Façamos de todos os dias good days como canta Joanna Newson nesta primeira música do segundo cd magnificamente:
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
HAVE ONE ON ME- JOANNA NEWSON
Um triplo álbum cheio de beleza. Easy é a música que abre o primeiro CD e me enche a casa de palavras e de sons magníficos, de uma misteriosa ambiência, de uma felicidade discreta. O que pode a música...
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Música Patrícia F.
À VOLTA DA EPÍGRAFE
«Que seria, pois, de nós, sem a ajuda do que não existe?»
Paul Valéry, Breve Epístola sobre o Mito
Não resisto a esta epígrafe que Mario Vargas LLosa transpõe para o romance " O Paraíso na outra esquina". Na verdade são as coisas que não existem que nos fazem sonhar e andar de roda de tudo o que é palpável - pessoas, objectos, sítios - como se a partir deles pudéssemos tocar nesse bem maior chamado felicidade.
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Epígrafes Patrícia F.
O PARAÍSO NA OUTRA ESQUINA - MARIO VARGAS LLOSA
Resumo contido na badana do livro:
«Onde se encontra o paraíso? Na construção de uma sociedade igualitária ou no retorno ao mundo primitivo?
Duas vidas: a de Flora Tristán, que põe todos os seus esforços na luta pelos direitos da mulher e dos operários, e a de Paul Gauguin, o homem que descobre a sua paixão pela pintura e abandona uma existência burguesa para viajar para o Tahiti em busca de um mundo não contaminado pelas convenções.
Duas concepções de sexo: a de Flora, que só vê nele um instrumento de domínio masculino, e a de Gauguin, que o considera uma força vital imprescindível posta ao serviço da sua criatividade.
Que têm em comum estas duas vidas desligadas e opostas, à parte o vínculo familiar por ser Flora a avó materna de Gauguin? É isto que Mario Vargas Llosa põe em relevo neste romance: o mundo de utopias que foi o século XIX. Um vínculo entre duas personagens que optam or modelos de vida opostos que revelam um desejo comum: alcançar um paraíso onde seja possível a felicidade para os seres humanos.»
Transcrevo um excerto que se reporta a Flora Tristán no momento anterior à descrição da sua tentativa frustada de pedir ajuda ao Padre Fortin para a concretização bem sucedida do projecto que designa por União Operária:
“Quando regressava ao albergue pelas ruelas curvas e empedradas de Auxerre, viu numa pequena praça com quatro álamos de folhas branquíssimas recém-despontadas um pequeno grupo de meninas que brincavam, formando figuras que as suas corridas faziam e desfaziam. Deteve-se a observá-las. Jogavam ao Paraíso, esse jogo que segundo a tua mãe, tinhas jogado nos jardins de Vaugirard com amiguinhas da vizinhança, sob o olhar risonho de don Mariano. Lembravas-te Florita? «É aqui o Paraíso?» «Não, menina, é na outra esquina.» E enquanto a menina, de esquina em esquina, perguntava pelo esquivo Paraíso, as restantes divertiam-se mudando de lugar nas suas costas. Recordou a impresão daquele dia em Arequipa, no ano de 1833, perto da Igreja de La Merced, em que, de repente, se encontrara com um grupo de rapazes e raparigas que andavam às correrias no saguão de uma casa profunda. «É aqui o Paraíso?» «Na outra esquina, meu senhor.» Esse jogo que julgavas francês era afinal também peruano. Bom, que tinha isso de estranho? Chegar ao Paraíso não era uma aspiração universal? Ela tinha ensinado os filhos, Aline e Ernest-Camille, a jogá-lo.”
Ainda outro que introduz a personagem histórica Paul Gauguin:
“Devia o apodo de Koke a Teha’ amana, a sua primeira mulher da ilha, porque a anterior, Titi Pehitos, essa gralha neo-zelandeza-maori com a qual nos primeiros meses em Taiti vivera em Papeete, a seguir em Paea e finalmente em Mataiea, não tinha sido, falando com propriedade, sua mulher, mas apenas uma amante. Nesses primeiros meses toda a gente lhe chamava Paul.
Chegara a Papeete ao amanhecer de 9 de Junho de 1891, após uma travessia de dois meses e meio desde que largara de Marselha, com escalas em Aden, e Noumea, onde tivera de mudar de barco. Quando pisou, por fim Taiti, acabava de completar quarenta e três anos. Trazia consigo todos os pertences, como que para deixar claro que tinha cortado para sempre com a Europa e Paris: cem jardas de tela para pintar, tintas, óleos e pincéis, uma corneta de caça, dois bandolins, uma guitarra, vários cachimbos bretões, uma velha pistola e um pequeno punhado de roupas usadas. Era um homem que parecia forte – mas a tua saúde estava secretamente minada, Paul -, de olhos azuis um tanto ou quanto saltitantes e movediços, boca de lábios rectos geralmente franzidos numa careta desdenhosa e um nariz quebrado, de aguioto predador. Usava uma barba curta e eriçada e compridos cabelos castanhos, a atirar para o vermelhusco, que pouco tempo depois de chegar a esta cidade de apenas três mil e quinhentas almas (…) cortou, pois, o subtenente Jénot, da Marinha francesa, um dos seus primeiros amigos em Papeete, lhe dissera que, por causa daquele cabelocomprido e do chapelinho moicano à Buffalo Bill que usava na cabeça, os maoris o julgavam, um mahu, um homem-mulher.
Trazia muitas ilusões consigo. (…)”
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Literatura latino-americana Patrícia F.
À VOLTA DA EPIGRAFE
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Epígrafes Patrícia F.
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
MÁRIO VARGAS LLOSA - PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA 2010
Um escritor excepcional merece receber um prémio de excepção. Foi com muita alegria que soube desta notícia. E para homenagear o autor, a literatura e este contentamento deixo um excerto de "A Tia Júlia e o Escrevedor", romance de cariz autobiográfico no qual Vargas LLosa para além de reflectir sobre o próprio acto de escrever - quer através da personagem que representa nesta autoficção quer através de Pedro Camacho, autor de guiões de rádio e textos desprovidos de qualquer hipótese de literariedade mas que serve de inspiração para a escrita de «Marito» ou «Varguitas») - ficciona o seu amor pela primeira mulher, sua tia. Transcrevo para que gostes deste livro e, por extensão, deste escritor:
«Tornara-se habitual a tia Júlia vir à Pan-América.Tínhamos descoberto que era o sítio mais seguro , já que, de facto, contávamos com a cumplicidade de Pascual e do Grande Pablito. Aparecia depois das cinco, hora em que começava um período de calma (...) Os meus companheiros de trabalho, por um acordo tácito, pediam licença para «tomar um cafezinho», de modo que a tia Júlia e eu nos pudéssemos beijar e falar a sós. Às vezes eu punha-me a escrever e ela ficava a ler uma revista ou a conversar com Javier, o qual, invariavelmente, vinha juntar-se a nós por volta das sete. Tínhamos formado um grupo inseparável e os meus amores com a tia Júlia adquiriam, nesse quartinho de tabiques, uma naturalidade maravilhosa. Podíamos estar de mão dada ou beijarmo-nos sem chamar a atenção de ninguém. Isso fazia-nos felizes. Franquear os limites do sótão era sermos livres, donos dos nossos actos, podíamos amar, falar do que nos interessava e sentirmo-nos rodeados de compreensão.Franqueá-los para o exterior era entrar num domínio hostil, onde éramos obrigados a mentir e a escondermo-nos.
- Pode dizer-se que isto é o nosso ninho de amor - perguntava-me a tia Júlia. - Ou também é piroso?
- Claro que é piroso e que não se pode dizer - respondia-lhe eu. Mas podemos chamar-lhe Montmartre.
Brincávamos ao professor e à aluna e eu explicava-lhe o que era piroso, o que não se podia dizer nem fazer e tinha estabelecido uma censura inquisitorial nas suas leituras, proibindo-lhe todos os seus autores favoritos, que começavam por FrankYerby e acabavam com Corín Tellado. Divertiamo-nos como loucos e às vezes Javier intervinha, com uma dialéctica fogosa, no jogo da pirosice.
À leitura de A Tia Eliana assistiram também, porque estavam ali e não me atrevi a mandá-los sair, Pascual e o Grande Pablito e acabou por ser uma sorte porque foram os únicos a gostar do conto, ainda que, como eram meus subordinados, o seu entusiasmo fosse suspeito.Javier achou-o irreal, ninguém iria acreditar que uma família condena ao ostracismo uma rapariga por casar-se com um chinês e assegurou-me que se o marido fosse negro ou índio a história podia salvar-se. A tia Júlia deu-me uma estocada mortal ao dizer-me que o conto tinha saído melodramático e que algumas palavrinhas, como trémula e soluçante, lhe tinham soado muito pirosas. (...)»
p. 144
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Literatura latino-americana Patrícia F.
PARA QUEM O NOBEL?
Nestes breves minutos que antecedem a revelação do nobel da literatura 2010, pergunto-me pela última vez: será que é desta vez que distinguem a poesia? a voz do poeta sueco Tomas Transtromer? Será a poesia a vitoriosa? Deixo um poema dele sobre Lisboa.
LISBOA
No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas subidas.
Havia duas prisões. Uma delas era para os gatunos.
Eles acenavam através das grades.
Eles gritavam. Eles queriam ser fotografados!
Mas aqui", dizia o revisor e ria baixinho, maliciosamente,
"aqui sentam-se os políticos". Eu vi a fachada, a fachada, a fachada
e em cima, a uma janela, um homem,
com um binóculo à frente dos olhos, espreitando
para além do mar.
A roupa pendia no azul. Os muros estavam quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos mais tarde, perguntei a uma dama de Lisboa:
Isto é real, ou fui eu que sonhei?
Tomas Tranströmer
tradução de Luís Costa
LISBOA
No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas subidas.
Havia duas prisões. Uma delas era para os gatunos.
Eles acenavam através das grades.
Eles gritavam. Eles queriam ser fotografados!
Mas aqui", dizia o revisor e ria baixinho, maliciosamente,
"aqui sentam-se os políticos". Eu vi a fachada, a fachada, a fachada
e em cima, a uma janela, um homem,
com um binóculo à frente dos olhos, espreitando
para além do mar.
A roupa pendia no azul. Os muros estavam quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos mais tarde, perguntei a uma dama de Lisboa:
Isto é real, ou fui eu que sonhei?
Tomas Tranströmer
tradução de Luís Costa
JANELAS DO MUNDO
Mais uma janela, esta captada pelo P. e pela paixão que tem pelos pequenos encantos do real. Deixo um excerto de um texto literário de Raúl Brandão, "Memórias", que nos deixa entrar na sua intimidade dado o seu cariz autobiográfico, como esta janelinha vermelha, entreaberta, em madeira gasta pelo tempo voraz, nos permite um devaneio a propósito das vidas que alberga. Espero que gostes:
Se tivesse de recomeçar a vida, recomeçava-a com os mesmos erros e paixões. Não me arrependo, nunca me arrependi. Perdia outras tantas horas diante do que é eterno, embebido ainda neste sonho puído. Não me habituo: não posso ver uma árvore sem espanto, e acabo desconhecendo a vida e titubeando como comecei a vida. Ignoro tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares: extraio ternura de uma pedra. Não sei nem me importo se creio na imortalidade da alma, mas do fundo do meu ser agradeo a DEus ter-me deixado assistir um momento a este espectáculo desabalado da vda. Isso me basta. Isso me enche: (...)
A que se reduz afinal a vida? A um momento de ternura e mais nada...(...) Lá está a velha casa abandonada e as árvores que minha mãe, por sua mão, dispôs: a bica deita a mesma água indierente, o mesmo barco arcaico sobe o rio guiado à espadela pelo mesmo homem do Douro, de pé sobre a gaiola de pinheiro. Só os mortos não voltam. Dava tudo no mundo para os tornar a ver, e não há lágrimas no mundo que os façam ressuscitar.
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Fotografia Patrícia F.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
MILAGRÁRIO PESSOAL - JOSÉ EDUARDO AGUALUSA
E porque por detrás da beleza literária de "Tudo o que tenho trago comigo" de Herta Müller está o horrendo, a angùstia, o desolamento para com o ser humano, não posso deixar de ler intervaladamente o novo romance de José Eduardo Agualusa, ou não fosse ele um romance de celebração da língua portuguesa, da sua beleza, e também um romance de amor, com muita magia como não se podia dispensar. Duas personagens grandes, Iara, uma linguista à procura de neologismos (muito bela como as palavras que fixa e trata) e um angolano, antigo professor dela (alter ego do escritor) que se assume anarquista e cujo passado é sombrio. Os dois personagens partem em busca de palavras cheias de mistério que segundo se diz num documento do século XVII foram roubadas à «língua dos pássaros». O Milagrário Pessoal anunciado no título é uma espécie de diário do professor, onde este vai registando os pequenos grandes milagres que testemunha no seu quotidiano pois afirma ele que os milagres acontecem a cada segundo.
Um livro que me encantou desde a primeira página e até agora só irradia luz (como o autor accredita e afirma em entrevista). Transcrevo, para já, a epígrafe do capítulo I, que é um pequeno tesouro feito de palavras:
« No princípio os homens não falavam. Nenhum animal falava, excepto os pássaros. Havia um saco com palavras que estava à guarda da Andua. Foi então que apareceu um rapaz com um único braço, uma única perna e só metade da cabeça. O rapaz roubou o saco das palavras, abriu o saco e meteu as palavras à boca. Na manhã seguinte, quando despertou, era uma pessoa inteira, mas metade rapaz e metade rapariga. Além disso falava, e a sua língua era ágil e harmoniosa como a dos pássaros.»
De um conto tradicional ovimbundo, em Selecção de Contos,
Provérbios e Adivinhas em Umbundo, de Jeremias Capitango
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Literatura em língua portuguesa Patrícia F.
TUDO O QUE EU TENHO TRAGO COMIGO - HERTA MÜLLER
«Enquanto se fazia a chamada, eu treinava a esquecer-me de mim em sentido e a não separar uma da outra, a inspiração e a expiração. E a rolar os olhos para cima, sem levantar a cabeça. E a procurar no céu o canto de uma nuvem em que pendurar os ossos. Quando já me tinha esquecido de mim e encontrado o cabide celestial, ele segurava-me.
Muitas vezes não havia nuvens, só o mesmíssimo azul, como um lago sem fim.
Muitas vezes as nuvens corriam e não havia um cabide que ficasse quieto. Muitas vezes a chuva ardia nos olhos e colava-me a roupa ao corpo.
muitas vezes o gelo corroía-me as entranhas.
Nesses dias, o céu revirava-me o globo dos olhos para cima, a chamada puxava-os para baixo e os ossos penduravam-se constantemente só em mim.
O capataz dos deportados, o kapo Tur Prikulitsch, circulava empertigado entre nós e o comandante Chichtvanionov, as listas listas deslizavam-lhe pelos dedos, amarrotadas de tanto folhear. Todas as vezes que chamava um número, o peito dele sacudia como nos galos. Ainda tinha mãos de criança. As minhas mãos tinham crescido dentro do campo, quadradas, duras e rasas como duas tábuas.
Quando algum de nós, depois da chamada, se enchia de toda a coragem que tinha e perguntava a um dos natchalniks, ou mesmo ao comandante de campo Chichtvanionov, quando poderíamos voltar para casa, diziam lacónicos: SKORO DOMÓIE. Significava: Em breve partem.»
pp.29, 30
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Literatura Alemã Patrícia F.
It's oh so quiet - Björk
(Linda amiga, é só clicar:)
http://www.youtube.com/watch?v=G1A_uSEjTIQ
it's, oh, so quiet
it's, oh so still
you're all alone
and so peaceful until ...
you fall in love
zing boom
the sky up above
zing boom
is caving in
wow bam!!!
you've never been so nuts about a guy
you wanna laugh you wanna cry
you cross your heart and hope to die
'til it's over and then
it's nice and quiet
but soon again
starts another big riot
you blow a fuse
zing boom
the devil cuts loose
zing boom
so what's the use
wow bam
of falling in love
it's, oh, so quiet
it's, oh, so still
you're all alone
and so peaceful until...
you ring the bell
bim bam
you shout and you yell
hi ho ho
you broke the spell
gee, this is swell you almost have a fit
this guy is "gorge" and I got hit
there's no mistake this is it
'til it's over and then
it's nice and quiet
but soon again
starts another big riot
you blow a fuse
zing boom
the devil cuts loose
zing boom
so what's the use
wow bam
of falling in love
the sky caves in
the devil cuts loose
you blow blow blow blow blow your fuse
when you've fallen in love
ssshhhhhh...
http://www.youtube.com/watch?v=G1A_uSEjTIQ
http://www.youtube.com/watch?v=G1A_uSEjTIQ
it's, oh, so quiet
it's, oh so still
you're all alone
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Música Patrícia F.
Porque hoje é preciso dançar, um hit de Bjork e dos Sugar Cubes - a cantora nos seus primórdios, fantasticamente cheia de voz e de ritmo - como os escritores geniais nas suas primeiras obras. Viva a República!
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Música com algumas notas Patrícia F.
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
LIVRO DO DESASSOSSEGO - EXCERTOS QUE ABALAM
O meu mundo imaginário foi sempre o único mundo verdadeiro para mim. Nunca tive amores tão reais, tão cheios de verve, de sangue e de vida como os que tive com figuras que eu próprio criei. Que loucos! Tenho saudades deles porque, como os outros, passam...»
Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Assírio e Alvim, p. 358
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Literatura Portuguesa Patrícia F.
VIDA SECRETA - PASCAL QUIGNARD
Um excerto (do Capítulo I) deste livro mostra a verdade da comunicação proferida pela espanhola Laura Eugenia Tudoras sobre a literatura francesa do século XXI e as suas linguagens. Nota o silêncio que ela sublinhava na obra de Quignard aqui presente. Nota a beleza que ele atinge em frases curtas como na poesia. Nota que ele é um poeta sentado nos seus romances:
«Os rios mergulham perpetuamente no mar. A minha vida no silêncio. Toda a idade é aspirada pelo seu passado como o fumo pelo céu.
Em 1993, M. e eu vivíamos em Atrani. Um porto minúsculo situado ao longo da costa amalfitana, abaixo de Ravello. Mal se pode dizer que seja um porto. Quando muito um ancoradoiro.
Tinha de subir cinquenta e sete degraus no flanco da falésia. Entra-se num antigo oratório edificado pela Ordem de Malta e dotado de dois terraços em ângulo que davam para o mar. Só se via o mar. Por todo o lado, só se via o mar branco, movediço, vivo, frio da Primavera. (...)
Em 1993 M. estava silenciosa.
M. era mais romana que os romanos (ela tinha nascido em Cartago). Era muito bela.O italiano que ela falava era magnífico. Mas M. ia fazer trinta e três anos e lembro-me que se tornara silenciosa.
Em toda a paixão há um ponto de saturação que é terrível.
Quando se chega a este ponto, sabe-se, de repente, que impotente para aumetar a febre do que se está a viver, ou mesmo incapaz de a perpetuar, ela vai morrer.Chora-se antecipadamente, bruscamente, no íntimo de si mesmo, num canto da rua, à pressa, levado pelo medo de se dar infelicidade a si mesmo, mas também por profilaxia, na esperança de vencer ou de atrasaro destino.
Argumento é uma palavra antiga que quer dizer a brancura da aurora. É tudo o que se ilumina e se discerne nesta palidez que surge em alguns instantes. Peremptório é o argumento: nunca é possível desviar o rio no instante exacto da sua cheia.
Assim como não é fácil parar o dia na sua aurora.
Espera-se.
Espera-se sem nada poder fazer, subitamente, numa contemplação tornada infeliz.
Ou o amor surgirá da paixão, ou nunca nascerá.
É verdade que não é fácil desenfeitiçar este momento petrificado. Cada um tem de superar este passo estranho em que tudo o que era descoberta no fundo da alma descobre que não descobrirá mais.
Onde tudo se põe a reconhecer.
(...)
Só se ama uma vez. E a única vez em que se ama não se sabe, uma vez que o estamos a descobrir.»
domingo, 3 de outubro de 2010
DENTRO DE MIM FAZ SUL - ONDJAKI
à noite
chegam ecos de paz
a garganta adormecida
a língua quieta
um sono encantador solidifica
as veias
as flores dão cheiro
ao corpo
a guardiã da noite está sentada
e sorridente
sinto o eco de mãos batendo
em satisfação,
as mãos e o tempo
anunciando
a entrada no templo.
à noite
um sangue coagulador invade
as veias
as flores morrem
sobre o corpo
a garganta arrefecida
a língua quieta.
à noite
chegam ecos de passos
que não pisámos
o outro lado dos olhos
uma nova pele.
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Poesia Patrícia F.
«O infinito, meu caro, é bem pouca coisa; é uma questão de escrita. O universo só existe no papel.»
Paul Valéry, Monsieur Teste
Paul Valéry, Monsieur Teste
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Sobre a escrita Patrícia F.
sábado, 2 de outubro de 2010
THE ARCADE FIRE
Uma vez que o novo trabalho desta banda está já à mão de todos, deixo algumas músicas do anterior trabalho das quais tenho dificuldade de me despedir... Esta é uma delas (insubstituivel no novo álbum!). Ouve-se muito alto. Bjs, linda amiga. Primeiro Haiti:
Agora Rebellion:
Agora Rebellion:
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Música Patrícia F.
THE ARCADE FIRE
Quando se fecha uma música
ela jamais se deixa abater
como um objecto uma pessoa
pelo contrário
o seu corpo cresce cresce
e engrandece
quem lhe queira abrir a porta.
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Música com notas Patrícia F.
THE BOOK OF RIGHT-ON - JOANNA NEWSON
Uma música lembra por vezes uma viagem
uma velocidade extrema que se alcança
da negritude de uma noite alcatroada
do volante agudamente apontado
para uma vontade de ir a todo o lado
e de andar à deriva sobre as luzes do mundo.
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Música com notas Patrícia F.
UN COEUR INTELLIGENT - ALAIN FINLIELKRAUT
A propósito deste livro do filósofo francês que tanto nos impressionou a partir das inúmeras reflexões sobre o papel humanizador da literatura, dixo-te uma página onde podes ler um pouco sobre ele e um excerto da entrevista que a Lire lhe fez a propósito deste "Coração inteligente":
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Sobre a literatura Patrícia F.
CARTAS A SANDRA - VERGÍLIO FERREIRA
Para ti Caridee, que conquistas com as tuas palavras tudo o que desejas... Deixo-te uma carta literária, das mais belas que conheço, desta vez da literatura portuguesa e do autor que tanto gosto de ler porque nunca se esgota. Transcrevi o início da carta (e do livro) e o final da primeira das dez cartas que Paulo escreve a Sandra (equivalente ao final do primeiro capítulo deste romance epistolar).Espero que sintas o prazer que a sua poderosa escrita sobre o amor desperta aos nossos olhos. Aqui vai, lê-a como se fosse também para ti, depois de passares a velhice e a vida:
Sandra. Hoje a obsessão foi mais forte. Escrever-te. A nossa história que contei parecia-me intocável. Princípio e fim de nós nela, a tua morte selara-a para sempre. E todavia é nessa eternidade que a tua memória me perturba e a imagem terna do teu encantamento. Deves talvez lembrar-te de que nunca me escreveste. Mas eu escrevi-te algumas vezes quando vinha a férias e a emoção era demais. E um dia perguntei-te se tinhas guardado essas cartas. Tu olhaste-me com o teu sorriso breve e repreensivo. Rasguei-as, naturalmente, disseste, e porque havia de guardá-las? Gostava de as reler, de as ter, disse eu. Para recuperar o que fui nelas e o que houve nelas de ti. Que tolice, disseste ainda, a adolescência passou.
Sandra. Hoje a obsessão foi mais forte. Escrever-te. A nossa história que contei parecia-me intocável. Princípio e fim de nós nela, a tua morte selara-a para sempre. E todavia é nessa eternidade que a tua memória me perturba e a imagem terna do teu encantamento. Deves talvez lembrar-te de que nunca me escreveste. Mas eu escrevi-te algumas vezes quando vinha a férias e a emoção era demais. E um dia perguntei-te se tinhas guardado essas cartas. Tu olhaste-me com o teu sorriso breve e repreensivo. Rasguei-as, naturalmente, disseste, e porque havia de guardá-las? Gostava de as reler, de as ter, disse eu. Para recuperar o que fui nelas e o que houve nelas de ti. Que tolice, disseste ainda, a adolescência passou.
E, no entanto, nesta casa vazia e enorme, no silêncio da Terra que me aturde, é essa adolescência que regressa, e com ela a tua fala séria e doce. Escrever-te. Possivelmente irei fazê-lo mais vezes até ver se no escrever se me esgota a tua fascinação. Tenho algumas fotografias tuas, mas o que procuro nelas não está lá. E é decerto por isso que raramente volto a vê-las. Porque tu nunca foste real para eu te poder amar. E é essa irrealidade amada que estremece na minha comoção e no êxtase leve de te imaginar. Podia no entanto lembrar-te em tanta situação da vida que nos coube. No dia em que a Xana nasceu. Numa praia iluminada do Sul. na noite em que conheci a ternura do teu corpo. Na tarde em que me disseste sim, podemos experimentar. Nos intervalos da nossa monotonia que também houve. No difícil da vida para ela se cumprir toda. Na tua morte. Escrever-te. Escrever-te. Talvez te conte do muito que não contei e tu me não digas que tolice. Mas por sobre tudo o que poderia lembrar, há uma imagem obsessiva de ti e é a que sempre se me levanta ao incerto da evocação. Na realidade nunca te esqueço no dia a dia que te esquece. Mas ficas um pouco ao lado, à espera de que eu volte de novo a olhar-te. É uma imagem fluida e intensa, essa que se me ergue sempre, e eu penso que possivelmente é a de quando te vi pela primera vez. Mesmo que não fosse a primeira e que estivesse então distraído do meu amor que passava em ti. Eu estava sentado com outros colegas num murete do jardim da Faculdade.. E a certa altura tu irrompeste de algures, do impossível, talvez afinal da tua casa que eu soube mais tarde que ficava ao pé. E o que se fixou na lembrançae imediatamente me aparece ao vaguear da evocação foi o movimento em filigrana da tua anca subtil, o aéreo do teu passar no teu equlíbrio frágil, a tua face doce e triste. E então imobilizo-te antes de a aragem te levar, para te ver bem.E assim te fixo a coxa fina, suavemente modelada pelo teu vestido, o pé à frente, firme e delicado. Verdadeiramente não sei bem o que o tempo me filtrou. É Outono, está sol, e há ainda no ar uma memória de Verão. É assim possível que tragas um vestido leve, provavelmente com o teu casaco solto de xadrez que te descia um pouco abaixo do joelho. Mas não e dá jeito lembrar-te assim. Talvez porque o teu vestuário flutuante não deixe traçar a modulação do teu corpo. E eu sinto-a ainda no lineamento do teu passar. Trarás por isso talvez um casaco justo, escuro e comprido, para existir sob ele o teu ondeado gentil. Mas quero dizer-te que ao lembrar-te não és só tu a existires. Há a cidade solar que te envolve e eu vejo sem a ver quando vens à minha lembrança. E kmais alto, como um esplendor, o eco de uma balada. E tudo isso és tu, minha querida. A tua intocável beleza, e o espaço e a melodia em que ela se inscreve. (...)
A tarde apaga-se lenta, a Deolinda deve estar a vir aquecer-me o jantar. E eu suspendo a obsessão de te dizer todo o maravilhoso de ti, antes de te imaginar a breve ruga na face e ouvir-te dizer que tolice. Não digas. Se te sentasses aqui à braseira. E se te demorasses comigo um pouco e olhássemos em silêncio a grande noite que desce. Em silêncio. Não te dizer mais nada. E tomar-te apenas a tua mão franzina na minha. E sorrires.
Paulo
Para saberes um pouco mais sobre este livro:http://www.infopedia.pt/$cartas-a-sandra
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Literatura Portuguesa Patrícia F.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
COMMENT PEUT-ON ÊTRE FRANÇAIS? - CHAHDORTT DJAVANN
Linda amiga deixo um excerto desta obra, a terceira carta escrita por Roxane a Montesquieu-morto,com quem aprendeu a língua francesa e a genialidade literária, pelo que percebi. Espero que gostes como eu gostei. Prepara os teus rrrrr e goza este momento de literatura francesa ...transnacional. Bjs
Lettre III
Monsieur Charles de Montesquieu
61 avenue Montaigne, 75008 Paris.
Mon cher Montesquieu,
Alors que je commençais à suivre les cours à la Sorbonne, il y a quelques mois, je me suis trouvée un jour dans une assemblée où il y avait des gens érudits et bien avisés ; ils parlaient de Montaigne, de la sagesse de ses Essais et de sa grande amitié avec monsieur de La Boétie, de l'admiration de monsieur Voltaire pour Montaigne et de la haine de monsieur Pascal contre Montaigne. Imaginez la grandeur de mon ignorance, car je me disais tout bas en les écoutant et sans tout comprendre bien sûr : qu'un homme puisse avoir de l'amitié pour une montagne est tout à fait concevable, qu'un autre ait pour elle de l'admiration ou encore de la haine, bien que cela soit fort bizarre, reste recevable, mais comment la montagne peut-elle posséder de la sagesse, une sagesse intrinsèque? A deux reprises, j'ai failli les questionner et leur dire que je ne comprenais rien à tout ce qu'ils racontaient, mais heureusement ma sottise était limitée puisque j'optais pour ne point parler. Lorsque le soir, assez tard, je suis rentrée chez moi, fort intriguée par tant de discussions enflammées au sujet des montagnes, je me suis acharnée sur les deux dictionnaires, le Petit Robert, et le Robert des noms propres. Effectivement, comme je l'avais imaginé, je n'ai pas trouvé la moindre trace de sagesse dans la description de la montagne, mais j'ai remercié ma prudence lorsque j'ai découvert le nom du grand écrivain Montaigne.
Voilà comment on peut faire la connaissance d'un grand Stoïcien.
Mieux vaut avoir une tête bien faite qu'une tête bien pleine, dit Montaigne, mais la mienne était trop vide.
[...]
Je lis, comme je vous l'ai dit, en désordre, je passe d'un siècle à l'autre, d'un auteur à l'autre, avec une légéreté qui pourrait paraître déconcertante. C'est que je suis une femme impatiente, émotive, dispersée au plus haut point et irrémédiablement indisciplinée. Ce ne sont pas des qualités, je le sais, mais je pense qu'il est trop tard, à 25 ans passés, pour tenter de m'éduquer. J'ai tant à apprendre, je souffre de mes insuffisances, mon inculture m'attriste. Les filles Françaises de mon âge savent beaucoup de choses que j'ignore. Pour me consoler, je me dis chaque soir que je suis moins ignorante que la veille : piètre consolation.
Justement il est temps de me coucher. Je vous abandonne, monsieur, je reprendrai ma lettre demain.
[...]
En feuilletant les manuel qui remettent les textes dans leur contexte, j'ai l'impression que les auteurs et leurs oeuvres constituent des couches géologiques de l'histoire, mais aussi que certains de leurs thèmes (la solitude et l'amour, le souvenir et l'oubli, l'être et l'apparence, la vie et la mort...) sont des filons qui sinuent d'une couche à l'autre. Excusez mon éclectisme. Mais je ne résiste pas au plaisir de vous citer dès aujourd'hui quelques noms parmi les auteurs qui sont venus après vous, comme on aime à parler de ses amis à un ami. J'en parle d'autant plus à mon aise que vous ne les avez pas connus.
Tout d'abord Monsieur de Chateaubriand, un écrivain immense, dont le style inspire encore aujourd'hui quelques auteurs. Il parle constamment du passage inexorable du temps, essaie d'anticiper la mort en écrivant ses Mémoires d'outre-tombe. Je suis attendrie par la discrète mélodie de Nerval qui, semblable à d'autres poètes, confondit toujours ses rêves et ses souvenirs, avant de céder à la folie et de se suicider une nuit à Paris, près de la Seine, ou par la mélancolie de Baudelaire, qu'il appelle le spleen, et qui ne s'exprime jamais si bien que dans ses Tableaux parisiens - Baudelaire que fascinent également le spectacle de la mer et l'idée de la mort.
Et puis, il y a les romans...vous avez été un romancier, cher Montesquieu, un romancier d'un genre particulier, un précurseur comme Choderlos de Laclos avec ses Liaisons dangereuses. Mais le siècle du roman aura été celui qui a suivi le vôtre, le XIXème siècle, dominé en France par les grands noms de Balzac, Stendhal, Flaubert (fort cruel), Maupassant (dont j'ai lu presque toute l'oeuvre)...L'histoire et la société sont présentes dans le roman, et on les saisis par la manière dont elles pèsent sur les destins personnels. Les individus sont-ils autre chose que ce que leur époque en fait? C'est la grande question posée par le roman, et jamais aussi fortement qu'au XIXème siècle. [...]
J'ai maintenant une dizaine de cahiers de notes où j'écris les nouveaux mots et mes passages préférés de chaque texte. C'est peut-être un peu idiot de faire ça, mais j'aime l'illusion de croire ainsi les posséder.
Avec assiduité, votre Roxane préférée.
PS : Je passe ma vie à apprendre depuis que je suis à Paris. Tout m'intéresse, tout m'étonne, tout m'émerveille. Mon enthousiasme me transforme en enfant. Même si je ne serai jamais une érudite. Je vous parlerai peut-être plus tard des écrivains d'aujourd'hui ; pour le moment je ne fais qu'aborder les oeuvres du début du XXème siècle."
Voilà, si ce long extrait ne vous a pas convaincu (désolée, j'ai coupé pourtant...) au moins vous avez de la matière pour les questions "marron" du trivial poursuit, c'est toujours ça de gagné.
J'avais envie de le noter, il fait référence à quelques bouquins dont je ne m'aventurerai pas à faire un article sur ce blog, me limitant à mes nouvelles lectures. Voilà une manière de faire tout de même allusion à quelques grands noms de la littérature du 18ème et 19ème que j'affectionne!
Lettre III
Monsieur Charles de Montesquieu
61 avenue Montaigne, 75008 Paris.
Mon cher Montesquieu,
Alors que je commençais à suivre les cours à la Sorbonne, il y a quelques mois, je me suis trouvée un jour dans une assemblée où il y avait des gens érudits et bien avisés ; ils parlaient de Montaigne, de la sagesse de ses Essais et de sa grande amitié avec monsieur de La Boétie, de l'admiration de monsieur Voltaire pour Montaigne et de la haine de monsieur Pascal contre Montaigne. Imaginez la grandeur de mon ignorance, car je me disais tout bas en les écoutant et sans tout comprendre bien sûr : qu'un homme puisse avoir de l'amitié pour une montagne est tout à fait concevable, qu'un autre ait pour elle de l'admiration ou encore de la haine, bien que cela soit fort bizarre, reste recevable, mais comment la montagne peut-elle posséder de la sagesse, une sagesse intrinsèque? A deux reprises, j'ai failli les questionner et leur dire que je ne comprenais rien à tout ce qu'ils racontaient, mais heureusement ma sottise était limitée puisque j'optais pour ne point parler. Lorsque le soir, assez tard, je suis rentrée chez moi, fort intriguée par tant de discussions enflammées au sujet des montagnes, je me suis acharnée sur les deux dictionnaires, le Petit Robert, et le Robert des noms propres. Effectivement, comme je l'avais imaginé, je n'ai pas trouvé la moindre trace de sagesse dans la description de la montagne, mais j'ai remercié ma prudence lorsque j'ai découvert le nom du grand écrivain Montaigne.
Voilà comment on peut faire la connaissance d'un grand Stoïcien.
Mieux vaut avoir une tête bien faite qu'une tête bien pleine, dit Montaigne, mais la mienne était trop vide.
[...]
Je lis, comme je vous l'ai dit, en désordre, je passe d'un siècle à l'autre, d'un auteur à l'autre, avec une légéreté qui pourrait paraître déconcertante. C'est que je suis une femme impatiente, émotive, dispersée au plus haut point et irrémédiablement indisciplinée. Ce ne sont pas des qualités, je le sais, mais je pense qu'il est trop tard, à 25 ans passés, pour tenter de m'éduquer. J'ai tant à apprendre, je souffre de mes insuffisances, mon inculture m'attriste. Les filles Françaises de mon âge savent beaucoup de choses que j'ignore. Pour me consoler, je me dis chaque soir que je suis moins ignorante que la veille : piètre consolation.
Justement il est temps de me coucher. Je vous abandonne, monsieur, je reprendrai ma lettre demain.
[...]
En feuilletant les manuel qui remettent les textes dans leur contexte, j'ai l'impression que les auteurs et leurs oeuvres constituent des couches géologiques de l'histoire, mais aussi que certains de leurs thèmes (la solitude et l'amour, le souvenir et l'oubli, l'être et l'apparence, la vie et la mort...) sont des filons qui sinuent d'une couche à l'autre. Excusez mon éclectisme. Mais je ne résiste pas au plaisir de vous citer dès aujourd'hui quelques noms parmi les auteurs qui sont venus après vous, comme on aime à parler de ses amis à un ami. J'en parle d'autant plus à mon aise que vous ne les avez pas connus.
Tout d'abord Monsieur de Chateaubriand, un écrivain immense, dont le style inspire encore aujourd'hui quelques auteurs. Il parle constamment du passage inexorable du temps, essaie d'anticiper la mort en écrivant ses Mémoires d'outre-tombe. Je suis attendrie par la discrète mélodie de Nerval qui, semblable à d'autres poètes, confondit toujours ses rêves et ses souvenirs, avant de céder à la folie et de se suicider une nuit à Paris, près de la Seine, ou par la mélancolie de Baudelaire, qu'il appelle le spleen, et qui ne s'exprime jamais si bien que dans ses Tableaux parisiens - Baudelaire que fascinent également le spectacle de la mer et l'idée de la mort.
Et puis, il y a les romans...vous avez été un romancier, cher Montesquieu, un romancier d'un genre particulier, un précurseur comme Choderlos de Laclos avec ses Liaisons dangereuses. Mais le siècle du roman aura été celui qui a suivi le vôtre, le XIXème siècle, dominé en France par les grands noms de Balzac, Stendhal, Flaubert (fort cruel), Maupassant (dont j'ai lu presque toute l'oeuvre)...L'histoire et la société sont présentes dans le roman, et on les saisis par la manière dont elles pèsent sur les destins personnels. Les individus sont-ils autre chose que ce que leur époque en fait? C'est la grande question posée par le roman, et jamais aussi fortement qu'au XIXème siècle. [...]
J'ai maintenant une dizaine de cahiers de notes où j'écris les nouveaux mots et mes passages préférés de chaque texte. C'est peut-être un peu idiot de faire ça, mais j'aime l'illusion de croire ainsi les posséder.
Avec assiduité, votre Roxane préférée.
PS : Je passe ma vie à apprendre depuis que je suis à Paris. Tout m'intéresse, tout m'étonne, tout m'émerveille. Mon enthousiasme me transforme en enfant. Même si je ne serai jamais une érudite. Je vous parlerai peut-être plus tard des écrivains d'aujourd'hui ; pour le moment je ne fais qu'aborder les oeuvres du début du XXème siècle."
Voilà, si ce long extrait ne vous a pas convaincu (désolée, j'ai coupé pourtant...) au moins vous avez de la matière pour les questions "marron" du trivial poursuit, c'est toujours ça de gagné.
J'avais envie de le noter, il fait référence à quelques bouquins dont je ne m'aventurerai pas à faire un article sur ce blog, me limitant à mes nouvelles lectures. Voilà une manière de faire tout de même allusion à quelques grands noms de la littérature du 18ème et 19ème que j'affectionne!
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Literatura francesa Patrícia F.
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Um caso de literatura transnacional em francês: exílio e escrita na obra de Chahdortt Djavann
por Cristina ÁLVARES /Universidade do Minho)
A comunicação centra-se no romance Comment peut-on être français?, de Chahdortt Djavann, escritora iraniana exilada em França, situando-o no contexto da sua obra ficcional e ensaística e delineando as suas coordenadas ideológicas e estratégias narrativas gerais.
A particularidade deste romance reside na representação do exílio da personagem, Roxane, como um projecto de desenraizamento ontológico, relevando do ideal iluminista e moderno (ideal partilhado por outras escritoras exiladas como Ayaan Hirsi Ali e Wassyla Tamzali) que consiste em cortar radicalmente com as tradições particulares para lhes substituir a lei na sua universalidade e neutralidade. A forma da lei é a língua francesa. A aprendizagem do Francês, através da prática da escrita epistolar, faz emergir Roxane como um sujeito esvaziado das suas representações e conteúdos particulares, sustentado apenas pelo desejo da lei-língua, e coloca-a num espaço de intersecção vazia, que anula tanto a identidade iraniana (inata e rejeitada)como a identidade francesa (escolhida e desejada). Esta experiência de não-identidade e de não-pertença, dita e escrita em Francês, funda uma ideia comum a vários escritores oriundos de países tão diversos como a China, a Eslovénia, o Irão, Israel, Hungria, entre outros, e que escrevem em francês: desprovidos de identidade e nacional, eles pertencem à literatura. ‘L’exil est mon essence et l’écriture ma naissance’, escreve Djavann no seu último ensaio. A produção literária de Djavann insere-se assim no âmbito daquilo a que Michel Le Bris chama a literatura-mundo em francês: uma literatura que liberta a língua do pacto exclusivo com a nação, ao mesmo tempo que ultrapassa o contexto pós-colonial das literaturas francófonas, situadas num espaço de tensão entre ex-metrópole e excolónias, entre centro e margens (a crítica de Le Bris ao conceito de Francofonia aponta precisamente o seu efeito marginalizante). Daí que muitos estudiosos qualifiquem a literatura transnacional em Francês como literatura pós-francófona ou pós-pós-colonial.
O romance de Djavann apresentar o Francês como uma língua de libertação (e não de opressão como é frequente entre os escritores pós-coloniais), uma língua que liberta de formas de opressão outras que não as coloniais (neste caso as praticadas pela República Islâmica do Irão). O Francês permite ao sujeito transcender a sua cultura de origem (família, língua, religião) e abrir no seu seio um espaço de indeterminação, de liberdade.
Referências
DJAVANN, C., Je viens d’ailleurs, Paris, Autrement, 2002
DJAVANN, C., Bas les voiles !, Paris, Gallimard, 2003
DJAVANN, C., Que pense Allah de l’Europe ?, Paris, Gallimard, 2004
DJAVANN, C., Comment peut-on être français ?, Paris, Flammarion, 2006
DJAVANN, C., À mon corps défendant, l’Occident, Paris, Flammarion, 2007
DJAVANN, C., La muette, Paris, Flammarion, 2008
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sobre literatura Patrícia F.
terça-feira, 28 de setembro de 2010
Traduzido por José Mário Silva "Bibliotecas cheias de fantasmas" estará nas livrarias no dia 8 de Outubro. É sempre emocionante ler livros sobre livros, sobre esses paraísos que são, afinal de contas, as bibliotecas, sobre os autores que gostam tanto de livros que até fazem livros sobre essa própria paixão.. Estou impaciente à espera disto e dos fantasmas. A capa também me parece de pasmar.
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sobre livros Patrícia Fontinha
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
THE LOUNGE LIZZARDS
Em viagem de fim-de-semana Jonh Lurie e os Lounge Lizzards expulsaram-me do real. Este Jazz, com os sons dos instrumentos desencontrados (alguns mesmo de costas viradas contra os outros), permite que o ser humano se encontre ...em quase todos os sons. Adorei a arte que passa e as respectivas legendagens. A viagem ao volante parecida com a minha, a ganhar ora proximidade da espectacular arquitectura da cidade, ora distância da imensa mãe-montanha. Bjs de regresso a casa para ti, linda amiga e para a Rita que não vai ouvir isto que toca...
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JAZZ Patrícia F.
sábado, 25 de setembro de 2010
Yusef e Ondjaki
Doçura, não resisto a dar-te a música que ouço insistentemente sem parar porque para mim enferma um exotismo invulgar, um encantamento ou chamamento ao qual não consigo resistir... E porque leio o magnífico Ondjaki que sabiamente me ofereceste, a conjugação é sublime........
Obrigada por seres minha amiga... minha irmã ... minha confidente...
Obrigada por seres minha amiga... minha irmã ... minha confidente...
"quero perder-me na densidade poética da nuvem"
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anabela
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
FOREST - NOUVELLE VAGUE
Deixo-te nesta floresta encantada com a encantadora banda "Nouvelle Vague" e uma versão deste tema lindíssimo dos The Cure que muito ouvi na minha adolescência, e tu na tua com muita certeza. Bjs e bom fim-de-semana.
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Música Patrícia F.
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
JANELAS DO MUNDO
Da rua vejo a janela como um nicho de histórias secretas que não são minhas. Por isso invejo quem está por detrás dela e não sabe que é personagem imaginada.
«As figuras do sonho não conhecem o sonho de que são figuras»
F. Pessoa
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Fotografia Patrícia F.
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
E porque hoje é Outono!
Doçura, e porque hoje é Outono... aceitei o teu repto e mudei o visual do nosso cantinho onde dia após dia, trazemos as nossas confidências... ao sabor de um belo chá quente... que apetece nesta época... acompanhado de muitos sorrisos... Obrigada pelo poema de Outono e que é lindo!!!!
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anabela
AQUILO QUE EU GOSTO NO TEU CORPO
Francis Bacon, Estudo sobre o Corpo Humano
Aquilo de que eu gosto no teu corpo é o sexo.
Aquilo de que eu gosto no teu sexo é a boca.
Aquilo de que eu gosto na tua boca é a língua.
Aquilo de que eu gosto na tua língua é a palavra.
Julio Cortázar, Papéis Inesperados
Um poema pode fazer-se como uma música: repetitivo, estimulante, expansivo, cortante, surpreendentemente directo, sensual. Cortázar também vive ainda nos poemas que deixou.
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Poesia Patrícia F.
ENTROU O OUTONO
entrou o outono pela terra batida
que empurrou de vez o verão
contra um tempo sumarento
contra quentes dias contados
abriu uma brecha muito fria
logo de manhazinha
na planta dos pés
uma ferida uma nostalgia
uma necessidade viva e daninha
de pisar arrasar transmutar
as flores em folhas em morte
ressequidas torcidas saudosas
para que a mudança perpetue
todas as vidas sofridas
PS: Linda amiga, fico à espera do novo outono que darás ao nosso hall, à nossa casa digital como de pão para a boca...bjs
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Surto de Escrita Patrícia F.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
PAPEIS INESPERADOS - JULIO CORTÁZAR
O prometido é devido por isso transcrevo alguns excertos do texto de Cortázar de que te falei. Aqueles em que os meus olhos pararam, contentes de alguém dizer o que eu queria ouvir ou, neste caso, ler :
Mais informações sobre este livro póstumo na livraria Pó dos Livros (cuidado com o pó ao abrir o endereço, não vás espirrar sem contar...):
http://livrariapodoslivros.blogspot.com/2010/07/papeis-inesperados.html
ESSÊNCIA E MISSÃO DO PROFESSOR
« (...)
Ser professor significa estar na posse dos meios conducentes à transmissão de uma civilização e de uma cultura; significa construir no espírito e na inteligência (...) o panorama cultural necessário para capacitar o seu ser no nível social contemporâneo e, simultaneamente, estimular tudo o que há de belo, de bom, de aspiração à total realização (...). Dupla tarefa, portanto: a de instruir, educar e a de dar asas aos anseios que existem, embrionários, em toda a consciência nascente. O professor estende-se para a inteligência, para o espírito e, finalmente, para a essência moral que repousa no ser humano. (...) deve ainda assim cumprir a profunda viagem para o interior desse espírito e dele regressar, trazendo, para maravilha dos olhos do seu educando, a noção de bondade e a noção de beleza: ética e estética , elementos essenciais na condição humana.
Nada disto é fácil. (...) O homem é inteligência mas também é sentimento, e anseio metafísico, e sentido religioso. O homem é um composto; da harmonia das suas possibilidades surge a perfeição. Por isso ser culto significa atender ao mesmo tempo a todos os valores e não meramente aos intelectuais. Ser culto é saber sânscrito, se quiserem, mas também maravilhar-se diante de um crepúsculo; ser culto é encher fichas acerca de uma disciplina que se cultiva com preferência, mas também é emocionar-se com uma música ou um quadro, ou descobrir o íntimo segredo de um verso ou de uma criança. Talvez se percebesse melhor o meu pensamento decantado neste conceito de cultura: a atitude integralmente humana, sem mutilações, que resulta de um longo estudo e de uma ampla visão da realidade.
Assim tem de ser o professor. (...)»
Mais informações sobre este livro póstumo na livraria Pó dos Livros (cuidado com o pó ao abrir o endereço, não vás espirrar sem contar...):
http://livrariapodoslivros.blogspot.com/2010/07/papeis-inesperados.html
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Literatura latino-americana Patrícia F.
ROSA NEGRA
Espreita uma rosa negra
para cá da janela do quarto.
É fria.
É funda.
É como um poço
onde a escuridade assusta.
Não há corda para lá das pétalas reflectidas.
Estou perdida.
Uma rosa negra é uma noite esguia.
Uma noite fugidia que se aperta na mão
e se desfaz. Cheiro-a,
por dentro das curvas,
e os olhos fecham-se devagar
até lá longe
perto do caule onde assenta o negro
os teus olhos negros despontarem
cercando pétala sim pétala não
um medo mudo
fazendo o meu sonho girar.
E durmo dentro desse mundo.
Um poema com que se sonha deve ser logo escrito sob pena de desaparecer dos sentidos e nunca mais poder ser visto por quem o vislumbrou. Para ti amiguinha, que me dás os poemas que mais gostas. Espero que gostes muito.
para cá da janela do quarto.
É fria.
É funda.
É como um poço
onde a escuridade assusta.
Não há corda para lá das pétalas reflectidas.
Estou perdida.
Uma rosa negra é uma noite esguia.
Uma noite fugidia que se aperta na mão
e se desfaz. Cheiro-a,
por dentro das curvas,
e os olhos fecham-se devagar
até lá longe
perto do caule onde assenta o negro
os teus olhos negros despontarem
cercando pétala sim pétala não
um medo mudo
fazendo o meu sonho girar.
E durmo dentro desse mundo.
Um poema com que se sonha deve ser logo escrito sob pena de desaparecer dos sentidos e nunca mais poder ser visto por quem o vislumbrou. Para ti amiguinha, que me dás os poemas que mais gostas. Espero que gostes muito.
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surto de escrita Patrícia F.
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
JULIO CORTÁZAR - RAYUELA
«Julio Cortázar, escritor e intelectual argentino, é considerado um dos autores mais inovadores e originais do seu tempo. Mestre no conto e na narrativa curta, a sua obra é apenas comparável a nomes como os de Edgar Allan Poe, Tchékhov ou Horge Luís Borges. Com o romance Rayuela inaugurou uma nova forma de fazer literatura na América Latina, rompendo com o modelo clássico mediante uma narrativa que escapa à linearidade temporal e onde os personagens adquirem uma autonomia e uma profundidade psicológica raramente vistas.»
(Badana do livro)
O amor turbulento de Oliveira e da «Maga», os amigos do Clube da Serpente, as caminhadas por Paris em busca do Céu e do Inferno, têm o seu outro lado na aventura simétrica de Oliveira, Talita e Traveler, numa Buenos Aires refém da memória.
A publicação de «O jogo do mundo» (Rayuela) em 1963 foi uma verdadeira revolução no romance mundial: pela primeira vez, um escritor levava até às últimas consequências a vontade de transgredir a ordem tradicional de uma história e a linguagem usada para a contar. O resultado é este livro único, cheio de humor, de risco e de uma originalidade sem precedentes.
Considerado o romance que melhor retrata as inquietudes e melhor resume o Século XX na visão latino-americana do mundo, desde a sua publicação, gerações de escritores são, de uma maneira ou de outra, devedoras de «O jogo do mundo».
Cavalo de Ferro
Um pequeno mas muito pequeno excerto para te aguçar o apetite para este livro que contém um itinerário de leitura, ou como lhe chama o tradutor "uma tábua de orientação"que prova que este livro é muitos livros embora o próprio autor precise que ele é essencialmente dois: o primeiro livro acaba no capítulo 56 e, segundo a sua opinião, quem o ler até aí, não se arrependerá nem sentirá sequer remorsos; o segundo livro pode ler-se a partir do capítulo 72 e basta seguir-se a ordem indicada no final de cada capítulo. Que pena não ter tempo para transcrever a linda lista com a apresentação dos números da sequência dos capítulos deste 2º livro...que esquematiza a sua leitura e a torna mágica como, de resto, o Jogo da Macaca da nossa infância. Cá está o excerto, linda amiga, e até amanhã:
(Badana do livro)
O amor turbulento de Oliveira e da «Maga», os amigos do Clube da Serpente, as caminhadas por Paris em busca do Céu e do Inferno, têm o seu outro lado na aventura simétrica de Oliveira, Talita e Traveler, numa Buenos Aires refém da memória.
A publicação de «O jogo do mundo» (Rayuela) em 1963 foi uma verdadeira revolução no romance mundial: pela primeira vez, um escritor levava até às últimas consequências a vontade de transgredir a ordem tradicional de uma história e a linguagem usada para a contar. O resultado é este livro único, cheio de humor, de risco e de uma originalidade sem precedentes.
Considerado o romance que melhor retrata as inquietudes e melhor resume o Século XX na visão latino-americana do mundo, desde a sua publicação, gerações de escritores são, de uma maneira ou de outra, devedoras de «O jogo do mundo».
Cavalo de Ferro
Um pequeno mas muito pequeno excerto para te aguçar o apetite para este livro que contém um itinerário de leitura, ou como lhe chama o tradutor "uma tábua de orientação"que prova que este livro é muitos livros embora o próprio autor precise que ele é essencialmente dois: o primeiro livro acaba no capítulo 56 e, segundo a sua opinião, quem o ler até aí, não se arrependerá nem sentirá sequer remorsos; o segundo livro pode ler-se a partir do capítulo 72 e basta seguir-se a ordem indicada no final de cada capítulo. Que pena não ter tempo para transcrever a linda lista com a apresentação dos números da sequência dos capítulos deste 2º livro...que esquematiza a sua leitura e a torna mágica como, de resto, o Jogo da Macaca da nossa infância. Cá está o excerto, linda amiga, e até amanhã:
«Enfim, não é fácil falar da Maga, que por esta hora anda seguramente por Belleville ou por Pantin a investigar o chão em detalhe até encontrar um pedaço de tecido vermelho. Se não o encontrar vai continuar assim toda a noite, procurará nos caixotes do lixo, os olhos vítreos, convencida de que algo de horrível lhe vai acontecer se não encontrar essa peça de resgate, o sinal do perdão ou do adiamento. Sei o que isso é porque também obedeço a esses sinais, também há alturas em que me toca a mim encontrar pano vermelho. Desde a infância que assim que algo se me escapa para o chão tenho que apanhar esse objecto, seja ele qual for, porque se não o fizer vai acontecer uma desgraça, não a mim, mas a alguém que eu amo e cujo nome começa pela inicial do objecto caído. »
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Literatura latino-americana Patrícia F.
A secreta viagem...
Apenas
uma boca. A tua Boca
Apenas outra , a outra tua boca
É Primavera e ri a tua boca
De ser Agosto já na outra boca
Entre uma e outra voga a minha boca
E pouco a pouco a polpa de uma boca
Inda há pouco na popa em minha boca
É já na proa a polpa de outra boca.
Sabe a laranja a casca de uma boca
Sabe a morango a noz da outra boca
Mas sabe entretanto a minha boca
Que apenas vai sentindo em sua boca
Mais rouca do que a boca a minha boca
Mais louca do que a boca a tua boca.
uma boca. A tua Boca
Apenas outra , a outra tua boca
É Primavera e ri a tua boca
De ser Agosto já na outra boca
Entre uma e outra voga a minha boca
E pouco a pouco a polpa de uma boca
Inda há pouco na popa em minha boca
É já na proa a polpa de outra boca.
Sabe a laranja a casca de uma boca
Sabe a morango a noz da outra boca
Mas sabe entretanto a minha boca
Que apenas vai sentindo em sua boca
Mais rouca do que a boca a minha boca
Mais louca do que a boca a tua boca.
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anabela
domingo, 19 de setembro de 2010
OUT OF THE BLUE - JULIAN CASABLANCAS
Mais uma música carregada de energias positivas para terminar bem o domingo, esquecendo que é domingo. Bjs. Amanhã falarei de literatura: Cortázar aguarda mais uma noite na prateleira.
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Música Patrícia F.
SOMEWHERE - SOFIA COPPOLA VENEZA 2010
Fiquei contentíssima por ter sido Sofia Coppola a vencedora do Leão de Ouro de Veneza 2010. Perco-me sempre nos filmes dela.Quero ir ao cinema! Linda música a que acompanha este trailer (como, aliás, são magníficas todas as músicas que ela escolheu para os filmes realizados anteriormente).
Aproveito para rever imagens fortes de Marie Antoinette e Lost in Translation... com as magníficas actrizes Gwyneth Paltrow e Scarlett Johansson a impressionarem nos seus papeis.
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Cinema Patrícia F.
sábado, 18 de setembro de 2010
Um hino...
"O valor das coisas não está no tempo em que elas duram,
mas na intensidade com que acontecem
Por isso existem momentos inesquecíveis,
coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis"
Fernando Pessoa
Obrigada querida Pat pelas palavras que me oferescte e que nos enquandram no absurdo desta vida!
Agora, quiero regalar-te una poesia amiga mía... una música absolutamente magnífica! Adoro-te!
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anabela
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
NOW OR NEVER - LISA EKDHAL
Linda amiga, hoje a cidade cheira a jazz. Deixa-me adivinhar...seguiste o odor da noite?!
Fazes cá falta para ouvires isto comigo por detrás de uma longa conversa e gargalhadas. Saudades.
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Música Patrícia F.
À VOLTA DA EPÍGRAFE
- Gritos azuis? Nunca ouvi falar.
- São palavras gritadas no fundo do mar, as crianças é que sabem. Os pássaros também.
- E os peixes?
- Os peixes ainda não sabem gritar bem. Devem ser de outra cor, as palavras dos peixes.
- Tu já gritaste no fundo do mar?
- Tantas vezes. Queres experimentar?
Ondjaki, Avó Dezanove e o Segredo do Soviético, Caminho
Esta epígrafe obriga qualquer apaixonado por poesia a ler a obra de que é rosto. E é bem certo que os poetas quando criam narrativas continuam poetas. Continuam a fascinar os leitores com palavras-relâmpagos, com uma música escondida na raíz das frases, com imagens que nos prendem os olhos às páginas como se lá residisse a essência de tudo. Mais um texto a devorar do nosso querido Ondjaki. Apesar de o saber mais teu do que meu, linda amiga, também eu o devoro sem resistências...
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
FELIZ ANIVERSÁRIO!
Neste dia tão importante e que marca o maior acontecimento da tua vida, não podia deixá-lo passar sem te expressar o quanto te sinto minha amiga! Adoro-te amiguinha! Feliz Aniversário!
E uma música que ficará sempre ligada à nossa amizade! Bela, como tu...
E uma música que ficará sempre ligada à nossa amizade! Bela, como tu...
SONETO DE ANIVERSÁRIO, Vinicius de Moraes
Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.
Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.
Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.
E eu te direi: amiga minha, esquece...
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece.
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anabela
sábado, 11 de setembro de 2010
Nunca são as coisas mais simples
O Beijo, Gustav Klimt
Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.
(NUNO JUDICE)
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anabela
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
B FACHADA - OS DISCOS DO SÉRGIO GODINHO
O bom gosto de Bernardo Fachada espanta-me. Das músicas à capa e contracapa (como no seu primeiro trabalho) escapa à banalidade do que os novos músicos portugueses fazem por aí. A sonoridade é do mundo, as influências bem portuguesas. É caso para dizer com orgulho que o que é popular é bom. Ouve com atenção.
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Música Patrícia F.
Soneto do Cativo
SONETO DO CATIVO, David Mourão Ferreira
Se é sem dúvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias
tão longe da verdade e da invenção;
o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que outros dirão ou não dirão;
se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;
não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!
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anabela
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
HUNGER - ELISE BLACKWELL
Hoje comprei um livro porque o achei irresistível a partir do momento em que uma frase de J. M. Coetzee estava descaradamente inscrita na capa, entre aspas e tudo, por baixo do nome da autora (americana pelo que pude apurar), aconselhando vivamente a sua leitura. Fiquei cativa daquela apreciação e, para além disso, adorei (quase em simultâneo) a capa que achei digna "de pasmar". Também me iludiu o título da colecção, (ora vê:) Livros de Areia e a última frase deste romance.
"Sacudindo estas sementes que significam a minha vida, vejo que são belas."
Já agora as palavras de Coetzee: "Um romance original e cativante, uma exploração do amor e da traição e uma evocação sensual do prazer de comer."
"Sacudindo estas sementes que significam a minha vida, vejo que são belas."
Já agora as palavras de Coetzee: "Um romance original e cativante, uma exploração do amor e da traição e uma evocação sensual do prazer de comer."
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Literatura americana Patrícia F.
domingo, 5 de setembro de 2010
FADO - THE DURUTTI COLUMN
Linda amiga, repara como Vini Reilly, da banda The Durutti Column, idolatra o Fado, incluindo a voz da Amália nesta música tão pós-modernamente ritmada e que parece apontar tão intensamente para uma tristeza tecida num ventre. Uma tristeza que resiste e se alastra até conseguir agarrar-se às cordas vocais, até conseguir arremessar-se contra o céu da boca e sair como um uivo dolorido, levando consigo aquela alma que o canta... Escusado será dizer-te que adoro ouvi-la bem alto. Ouve-a tu também.
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Música Patrícia F.
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