sábado, 22 de janeiro de 2011

ANNA CALVI - NO MORE WORDS



Oh, my love...
Parabéns pelo teu dia de aniversário!Uma música que sei que gostas.

ANNA CALVI - FIRST WE KISS



Este é o mais recente amor de P.
«Primeiro estranha-se, depois entranha-se» - disse ele, repetindo as palavras de F. Pessoa para me convencer. Aplica-se, sim senhor. Ouve-se bem alto, ao fim-de-semana, antes de partir em viagem, para se entranhar também muito nas paredes da casa e ressoar na nossa ausência uma voz que valha a pena ouvir.

BLINDFOLD - MORCHEEBA



Há uma grande alegria dentro de Blindfold que passa para dentro do corpo se o deixarmos mole e atento aos sons, como faz qualquer cão que espera o dono.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

ESPERA - EUGÉNIO DE ANDRADE

Pablo Picasso, A Espera
                    
Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.


Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.


Eugénio de Andrade, As Mãos e os Frutos

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

JANELAS DO MUNDO

Chagall, Vue de la fenêtre de zaolchie

Os rostos do interior ou as visões do exterior?

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O SILÊNCIO DOS LIVROS

Mnemosyne, deusa grega da memória
"A oralidade exige a verdade, a honestidade necessária à autocorrecção, e a democracia, enquanto partilha comum (…).
O segundo aspecto que ressalta do mito de Fedro não é menos significativo. O recurso à escrita debilita o poder da memória. Aquilo que fica escrito e que, portanto, pode ser armazenado – como na «base de dados» do nosso computador – já não precisa de ser confiado à memória. Cultura oral é aquela que constantemente reactualiza as memórias; um texto, ou uma cultura do livro, autoriza (uma vez mais, esta palavra delicada) todas as formas de esquecimento. A distinção conduz-nos ao cerne da identidade humana e da civilitas. Onde quer que a memória seja dinâmica, onde quer que sirva de instrumento a uma transmissão psicológica e comum, a herança passada transforma-se em presente. A transmissão de mitologias matriciais e de textos sagrados através de milénios, o facto de ser possível a um bardo ou a um aedo reproduzir narrativas épicas extremamente longas sem qualquer suporte escrito atestam o poder da memória, quer do executante, quer do ouvinte. Saber «de cor» - e que manancial de informação nesta locução – supõe a apropriação de qualquer coisa e o ser possuído pelo conteúdo do saber em questão.
Quer isto dizer que autorizamos o mito, a prece ou o poema a virem implantar-se e florir no interior de nós mesmos, enriquecendo e modificando a nossa paisagem interior, tal como, por sua vez, cada uma das incursões através da vida modifica e enriquece a nossa existência. Aliás para a filosofia e estética antigas, a memória era a mãe das musas.
Quando a escrita levou a melhor e os livros facilitaram um tanto as coisas, a grande arte mnemónica caiu no esquecimento. A educação moderna cada vez se assemelha mais a uma amnésia institucionalizada. Deixa o espírito da criança vazio do peso das referências vividas. Substitui o saber de cor, que é também um saber do cor(ação), pelo caleidoscópio transitório dos saberes efémeros. Reduz o tempo ao instante e vai instilando em nós, até quando sonhamos, uma amálgama de heterogeneidade e de preguiça. Podemos afirmar que tudo o que aprendemos e não sabemos de cor – adentro dos limites das nossas faculdades sempre imprecisas – é aquilo de que verdadeiramente não gostámos. As palavras de Robert Graves mais não fazem o que dizer que «amar de cor(ação)» ultrapassa em muito qualquer «amor pela arte». Saber de cor é entrar em estreita e activa relação com a essência daquilo que somos. Os livros apõem o selo do bem. (…)”

George Steiner, O Silêncio dos Livros, Gradiva, pp. 15, 16, 17

Este é um ensaio que vale verdadeiramente a pena ler. George Steiner partindo do mito e das figuras que    (i)legitimamente se convencionaram iletradas, Jesus de Nazaré e Sócrates, parte do principio de que  a palavra, despida da sua convenção gráfica, é detentora de um poder invencível e de uma autoridade pura. Explica-nos os passos fundamentais que se deram no interior do livro no que respeita à sua «visualização gráfica», aludindo a que, nos primórdios, em muito contribuiram as expectativas escatológicas de um apocalipse próximo que inviabilizasse um tempo suficiente para cultivar a memória oral. Depois do livro, debate a gravidade que pode assumir a entrega às humanidades, aos livros, à arte na medida em que  o homem corre o risco de se desumanizar. Debate o facto de por detrás do silêncio que discorre da genialidade da obra de alguns autores existir, paradoxalmente, tendências políticas desses mesmos autores assustadoras. Um ensaio imperdível cheio de ideias a conhecer e a debater.
Bom para qualquer educador, para qualquer cidadão que goste de arte e, particularmente, de livros e do seu silêncio.

EFTERKLANG



Fios que nos enrolam.
Uma música magnífica que dispensa a imagem...embora goste muito do vídeo.

domingo, 16 de janeiro de 2011

NÃO HÁ DOMINGO SEM POESIA


Suspendo a mão entre o A e o B,
entre a minha vida e a vida que andará
dentro da minha vida.
E o mundo refloresce
com memórias de rios e montanhas
inundando estes mares de sal e carne
onde me afogo
para respirar.

Pedro Tamen, O Livro do Sapateiro, D. Quixote, p. 34

JANELAS DO MUNDO


Cada janela tem a particularidade de provocar em mim a ideia de uma superioridade descomunal sobre o real. Uma mão aberta encobre-o como um vestido o faz ao corpo e fá-lo parecer outro, menos grandioso e obediente.

sábado, 15 de janeiro de 2011

MINHA CABEÇA ESTREMECE - HERBERTO HELDER



Incomparável, a poesia de Herberto Helder ainda mais singular com este fundo musical. Deixo também as palavras para ler sem música,nuas, perfeitas, agredindo qualquer sensibilidade adormecida, entediada. E torno-me toda estupefacção cada vez que leio e entendo o poema:

Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.
Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.

Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.

Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

- Era uma casa - como direi? - absoluta.

Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metias as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.

Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.

As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
- Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.

Era uma casabsoluta - como
direi? - um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.

- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.

Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.

Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.


In «Ou o Poema Contínuo», Assírio & Alvim, 2001

This light holds so many colours - Rodrigo Leão/ Stuart Staples



É um encanto de música, esta que o Rui sugeriu.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O LIVRO DO SAPATEIRO - PEDRO TAMEN

Um pequeno livro com imagens poéticas arrebatadoras sobre a obra que o ser humano faz, por vezes, por instinto, como no caso do poeta Pedro Tamen.
Deixo o poema de abertura:

Iremos procurar a razão da giesta
a razão do amarelo
iremos procurar a razão
iremos procurar
e os olhos tomarão todas as cores
as cores de tudo.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

EXCERTOS QUE FICAM


 Um romance fabuloso sobre o amor desmedido aos livros, às bibliotecas e à literatura.Um romance que confirma que os livros podem mudar o destino das pessoas.


«Não é assunto irrisório. Espero que me entenda. Imagine por um momentoque, ao longo da sua vida, conseguiu conservar um conjunto de recordações da sua infância; sensações, cheiros, a luz que iluminava o cabelo da sua mãe, as primeiras aventuras na rua, impressões mais ou menos caóticas de algo insondável mas que forma, ao fim e ao cabo, uma memória da sua infância, com os seus terrores, alegrias e emoções. Depois tem um registo do seu nascimento. A escola ordena. Os professores, os colegas, as primeiras aventuras, e assim continuou a acumular recordações de cada uma das suas experiências até chegar à actualidade.

«Um dia, de modo inesperado, perde a ordem das recordações. Elas continuam lá, só que se tornaram inalcançáveis. Quando procura a imagem da sua primeira mulher, encontra um sapato que um cão mordia num longínquo baldio da sua infância. Quando procura o rosto da mãe, descobre o de um tipo antipático numa obscura repartição pública. A sua história acabou. Reflecti sobre isso, enquanto procurava compreender o que Carlos tinha feito. O pior de tudo é que os factos estão aí, à espera de os encontrarmos. E não sabemos como fazê-lo. Não se trata do esquecimento, que cobre piedoso, o que não consegue tolerar. É uma memória selada, um apelo obsessivo a que não conseguimos responder. Nem sequer possui o ficheiro temático que desprezou, em busca de um novo sistema, mais complexo, mas ao mesmo tempo mais frágil.

«O facto é que levou os livros para Rocha. Para a franja de areia entre a lagoa e o mar. Uma viagem penosa, porque os livros tiveram que percorrer mais de duzentos quilómetros em vários camiões cobertos. Entraram, seguramente, pelo caminho de terra e depois foram trasladados de carroça pelo areal até ao local onde se erguia a quincha aberta, quase em cim da praia.

«Que julga que fez com eles? Encarregou-se de conseguir um pedreiro da zona, um desses operários desocupados, capazes tanto de trabalhar a madeira quanto o cimento, de colocar uma janela ou um telhado de palha atado com arames, de martelar pregos grossos como dedos, de fazer uma perfuração de água ou de britar a pedra, com resultados sempre imprevisíveis e incertos. Homens que não fazem perguntas e fazem o que se lhes pede, seja como for, enquanto houver soldo, porque eles não vão viver aí.

«Carlos pediu ao pedreiro de Rocha que enterrasse na areia os pontais da armação das janelas e os pontais de duas portas, e que, com uma parede de pedra, lhe construísse uma chaminé. Quando a chaminé ficou pronta, assente num dos lados do quincho, e as janelas e as portas ficaram fixas, pediu que lhe fizesse uma argamassa de cimento. E em cima do cimento – compreenderá que dizer-lhe isto meproduza uma sensação de horror – pediu-lhe que usasse os seus livros como tijolos.

«Assim mesmo, como está a ouvir. Sob o olhar, entre piedoso e indiferente, do pedreiro que procedia à mistura, dedicou-se a seleccionar, da montanha de livros despejada pela carroça na areia limpa e branca, aqueles que deviam protegê-lo do vento, da chuva, da inclemência do Inverno. Já não lhe importava a amizade ou a inimizade entre os autores, as afinidades ou contradições entre Espinosa , a botânica do Amazonas e a Eneida de Virgílio; se as encadernações eram boas ou medíocres, se tinham gravuras ou pranchas, se estavam intonsas ou se se tratava de incunábulos. Apenas a proporção de cada volume, a grossura, a dureza das capas para resistir à argamassa de cal, cimento e areia. O pedreiro colocou o tomo enciclopédico no ângulo de um dos postes e contou os volumes da colecção, alinhando-os em cima do fio que lhe servia de guia.»

Carlos María Domínguez, A Casa de Papel, Asa, pp. 53, 54, 55, 56.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Mais informações sobre este livro que reúne História e linguagem poética e cujo título é uma frase de Rudyard Kipling:

http://www.viabooks.fr/article/parle-leur-de-batailles-de-rois-et-d-elephants-de-mathias-enard-1792

Résumé officiel de l'éditeur:



13 mai 1506, un certain Michelangelo Buonarotti débarque à Constantinople. A Rome, il a laissé en plan le tombeau qu'il dessine pour Jules  II, le pape guerrier et mauvais payeur. Il répond à l'invitation du Sultan qui veut lui confier la conception d'un pont sur la Corne d'Or, projet retiré à Leonardo da Vinci. Urgence de la commande, tourbillon des rencontres, séductions et dangers de l'étrangeté byzantine, Michel Ange, l'homme de la Renaissance, esquisse avec l'Orient un sublime rendez-vous manqué. Par l'auteur du très remarqué "Zone" (prix Décembre 2008 et prix du livre Inter 2009).

(Cuidado com os livros! - digo eu.)

«... de todas as formas naturais [...] a quantidade é a que mais abstrai da matéria e que mais dela é separável»

Roger Scruton, Breve História da Filosofia Moderna

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

JANELAS DO MUNDO

«Aquela janela alta tinha, no fundo, uma altura feita ao milímetro para permitir uma especialização do olhar, um olhar que conseguia ver quinhentas pessoas e também, se necessário, mergulhar apenas sobre uma, e ver este corpo enquanto exemplar, ampliando-o através de uma atenção precisa. Quem construíra aquelas janelas, com aquela localização, naquele andar concreto do edifício, percebia certamente não apenas de arquitectura mas também de política.»

Gonçalo M. Tavares, Aprender a Rezar na Era da Técnica, Caminho, p. 139

OBRA POÉTICA- SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

«A presente edição, agrupando pela primeira vez num único tomo a obra poética da autora, segue e actualiza os critérios de fixação de texto adoptados na segunda das referidas séries, a série das edições «revistas». Publica-se igualmente, neste volume, um conjunto de poemas dispersos em revistas, em livros colectivos, em jornais e num cartaz, desde textos que remontam à primeira fase da produção de Sophia, dos anos 1940, até aos últimos poemas escritos em 2001. Alguns destes textos já foram dados a conhecer na antologia Mar, a partir da 5.a edição, saída em 2004 (selecção e organização de Maria Andresen de Sousa Tavares). Não se inclui no presente volume um número considerável de poemas inéditos, que integram O espólio da autora, e que aguardam publicação em futura edição crítica.»


 
A sensação que tive ao entrar no ano novo com esta Obra Poética nas mãos foi a de possuir uma esfera de cristal que quanto mais se contempla mais  mar traz até nós. Há uma transparência na poesia de Sophia  a que só ela sabe dar voz. Um apelo à origem, um retrocesso ao elemento Água que desfaz toda a sabedoria posterior e nos faz reconhecer em todas as coisas o Índício de toda a emoção humana. Essa simplicidade de uma linguagem pura e desprovida de artificialismo desperta o primeiro sentido de tudo o que nos cerca, fazendo-nos ver a palavra como um naco de verdade submersa nos traços poéticos de um sentir universal. Ler um poema como se entre o meu olhar e as palavras negras inscritas nas folhas brancas se intrometesse um líquido translúcido,quase morno, levemente agitado pelos dedos que apontam as entrelinhas, que apontam as letras...uma sensação de um acordar de verão a entrar na praia cheio de uma luz tão clara que aquece tudo o que se vê, e torna o real numa transcendência à mão da leitura - real daqueles que gostam de pressentir proximamente o golpe da Criação.


UM PÁLIDO INVERNO

Um pálido inverno escorria nos quartos
Brancos de silêncio como a névoa
Um frio azul brilhava no vidro das janelas
As coisas povoavam os meus dias
Secretas graves nomeadas

Sophia de Mello Breyner Andresen, Dual




 

domingo, 2 de janeiro de 2011

JANELAS DO MUNDO

ATLÂNTICO

Mar,
Metade da minha alma é feita de maresia.

Sophia de mello Breyner Andresen, Poesia

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

2011 ESTÁ QUASE A CHEGAR


O Tempo, hoje mais do que noutro dia, coisificou-se e todos esperamos que se estilhace, se desfaça numa espécie de poeira vasta para o levarmos com muito jeitinho para o lixo.
No buraco que ele ocupava nas nossas vidas, repentinamente para além da meia-noite, surgirá um Tempo limpo e novo, sem mágoas, sem qualquer experiência, sem hábitos rotineiros, como se não nos reconhecesse do lugar dele para o nosso lugar. É por isso preciso tratá-lo bem, causar boa impressão para o apertarmos na mão quando quisermos e o levarmos connosco até à nossa velhice.
Suspiro por beijá-lo assim que chegue, cheio do fogo-de-artifício por detrás dele, a empurrá-lo com cor a toda a força para os nossos braços.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

DN de 29 de Dezembro de 2010 - FELIZ ANIVERSÁRIO!


Linda amiga,
antes de tudo o resto "FELIZ ANIVERSÁRIO!"
Agora aproveito para te confessar que assim que me avisaste disto, nem queria acreditar...  logo hoje, no dia em que comemoramos os teus anos de vida, a edição do DN, repito, a edição do dia 29 de Dezembro de 2010, é especialmente coordenada pelo Gonçalo M. Tavares... e até uma garrafa de champanhe trouxe para casa com o jornal. Foi cheia de inveja (inveja com minúscula,  mais saudável do que a vulgar Inveja humana, dada a grande amizade que por ti sinto) que conclui que, afinal, depois desta coincidência, nenhuma outra ocorrência, cheia deste carácter excepcional, me poderá cruzar, a mim, mortal-leitora-do-séc-XXI com Gonçalo M. Tavares, imortal-escritor-do-mesmo-séc.-XXI, numa mesma data tão importante. Pretendo fazer com este jornal que comprei há algumas escassas horas, num ímpeto sem igual (não sei se fora a tal inveja que se apoderou de mim, mal dei com a data do jornal seguida da fotografia do rosto sério de M. Tavares a olhar para os meus olhos...), o mesmo que fiz quando nasceu toda a pequenada da família: oferecer-to porque traz notícias de um dia que é teu. Sinceramente, acho que é uma sorte o que te aconteceu. Como encontrares alguém que consegue fazer do teu dia de aniversário, um dia ainda mais especial (se isso for possível, linda amiga... e por isso mesmo tornares-te uma amiga ainda mais bela do que a que para mim eras).
Deixo-te o Editorial assinado pelo Gonçalo M. Tavares (sabes que gosto sempre de ler editoriais frescos...), pretenso director do DN. (Impossível fazer melhor!).









EDITORIAL


DAS LEITURAS E DA MEDICINA
por Gonçalo M. Tavares

1. Um médico responsável, um médico de seres humanos e não um médico de órgãos que ainda estão vivos, logo a seguir à questão: o que é que come?
deveria perguntar ao seu paciente: o que é que lê? E que imagens é que vê habitualmente?
2. Sempre associámos a saúde às consequências de algo que o corpo absorve. Ou culpamos a genética ou culpamos o que comemos, as experiências físicas, os nossos hábitos e vícios.
Se falarmos de saúde mental não deveremos esquecer o que a cabeça absorve. A cabeça que absorve boas palavras, palavras que fazem pensar, palavras que exigem trabalho de interpretação, que exigem esforço, movimento mental, a cabeça que absorve esse tipo de palavras terá melhor saúde, eis a evidência.
3. Uma expressão de que gosto particularmente é a do escritor Henri Michaux. Ele chama à sua cabeça "as minhas propriedades": a cabeça é o seu território - é o território de cada um; são, no fundo, metros quadrados por ocupar, uma extensão interminável, felizmente. Quando Michaux vê num álbum de fotografias uma bela imagem de um animal, ele murmura, que bonita esta imagem - vou levá-la para as minhas propriedades! E assim faz: leva aquela imagem para a sua cabeça, isto é, guarda-a na memória.
A nossa cabeça é, em parte, um armazém, sim, e enorme: por dia, levamos para o nosso território mental centenas de imagens, centenas de frases e sons.
4. Mas a cabeça não é um armazém ou um museu que tenta conservar exactamente aquilo que recebe.
A nossa cabeça é mais um espaço de absorção e digestão. A cabeça é o estômago alto, o estômago inteligente: digere alimentos mentais, digamos assim, digere, por exemplo, textos que lê, imagens que vê, músicas e sons que ouve.
E por isso é que escrever ficção (literatura) e escrever realidades (notícias) - usemos esta expressão - são duas formas de exercer uma responsabilidade. O que cada um lê e vê entra na cabeça e aí alojado faz o seu percurso, avança e muda, interfere com os antigos habitantes desse espaço, com as ideias e imagens anteriores, entra em conflito, faz novas associações.
5. Regressando ao início. O médico que se preocupe com a saúde do seu paciente, dos pés ao cabelo, não deve apenas aconselhar mudanças de dieta alimentar e hábitos físicos. Deve ainda aconselhar mudanças de dieta de leitura, mudanças de dieta de música, mudanças de dieta de imagens. Tal como aconselha alimentos e hábitos, poderia aconselhar filmes, livros, fotografias e artigos de jornal, compositores e concertos.
6. Quando se faz algo que pode interferir na cabeça dos outros é interessante pensar nesse médico ideal, lúcido e sábio, provavelmente inexistente, que algures, no seu consultório, aconselha dietas intelectuais.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

JORGE DE SENA - ANTOLOGIA POÉTICA

 «A obra Antologia Poética de Jorge de Sena é uma selecção de cerca de 200 poemas de um dos mais importantes poetas de língua portuguesa. Esta edição é valorizada pela organização, selecção e prefácio de Jorge Fazenda Lourenço, o maior especialista da obra de Jorge de Sena. Antologia Poética de Jorge de Sena é uma das mais belas e importantes antologias da Poesia mundial do século xx.»

Um dos pontos fortes deste livro de poesia constitui-se (para além da beleza física do livro e da inteligente selecção de poemas dos poemas) pelo texto crítico da autoria do próprio Sena sobre a sua poesia e obra, a que Jorge Fazenda Lourenço deu o título " A poesia de Jorge de Sena por Jorge de Sena". Antes de entrarmos na poesia estamos já inflamados pelas palavras do autor acerca dela. Entra-se nesta antologia, editada recentemente, como numa estrada em que cada poema-paragem fosse um abrigo para a contemplação.
Deixo um dos poemas que tenho como preferido.   

OS TRABALHOS E OS DIAS

Sento-me à mesa como se a mesa fosse o mundo inteiro
e principio a escrever como se escrever fosse respirar
o amor que não se esvai enquanto os corpos sabem
de um caminho sem nada para o regresso da vida.


À medida que escrevo, vou ficando espantado
com a convicção que a mínima coisa põe em não ser nada.
Na mínima coisa que sou, pôde a poesia ser hábito.
Vem, teimosa, com a alegria de eu ficar alegre,
quando fico triste por serem palavras já ditas
estas que vêm, lembradas, doutros poemas velhos.


Uma corrente me prende à mesa em que os homens comem.
E os convivas que chegam intencionalmente sorriem
e só eu sei porque principiei a escrever no princípio do mundo
e desenhei uma rena para a caçar melhor
e falo da verdade, essa iguaria rara:
este papel, esta mesa, eu apreendendo o que escrevo.


Jorge de Sena, Coroa da Terra

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Uma mulher-mito que faz arrepiar sempre que se ouve (bem alto enquanto a casa dorme):
http://www.youtube.com/watch?v=GIjITrAiZCA&feature=related

QUARTO DE BADULAQUES - RUBEM ALVES

Com receio de que não entres num dos quartos da casa de Rubem Alves, transcrevo um dos textos que o decora porque o achei especial. Ora lê, linda amiga:

«Os trinta e três nomes de Deus: De vez em quando perguntam-me se acredito em Deus. Mas é claro. Acredito mais que a maioria das pessoas. Tenho até trinta e três nomes para ele. Esses nomes foi a Margueritte Yourcenar que me contou. Ela foi uma escritora maravilhosa, autora do livro Memórias de Adriano, quem lê nunca mais esquece, quer ler de novo. Pois esses são os trinta e três nomes de Deus que ela me ensinou. É só falar o nome, ver na imaginação o que o nome diz, para que a alma se encha de uma alegria que só pode ser um pedaço de Deus... Mas é preciso ler bem devagarinho... 1.Mar da manhã. 2.Barulho da fonte nos rochedos sobre as paredes de pedra. 3.Vento do mar de noite, numa ilha... 4.Abelha. 5.Vôo triangular dos cisnes. 6. Cordeirinho recém-nascido.... 7.Mugido doce da vaca, mugido selvagem do touro. 8.Mugido paciente do boi. 9. Fogo vermelho no fogão. 10.Capim. 11.Perfume do capim. 12.Passarinho no céu. 13.Terra boa... 14.Garça que esperou toda a noite, meio gelada, e que vai matar sua fome no nascer do sol. 15. Peixinho que agoniza no papo da garça. 16. Mão que entra em contato com as coisas. 17.A pele, toda a superfície do corpo 18. O olhar e tudo o que ele olha. 19.As nove portas da percepção. 20.O torso humano. 21.O som de uma viola e de uma flauta indígena. 22.Um gole de uma bebida fria ou quente. 23.Pão. 24.As flores que saem da terra na primavera. 25.Sono na cama. 26. Um cego que canta e uma criança enferma. 27. Cavalo correndo livre. 28.A cadela e os cãezinhos. 29.Sol nascente sobre um lago gelado. 30.O relâmpago silencioso. 31. O trovão que estronda. 32.O silêncio entre dois amigos. 33.A voz que vem do leste, entra pela orelha direita e ensina uma canção...” Agradeço ao Carlos Brandão por haver me apresentado os trinta e três nomes de Deus da Margueritte. Não é preciso que sejam os seus. Faça a sua própria lista. Eu incluiria: Ouvir a sonata Apassionata de Beethoven. Sapos coaxando no charco. O canto do sabiá. Banho de cachoeira. A tela “Mulher lendo uma carta”, de Vermeer. O sorriso de uma criança. O sorriso de um velho. Balançar num balanço tocando com o pé as folhas da árvore... Morder uma jabuticaba... Todas essas coisas são os pedaços de Deus que conheço... Sim, acredito muito em Deus.»


In http://www.rubemalves.com.br/quartodebadulaquesLXXX.htm

OS REIS MAGOS - RUBEM ALVES


No dia 25 de Dezembro o Tiago e a Ana Luís viveram um Natal a mais através deste conto que lhes li. Também li para mim própria. Para eu ouvir e ver todas as palavras que Rubem Alves escreveu e as tornar presentes naquela sala maior onde se encontrava toda a família. Elas entraram para junto de nós e transformaram-nos a todos, de uma maneira estranha, em crianças. Deixo um pequeno excerto para que também tu entres dentro desse outro Natal (mais? ou menos? verdadeiro do que aquele que agendamos anualmente) e que dura naquelas páginas há muitos e muitos anos porque há sempre leitores para ele. A Literatura brasileira tem disto:

«A estrela iluminava uma gruta. Os reis se aproximaram. Na gruta havia vacas, cavalos, burros, ovelhas. Era uma estrebaria. Mas, junto com os animais, uma pequena família: um jovem e uma jovem que amamentava um nenezinho recém-nascido. Era só isso. Nada mais.

Perceberam que haviam se enganado: não era a estrela que iluminava a cena. Era o nenezinho que iluminava a estrela. E olhando bem para ela puderam ver, nela refletido como num espelho, o rosto da criancinha. E disseram: “O universo é um berço onde uma criança dorme!“.
Aí uma coisa estranha aconteceu: ao olhar para o nenezinho os reis perdiam a sua compostura real; eram dominados por uma vontade incontrolável de rir. E quando riam, ficavam leves e começavam a flutuar. Era assim: quem visse o menino se transformava em anjo...
Os reis, em meio aos risos e vôos, olharam cada um para o outro e disseram: “Nossa busca chegou ao fim. Encontramos a alegria. Para se ter alegria é preciso voltar a ser criança...“. Ato contínuo tomaram suas coroas, capas de veludo, dinheiro, ouro, jóias – coisas de adulto - e as depuseram no chão, ao lado das vacas e dos burros... Eram pesadas demais. E partiram leves, ora andando, ora pulando, ora voando, mas sempre rindo.
“Vou mudar de vida“, disse Gaspar. “É horrível ter de estar estudando ciência o tempo todo. Vou me transformar em poeta...“
“Eu também vou mudar de vida“, disse Balt-hazar. “É horrível estar rezando o tempo todo. Vou ser palhaço. O riso é o início da oração.“
Ao que Mélek-hor acrescentou: “E eu descobri o prazer supremo, que vem sempre acompanhado de alegria: brincar. Vou ser um fabricante de brinquedos. Quem brinca volta a ser criança. E quem volta a ser criança está de volta no Paraíso.“.
E assim partiram, cada um por num caminho. E se você, nas suas andanças, se encontrar com um poeta, um palhaço ou um fabricante de brinquedos, pergunte se ele não tem notícias de uns três reis...»


Rubem Alves, Transparências da Eternidade, Verus, 2002

Podes entrar na casa do autor e ler o conto na íntegra porque ele é muito encantador. Quando mudar de casa, quero construir uma como esta de Rubem Alves, sólida e singular:

http://www.rubemalves.com.br/osreismagos.htm

sábado, 25 de dezembro de 2010

A PALAVRA MAIS BELA - ADOLFO SIMÕES MÜLLER

Fui ver ao dicionário de sinónimos
a palavra mais bela e sem igual,
perfeita como a nave dos Jerónimos...
E o dicionário disse-me Natal.

Pergunto aos poetas que releio:
Gabriela, Régio, Goethe, Poe, Quental,
Lorca, Olegário...E a resposta veio:
E é Christmas...Natividad...Noël...Natal.

Interroguei o firmamento todo!
Cobra, formiga, pássaro, chacal!
O aço em chispa, o "pipe-line", o lodo!
E a voz das coisas respondeu Natal!

Pedi ao vento e trouxe-me, dispersos,
- riscos de luz, fragmentos de papel -
cânticos, sinos, lágrimas e versos:
Um N, um A, um T, um A, um L...

Perguntei a mim próprio e fiquei mudo...
Qual a mais bela das palavras, qual?
Para quê perguntar se tudo, tudo,
diz Natal, diz Natal e diz Natal?!

Adolfo Simões Müller, Moço, Bengala e Cão - Poemas, 1971
Edição do autor, Lisboa

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

FELIZ NATAL FELIZ NATAL FELIZ NATAL FELIZ NATAL FELIZ NATAL

FALAVAM-ME DE AMOR - NATÁLIA CORREIA



FALAVAM-ME DE AMOR


Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,


menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.


Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.


O fel que por nós bebes te liberta
 e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.


Natália Correia
O Dilúvio e a Pomba
Lisboa, Publicações D. Quixote, 1979

domingo, 19 de dezembro de 2010

NÃO HÁ DOMINGO SEM POESIA

POEMA DA QUANTIDADE

Aqui são excessivas as estrelas.
O homem é excessivo. As gerações
Inúmeras de aves e de insectos,

Do jaguar constelado e da serpente,
De galhos que se tecem e entretecem,
Do café, da areia e das folhas
Oprimem as manhãs e nos prodigam
Seu minucioso labirinto inútil.
Talvez cada formiga que pisamos

Seja única ante Deus, que a define
Para a execução das regulares
Leis que regem Seu curioso mundo.
Não fosse assim, o universo inteiro
Seria um erro e um oneroso caos.
Os espelhos do ébano e da água,
O espelho inventivo de um sonho,
Os liquenes e os peixes, as madréporas,
Tartarugas alinhadas no tempo,
Os vaga-lumes de uma única tarde,
As araucárias e suas dinastias,

As perfiladas letras de um volume
Que a noite não apaga são sem dúvida
Não menos pessoais e enigmática
Que eu, que as confundo. Não me atrevo
A julgar nem a lepra nem Calígula.”

Jorge Luís Borges

sábado, 18 de dezembro de 2010

SILENTLY - BLONDE REDHEAD



As palavras, ao contrário da imagem, são voláteis e têm dificuldade em fazerem-se recordar com exactidão para sempre. Reside aí o seu mistério. No silêncio que fica para além delas.

FOR THE DAMAGED - BLONDE REDHEAD



Música.Porque ao ouvir se vê o impossível.

ÁREA DE SERVIÇO - FERNANDO PINTO DO AMARAL


« (...) Amei-te muito, sim, amei-te desde o princípio do tempo, desde que o mundo começou a ser mundo: revelação total, febre secreta a iluminar o corpo, a abrir caminhos que mais ninguém conhecera antes de nós , a acender-te no sexo mais do que o sexo, a percorrer em ti, pela primeira vez, todos os corpos de todas as mulheres que desejara até esse momento,

Todas as raparigas que nunca possuíra, todas subitamente concentradas em ti, nesse amor fora do tempo e do espaço, como se só na tua pele a minha fosse lume, sem sabermos porquê, no instante do relâmpago antes do trovão, com a memória de uma tempestade a correr-nos nas veias, a obrigar-nos nas veias, a obrigar-nos a isso, a dizer-nos que tinha de ser,

Es muss sein, es muss sein, sem alternativa, voz de dentro e de fora do mundo,

A fazer-nos receber com júbilo e quase terror a surpresa de um sismo em que tudo de repente se movera, sem deixar pedra sobre pedra, rosto sobre rosto, com os seus epicentros explodindo à superfície do corpo, alterando para sempre o chão onde assentavam as nossas vidas. Quando é assim, não vale a pena perguntar nada ou iludir o destino com as armadilhas da razão: estavas ali e tudo se explicava, numa lógica cega cuja certeza não admitia hesitações. Por isso nos pareceu tão natural esse amor infinitamente maior do que todos os pequenos sonhos que a sociedade nos ensina a cultivar, para que todos os afectos se meçam por uma escala humana. A nossa paixão não se comportava assim, sempre foi muito mais do que humana, fazia-nos atravessar o vazio do mundo como se cada um dos nossos passos pressentisse o abismo e ao mesmo tempo o ignorasse. Foi há sete anos que nos apaixonámos, unidos por um mistério sem medida real, fieis a essa voz omnisciente que nos falava, viviados num oxigénio que respirávamos um do outro para nos salvar a vida,

Respiração boca a boca, ar incandescente,

Como se fosse inesgotável e nos invadisse a boca, a garganta, os pulmões cheios de sol, nas madrugadas que passávamos dentro do carro, um com o outro e um no outro, cada noite mais perto do nosso infinito. Foi há sete anos, meu amor (…)»

Fernando Pinto do Amaral, Área de Serviço, Dom Quixote, pp.163, 164

Um excerto que ofereço ao Márcio para ele poder levar palavras de amor para o seu casamento como se fossem cristais para a sua amada. 

MAGIC MOUNTAIN - BLONDFE REDHEAD



Toda a montanha é mágica especialmente na voz de Kazu Makino(tão bem acompanhada pelos gémeos Simone e Amedeo Pace). Esta versátil banda nova iorquina tem músicas cantadas em várias línguas: inglês, japonês, francês, italiano num estilo muito próprio e que faz sonhar.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

JOANNA NEWSON NA CASA DA MÚSICA

O concerto é no dia 24 de Janeiro na Casa da Música.

JANELAS DO MUNDO

Nicola Slattery

Estar à janela é
ter uma perspectiva íntima 
do mundo. Estar à janela requer
 um silêncio interior maior do que os outros
 silêncios. Como uma luz apagada com a intenção
 de nos tornarmos sombras que esperam um brilho maior
 surgido de repente do lado de fora da vida. A unidade da poesia. 

DUBLINESCA - ENRIQUE VILA MATAS

Está para breve a chegada da tradução portuguesa de Dublinesca pela Teorema. Em França recebeu o prémio Jean-Carrière. Cá, não sei o que receberá, mas espero-o com muita ansiedade.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

 Carrossel de La Defense, Paris

«O estilo de uma cidade é visível na arquitectura,
na roupa das mulheres e na qualidade dos poemas.
Mas se para se conhecer uma flor bastará cheirá-la,
uma cidade, se olhada com atenção, é apenas o indício
 de um homem: e esse homem é sábio,
ladrão ou polícia.Um único homem (mas onde estará ele?)
resume as maravilhas da cidade,
as suas perversões,
o modo como os líquidos circulam na cidade.»

Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia
kawamata

Há tantas cadeiras em Paris à nossa espera, transformando esse tempo paciente numa obra de arte. É urgente conhecer mais criações de Kawamata para reconhecer o caos que os objectos na contemporaneidade constroem à nossa volta como prova de uma abundância desregrada e de uma vontade desmedida de nos projectarmos para além do quotidiano através de um sentido agudo de posse. Uma imagem pode servir de explicação de um século.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

USELESS CREATURES - ANDREW BIRD


O novo CD de Andrew Bird já se pode comprar. São muito bonitas as musicas, instrumentais, deste novo trabalho onde o violino, o assobio e a voz (que mais parece um terceiro instrumento) se misturam e impõem.
A. Bird diz que desconfia das palavras por elas nos poderem enganar, preferindo a nudez da melodia, muito mais honesta, na sua opinião.
Um CD que se ouve muito alto para sonhar para lá de todas as palavras.


terça-feira, 14 de dezembro de 2010

CARTAS DA LITERATURA

«Quero falar a sós contigo, dizer-te tudo pela primeira vez; hás-de ficar a saber toda a minha vida que sempre foi tua e acerca da qual jamais soubeste. Contudo apenas hás-de ficar a saber do meu segredo quando estiver morta, quando já não tiveres de responder-me, quando chegar verdadeiramente ao fim aquilo que agora me estremece pés e mãos, ora me afrontando ora me enregelando. Caso fique viva, então rasgarei esta carta e guardarei silêncio como sempre fiz. Caso a tenhas em teu poder, ficas então a saber ser uma morta quem te conta aqui a sua vida, que foi a tua desde a sua primeira até à sua última hora (...).»

Stefan Zweig, Carta de uma desconhecida, a esfera dos livros

Era o dia do seu quadragésimo aniversário e o conhecido romancista R. recebia, entrea habitual correspondência, uma misteriosa carta. Escrita à pressa, com letra de mulher, duas duzias de páginas de uma confissão que começava assim: «Para ti que nunca me conheceste.» Um relato dramático de uma mulher que ama, desesperadamente, um homem incapaz de amar alguém.

Carta de uma desconhecida é um dos mais aclamados livros de Stefan Zweig que traça um profundo retrato psicológico de uma mulher que amou sem ser amada. Uma relíquia literária onde o autor austríaco descreve com mestria os sentimentos humanos e o drama das suas condições.

(informação da contracapa)

GONÇALO M. TAVARES EM ENTREVISTA

"(...) Há um livro que é determinante no meu percurso: as cartas a Lucílio, de Séneca. Li-o com uns 18 ou 19 anos. É um livro que me acompanha muito. Logo a primeira carta é uma carta sobre o tempo. Lucílio é um discípulo a quem Séneca diz: «Caro Lucílio, já que te queixas de falta de tempo, relata-me o teu dia anterior, diz-me o que fizeste e quanto tempo gastaste com cada coisa; depois de teres feito essa lista, vê de entre as coisas que fizeste quais são as que consideras essenciais e quais são as acessórias, aquelas que poderias dispensar, depois de definires o essencial e o acessório, elimina amanhã o que é acessório e faz apenas as coisas essenciais.» O que acho muito bonito nisto é ele aconselhar a fazer uma contabilidade do tempo. Isto é marcante para mim."

Tenho a certeza de que, como eu, queridas amigas, vocês sentem que o encontro com o Gonçalo M. Tavares, em Viana do Castelo, nunca poderia ser dispensado da lista das coisas essenciais. Não acham? Nem tão pouco a revista Ler deste mês de Dezembro. Haverá melhor presente?

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O SENHOR ELIOT - GONÇALO M. TAVARES


Para recordar todos os senhores do bairro, um vídeo muito interessante, da Caminho, é este:

Mas o novo livro do bairro, O Senhor Eliot e as Conferências, é uma porta aberta para a gargalhada. É uma ousadia o que Gonçalo M. Tavares faz dizer (aparentemente de forma tão pueril e na superfície do texto!) acerca de  alguns versos que escolheu de uma série de poetas estrangeiros. Cada capítulo é uma conferência proferida pelo Senhor Eliot, frente a um público assistente diminuto mas de enorme gabarito (Borges, Breton, Swedenborg, etc) e uma aventura inconsequente da capacidade de interpretação. Transcrevo um excerto da 1ª conferência, na qual o Senhor Eliot começa por explicar um verso de Cecília Meireles:

Vem ver o dia crescer entre o chão e o céu

Trata-se, em primeiro lugar, podemos pensar, de uma mentira. O dia não cresce. Porém, as coisas não são assim tão simples.
Antes do mais, note-se neste verso que o crescer de um dia não é em direcção aum sítio alto qualquer. O dia poderia crescer em direcção ao topo de um edifício. Mas não. Cresce em direcção ao céu.
Reparem ainda que o dia, no verso de Cecília Meireles, vem do chão; o chão visto assim como o outro lado do céu.
Uma dúvida se instala de imediato sobre este verso.
De que chão se trata?
Porque se o dia, imaginemos, crescer desde o chão de uma montanha de três mil metros de altura até ao céu, será evidente que quem vem ver tem menos para ver, pois o percurso é menor. Se se tratasse aqui de algo comercial, seria perfeitamente legítimo que alguém que vem ver o dia crescer entre o chão de uma montanha de três mil metros e o céu não pague o mesmo. (...)

Gonçalo M. Tavares, O Senhor Eliot e as Conferências, Caminho

O POETA COMO NU

um dia apareceu um poeta sem pétalas. nunca tal se vira.
sem pétalas, dizia-se, estava igual a nu, coberto de nada que
o diferisse, como se ser poeta não trouxesse marcas à flor da
pele. algumas pessoas riram-se nervosamente, e só por isso o
estranho poeta se foi embora sem outra notícia.

valter hugo mãe, contabilidade, p. 165

O POEMA FORMIGA

era um poema tão trabalhador que, a cada palavra, construía
cidades inteiras. expunha nitidamente extensões como da
terra ao sol e até incluía o tamanho de deus. tudo visível aos
olhos humanos abertos em surpresa. era, contudo, um poema
sucinto.

valter hugo mãe, Contabilidade, p. 164

domingo, 12 de dezembro de 2010

«A poesia de valter hugo mãe recolhida neste volume mostra quinze anos de oficina lírica que, na verdade, foi a grande escola do escritor. São onze títulos aqui incluídos que se revelam muito diferentes pela progressiva narratividade, acentuada nos trabalhos mais recentes, e pela intimidade, ou confessionalidade, que os seus versos começam a assumir. Entre uma ferocidade incondicional e uma vulnerabilidade profunda, a poesia deste autor passa por livros como: útero, pornografia erudita, a natureza revolucionária da felicidade, ou o mais recente título, o inimigo cá dentro.»






NÃO HÁ DOMINGO SEM POESIA


Morri pela beleza, mas apenas estava
Acomodada em meu túmulo,
Alguém que morrera pela verdade,
Era depositado no carneiro próximo.
Perguntou-me baixinho o que me matara.
– A beleza, respondi.
– A mim, a verdade, – é a mesma coisa,
Somos irmãos.
E assim, como parentes que uma noite se encontram,
Conversamos de jazigo a jazigo
Até que o musgo alcançou os nossos lábios
E cobriu os nossos nomes.




Emily Dickinson
Antologia da Poesia Americana, Ediouro, 1992
Tradução de Manuel Bandeira

sábado, 11 de dezembro de 2010

REPÚBLICA DAS MULHERES - MARIA JOÃO SEIXAS

Trouxe o livro de Maria João Seixas, a quem admiro muito, para casa pois já era um vício entrar na biblioteca da escola e capturá-lo para espreitar uma nova escritora, uma nova voz. Ana Hatherly foi determinante para querer ver mais neste livro pois é absolutamente fantástico o modo como fala do caminho que fez e desfez na conquista do conhecimento (para isso lhe serve a escrita). As suas respostas à entrevista partem de cada um dos versos do seu poema "Asas", e essa ordem e progressão vão permitindo que ela fale de si e da importância daquilo que se esconde (e liberta) em cada uma das palavras que fazem a sua poesia. Transcrevo uma resposta  desta poetisa que, se já admirava, passei a admirar ao quadrado. Ora vê (porque ver é sempre ler):

MJS - «Ébria de Escrita» é o quarto verso do seu poema. Quer ajudar-me a entender melhor o que nele vem dito?
AH- Sempre que começo a fazer qualquer coisa, sou um pouco obsessiva e um pouco insistente. Quando entrei para o Grupo da Poesia Experimental, nos anos cinquenta, comecei a trabalhar com uns trabalhos que eram umas composições de palavras ilegíveis , pareciam uns desenhos estranhos, caligráficos.
A ilegibilidade era rigorosamente a minha intenção, porque quando não conseguimos ler uma palavra, prestamos maior atenção à forma das letras, que  era o que me interessava destacar. Inspirei-me num presente raro que me tinham oferecido, um dicionário chinês, com palavras desde as origens arcaicas até hoje. Fiquei fascinada com aqueles caracteres e pus-me a copiá-los. O princípio de todas as civilizações traduz-se em tentativas de representação humana e a escrita é uma delas. Tendo estudado História de Arte e Arqueologia, aqueles caracteres eram muito reveladores.É fascinante o antropomorfismo dos signos, mesmo que mais ou menos distorcidosque se encontram na origem de todas as escritas (a nossa, a latina, vinda dos romanos, não é tão antropomórfica, é mais simples, mais geométrica, mas também mais elegante). À medida que copiava do livro os caracteres chineses, à medida que mergulhava neles com mais e maior atenção (não sabendo uma palavra de chinês, então e hoje), reparei que a minha mão se foi tornando inteligente e comecei a perceber o mecanismo da ligação de cabeça à mão. Deixei de precisar de pensar para fazer – quando a mão sabe, eu sei, quando eu sei, a mão sabe. É um processo extremamente interessante. Passei a olhar para a escrita de outro modo, um modo que se tornou uma verdadeira embriaguez, uma obsessão eufórica, uma possessão. («Ébria de escrita»).

Maria João Seixas, República das Mulheres, Bertrand Editora

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

EXCERTOS QUE FICAM

Para comemorar o aniversário de Clarice Lispector, um excerto que fica:

«- Tu eras a pessoa mais antiga que eu jamais conheci. Eras a monotonia de meu amor eterno, e eu não sabia. Eu tinha por ti o tédio que sinto nos feriados. O que era? era como a água escorrendo numa fonte de pedra, e os anos demarcados na lisura de pedra, o musgo entreaberto pelo fio d'água correndo, e a nuvem no alto, e o homem amado repousando, e o amor parado, era feriado, e o silêncio no voo dos mosquitos. E o presente disponível. E minha libertação lentamente entediada, a fartura, a fartura do corpo que não pede e não precisa.»

Clarice Lispector, A Paixão Segundo G.H., Relógio d'Água
E quando viram o tornado do amor desceram, novos e velhos, as escadas  para a rua, e olharam-se todos dentro dos olhos uns dos outros à procura de se verem como num espelho.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

SE A EUROPA ACORDAR - PETER SLOTERDIJK

Obrigada Paulinha pela tua sabedoria e plena bondade no empréstimo deste livro (nunca vi em ti uma "bondade autoritária", como o disse tão bem, Clarice Lispector). Vale realmente bem a pena ler o que pensa Peter Sloterdijk, este filósofo considerado na actualidade o mais inovador e expressivo pensador alemão. 

«(...)Pouco depois do fim da II Guerra Mundial, circulava no hemisfério ocidental a frase segundo a qual o ser humano seria um ente «condenado à liberdade». O autor do teorema, Jean-Paul Sartre, criara com essa formulação paradoxal a palavra de ordem do existencialismo. Condamné à la liberté: em nenhuma outra expressão se exprimia melhor, numa perspectiva indiscutivelmente neo-europeia, o sofrimento primário ante a nova abertura e o novo vazio do mundo. Naquela altura, o termo heideggeriano «estar-lançado-no-mundo» teve a sua grande hora. De facto, uma liberdade europeia que ficava a dever-se a uma tal libération pendia sobre os sobreviventes como um diagnóstico patológico. Melhor do que os outros, os franceses sabiam forçosamente o que quer dizer estar exposto a uma liberdade que não se conquistou. Condenação pela libertação: a fórmula de Sartre dava uma ideia clara não da sua época mas do humor ferido que a dominava. O imediato pós-guerra encontrou a sua tonalidade de base num sentimento de desenraizamento existencial a que a partir daí se usou chamar absurdo: o absurdo é um estar que se vê instalado num mundo gigantesco e repulsivo, sem missão inspiradora e sem tarefas objectivas. Existir passou a significar: estar privado de essência e trazer no corpo a carência do ser como primeira propriedade. O ser humano surgia pois como parasita do ser - e, por isso, condenado a invejar as coisas e a aspirar à sua substancialidade. (...)»

Peter Sloterdjik, Se a Europa Acordar, p.19

Ainda para mais o autor revela um  gosto exímio na escolha das epígrafes que abrem cada um dos seis capítulos do livro que até dá vontade de ir buscar todos os  livros a que foi recolhê-las para integrar aquelas frases soltas nos seus habitats naturais e verificar se permanecem as mesmas.
Transcrevo apenas a que abre o capítulo 2 ao qual pertence o excerto deste post:

« a mesma gente simpática a mesma falta de valor.»
George B. Shaw
On Heartbreak, 1920