redimee salva dos inevitáveis egoismos. é um mestre da generosidade, um professor de ternura, uma energia ao sabor da mais límpida, da mais elevada, da mais devotada fraternidade humana. Ele quer os homens sãos e crentes,  a infância pura e alegre, a adolescencia entusiástica e a velhice piedosa e serena.
Chamar a Axel Munthe só um grande escritor, idealista- é pouco porque ele é muito mais ainda: é um raro exemplar de Homem superior, de Homem completo, vencedor sempre das mesquinharias e dos egoísmos da existência.
Lê-lo e meditá-lo é aprender e viver. Nenhum livro como este poderia abrir melhor a "Colecção Dois Mundos" porque em nenhum outro vibra tanto e se afirma tanto a simpatia de alma que aproxima e enleia indivíduos, pátrias, continentes e povos"


 Deixo  ainda alguns dados sobre este curioso sueco...

Axel Martin Fredrik Munthe (Oskarshamn, Suécia, 31 de outubro de 1857 — Estocolmo, 11 de fevereiro de 1949) foi um médico, psiquiatra e escritor sueco. Sua obra mais famosa é The Story of San Michele ("O Livro de San Michele") publicada em 1929. Munthe também foi conhecido por sua natureza filantrópica e por advogar os direitos animais.
Estudou Medicina na Universidade de Uppsala, Montpellier e Paris, doutorando-se no ano de 1880. Embora sua tese tratasse da ginecologia e obstetrícia, Munthe fora fortemente impressionado pelo trabalho pioneiro sobre neurologia do professor Jean-Martin Charcot, chegando a assistir às suas aulas no Hospital Salpêtrière.
Praticou intensamente a medicina em Paris e Roma e, posteriormente, tornou-se médico da Família Real Sueca.

O leopardo ao sol


Amiguinha, tive que deixar um post dedicado a esta mulher! Uma mulher que ficará indubitavelmente ligada à nossa amizade! Apesar de a história ser quase banal, por ser uma de tantas histórias que decorrem num cenário de violência excessiva, a forma como a escritora o faz é sem dúvida inovadora! Tal como te disse, a autora possui a rara capacidade de prender o leitor devido à forma invulgar como narra a história! Vale a pena ler...

(um extracto retirado da Wook)
Premiada e aplaudida por escritores como Gabriel García Márquez e Alvaro Mutis, a escritora colombiana Laura Restrepo foi dada a conhecer ao público português através de «Doce Companhia», uma arrebatadora história de amor que não deixa de denunciar os problemas sociais vividos num país como a Colômbia, obra galardoada com o 'Prémio France Culture' pela melhor obra estrangeira editada em França em 1997 e com o Prémio mexicano 'Sor Juana Inés de la Cruz'. É , portanto, uma autora que dispensa apresentações entre o público português, e sabe, como ninguém, mesclar com uma mestria sublime e incomparável o humor e a crueza, a ficção e a realidade. «O Leopardo ao Sol», espelho do submundo colombiano, o retrato vivo da ficção tornada realidade, foi inspirado na tradição sul-americana e carrega consigo uma forte carga de destruição e morte. No dia em que Nando Barragán assassina, durante um acesso de raiva, provocado pelo álcool, o seu primo Adriano Monsalve, desencadeia uma guerra fraticida, destinada a durar até ao fim dos tempos. Essa guerra será marcada pela lei do deserto: sangue paga-se com sangue. As duas famílias alimentar-se-ão de uma terrível sede de vingança e vão acumulando riquezas através do crime e de negócios obscuros. Nando Barragán e Mani Monsalve são os trágicos protagonistas de uma época ensombrada pela atrocidade da morte que irá mais tarde engolir tudo. «O Leopardo ao Sol» resulta, assim, num livro brutal, intenso e extraordinariamente bem concebido.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

a máquina de fazer espanhóis - valter hugo mãe

"dia 11, 21h30, quinta-feira, no porto, na biblioteca almeida garrett (no palácio de cristal), com apresentação de isabel pires de lima.
será vendida uma tiragem especial, de capa dura, numerada e com um pequeno desenho meu, limitada a 300 exemplares (150 para venda em lisboa e 150 para venda no porto)."

blogue casadeosso


Que tal, "bora aí"?
Deixo um pedacinho da "máquina de fazer espanhóis" (um livro que faz explodir qualquer noite com as suas palavras) para despertar qualquer tipo de inércia que possa servir a recusa deste programa:

"abracei o corpo da minha mulher, segurei-lhe a mão, a sua cabeça no meu ombro, criei um pequeno embalo, como para adormecê-la, ou como se faz a quem chora e queremos confortar. vai ficar tudo bem, vai correr tudo bem. o que era impossível, e o impossível não melhora, não se corrige. estávamos encostados à parede, sob o cortinado, como fazíamos na juventude para os beijos e para as partilhas tolas de enamorados.estávamos escondidos de todos, eu e a minha mulher morta que não me diria mais nada, por mais insistente que fosse o meu desespero, a minha necessidade de respirar através dos seus olhos. "

valter hugo mãe, a máquina de fazer espanhóis, p.27

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

"Muitos" - Em Permanente Poesia

Muitos
     Muitos
           Muitos




Tu não és um és muitos
como aquela árvore
é todas as folhas que mexem
como aquele mar
é todas as ondas que avançam
como aquela casa
é todas as luzes acesas
como esta rua
é todas as vozes que nela palpitam
e todos os carros que a atravessam
em ruídos escuros de uma memória.


abres silêncio ao arredares os lençóis
levando contigo todos os outros
translúcidos de desejo e eu não receio
todas as mãos que trazes
por detrás das costas
fortes, cheias de uma calma morna,
desfeitas num só gesto horizontal
que me invade com a mesma verdade
apesar de seres muitos e afinal só um.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Falling down a mountain - Tindersticks


Só a música permite que nos apresentemos tão ausentes de tudo.

http://www.youtube.com/watch?v=y1jylAx5nhY&feature=related

"Keep you beautiful"- uma música em que canta a beleza ( e posa em fotografias inesquecíveis neste vídeo):
http://www.youtube.com/watch?v=Th81NKBTr6w&feature=related

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Coisas Estúpidas (Carta a Eric Rohmer) - Inês Pedrosa


É estúpido escrever-lhe uma carta que você já não poderá ler. De qualquer modo vivemos num mundo em que já ninguém escreve cartas - as palavras escritas deixaram de ter cor, mão, respiração e compromisso, mesmo as mais íntimas. Despejam-se rapidamente em e-mails que se modificam, apagam e esquecem. É estúpido escrever-lhe uma carta mas aprendi nos seus filmes a amar a força das coisas estúpidas, que aparentemente não servem para nada e só nos atrapalham a vida. Um dos seus filmes de que mais gosto, "Conto de Inverno", narra a história de uma rapariga tão estúpida que se engana no nome da terra onde vive na hora de passar a morada ao grande amor que conheceu nas férias e mora noutro país. Encontramo-la cinco anos mais tarde, trazendo pela mão uma filha nascida desse grande amor e enganando a solidão entre dois amantes. Às tantas, estupidamente, decide ir viver com o mais fruste desses dois amantes, o seu patrão no cabeleireiro. A filha arrasta-a para o interior de uma igreja, porque é quase Natal e a criança quer ver o presépio. Sentada na igreja vazia a rapariga reza em silêncio pelo regresso do seu amor perdido, e o rosto banal ilumina-se-lhe de uma forma inesquecível. Não é católica, tem uma fé vaga, que não aprofunda - não é rapariga de leituras nem de aprofundamentos, desdenha mesmo aqueles que copiam a vida pelos livros, como o amante preterido. Esse amante intelectual dir-lhe-á uma frase belíssima: "Sabes porque te amo? Porque és bela, mas isso não basta. Amo-te porque tenho a impressão de ser capaz de ler o teu coração, e é raro poder-se ler o coração das pessoas". A força dessa rapariga advém da fidelidade absoluta ao seu próprio coração e da confiança que deposita nos sentimentos. Nunca, nem por um segundo, escondeu aos seus amantes que esperaria até ao fim da vida pelo pai da filha - e nunca, o que é ainda mais extraordinário, duvidou da reciprocidade do amor desse homem. Lá onde estivesse, ele seria dela como ela era dele. Nesse momento de revelação no interior da igreja decide deixar o amante que escolhera e viver só com a filha, aguardando o improvável reencontro. Mais tarde dirá que teve "uma premonição". E dirá também: "Não há boas nem más escolhas. É preciso que a questão da escolha não se coloque".







Você soube como ninguém mostrar a inteligência, a verdade, o valor imenso das coisas estúpidas. Há páginas e páginas escritas sobre a sua erudição e argúcia, os clássicos em que se inspirou - e que aliás aparecem delicadamente nos filmes, porque você não era um destes pós-modernos que empinam bibliotecas e as despejam como obras suas para brilhar em sociedade - mas a sua singularidade vinha de outra coisa: da observação apaixonada das escolhas humanas. Das justificações racionais fez capas de seda sob as quais refulge o brilho animal dos sentimentos imediatos. Você dá-nos a ver o modo como as pessoas se agitam através dos seus pequenos mundos pelo pavor de olharem para dentro de si mesmas, como se enganam de propósito por medo da felicidade - ou da liberdade, que é a mesma coisa. Você mostra-nos pessoas tristes que engendram esquemas para tornar os outros felizes.







Por estes dias revi os "Contos das Quatro Estações" recentemente editados em DVD, e tive saudades dos filmes que você já não vai poder fazer. Há cada vez mais gente a bradar pela falta de ética, para poder falhar gloriosamente em todos os valores - excepto o do trabalho, que se tornou o capataz dos novos deuses do sucesso e do dinheiro. Os seus filmes mostram, pelo contrário, que os valores estão nas nossas mãos, e que o mundo se altera, minuto a minuto, através das escolhas que fazemos. Quando decidimos não ter tempo para a tristeza de um amigo, ou sequer para decidir o que mais nos importa na vida, estamos a preferir um valor a outro. As escolhas, por sua vez, dependem de expectativas, e as expectativas dessa palavrinha imensa: fé. "O Signo do Leão", o seu primeiríssimo filme, é a história de um rapaz que passa de milionário a sem-abrigo da noite para o dia. Aquilo que o impede de se suicidar é a convicção de que, pertencendo ao signo astrológico de Leão, a miséria será temporária. Essa fé no signo, que é uma outra forma de fé em si mesmo, salvá-lo-á. Nos seus filmes, Eric Rohmer, as pessoas sabiam salvar-se, a si mesmas e umas às outras. E agora eu não sei como vou viver sem as pessoas dos filmes que você já não vai fazer.
Texto publicado na edição da Única de 23 de Janeiro de 2010




O trailler de Conte d'hiver:

http://www.youtube.com/watch?v=BMIW4GrKsYg

domingo, 31 de janeiro de 2010

The XX - nova banda londrina

 Ana Bela Ana,
Deixo-te uma música desta nova banda que actuou há poucos dias na Casa da Música com bilhetes esgotadíssimos. O cd tem o mesmo nome da banda e herdei-o há bem pouco tempo de muitos dos objectos musicais que o Paulinho colocou um pouco de parte. Desta vez tive sorte porque gostei do som minimalista de todas as músicas do álbum e tenho investido algum tempo a ouvi-las cá em casa. Há qualquer coisa de muito íntimo nestas músicas, conseguida através das vozes masculina e feminina que se cruzam com imensa sensualidade sobre uma linha sonora de instrumentos que me parece prosseguir límpida, repetitiva e com um toque de mistério. Não me canso de as ouvir. Vê se gostas, tu também, querida amiga. (Aviso-te que só não deves ver os elementos da banda ao mesmo tempo que ouves as músicas pois eles têm um aspecto gótico de que não gosto e, presumo, te desagradará a ti também...).

http://www.youtube.com/watch?v=kHZVGqqf3gg

o escafandro e a borboleta

                                         Jean-Dominique Bauby, O escafandro e a borboleta, Livros do Brasil, 1999.

Ana Bela Ana,
fiquei muito feliz quando abri a porta do nosso blogue e vi que arranjaste tão bem a nossa entrada...O
quadro de Vieira da Silva concede-nos arte q.b. para ficarmos felizes neste sítio. Que bela surpresa teres conseguido compor tudo o que eu estraguei desastradamente! Mil obrigadas amiga!

Deixo-te o sítio do trailler deste belíssimo filme que vi hoje e nos lembra que a imaginação pode superar quase tudo. Este filme francês foi filmado numa perspectiva nova, fazendo-nos sentir que somos nós próprios a personagem principal, Jean-Dominique Bauby, pois é a nossa visão a própria câmara. Vemos todas as terceiras pessoas, todo o enquadramento cénico com o olho (o único que escapou ao AVC que ele sofreu) de Jean. Aos poucos, esta personagem vai-nos mostrando tudo o que lhe restou - a memória de um passado que amava e que lhe escapa como cinzas. Resta-lhe a esperança de escrever um livro sobre ele próprio (um escafandro onde ele se sentia aprisionado) e a borboleta (o seu espírito livre e imaginativo). É realmente um filme diferente que valeu a pena ver.
"Jean-Dominique Bauby, nascido em 1952, pai de dois filhos, era redactor-chefe da revista francesa Elle quando foi vítima de um locked-in syndrome, uma doença rara, que o deixou lúcido intelectualmente, mas paralisado por completo, só podendo respirar e comer por meios artificiais e mover o olho esquerdo.

Com este olho piscava uma vez para dizer sim e duas vezes para dizer não. Com ele chamava também a atenção do seu visitante para as letras do alfabeto, formando palavras, frases, páginas inteiras. Assim escreveu este livro: todas as manhãs, durante semanas, decorou as suas páginas antes de ditá-las, depois de as ter corrigido mentalmente durante a noite.(...) Bauby faleceu a 9 de Março de 1997, mas deixou este seu testemunho impressionante, bem escrito, e melhor traduzido, do que é ter um intelecto vivo dentro de um corpo morto."



http://www.youtube.com/watch?v=N4yY1yedPEc


quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Biblioteca - Gonçalo M. Tavares

Anabela,
como deves imaginar, já devorei a "Biblioteca" de Gonçalo M. Tavares que de forma tão amiga me cedeste na Feira do livro Cupertino Miranda. Dedica curiosamente este livro a Jacques Brel (gostava de saber porquê...) e num texto preliminar a que dá o nome de Breve nota diz o seguinte:



"O ponto de partida deste livro é a obra dos autores - nunca aspectos biográficos. Uma ideia ou apenas uma palavra mais usada pelo escritor (por vezes, mesmo associações inconscientes e puramente individuais) estão na origem do texto. Mas cada fragmento sege o seu ritmo próprio.
O percurso de leitura poderá ser determinado pelo acaso ou pela vontade dirigida (e não apenas pela sequência da paginação). Agrada-me a ideia de que alguém possa ler alguns destes fragmentos hoje, e outros daqui a alguns anos."

Adorei este fragmento com que me deparei casualmente na letra h, quando procurava vorazmente Harold Bloom:


Hans Magnus Enzensberger



Um homem, com os pés dentro de uma caixa, faz um discurso sobre a rapidez no mundo.
Outro homem, com a cabeça numa caixa, faz um discurso sobre a clareza no mundo.
Um terceiro homem, com uma caixa em redor das ancas, faz um discurso sobre a necessidade de a sedução ser uma prática tão considerada socialmente como a simpatia.
Entretanto, no canto da sala, uma caixa sem homem nenhum permanece imóvel e muda (como seria de esperar). Mas essa caixa perturba. Porque traz um mistério.




Magnus Enzensberger (11 de novembro, 1929 11 de Novembro de 1929 em Kaufbeuren) é poeta, ensaista, tradutor e editor alemão. É também escritor sob o pseudônimo de Andreas Thalmayr, Linda Quilt, Elisabeth Ambras e Serenus M. Brezengang.
Enzensberger estudou
literatura e filosofia nas universidades de Erlangen, Freiburg, Hamburgo e também em Sorbonne, Paris, recebeu seu doutorado em 1955.
Trabalhou como redator na rádio de
Stuttgart e exerceu a docência até 1957, com o volume de poesias Verteidigung der Wölfe (Defesa dos Lobos).
Entre
1965 e 1975 foi membro do Grupo 47. Em 1965 criou a revista "Kursbuch" e desde 1985 edita a série literária Die andere Bibliothek.
Publicou entre outras obras Zigue Zague, O naufrágio do Titanic, Outra Europa.


Também gostei muito do texto para Virginia Wolf. Ora, lê:

Virginia Wolf

Numa festa 1, 2, 3 homns passeiam com os seus quilos e os seus membros.A mulher traz uma rosa que ontem lhe ofereceram. Tem os olhos verdes e as rosas vermelhas. Uma mulher inteligente, mas tem pele, como as outras. O seu cabelo é uma pintura que os homens observam demoradamente. Todos os outros penteados parecem falsificações.

Ela vai começar a falar. Os homens que passeiam os sapatos que o dinheiro lhes deu param para ver a mulher que o dinheiro não lhes dá. Tem os olhos verdes e as rosas vermelhas.