segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O POEMA FORMIGA

era um poema tão trabalhador que, a cada palavra, construía
cidades inteiras. expunha nitidamente extensões como da
terra ao sol e até incluía o tamanho de deus. tudo visível aos
olhos humanos abertos em surpresa. era, contudo, um poema
sucinto.

valter hugo mãe, Contabilidade, p. 164

domingo, 12 de dezembro de 2010

«A poesia de valter hugo mãe recolhida neste volume mostra quinze anos de oficina lírica que, na verdade, foi a grande escola do escritor. São onze títulos aqui incluídos que se revelam muito diferentes pela progressiva narratividade, acentuada nos trabalhos mais recentes, e pela intimidade, ou confessionalidade, que os seus versos começam a assumir. Entre uma ferocidade incondicional e uma vulnerabilidade profunda, a poesia deste autor passa por livros como: útero, pornografia erudita, a natureza revolucionária da felicidade, ou o mais recente título, o inimigo cá dentro.»






NÃO HÁ DOMINGO SEM POESIA


Morri pela beleza, mas apenas estava
Acomodada em meu túmulo,
Alguém que morrera pela verdade,
Era depositado no carneiro próximo.
Perguntou-me baixinho o que me matara.
– A beleza, respondi.
– A mim, a verdade, – é a mesma coisa,
Somos irmãos.
E assim, como parentes que uma noite se encontram,
Conversamos de jazigo a jazigo
Até que o musgo alcançou os nossos lábios
E cobriu os nossos nomes.




Emily Dickinson
Antologia da Poesia Americana, Ediouro, 1992
Tradução de Manuel Bandeira

sábado, 11 de dezembro de 2010

REPÚBLICA DAS MULHERES - MARIA JOÃO SEIXAS

Trouxe o livro de Maria João Seixas, a quem admiro muito, para casa pois já era um vício entrar na biblioteca da escola e capturá-lo para espreitar uma nova escritora, uma nova voz. Ana Hatherly foi determinante para querer ver mais neste livro pois é absolutamente fantástico o modo como fala do caminho que fez e desfez na conquista do conhecimento (para isso lhe serve a escrita). As suas respostas à entrevista partem de cada um dos versos do seu poema "Asas", e essa ordem e progressão vão permitindo que ela fale de si e da importância daquilo que se esconde (e liberta) em cada uma das palavras que fazem a sua poesia. Transcrevo uma resposta  desta poetisa que, se já admirava, passei a admirar ao quadrado. Ora vê (porque ver é sempre ler):

MJS - «Ébria de Escrita» é o quarto verso do seu poema. Quer ajudar-me a entender melhor o que nele vem dito?
AH- Sempre que começo a fazer qualquer coisa, sou um pouco obsessiva e um pouco insistente. Quando entrei para o Grupo da Poesia Experimental, nos anos cinquenta, comecei a trabalhar com uns trabalhos que eram umas composições de palavras ilegíveis , pareciam uns desenhos estranhos, caligráficos.
A ilegibilidade era rigorosamente a minha intenção, porque quando não conseguimos ler uma palavra, prestamos maior atenção à forma das letras, que  era o que me interessava destacar. Inspirei-me num presente raro que me tinham oferecido, um dicionário chinês, com palavras desde as origens arcaicas até hoje. Fiquei fascinada com aqueles caracteres e pus-me a copiá-los. O princípio de todas as civilizações traduz-se em tentativas de representação humana e a escrita é uma delas. Tendo estudado História de Arte e Arqueologia, aqueles caracteres eram muito reveladores.É fascinante o antropomorfismo dos signos, mesmo que mais ou menos distorcidosque se encontram na origem de todas as escritas (a nossa, a latina, vinda dos romanos, não é tão antropomórfica, é mais simples, mais geométrica, mas também mais elegante). À medida que copiava do livro os caracteres chineses, à medida que mergulhava neles com mais e maior atenção (não sabendo uma palavra de chinês, então e hoje), reparei que a minha mão se foi tornando inteligente e comecei a perceber o mecanismo da ligação de cabeça à mão. Deixei de precisar de pensar para fazer – quando a mão sabe, eu sei, quando eu sei, a mão sabe. É um processo extremamente interessante. Passei a olhar para a escrita de outro modo, um modo que se tornou uma verdadeira embriaguez, uma obsessão eufórica, uma possessão. («Ébria de escrita»).

Maria João Seixas, República das Mulheres, Bertrand Editora

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

EXCERTOS QUE FICAM

Para comemorar o aniversário de Clarice Lispector, um excerto que fica:

«- Tu eras a pessoa mais antiga que eu jamais conheci. Eras a monotonia de meu amor eterno, e eu não sabia. Eu tinha por ti o tédio que sinto nos feriados. O que era? era como a água escorrendo numa fonte de pedra, e os anos demarcados na lisura de pedra, o musgo entreaberto pelo fio d'água correndo, e a nuvem no alto, e o homem amado repousando, e o amor parado, era feriado, e o silêncio no voo dos mosquitos. E o presente disponível. E minha libertação lentamente entediada, a fartura, a fartura do corpo que não pede e não precisa.»

Clarice Lispector, A Paixão Segundo G.H., Relógio d'Água
E quando viram o tornado do amor desceram, novos e velhos, as escadas  para a rua, e olharam-se todos dentro dos olhos uns dos outros à procura de se verem como num espelho.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

SE A EUROPA ACORDAR - PETER SLOTERDIJK

Obrigada Paulinha pela tua sabedoria e plena bondade no empréstimo deste livro (nunca vi em ti uma "bondade autoritária", como o disse tão bem, Clarice Lispector). Vale realmente bem a pena ler o que pensa Peter Sloterdijk, este filósofo considerado na actualidade o mais inovador e expressivo pensador alemão. 

«(...)Pouco depois do fim da II Guerra Mundial, circulava no hemisfério ocidental a frase segundo a qual o ser humano seria um ente «condenado à liberdade». O autor do teorema, Jean-Paul Sartre, criara com essa formulação paradoxal a palavra de ordem do existencialismo. Condamné à la liberté: em nenhuma outra expressão se exprimia melhor, numa perspectiva indiscutivelmente neo-europeia, o sofrimento primário ante a nova abertura e o novo vazio do mundo. Naquela altura, o termo heideggeriano «estar-lançado-no-mundo» teve a sua grande hora. De facto, uma liberdade europeia que ficava a dever-se a uma tal libération pendia sobre os sobreviventes como um diagnóstico patológico. Melhor do que os outros, os franceses sabiam forçosamente o que quer dizer estar exposto a uma liberdade que não se conquistou. Condenação pela libertação: a fórmula de Sartre dava uma ideia clara não da sua época mas do humor ferido que a dominava. O imediato pós-guerra encontrou a sua tonalidade de base num sentimento de desenraizamento existencial a que a partir daí se usou chamar absurdo: o absurdo é um estar que se vê instalado num mundo gigantesco e repulsivo, sem missão inspiradora e sem tarefas objectivas. Existir passou a significar: estar privado de essência e trazer no corpo a carência do ser como primeira propriedade. O ser humano surgia pois como parasita do ser - e, por isso, condenado a invejar as coisas e a aspirar à sua substancialidade. (...)»

Peter Sloterdjik, Se a Europa Acordar, p.19

Ainda para mais o autor revela um  gosto exímio na escolha das epígrafes que abrem cada um dos seis capítulos do livro que até dá vontade de ir buscar todos os  livros a que foi recolhê-las para integrar aquelas frases soltas nos seus habitats naturais e verificar se permanecem as mesmas.
Transcrevo apenas a que abre o capítulo 2 ao qual pertence o excerto deste post:

« a mesma gente simpática a mesma falta de valor.»
George B. Shaw
On Heartbreak, 1920  

JANELAS DO MUNDO

Ao lado desta janela fico com a cabeça mesmo no ar, entontecida, por isso ela não existe na minha realidade de mulher voadora. Junto da ausência dela, só existem as pálpebras fechadas, o pressentimento de passageiros desconhecidos muito perto e uma litânia da cor das nuvens repetida vezes sem conta, sem mexer os lábios, como a sonhar que a não-janela se tornará janela dentro em breve, com a paisagem por detrás dela a bater-me no vidro porque já lhe chega na ponta dos pés, no seu tamanho quase-quase natural.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

AS MAGIAS - HERBERTO HELDER

Na colecção Gato Maltês (que adoro), da Assírio & Alvim,  os "poemas mudados para português" que Herberto Helder intitulou As Magias, comprovam esse êxtase pré-anunciado. Cheiro-lhes um primitivismo poético que parece fazer-me encontrar em cada verso, em cada palavra, a sua feroz origem  na literatura. Leio, aqui, a poesia como um caminho para o início de tudo e de todos os povos. A palavra poética, mesmo solitária ou imperceptível, é uma magia que nos faz chegar a tudo. É uma teoria contra o mal porém que muitas vezes também o atrai. É a transmutação do ser primitivo no homem e na mulher que somos. É  o tempo infinito materializado num objecto que podemos tocar e dizer.
Passo-te, agora, palavras de outra sobre este mesmo livro:

«No segundo livro de versões – As Magias – Herberto Helder inclui não só textos anónimos, mas também textos de autores conhecidos na história das literaturas – alguns escolheram, como ele, sair da Europa, viveram em países como o Brasil ou o México, e a sua escrita revela também traços dessas tradições primitivas. É o caso de D.H.Lawrence e de Henri Michaux.»

Maria Etelvina Santos

E agora um poema, inteiro, deste livro de poesia que é poesia:
O Coração
(Stephen Crane)

No deserto,
vi uma criatura nua, brutal,
que de cócoras na terra
tinha o seu próprio coração
nas mãos e comia...
Disse-lhe: «É bom, amigo?»
«É amargo - respondeu -,
amargo, mas gosto
porque é amargo
e porque é o meu coração.


Outro que apetece cantar:

(Índios Comanches, EUA)

Djá i dju nibá u
i dju nibá i dju nibá u
djá i dju nibá i ná ê nê ná
i djá i naí ni ná
i dju nibá u
i dju nibá i dju nibá u
djá i dju nibá i djá ê nê ná

E por último:

As coisas feitas em ferro

(D. H. Laurence)

As coisas feitas em aço e trabalhadas em ferro
nascem mortas, como sudários, devoram a nossa vida.
E um dia, quando já deitaram velhas raízes na nossa
                                                                        vida,
aplacam-se, e apaziguam-nos; e é então que as atiramos
                                                                             fora.


terça-feira, 7 de dezembro de 2010

À CONVERSA COM GONÇALO M. TAVARES - BIBLIOTECA MUNICIPAL DE VIANA DO CASTELO

«Dia 11 de Dezembro, pelas 18,00 horas, na Sala Couto Viana, vamos estar À conversa com… Gonçalo M. Tavares, a propósito do lançamento do seu livro intitulado "Uma viagem à Índia". Com esta iniciativa pretende-se promover, em torno do livro, o diálogo e a troca de conhecimentos com escritores contemporâneos, proporcionando a oportunidade de conviver de perto com os autores e a sua obra.»



http://www.biblioteca.cm-viana-castelo.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=221%3Aa-conversa-com-goncalo-tavares&catid=70%3Aactualidade&Itemid=285

domingo, 5 de dezembro de 2010

MORCHEEBA - THE SEA



Debaixo do mar habitam todas as melodias.

NÃO HÁ DOMINGO SEM POESIA


COISAS, PEQUENAS COISAS

Fazer das coisas fracas um poema.

Uma árvore está quieta,
murcha, desprezada.
Mas se o poeta a levanta pelos cabelos
e lhe sopra os dedos,
ela volta a empertigar-se, renovada.
E tu, que não sabias o segredo,
perdes a vaidade.
Fora de ti há o mundo
e nele há tudo
que em ti não cabe.


Homem, até o barro tem poesia!
Olha as coisas com humildade.


Fernando Namora, Mar de Sargaços

sábado, 4 de dezembro de 2010

My one and only love



Como nunca me canso de ouvir esta melodia tão romantica... decidi oferecer-te... para continuares com as mãozinhas grudadas pelo amor...
Das tuas mãos o tédio desfaz-se em flores
de tantas cores que cegam ensurdecem calam
qualquer dúvida que nasça do fio de água
que procuro debaixo das pedras que calcas
e reduzes a um pó vagaroso de ouro fino
quase transparente como as tardes de vento
da minha terra amareladamente furtivas
quase líquidas e pétalas as tuas mãos morenas
quase opacas as minhas quando me tocas desejoso
quando cara a cara só vejo os teus olhos - cega.

ÚLTIMA CIÊNCIA - HERBERTO HELDER

A solidão de uma palavra. Uma colina quando a
[ espuma
salta contra o mês de maio
escrito. A mão que o escreve agora.
Até cada coisa mergulhar no seu baptismo.
Até que essa palavra se transmude em nome
e pouse, pelo sopro, no centro
de como corres cheio de luz selvagem,
como se levasses uma faixa de água
entre
o coração e o umbigo.

*
Ninguém sabe se o vento arrasta a lua ou se a lua

arranca um vento às escuras.
As salas contemplam a noite com uma atenção
[ extasiada.
Fazemos álgebra, música, astronomia,
um mapa
intuitivo do mundo. O sobressalto,
a agonia, às vezes um monstruoso júbilo,
desencadeiam
abruptamente o ritmo.
— Um dedo toca nas têmporas, mergulha tão
[ fundo
que todo o sangue do corpo vem à boca
numa palavra.
E o vento dessa palavra é uma expansão da
[ terra.

Herberto Helder, Última Ciência

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

ENTREVISTAS A GONÇALO M. TAVARES

Hoje resolvi procurar o rosto e a voz real (?) do autor com que ocupo tantas horas dos meus dias. Aliás, a primeira vez (e última) que o vi na televisão já foi há muitos anos, aquando do prémio que Jerusalém lhe concedeu. Hoje, cheia de imagens de Matteo e Ana na cabeça, procurei-o para o ver e ouvir em discurso directo, sem rodeios ou figuras de estilo no papel, apenas ele, o criador de tantas páginas que me deixam perplexa e com vontade de nunca desistir da literatura.Consequência: beijei todas as palavras que disse. De todas as entrevistas que vi, escolhi duas. Uma por dar a conhecer quase toda a obra dele (faltam os três mais recentes livros, todos eles editados em Outubro de 2010). Outra porque me deu a saber que ele não é arquitecto nem tão pouco engenheiro civil, também não é formado em Filosofia nem em Letras... É uma surpresa também muito grande, aquilo que ele foi sendo, construindo e é (ou parece ser). Achei-o fantástico como os seus livros. Tu também vais achar, linda amiga. E vais ter muita pena, como eu, de não teres embarcado na viagem rumo à Rússia, no grupo que ele liderou como escritor absoluto. Antes de veres, adianto-te, mais uma vez, que vais ficar a gostar tanto da pessoa como da sua escrita e imaginário. Ora vê:



E agora outra:

Gosto muito deste pequeno livro traduzido do italiano para o francês por Maurice Javion e Jean-Paul Manganaro que me ofereceste, linda amiga. Primeiro porque me cheira a Paris e às bancas ambulantes de livros antigos expostos magnificamente ao sol (e à chuva) a preços aliciantes, à espera de compradores...normalmente leitores apaixonados como tu.   A capa é uma obra de arte de 1925, lindíssima, da autoria de  Antonio Donghi, com o título em italiano La Canzonettista. As Éditions du Seuil, com livros de bolso, magicamente portáteis, permitiram que eu lesse muito em francês quando era ainda estudante  e fizeram de muitas das minhas viagens de comboio, Porto-Espinho e Espinho-Porto, deliciosas. Tenho inúmeros livrinhos em língua francesa desse tempo à espera deste na prateleira consagrada aos livros em francês... Este é um livro de aventuras, muitas aventuras estanques, todas unidas pelo subtítulo "Les amours difficiles", numa primeira parte do livro.  A primeira aventura é a de um soldado e todas as que se seguem pertencem a personagens que desde logo temos vontade de conhecer: aventure d'un lecteur, d'un myope, d'un photographe, d'un poète, d'un skieur, d'un voyageur,  etc. A segunda parte da obra  é constituída por duas novelas de maior extensão (que aumentaram esta edição) sob o grande subtítulo" La Vie Difficile". Tudo indicia que deste livro fazem parte muitas dificuldades que pela sua essência problematizante (do não-encontro do casal apaixonado) constroem o verdadeiro amor, construindo, por isso mesmo, histórias aliciantes e o prazer da leitura.

Uma curiosidade enorme fez-me ler, desde logo, L'aventure d'un myope (antes mesmo de L'aventure d'un poète ou L'aventure d'un lecteur...). Transcrevo uma parte que nos apresenta a personagem:

L’aventure d’un myope



«Hamilcar Carruga était jeune, il ne manquait pas de ressources, il n’avait pás trop d’ambitions matérielles ou spirituelles: rien ne l’empêchait de jouir de l’existence.


Or, depuis quelques temps, cette existence allait perdant, jour après jour, de sa saveur. Il s’en apercevait à des petits details: par exemple, en regardant les femmes dans la rue; naguère, il leur lançait des oeillades avides, possessives; à present, il les cherchait bien encore du regard, mais elles disparaissaient comme en coup de vent, sans lui laisser la moindre impression; résigné, il bassait les paupières. Les villes inconnues, auparavant, l’enthousiasmaient (il voyageait beaucoup, étant dans les affaires); ells ne lui procuraient plus qu’ennui, effarement disorientation. Il avait l’habitude, vivant seul, d’aller chaque soir au cinema; il s’amusait toujours, quel que fut le programme: quand on y va quotidiennement, c’est un peu comme si se déroulait un même film aux multiples episodes; on connaît les acteurs, de la vedette au second au second et troisième role, et le fait de les identifier à coup sûr est déjà un divertissement. Eh bien, meme au cinema, les visages devenaient falots, sans relief, interchangeable: Hamilcar bâillait d’ennui.


Il finit par comprendre: le mal était en lui, qui devenait myope. L’oculiste ordonna dês verres. Ce fut un changement total; s avie devint cent fois plus excitante qu’avant.


Rien qu’à chausser les lunettes, Hamilcar éprouvait un choc. Il se trouvait, disons, à un arrêt de tram, et ça le rendait un peu triste que tout, choses et gens, eût un aspect vague, monotone et comme usage, avec lui, là, aumilieu, avançons à tâtons dans un chãos de formes et de couleurs fantomatiques. Il mettait les lunettes, pour lire le número d’un tram: comme un enchantement, les objects les plus quelconques, à commencer par la perche du tram, se dessinaient dans leurs moindres détails, avec une netteté d’épure; les visages, cês visages indistincts, se remplissaient de signes tout particuliers: pointillé de la barbe, boutons, nuances d’expression à quoi on ne s’attendait guère; les vêtements, on savait quel tissu ils étaient faits, et la qualité d’une étoffe, l’usure d’un ourlet ne passaient plus inaperçues. Regarder devenait un jeu, une fête: pas regarder une chose plûtot qu’une autre, non, regarder pour regarder. Hamilcar Carruga en oubliait de prêter attention aux trams; il les ratait l’un après l’autre, ou quelquefois partait dans une mauvaise direction. Il voyait tant et tant de choses qu’à la fin c’était comme s’il n’y voyait plus. Il lui fallut, petit à petit, s’habituer, réapprendre à distinguer entre ce qu’il faut voir et ce qu’il est bon de négliger.


Quant aux femmes croisées au hasard dês rues, elles dont il ne lui restait naguère que d’inconsistantes ombres floues, maintenant qu’Hamilcar était à même d’apprécier ce jeu de pleins et de rentrants que font leurs corps en bougeant sous la toilette, la fraîcheur de leur peau, le feu de leur regard, il lui semblait qu’il faisait mieux que les voir, qu’elles étaient pour ainsi dire en son pouvoir. Il arrivait que, se promenant sans ses lunettes (afin de s’épargner de la fatigue, il les portait uniquement pour regarder de loin), il vît surgir devant lui, sur son trottoir, une robe aux couleurs pimpantes: aussitôt, d’un geste déjà machinal, il tirait ses lunettes de sa poche, les posait bien d’aplomb sur son nez. Cette soif incôntrolée de sensations lui jouait plus d’un tour: parfois, ce n’était qu’une vieille. Il devint circonspect. Mais, d’autres fois, il advenait qu’une femme lui parût, de loin, à son allure, à la couleur de sa robe, négligeable, indigne d’examen; il ne mettait pas ses lunettes; puis, au moment où ils passaient tout prés l’un de l’autre, Hamilcar découvrait en elle quelque chose qui l’attirait vivement, allez savoir quoi, il croyait surprendre un regard qui se posait sur lui, un regard d’attente, un regard qui peut-être le suivait depuis tout à l’heure et dont il ne s’était pas aperçu; maintenant, c’était trop tard: elle traversait le carrefour, montait dans un bus, le feu passait au vert, elle était loin, et lui, incapable de la reconnaître. Ainsi, parce qu’il était condamné aux lunettes, il apprenait à vivre, peu à peu. (…)»





quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

HYSTERIA - T. S. ELIOT

«As she laughed I was aware of becoming involved in her laughter and being part of it, until her teeth were only accidental stars with a talent for squad-drill. I was drawn in by short gasps, inhaled at each momentary recovery, lost finally in the dark caverns of her throat, bruised by the ripple of unseen muscles. An elderly waiter with trembling hands was hurriedly spreading a pink and white checked cloth over the rusty green iron table, saying: “If the lady and gentleman wish to take their tea in the garden, if the lady and gentleman wish to take their tea in the garden…” I decided that if the shaking of her breasts could be stopped, some of the fragments of the afternoon might be collected, and I concentrated my attention with careful subtlety to this end. »



T. S. Eliot, Prufrock and Other Observations

 

EXCERTOS QUE FICAM

Não fechei o livro para oferecer estas palavras a ti, linda amiga e ao Gonçalo M. Tavares pois tenho a certeza de que ambos acharão esta página tão deslumbrante como eu.
Reescrever é reler e apoderarmo-nos das palavras dos outros com alguma autoridade. Aqui vai o excerto, agora meu e vosso:

«There is geometry in the humming of the strings. Ther is music in the spacings of the spheres.»



THIS IS NOT A LOVE SONG



Como na Matemática as palavras são sinais que se opõem e muitas vezes se anulam... This is not a love song, this is a love song ...
Lindíssima esta música de Anita Lane, reinterpretada pelos Nouvelle Vague... Falta-lhe o ênfase da afirmação peremptória This is a love song, na voz de Anita Lane, que se mistura e se enrola no final da música e de toda a excitação nela contida, com a falsa negação "This is not a love song" (só porque tem lá not - quanto poder dissimulador uma palavra pode ter...).

terça-feira, 30 de novembro de 2010

 
Vives nas palavras que disseste, nas palavras em que acreditaste, nas palavras em que te deste a conhecer - és muitos neste dia como sempre o quiseste ser. Vives ainda, muito, Pessoa.

Deixo um texto em que o carácter do poeta dos poetas é definido por ele próprio como se visse outro, exterior a si tal uma paisagem. Magnífico excerto para lembrar os 75 anos da sua morte física. Um espelho onde ele se viu reflectido, este texto:

«Cumpre-me agora dizer que espécie de homem sou. Não importa o meu nome, nem quaisquer outros pormenores externos que me digam respeito. É acerca do meu carácter que se impõe dizer algo.



Toda a constituição do meu espírito é de hesitação e dúvida. Para mim, nada é nem pode ser positivo; todas as coisas oscilam em torno de mim, e eu com elas, incerto para mim próprio. Tudo para mim é incoerência e mutação. Tudo é mistério, e tudo é prenhe de significado. Todas as coisas são «desconhecidas», símbolos do Desconhecido. O resultado O resultado é horror, mistério, um medo por de mais inteligente.


Pelas minhas tendências naturais, pelas circunstâncias que rodearam o alvor da minha vida, pela influência dos estudos feitos sob o seu impulso (estas mesmas tendências) - por tudo isto o meu carácter é do género interior, autocêntrico, mudo, não auto-suficiente mas perdido em si próprio. Toda a minha vida tem sido de passividade e sonho.


Todo o meu carácter consiste no ódio, no horror e na incapacidade que impregna tudo aquilo que sou, física e mentalmente, para actos decisivos, para pensamentos definidos. Jamais tive uma decisão nascida do autodomínio, jamais traí externamente uma vontade consciente. Os meus escritos, todos eles ficaram por acabar; sempre se interpunham novos pensamentos, extraordinárias, inexpulsáveis associações de ideias cujo termo era o infinito.


Não posso evitar o ódio que os meus pensamentos têm a acabar seja o que for; uma coisa simples suscita dez mil pensamentos, e destes dez mil pensamentos brotam dez mil interassociações, e não tenho força de vontade para os eliminar ou deter, nem para os reunir num só pensamento central em que se percam os pormenores sem importância mas a eles associados. Perpassam dentro de mim; não são pensamentos meus, mas sim pensamentos que passam através de mim. Não pondero, sonho; não estou inspirado, deliro. Sei pintar mas nunca pintei, sei compor música, mas nunca compus. Estranhas concepções em três artes, belos voos de imaginação acariciam-me o cérebro; mas deixo-os ali dormitar até que morrem, pois falta-me poder para lhes dar corpo, para os converter em coisas do mundo externo.


O meu carácter é tal que detesto o começo e o fim das coisas, pois são pontos definidos. Aflige-me a ideia de se encontrar uma solução para os mais altos, mais nobres, problemas da ciência, da filosofia; a ideia que algo possa ser determinado por Deus ou pelo mundo enche-me de horror. Que as coisas mais momentosas se concretizem, que um dia os homens venham todos a ser felizes, que se encontre uma solução para os males da sociedade, mesmo na sua concepção - enfurece-me. E, contudo, não sou mau nem cruel; sou louco, e isso duma forma difícil de conceber.


Embora tenha sido leitor voraz e ardente, não me lembro de qualquer livro que haja lido, em tal grau eram as minhas leituras estados do meu próprio espírito, sonhos meus - mais, provocações de sonhos. A minha própria recordação de acontecimentos, de coisas externas, é vaga, mais do que incoerente. Estremeço ao pensar quão pouco resta no meu espírito do que foi a minha vida passada. Eu, um homem convicto de que hoje é um sonho, sou menos do que uma coisa de hoje. »


Fernando Pessoa, Notas Autobiográficas e de Autognose

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

CITAÇÕES

"A poesia é criar uma espécie de angústia para a resolver"

Valéry

domingo, 28 de novembro de 2010

GLENN GOULD - BACH



O homem por mais que tente criar música, fará sempre palavras (mesmo dos gestos que não tocam no piano). Não achas? Foi Cootzee que inflamou em mim o desejo de ouvir seriamente Bach. Seria seu pai, se ele pudesse ter escolhido um pai para si. Disse-mo em Diário de um mau ano (um livro dos mais geniais que li nos últimos tempos), neste último Verão . E eu gostei de saber.
Regressar é sempre um encontro
da minha ausência comigo mesma
agora cheia de todos os caminhos
pisados por rostos sérios que vi
passarem em todos os sentidos
junto de casas, árvores e outros abrigos


É unir esse longe de que venho 
com o perto ainda meu
estático indiferente mas espelho
horas certas de palavras deitadas
nessa vida que aí acordou


Rever-me nessa paisagem de antes
agora com o corpo todo fora dela
reticente quanto à hora de pousar
para sempre o que trago
sobre o que não foi comigo
nessa viagem para o longe de mim.


Linda amiga, regressar da cidade-luz não é fácil. Ofereço-te o meu poema do regresso como uma sinfonia que te aplaudisse à chegada, cheia de saudades.

JANELAS DO MUNDO

Edward Hopper, Janelas à Noite


A noite lança-se para o lado de fora das janelas
muito devagar deixando sombras de cinza na laje
como se fosse uma premonição do que lá em baixo
na austera cidade pudesse acontecer de terrível
enquanto alinho o quarto em transe absurdo e rotineiro.

JOSÉ SARAMAGO NAS SUAS PALAVRAS - FERNANDO GOMES AGUILERA

Ter este livro em mãos é segurar em palavras que pela sua transparência parecem não existir, mesmo a dizerem tudo. É esta a sensação (até certo ponto desconfortável) que tenho. Palavras que não podem ser ditas com outras palavras. Serão, para mim, as palavras das palavras. Deixo apenas algumas delas.

«Se é verdade que não somos mais que contos ambulantes, contos feitos de contos, e que vamos pelo mundo contando o conto que somos e os contos que aprendemos, parece-me igualmente claro que  nunca poderemos chegar a ser mais do que isso, esses seres feitos de palavras, herdeiros de palavras, que vão deixando, ao longo ods tempos e do tempo, um testamento de palavras, o que têm e o que são. Tudo.

«Nunca seremos mais que seres feitos de palavras, crê José Saramago», canárias 7, Las Palmas, Canárias, 30 de Novembro de 1994

Há uma personagem [a rapariga dos óculos escuros] no meu livro[Ensaio sobre a Cegueira] que pronuncia as palavras-chave: «Dentro de nós há uma coisa que não tem nome. É isso que somos.» O que precisamos é procurar dar um nome a essa coisa: talvez, simplesmente, lhe possamos chamar «humanidade».

As palavras ocultam a incapacidade de sentir», ABC (Suplemento ABC Literário), Madrid, 9 de Agosto de 1996 [Entrevista de Juan Manuel de Prada]

«Creio, e não estou nada a ser original, achar excelente não ser possível catalogar os livros consoante os géneros a que supostamente devam pertencer. É como se entre os géneros não houvesse fronteiras tão rígidas como as que separam as razões. Olhamos o mapa e vêmo-lo dividido em riscos ou cores. É muito bom que hoje seja difícil catalogar os géneros. Se cada um puder aproveitar a riqueza dos outros, acho óptimo. Não sei se daqui a uns anos, não poderemos fundir todos os géneros para depois os tornarmos a dividir, um fenómeno de concentração e de expansão semelhante ao que existe nas galáxias. este momento, creio que cada um dos géneros literários se expande em relação a todos os outros. Às vezes dizem-me: «Você devia fazer poesia» e eu respondo: «Procurem-na nas páginas dos meus romances.»

«Sou a pessoa mais banal deste mundo», NT, Lisboa, 23 de Maio de 1984 [Entrevista de Alexandre Correia]

«A Literatura é o resultado de um diálogo de alguém consigo mesmo.»

«Saramago admite que escrever o seu novo livro não foi nada fácil», Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 1 de Novembro de 2008 [Entrevista de Bolívar Torres]


DO CONSERTO DO MUNDO [ CONTOS]

«CONTRA A INDIFERENÇA SEJA DIFERENTE
No Ano Europeu contra a Pobreza e Exclusão Social o DN convida-o a ser diferente e a juntar-se a este grito de revolta e de certeza de mudança. São 18 contos que nos transportam pelo tempo em que vivemos na esperança de que cada um de nós medite mais sobre aqueles que vivem à margem da vida.»

http://www.controlinveste.pt/Pt/Imprensa/NoticiaInterior.aspx?content_id=1706610


  Autores portugueses de renome escrevem sobre o mote "Conserto do Mundo"
 Ana Paula Tavares; Arnaldo Santos; Dulce Maria Cardoso, Gonçalo M. Tavares; Hélia Correia, Isabel Zambujal; João de Melo; Lídia Jorge; Mário de Carvalho; Mário Cláudio; Miguel Real; Patrícia Ferraz; Pedro Sena-Lino; Ricardo Cabaça; Ricardo Miguel Gomes; Richard Zimler; Ruy Zink; Urbano tavares Rodrigues.


Fica o conto menor desta colectânea:

RUY ZINK
CONSUMO PRÓPRIO


Um cidadão portador de passaporte moçambicano foi ontem detido pelos serviços de fronteira do aeroporto da Portela quando tentava entrar legalmente no nosso país.
As forças de segurança tinham razões para acreditar que o indivíduo em questão estaria envolvido numa rede de tráfico de órgãos.
Após rápida revista, as autoridades confirmaram as suas suspeitas: escondidos dentro do corpo, o cidadão moçambicano trazia dois rins, um fígado e um esófago.
Segundo os funcionários da alfândega, o indivíduo contaria vender esses órgãos a uma clínica privada em Espanha ou na Suíça.
De nada serviram os protestos do detido, de que os órgãos que traficava se destinavam apenas para consumo próprio.
Todas as ruas estreitas e empedradas têm um odor invencível a peixe fresco e parecem esperar que uma vaga desmedida passe por elas de cabeça erguida e lhes lave os muros de uma terra esquecida.
Não sei se serei eu que sonho com os peixes, deitados na pedra do caminho até a casa, como se dormissem embrulhados em papel de prata, se são eles que imaginam o meu olhar baixo, negro, rente a um chão tão húmido da invernia que demonstra procurá-los mesmo quando, de facto, os não vêem a rebrilhar. Este é um sítio onde eu ainda moro, em cada sono, em que me esvaio de saudade.

sábado, 27 de novembro de 2010

KRONOS QUARTET - WA HABIBI



Toda a vontade de se tornar humano jorra do som de um violino como se estivesse tão perto de estar triste que preferisse arder em chamas.

A BIOGRAFIA DE LIANOR DE MILETO - GONÇALO M. TAVARES



«O episódio é conhecido: contou-o Platão. Tales de Mileto, absorvido pelas ideias, olhava para o céu quando caiu a um poço. Uma criada trácia, muito simples, quase anafalbeta, presenciou a cena e desatou às gargalhadas.

Teimaram alguns historiadores em classificar de não verdadeira a anedota; outros reduziram-na a mera ilustração da conhecida distracção dos sábios.

Cumpre-nos, pois repor a verdade, e avançar um pouco. Tudo ocorreu como se conta e mais: a criadita, nesse instante, apaixonou-se por Tales de Mileto, o sábio.

A casa onde se vive é a outra parte do corpo; a roupa, essa, é a casa mais próxima. Nela, na criada, os tecidos eram pobres; nele, no sábio, eram desleixados. Entre os dois a diferença de quem se esquece da aparência – porque obcecado no que existe por detrás do sensível – e de quem não se pode lembrar dela, pois é desprovido de meios para a manter elevada, distinta.

O nome dela era Lianor. Acrescentamos: de Mileto. Haviam, pois, crescido na mesma cidade e no mesmo tempo, Lianor e Tales.

É costume entrarem em acordo com as idades, os tédios, mas nestas duas personagens, não: Lianor trabalhara desde sempre – e quem tem fome não tem filosofias nem angústias localizadas na alma. Tales, ao contrário, desde cedo começara a desenhar o seu destino de filósofo. Nele a sorte de ter nascido em leito alguns metros acima do chão.

Primeiro trabalho: preguiça.

Quisera tocar-lhe antes, mas só naquele momento o conseguiu: depois de terminar os risos, a criadita trácia – Lianor – estendeu a mão para o fundo do poço e puxou Tales de Mileto de novo para a terra, para a superfície; para o quotidiano.

“Quando o abrigo é seguro, a tempestade é boa”, e o certo é que o filósofo em nada se arrependeu da queda, tanto lhe agradou o medicamento: aquele calor terno e directo da mão da criada.

Por dias Lianor ganhou esperanças; cedo, porém, as perdeu. Dos filósofos e dos poetas sabe-se pouco; tem-se, no entanto, uma certeza: não são como os outros.
Se Procustes, o bandido de Ática, que depois de roubar os viajantes, os deitava numa cama de ferro, cortando-lhes os pés se estes fossem mais compridos que a cama, e esticando-os com cordas, no caso de serem mais pequenos; se dizíamos, Procustes, o bandido de Ática, aprisionasse um sábio ou um poeta, não teria dificuldades da sua impiedade, mas o que jamais conseguiria era normalizar-lhes as ideias, a imaginação e, acima de tudo, a vontade.
Para Tales, pessimista, o tempo trazia só um atributo: magreza à gordura, fraqueza à força.
Paixão significava casamento; e é precisamente o entusiasmo da noite que, mais tarde, nos ficará sem forças, de manhã; pensava ele.
Recusou então Lianor; não por sobranceria, mas por sabedoria. As mulheres guardam no corpo mais serpentes que cordeiros, sempre pensara.
Desespero em Lianor, claro, como em todas as mulheres rejeitadas.
Quis morrer afogada: atirou-se ao mar.
Tales interrompeu a sua tarefa de olhar o que não é possível ser olhado, com os gritos dos habitantes de Mileto:
Lianor desaparecera na águas!
Tales correu para a praia. Olhou para o fundo:
- Este mar matou – disse –. Está calmo de mais.
Indisciplinado por natureza, depois deste acontecimento, Tales transformou-se. Levantava-se então, todas as manhãs, a uma hora certa.
O que fazia então?
Ele, filósofo, o sábio, pegava no barco, cheio de arroz desde a véspera, e entrava no mar. À medida que avançava ia atirando arroz à água, como se esta fosse um ser esfomeado.
- Se os peixes e a água comerem arroz, os peixes e a água irão esquecer a carne de Lianor.
Era isto que pensava Tales, o sábio.
Durante 25 anos ele manteve, assim, o mar, alimentado com arroz. Jurava, no entanto, não o fazer por amor; era orgulhoso. Dizia:
- Sou um investigador da natureza. Quero estudar a água.
O certo é que o corpo de Lianor nunca apareceu.
As estações sucederam-se depois, como desde o início dos tempos, até que chegou o único dia que, juntamente com o nascimento, é comum a todos: o da morte.
Depois de mais uma saída no seu barco, Tales de Mileto morreu precisamente às 12 horas e 45 minutos. Não foi sábia, nem não sábia; foi morte: a carne ficou; a alma voltou para donde veio.
Ao fim da tarde um outro facto alvoraçou em definitivo o dia na cidade de Mileto.
O corpo de Lianor havia dado à costa.
Intacto.
Vinte cinco anos tinham passado, mas diz quem viu: havia um sorriso, um largo sorriso de amor, na cara do cadáver da única mulher que teve coragem para rir do maior sábio da cidade de Mileto.
Outra versão (impossível confirmá-la): deu à costa, sim, no dia da morte de Tales de Mileto, mas intacta, tanto na carne como na alma; isto é: viva, absolutamente viva; apenas envelhecida 25 anos, cabelos brancos, rugas.
Terá mesmo sido ela a tratar dos preparativos para a condução de Tales à sua última morada. Como uma simples criada, prestável.
Esta versão faz de Lianor uma trocista sádica: foram ouvidas gargalhadas nas horas do enterro mais triste da cidade de Mileto.»

Gonçalo M. Tavares, Histórias Falsas

Que poderei dizer mais deste livro de contos? Que me pareceu encontrar, na altura em que o li, textos como os da minha infância, que me deixavam tocar verdadeiramente num estado de felicidade abrupta. Que vale a pena ler todos as outras histórias, geniais como esta. Que por detrás das letras se pressente o habilidoso e inteligente cruzamento entre a Filosofia, a História e a falsidade da Ficção Literária, numa escrita, como sempre, engenhosa e diferente. Que M. Tavares é um conjunto de textos diversos e tão ricos que nos fazem descobrir o espanto. Que mais? Que por vezes penso que não vale a pena ler mais nenhum autor.



quinta-feira, 25 de novembro de 2010

ANA MARIA MATUTE - PRÉMIO CERVANTES 2010



Ana Maria Matute, escritora catalã de 85 anos é a terceira mulher escritora a ganhar o prémio mais prestigiado da literatura espanhola.

Achei algumas palavras interessantes sobre esta mulher. Aqui estão elas:

«Lectora apasionada
Matute empezó desde muy joven a interesarse por el mundo de las letras. A los cinco años ya escribió su primer texto literario, «aunque ya se puede suponer que con unas faltas de ortografía... A los cinco años, ¿qué quieres, hijo? Pero bueno, es que me gustaba mucho, pero sobre todo leer, leer... Soy una apasionada lectora».
La autora de «Pequeño teatro» o «Algunos muchachos» todavía recuerda que fueron las lecturas de los cuentos de los hermanos Grimm y de Andersen las que la animaron a probar suerte en el terreno de la narrativa, aunque también hubo otras influencias directas. «Aún recuerdo los cuentos que me contaban mi querida cocinera Isabel y mi tata Anastasia. La cocinera me explicaba historias espeluznantes, pero me encantaban como a todos los niños a los que les gustan los cuentos de miedo», rememoró la ya Premio Cervantes.

A la edad de 17 años escribió su primera novela, «Pequeño teatro», publicada 11 después y con la que se convirtió en la primera mujer ganadora del Premio Planeta en 1954. Después llegó «Los Abel», novela finalista del Nadal en 1947, que empezó a hacer conocida su creación literaria. Matute llevó a cabo su labor docente fuera de España: en la Universidad de Indiana, en la de Oklahoma y en la de Boston, donde conservan sus manuscritos en la colección Ana María Matute. Desde 1996 es miembro de la Real Academia Española, convirtiéndose así en la tercera mujer en ocupar un sillón. Tras de sí tiene una ingente producción literaria que ha sido traducida a 23 idiomas. En 1984 recibió el Nacional de Literatura Infantil y Juvenil y en 2007 el Premio Nacional de las Letras Españolas al conjunto de su labor literaria. Tras permanecer casi dos décadas en silencio volvió a la literatura en 1993 para publicar la versión original de «Luciérnagas» y luego vinieron «Olvidado Rey Gudú», «Cuentos del mar», «Aranmanoth», «Paraíso inhabitado» y «La Puerta de la luna». De esa época silenciosa, recordó ayer que «fue una etapa de mi vida en la que sufrí mucho. En esta recuperación tiene que ver mi agente, Carme Balcells, quien casi me secuestró hasta que salió mi libro y volví a ser la Matute».
A la escritora no le gusta en exceso mirar atrás, ni siquiera reelerse, «porque si lo hago lo paso mal». En todo caso, quiere apuntar que «he hecho lo que me ha gustado y no he fracasado en esto». Pero lo que tiene claro es que todavía tiene bastante que decir, por lo que ya ha anunciado que trabaja en una nueva novela, de la que no quiere dar demasiados detalles. «Tengo necesidad de escribir este libro al igual que me pasaba con los otros. Lo tengo todavía en la cabeza. Nunca sé lo que puede durar un libro. Es un misterio. La vida es mágica y eso también es magia», aseguró la autora. Matute trabaja todos los días en su domicilio barcelonés desde la diez de la mañana, una labor que luego suele retornar por la tarde. Siempre a mano, en un cuaderno, como llegó por primera vez a la redacción de la revista «Destino» y preguntó por su responsable, Ignacio Agustí. Hoy, varias décadas más tarde, Matute ha logrado la gloria del Cervantes.»


 

Tour Eiffel, Paris
Hoje para me ligar telepaticamente a ti, linda amiga, li o mesmo livro que tu lês, aí, em Paris onde te encontras tão apaixonada por tudo. Passei por ti logo na primeira linha mas não me viste. Ainda te acenei, chamei-te em francês mas não entendeste que era o teu nome, pareceu-te certamente outro e outra voz a minha, cheia de rrrrrs e assobios que também a mim me transformaram. Mesmo assim, gostei de te ver ao longe a atravessar para a linha de baixo como se fosses partir, resoluta, para sempre, à procura dos astros que encontraste na Sorbonne. Eu grite em vão: Je t'attends, mon amie!! Mas já tinhas atravessado a ponte que liga o texto à grande Paris...E já agora, peço-te: traz-me palavras, muitas, na ponta da tua língua para eu as ver, assim que chegues, de muito perto e repetir, ainda vivas e arrogantes, o que aprendeste sobre o universo. Saudades! Olha vê, agora, onde há pouco te encontrei:

«À medida que ia evocando a capital, ela ia-se reconstruindo em mim e eu substituía a sua presença física por algo quase sobrenatural a que não sei que nome atribuir. Um mapa de Paris, afixado na parede, retinha-me demoradamente o olhar e ia-me ensinando quase sem que eu desse por isso. Descobri que Paris tinha a forma de um cérebro humano. Voltou-me à memória uma cabeça de homem aberta em dois que eu observava, criança, na montra de um oculista e que mostrava aos curiosos o interior do nosso crânio. Com um misto de interesse e de horror, eu examinava aquela massa branca, rosada e vermelha que me provocava pesadelos na noite seguinte. Em vão dizia para mim próprio que aquilo não passava de um objecto de cartão ou de porcelana; continuava apesar disso a ser revoltante. (...)
Seja como for o mapa de Paris ajudou-me mais do que uma vez a passar algumas horas difíceis e, ao ter-lhe descoberto a semelhança a que já me referi com o cérebro humano, esforcei-me por colocar dentro dos limites desta cidade todas as circunvoluções observadas em tempos. Comprazia-me assim a imaginar que tinha nascido na zona da imaginação e que tinha crescido no meio da memória; hesitava quanto à localização da vontade, da reflexão e do paladar, fazendo-os incessantemente mudar de bairro. (...)»

Julien Green, Paris

EXCERTOS QUE FICAM

Michael O' Brien


«O que nas pessoas estranhas, desviadas por passo próprio ou enxotadas pelos outros, o fascinava era a absoluta liberdade individual com que faziam as suas escolhas. Num louco ou num pedinte que vagueava pelas ruas a pedir pão e sopa e que, de noite, tal qual os outros humanos, só queria dormir, Buchmann via quem poderia escolher em liberdade pura, e sem consequências, a sua moral individual. Moral que nem sequer tem um par, um elemento que a acompanhe.

Quem iria contestar a «vida imoral» de um pedinte ou de um louco? Aqueles homens tinham já em si, pela sua diferença, uma carga de imoralidade universal e profunda, que os tornava imunes às pequenas imoralidades praticadas.

Um louco, tal como um pedinte, não era imoral. Eram indivíduos sem cópia, semelhantes a um rei; alguém que não tem par, que não tem aquele que está ao seu lado. E por isso não há para esses homens escorraçados, como não há para o homem mais poderoso, qualquer critério de comparação.

Buchmann olhava com admiração para aqueles homens que traziam no bolso um sistema jurídico único, com o seu nome no fim.

De certa maneira, era isso que Buchmann desejava; ser portador de um sistema legal cujas leis só fossem aplicadas a si; ser portador de uma moral que não é a do mundo civilizado nem a do mundo primitivo; que não é a moral da cidade ou sequer a moral da sua família mas a moral que tem o seu nome, apenas o seu, escrito por cima. »
 
Gonçalo M. Tavavres, Aprender a Rezar na Era da Técnica

terça-feira, 23 de novembro de 2010

PRÉMIO DO MELHOR LIVRO ESTRANGEIRO EM FRANÇA PARA GONÇALO M: TAVARES

Acabo de saber. Gonçalo M. Tavares, com o seu romance Aprender a Rezar na Era da Técnica vence em França o Prémio do Melhor Livro Estrangeiro 2010. O livro já havia sido, no início deste mês, um dos cinco finalistas dos Prémios Féminin e Médicis. O romance agora eleito como o melhor livro estrangeiro publicado em França em 2010 (na tradução de Dominique Nédellec «Apprendre à prier à l’ère de la technique ») foi publicado em Portugal.

Para ler mais clica neste endereço: http://www.ciberescritas.com/?p=9053

Uma notícia que me enche o coração de alegria...

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

CITAÇÕES - TOLSTOI

A revista Única de 20 de Novembro comemorou o centenário de Tolstoi magnificamente. Transcrevo algumas "Frases parra mais tarde recordar" que impressionam pela sua genialidade:

«O homem não tem poder sobre nada enquanto tem medo da morte» 

«Um homem é uma fracção cujo numerador corresponde ao que ele é, enquanto o denominador é o que acredita ser.»

«As famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira.»

«O segredo da felicidade não é fazer sempre aquilo que queremos, mas querer sempre aquilo que fazemos.»

domingo, 21 de novembro de 2010

BEIJO - JORGE DE SENA

Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no abrir-se a dentes línguas
tão penetrantes quanto línguas podem.
Mais beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.
É dentes se apertando delicados.
É língua que na boca se agitando
irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
e sobretudo o que se oculta em sombras
e nos recantos em cabelos vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja.

Jorge de Sena, Exorcismos

INTRIGA-ME O TEU CORPO - JORGE DE SENA


Intriga-me o teu corpo. Harmonioso
parece que em contraste com os agudos ângulos
do rosto. E todavia tal contraste
mais acentua não beleza tua
mas quando a tua imagem se me contradiz.
Por certo que és dos seres a quem nudez
ao rosto adoça límpido e o harmoniza
a um corpo que anguloso se revela.
És a quem ver numa nudez completa.
Há que saber do sexo e dos cabelos negros
rodeando-o como, em relação a ti.

Jorge de Sena, Conheço o Sal e outros poemas...


Não há domingo sem poesia. E este livro é dos mais poderosos que conheço. A noite chega mais perto e arrepia quando os poemas de Sena se vêem, mesmo que seja de longe...

sábado, 20 de novembro de 2010

O corpo do pintor pintado. O pintor-tela. O corpo pintado do pintor.

MATTEO PERDEU O EMPREGO - GONÇALO M. TAVARES


O novo livro de Gonçalo M. Tavares, com um grafismo que se desvia do das anteriores publicações (também contém fotografias a abrirem cada um dos capítulos), é uma sucessão de pequenas narrativas sobre personagens excêntricas que se cruzam e se vão abandonando até chegar a Matteo, o personagem que dá nome a este novo título  ( cada um dos personagens através da sua mania, do seu carácter,  rasteira a estereotipada imagem da normalidade social, sendo surpreendente o modo como desestabiliza a lógica por que nos pautamos nas situações problemáticas como nas mais insignificantes). Cruzam-se duas componentes, a ficcional e a ensaística numa leitura que não consegue parar de nos surpreender, reinterpretando a tabela periódica dos elementos químicos, dando de frente com nome de personagens que coincidem com nomes de cidades/asteróides e outras coisas mais...para preencherem de um incontável prazer um fim-de-semana como este Um dos excertos que fica, é este, sobre o maníaco Baumann:




BAUMANN E O LIXO



«Poderemos falar de comportamentos maníacos precisos, embora não enquadráveis em nenhuma doença que os médicos dominem o suficiente para a domesticar com a suavidade aparente de um nome.
O Sr. Baumann aproximava-se de um caixote de lixo público. Os seus pés nada denunciavam, mas havia já nele, antes de tocar no lixo, um cheiro nauseabundo que afastava amigos e até inimigos.
Baumann lavava o lixo. Pegava em cada uma das peças dos restos e dos vestígios que um caixote de lixo público vai guardando e limpava-os com toda a dedicação, como se estivesse a recuperar velharias que, depois de polidas e bem tratadas, valeriam ouro. A questão aqui é que as velharias eram restos : latas de refrigerantes torcidas, cascas de frutos, copos partidos, pedaços de vidros de que já era impossível conhecer a origem – que belos lábios poderiam ter tocado em tempos estes cacos quando ainda não eram cacos? – utensílios de cozinha, por vezes objectos utilizados por amantes em período de excitação, etc.

Há quem diga que Baumann tinha sido historiador. E que aquela actividade maníaca, agora que passava dos setenta anos, era no fundo um vestígio perturbado dessa actividade de recuperação do passado, dessa actividade de dar atenção ao que os outros já deixaram para trás. Mas esta informação – sobre a anterior actividade - profissional de Baumann nunca foi confirmada. (…)»

Gonçalo M. Tavares, Matteo perdeu o Emprego, Porto Editora




LOUCURA E QUOTIDIANO - JEAN DE LA FONTAINE, GEORG BÜCHNER, ANTON TCHÉKHOV, LUIGI PIRANDELLO

Uma loucura de livro, da colecção Padrões Literários, este que li e me fez entender melhor a Loucura na Literatura. Deixo o texto integral de La Fontaine que abre a colectânea e um excerto de Lenz, de Georg Bücnner:

«No amor tudo é mistério: as suas setas e a sua bolsa, a sua chama e a sua infância eterna.

Mas por que é cego o amor?
Aconteceu que num certo dia o Amor e a Loucura brincavam juntos. Nessa altura o Amor ainda não era cego.
Entre eles emergiu um desentendimento qualquer.
Solicitou então o Amor que se reunisse o conselho dos deuses, para tratarem desse assunto.
Mas a loucura, na sua impaciência, deu-lhe uma pancada com tal violência que lhe privou da visão.
Vénus, mãe e mulher, pôs-se a clamar por vingança aos gritos.
E diante de Júpiter, Némesis – a deusa da vingança – e de todos os juízes do Inferno, Vénus exigiu que aquele crime fosse reparado. O seu filho não podia ficar cego.
Depois de estudar com bastante detalhe o caso, a sentença do supremo tribunal celeste consistiu em condenar a Loucura a servir de guia ao Amor.»
Jean de la Fontaine

«Ao anoitecer, chegou ao cimo da montanha, ao planalto nevado de onde se desce, do lado oeste, para a planície. Sentou-se. Tudo, com a noite, se tornara mais calmo, as nuvens firmes e imóveis no céu. Tão longe quanto a vista alcançava, nada senão cumes de onde desciam largos declives. E tudo tão tranquilo, cinzento, crepuscular. Sentiu-se assustadoramente só; estava só, absolutamente só. Queria falar consigo mesmo, mas não o conseguia. Mal ousava respirar; ao andar, mesmo com cautela, os seus passos ressoavam como trovões. Devia sentar-se. Uma angústia indizível assaltou-o, no meio deste nada gigantesco: encontrava-se no vazio! De um salto levantou-se e desceu a correr encosta abaixo.
Chegara a escuridão, a terra e o céu confundiam-se numa só coisa. Tinha a sensação de que algo o perseguia, que essa coisa terrível o ia atingir e que os homens não podem suportar: como se a loucura, montada nos seus cavalos, o perseguisse.»
Georg Büchner