domingo, 13 de fevereiro de 2011

SOBRE A LITERATURA

Um livro imprescindível para quem gosta tanto de literatura como de reflectir sobre ela.

POEMAS QUE FICAM (O EXCESSO MAIS PERFEITO - ANA LUÍSA AMARAL)


Rubens, Bain de Diane

Um poema que é uma arte poética, este de Ana Luísa Amaral. Lê-se tensa e fulgorosamente como se fosse um quadro. Um quadro de Rubens. É Fátima Freitas Morna que o apresenta como um dos mais significativos da poesia do século XX e o lê criticamente na antologia "Século de Ouro". É para ler e reler, para ficar para sempre:

O EXCESSO MAIS PERFEITO
Queria um poema de respiração tensa
e sem pudor.
Com a elegância redonda das mulheres barrocas
e o avesso todo do arbusto esguio.
Um poema que Rubens invejasse, ao ver,
lá do fundo de três séculos,
o seu corpo magnífico deitado sobre um divã,
e reclinados os braços nus,
só com pulseiras tão (mas tão) preciosas,
e um anjinho de cima,
no seu pequeno nicho feito nuvem,
a resguardá-lo, doce.
Um tal poema queria.
Muito mais tudo que as gregas dignidades
de equilíbrio.
Um poema feito de excessos e dourados,
e todavia muito belo na sua pujança obscura e mística.
Ah, como eu queria um poema diferente da pureza do granito,
e da pureza do branco,
e da transparência das coisas transparentes.
Um poema exultando na angústia,
um largo rododendro cor de sangue.
Uma alameda inteira de rododendros por onde o vento,
ao passar, parasse deslumbrado
e em desvelo.
E ali ficasse, aprisionado ao cântico
das suas pulseiras tão (mas tão) preciosas.
Nu, de redondas formas, um tal poema queria.
Uma contra-reforma do silêncio.
Música, música, música a preencher-lhe o corpo
e o cabelo entrançado de flores e de serpentes,
e uma fonte de espanto polifónico a escorrer-lhe dos dedos.
Reclinado em divã forrado de veludo,
a sua nudez redonda e plena
faria grifos e sereias empalidecer.
E aos pobres templos,
de linhas tão contidas e tão puras,
tremer de medo só da fulguraçãodo seu olhar.
Dourado.
Música, música, música e a explosão da cor.
Espreitando lá do fundo de três séculos,
um Murillo calado, ao ver que simples eram os seus anjos
junto dos anjos nus deste poema,
cantando em conjunção com outros
astros louros
salmodias de amor e de perfeito excesso.
Gôngora empalidece, como os grifos,
agora que o contempla.
Esta contra-reforma do silêncio.
A sua mão erguida rumo ao céu,
carregada de nada.

Ana Luísa Amaral, Século de Ouro, Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX, Cotovia

NÃO HÁ DOMINGO SEM POESIA

NEM DIÁLOGO, OU QUASE


Um tempo pouco apetecido – ou muito apetecido, igual a esta nuvem, a este rio que vai e vem, mas não fica nunca. «Escreve», disse.


Imagino-te, minha mão,
numa sala cheia de sol,
as cortinas transparentes ao lado,
uma mesa ampla.
Dizes-me: «escreve».


Desejar uma onda,
uma avalanche de paixão entre os dedos,
o tempo: este papel pequeno.
Escuto, mas há coisas com gume de espada
e não consigo obedecer como gostava.


Estão impressas na memória,
as palavras,
mas era aqui que um verso do avesso,
sons transparentes,
haver bolhas de sons

Como uma sala a sol,
os grãos de luz
na mesa muito ampla
não formam um padrão que se organize.
«Escreve»,
continua a minha mão.


Mas o céu repete-se tão claro,
o rio é como roda que não pára,
bicicleta com aros de metal fundente.
E o frio sente-se aqui.


«Não sei», respondo-lhe.
«Comprei agora este caderno, a sua capa é verde,
não conheço esta mesa, nem o seu mármore,
não há família entre mesa, caderno, esta nova caneta,
onde se esconde a mesa que conheço?,
o verde carregado?,
não sei», insisto.


«Só te conheço a ti, ó minha mão.
E até hoje me pareces longínqua.
Onde está essa onda?
Onde a avalanche de que eu precisava?»

Toca-te devagar a outra mão.
Conhecem-se a calor.
Mas, eu?
Entre verde e caderno, tudo novo,
o azul quase gume,
as espadas de gume circular,
o tempo em vidro,
é tão fácil perder-te.
«Talvez virando aí à tua esquerda», digo-te,
«descendo-me do ombro.
Talvez aí eu te consiga ver ao longe,
acenar-te sem sons».


«É por aqui», repito.
Mas tu não vês a luz
que passou a vermelho e de repente.
E moves-te entre carros, sons de carros,
de vozes.


E só agora, e afinal, reparo
que a minha mão nunca saiu daqui,
ficou entre cadeiras, sossegada.
Não está dispersa,
não era sua a voz,
por isso essa avalanche lhe pareceu serena.


Chamei-vos «minha mão»,
mas sois os monstros largos que me assaltam.
Já não é sol o sol,
é deste tempo o tempo.
E todavia, pesadelos meus,
podemos tomar chá, se desejardes,
vós que não me sois mão,
mas lhes sabeis da forma, a imitais,
vos transformais em dedos,
unhas, sangue.


Vinde,
ressuscitados em carne e gente,
e sentai-vos aqui.
Olhai: as minhas duas mãos,
as duas:
preparam-vos o espaço.
Não sei como chamar-vos, por que nome.
Parcas, moiras, melopeias de brilho.
Não sei como chamar-vos.


Mas finalmente escrevo.

Ana Luísa Amaral, Raízes





















sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

XXV

Eu gosto disto aqui, da reserva com que escrevo
e lanço fogo sobre o indiviso fogo da escrita.
Eu gosto de cidades que se desenham, sobre a mesa
do sangue dispostas e repetidas no pretérito,


como se de massas escuras se tratasse,
tomadas de assalto pela linguagem, mas não são


linguagem tais cidades amadas, nem sequer
erva tumultuada pelo vário vento da terra.


Eu ainda sei o que é o nó desatando-se,
o mesmo que Frost disse estar na garganta


e que nos persegue como motivo e enigma,
como disparos de células nervosas transparecendo


[o obscuro desejo.


Eu gosto disto aqui, deste lugar, desta clarividente
margem dos dedos pensando sobre o rosto fechado.


Luis Quintais, Riscava a palavra dor no quadro negro, 2010

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

JANELAS DO MUNDO

Luis Brea Martinez, Taller de Mascaras

Máscaras gessos  lascas formas esgares enfeites suspeitos dissimulados
de ti

seres desdobrados 
seres bem cavos
 onde dentro de ti és outras
e o teu mais fundo interior
as expulsa junto  à  superfície
previsível desgastada do teu rosto.                                                                                 

Assim ninguém sabe ninguém te adia
essa outra vida essas outras vidas 
desejadas recalcadas que dormem enroladas
como um caracol no teu cérebro - sonho
- deixando um rasto um corrimento
de desejos de outras tu  - noutros lugares


Dissimulados suspeitos enfeites esgares formas lascas gessos
máscaras de ti.

surto de escrita



segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

DUBLINESCA - ENRIQUE VILA-MATAS

A BIBLIOTECA INFERNAL - UM CONTO

Um pequeno grande livro que aconselho a todos aqueles que vêem na biblioteca um lugar de culto e de prazer. De um autor natural da Sérvia, escritor de uma vasta obra de ficção que tem vindo a ser traduzida em muitas línguas, considerado um dos mais interessantes autores da narrativa contemporânea. Com este livro de contos, editado pela Cavalo de Ferro em Setembro de 2010, ganhou o Worl Fantasy Award, em 2003. A tradução para o portugês é deArijana Medvedec.
Transcrevo um excerto do 4º conto deste precioso livrinho:

"(...) Lá também existem bibliotecas, claro, mas para que é que elas servem quando quase ninguém as usa? Como se nem sequer existissem. Olhe veja outra vez o seu exemplo. Alguma vez pelo menos entrou na biblioteca de uma das muitas prisões em que esteve?
- Nem sabia que existiam, retorqui com sinceridade.
- Eu não lhe disse? Mas não se apoquente, em breve lhe daremos a oportunidade de recuperar o tempo perdido. E muito mais do que isso, aliás. Diante de si está, literalmente, toda uma eternidade de leitura.
Estive a fitar o homem durante um tempo, sem dizer nada.
- É este, então, o meu castigo? Ler?
- A sua terapia.
- Terapia, sim. Não haverá mais nada? - tentei cortar o tom de alívio na minha voz, mas não o consegui.
- Não, não haverá, claro. Ficará sentado na sua cela a ler. É tudo. Não terá mais nenhuma obrigação. Queria, entretanto, chamar a sua atenção para o facto de a eternidade ser um tempo muito longo. A leitura pode aborrecê-lo num certo momento. Isso acontece a muitos dos nossos internos que se tornam, então, extremamente engenhosos. Que truques passam a utilizar para deixar a impressão de que estão a ler, embora não o estejam! Mas nós temos meios para desvendarmos todas essas aldrabices astutas. Nesses casos temos de, infelizmente, aplicar medidas de coacção para os levarmos a voltar a ler. No caso dos mais persistentes e mais teimosos, elas são bastante dolorosas, receio.
- E direitos humanos? Humanidade?
- Nisso não tocamos sequer. Trata-se exclusivamente do bem deles. Não podemos deixar que por causa de preguiça espiritual façam mal a si próprios, não é?
- Talvez - respondi, não completamente convencido.
- É o essencial que deve saber. Em breve aprenderá a conviver com as nossas condições. No início ser-lhe-á provavelmente mais difícil, até se habituar, mas por fim perceberá que a leitura oferece prazeres inigualáveis. Todos o percebem durante a eternidade, alguns mais cedo, outros mais tarde. Espero que entretanto se comporte de maneira madura e sensata, e que não nos obrigue a usar medidas de coacção. Será mais agradável e mais fácil para todos."

Zoran Zivkovic, A Biblioteca, Cavalo de Ferro, p.65

domingo, 6 de fevereiro de 2011

CORRENTES D'ESCRITA 2011 - 23 a 26 de Fevereiro na Póvoa de Varzim


Dia 23 (quarta-feira)



17h00 – 1.ª MESA: «Falta futuro a quem tem no presente as ambições/passadas»


- Aida Gomes
- Almeida Faria
- Eduardo Lourenço
- Fernando Pinto do Amaral
- Maria Teresa Horta
- Ricardo Menéndez Salmón


Moderador: José Carlos de Vasconcelos






Dia 24
10h30 2.ª MESA: «Eu começo depois da escrita»


- Ignacio del Valle
- João Paulo Cuenca
- Júlio Conrado
- Karla Suarez
- Maria João Martins
- Miguel Miranda


Moderador: Carlos Vaz Marques


15h00 3.ª MESA: «A minha arte é uma espécie de pacto»
- David Toscana
- Juva Batella
- Luís Represas
- Manuel Jorge Marmelo
- Mário Lúcio Sousa
- Ricardo Romero

Moderador: Rui Zink


17h30 4.ª MESA: «Nua de símbolos e alusões é a poesia»


- Ana Luísa Amaral
- Carmen Yáñez
- Conceição Lima
- Gastão Cruz
- Ivo Machado
- Uberto Stabile


Moderador: Francisco José Viegas






Dia 25


10h30 5.ª MESA: «As palavras são apenas uma memória»


- César Ibáñez París
- Ignacio Martínez de Pisón
- João Paulo Borges Coelho
- Mário Zambujal
- Nuno Júdice
- Rui Zink


Moderador: João Gobern


15h00 6.ª MESA: «Espalho sobre a página a tinta do passado»


- Alberto Torres Blandina
- António Figueira
- Francisco José Viegas
- Inês Pedrosa
- Maria Manuel Viana
- Paulo Ferreira


Moderador: José Mário Silva


17h30 7.ª MESA: «A obra que faço é minha»
- Álvaro Magalhães
- David Machado
- Francisco Duarte Mangas
- João Manuel Ribeiro
- José Jorge Letria
- Vergílio Alberto Vieira


Moderador: Ivo Machado


Dia 26


10h30 8.ª MESA: «Não há palavras exactas»


- José Manuel Fajardo
- Kirmen Uribe
- Nuno Crato
- Pedro Vieira
- Raquel Ochoa
- valter hugo mãe


Moderador: Onésimo Teotónio Almeida


16h00 9.ª MESA: «Nada no mundo deve ser subestimado»


- António Victorino d’Almeida
- Luis Sepúlveda
- Manuel Rui
- Mário Delgado Aparaín
- Onésimo Teotónio Almeida
- Yvette K. Centeno


Moderadora: Maria Flor Pedroso

(Programa retirado do blogue bibliotecáriodebabel.com)

NÃO HÁ DOMINGO SEM POESIA

TRABALHO DE CASA

O que faço na memória de um degelo de rios, quando
as águas caem sobre as águas, sob a espuma redundante
de ideias brancas?Aqui me afundo até ao próprio
fundo de mim próprio, aqui onde os gestos humanos
da despedida e do amor não têm outro sentido
além do que nasce das próprias águas: efémeros,
como o tempo, e como o tempo presos ao que, cada um de nós,
ignora do outro. Acendo cigarros nos cigarros,
respirando o fumo húmido das origens, vigiando
a transparência que se desfaz no intervalo das folhas,
uando o vento as empurra para a estrada, pergunto
de onde vem a minha saudade de ti, e até onde
vai o meu desejo de te ouvir, de novo, à minha frente,
enquanto as horas passam como se não tivessem de passar,
e os teus lábios bebem todo o tempo da minha vida. Como
se o desejo não se esgotasse, também ele, como
estas águas que acabam em cada instante em que se renovam,
trazendo as chuvas eternas do norte para dentro de poços
sem fundo, até ao fundo dos lagos mais subterrâneos,
puxando com a sua negra densidade os meus
impulsos de treva: cama obscura para onde desço
quando adormeço. Mas tu, com os teus braços de raiz aérea,
puxas-me para esse cimo de montanha onde o silêncio
se transforma em sílaba - a sílaba inicial
do mundo, a interrogação do gesto nascente de todas as
origens, o soluço de um suicídio de murmúrios,
percorrida pela única percepção inútil: a da vida
que se esvai no instante do amor. E encostamo-nos à pedra
abstracta do horizonte, a que nos deixou sem voz quando
as grutas do litoral se abriram; para que a pedra nos beba,
gota a gota, todo o sangue. Então, é nas suas veias
que correm as nossas pulsações. E afastamo-nos, devagar,
para que a terra viva através de nós
uma existência puramente interior, despida
do fulgor animal das manhãs.Sentamo-nos
no mais longínquo dos quartos, de janelas fechadas, e
abraçamo-nos com rumor de primaveras clandestinas,
 com o inverno nos olhos.
 
Nuno Júdice, A Fonte da Vida

JANELAS DO MUNDO


Da minha casa vigio atenta o tamanho do mar
e é sempre imenso o manto branco de que se encobre
como se se fizesse num vestido de noiva ondeante
e despertasse vontade de mergulhar dentro do seu corpo -
de amor de pétalas de flores de arroz  - de passado
em que o mar certamente és tu  - és tu o tamanho líquido
de tudo o que vejo tacteio ou pressinto intimamente afora
os outros não existem senão como apontamento do nosso
amor molhado abençoado por ti que me inundas de eternidade.


Da minha casa vigio atenta o tamanho do mar - e és tu
és tu que chegas a rebentar alto na única onda iluminada.


in Surto de escrita

SÉCULO DE OURO - ANTOLOGIA CRÍTICA DE POESIA PORTUGUESA DO SÉCULO XX

Uma antologia crítica de poesia portuguesa do século XX, intitulada "Século de Ouro", já diz quase tudo. Foi a primeira produzida já fora dos limites temporais do século XX e como refere na grandiosa introdução Eunice Ribeiro " a mais ambiciosa que sobre a poesia portuguesa do século passado foi até ao momento elaborada.  Comparecem neste livro de 664 páginas, os poemas mais representativos do século passado, seleccionados segundo um grupo de especialistas de poesia (professores universitários, escritores, ensaistas) que apresenta o poema mais significativo seguido da sua crítica. Segundo o programa e funcionamento da obra, o texto crítico que segue o poema seleccionado não pretende ser historicista, nem tão pouco seguir qualquer tipo de teoria da crítica literária. Foi pedido a todos os feitores desta antologia que predominasse o close reading (ausência de rodapé, diminuição drástica de referências bibliográficas, leitura breve e, de preferência, intensa) para que cada um se apropriasse do próprio texto e o transformasse numa possível leitura original.


Deixo a sugestão de Maria Alzira Seixo, "Poema de Amor" de Edmundo de Bettencourt, e a de Carlos Reis, "As Palavras", de Eugénio de Andrade pois também são para mim, poemas-bandeiras do século dominado por Fernando Pessoa.

POEMA DE AMOR

A noite é cheia de vales e baías.
E do meu peito aberto um rio largo de sangue...
Águas densas, de correntes lentas,
serpentes mortas a arrastarem-se.
Águas?
Águas negras, pastosas, alcatrão rolante.
Mas águas puras, verde-claras, atraindo
a margem donde os crocodilos fogem mastigando.
Águas em transparências lucilantes, para cima,
e as estrelas do mar, um polvo e um mefistófeles
ficam no ar sobre ilhéus e lodosos calhaus
que se descobrem.
Plantas brancas e extáticas.. .
Lágrimas... nuvens... e a cabeça, o perfil,
os olhos, todo o corpo da mulher amada, a prostituta
antes de virgem, que é bela e feia, velha e nova,
e não conhece os filhos!


O fogo envolve essa mulher amada
e é um guindaste erguendo-a e atirando-a,
enquanto dispersas pelo chão brilham mandíbulas
naturalmente à espera...


Edmundo de Bettencourt



AS PALAVRAS
São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.


Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.


Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.


Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?


Eugénio de Andrade

Para mais informações sobre esta antologia:


sábado, 5 de fevereiro de 2011

THE PHANTOM BAND - INTO THE CORN / WALLS




Só mais uma:



O CD "The Wants" de 2010 tem temas muito bonitos. P. mostrou-me os melhores. Em troca, literatura.
Rui, esperamos que gostes.

ANTOLOGIA POÉTICA - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Uma Antologia Poética (da Relógio D'Água) que vale a pena ter para ler muitas vezes e dizer apaixonadamente (para dentro e para fora de nós). Três poemas dos poemas:

NO MEIO DO CAMINHO

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.


Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra

INFÂNCIA

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.


Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
Lia histórias de Robison Crusoé,
Comprida história que não acaba mais.


No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
 a ninar nos longes da senzala - e nunca se esqueceu
 chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.


Minha mãe ficava sentada cosendo
Olhando para mim:
- Psiu...Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro...que fundo!


Lá longe meu pai campeava
No mato sem fim da fazenda.


E eu não sabia que minha história
Era mais bonita que a de Robison Crusoé.

O LUTADOR

Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem 3 há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.


Insisto, solerte.
Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo
de rara humildade.
Guardarei sigilo
de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
de zanga ou desgosto.
Sem me ouvir deslizam,
perpassam levíssimas
e viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue…
Entretanto, luto.


Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
Quisera possuir-te
neste descampado,
sem roteiro de unha
ou marca de dente
nessa pele clara.
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior tortura.


Luto corpo a corpo,
luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento.


Não encontro vestes,
não seguro formas,
é fluido inimigo
que me dobra os músculos
e ri-se das normas
da boa peleja.


Iludo-me às vezes,
pressinto que a entrega
se consumará.
Já vejo palavras
em coro submisso,
esta me ofertando
seu velho calor,
aquela sua glória
feita de mistério,
outra seu desdém,
outra seu ciúme,
e um sapiente amor
me ensina a fruir
de cada palavra
a essência captada,
o sutil queixume.
Mas ai! é o instante
de entreabrir os olhos:
entre beijo e boca,
tudo se evapora.


O ciclo do dia
ora se conclui 8
e o inútil duelo
jamais se resolve.


O teu rosto belo,
ó palavra, esplende
na curva da noite
que toda me envolve.
Tamanha paixão
e nenhum pecúlio.
Cerradas as portas,
a luta prossegue
nas ruas do sono.

Carlos Drummond de Andrade, Antologia Poética, Relógio D'Água

THE PHANTOM BAND - GOODNIGHT ARROW


Muito, muito...gostamos muito. Ouve, Rui.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

FELICIDADE CLANDESTINA - CLARICE LISPECTOR

Um conto que nunca esqueci. Inadiável, entre os restantes contos de Clarice Lispector,  este impressiona, especialmente quem gosta muito de livros, quem  não sabe viver sem ler:

«Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os
dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.
Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim um tortura chinesa.

 Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.                                      Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E, completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança de alegria: eu não vivia, nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.                                            No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me
a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.     
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono da livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que,
finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.»

Clarice Lispector, Felicidade Clandestina

A FIDELIDADE DO PINTOR


«Era uma vez um pintor que tinha um aquário e, dentro do aquário, um peixe encarnado. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor encarnada, quando a certa altura começou a tornar-se negro a partir - digamos - de dentro. Era um nó negro por detrás da cor vermelha e que, insidioso, se desenvolvia para fora, alastrando-se e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário, o pintor assistia surpreendido à chegada do novo peixe.
O problema do artista era este: obrigado a interromper o quadro que pintava e onde estava a aparecer o vermelho do seu peixe, não sabia o que fazer agora da cor preta que o peixe lhe ensinava. Assim, os elementos do problema constituíam-se  na própria observação dos factos e punham-se por uma ordem a saber: 1º - peixe, cor vermelha, pintor, em que a cor vermelha era o nexo estabelecido entre o peixe e o quadro, através do pintor; 2º - peixe, cor preta, pintor, em que a cor preta formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
Ao meditar acerca das razões por que o peixe mudara de cor precisamente na hora em que o pintor assentava na sua fidelidade, ele pensou que, lá de dentro do aquário, o peixe realizando o seu número de prestidigitação, pretendia fazer notar que existia apenas uma lei que abrange tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Essa lei seria a metamorfose. Compreendida a nova espécie de fidelidade, o artista pintou na sua tela um peixe amarelo.»

Herberto Helder, Retrato em Movimento

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A exposição de textos, fotografias e outros objectos com que aqui se evoca a vida e a obra de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) surgiu como um prolongamento natural da doação do espólio, pela sua família, à Biblioteca Nacional de Portugal, primeiro passo para a abertura do acesso de um público amplo a uma parte importante, de quase todos desconhecida, dessa vida e obra. A colecção mais volumosa do espólio é constituída por manuscritos de textos publicados e inéditos, de poesia e de prosa, inacabados ou em mais de uma versão, e por reflexões sobre poética ou sobre a experiência de escrever. Vale ainda a pena notar a relativa escassez de poemas inéditos, dos quais muitos não são mais do que esboços, inícios de qualquer coisa que não surgiu, ou até simples apontamentos de ideias. Sophia guardou muitas versões de trabalho, mas, para ela, o destino natural do poema acabado era a publicação. Se a poesia foi a sua maneira de viver, não a tratava como coisa sua. Escrevia para si e para o mundo.

in http://www.wook.pt/ficha/sophia-de-mello-breyner-andresen/a/id/10400190

domingo, 30 de janeiro de 2011

JANELAS DO MUNDO

TEMPO

O tempo constrói ao redor da janela
artimanhas como armadilhas 
que apanham a inexorabilidade
do seu passar em dias. Inteiro, ele vai
passando e não espreita o dentro das casas
nem sequer pressente que os seus passos
são sentidos a cada minuto a cada segundo
numa sensação luminosa lúcida e certa
de quem o recebe sem ressentimento mesmo sabendo
que ele produz essa teia de aranha
mesmo comprovando essa passagem discreta
 imparável a que muitos já não podem assistir.


in Surto de escrita

NÃO HÁ DOMINGO SEM POESIA

Isabel Mourão
O CERCADO

De que cor era o meu cinto de missangas, mãe
feito pelas tuas mãos
e fios do teu cabelo
cortado na lua cheia
guardado do cacimbo
no cesto trançado das coisas da avó

Onde está a panela do provérbio, mãe
a das três pernas
e asa partida
que me deste antes das chuvas grandes
no dia do noivado

De que cor era a minha voz, mãe
quando anunciava a manhã junto à cascata
e descia devagarinho pelos dias

Onde está o tempo prometido p'ra viver, mãe
se tudo se guarda e recolhe no tempo da espera
p'ra lá do cercado


Ana Paula Tavares, Dizes-me coisas amargas como os frutos

sábado, 29 de janeiro de 2011

QUANDO - SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN


Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.


Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.


Será o mesmo brilho a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN - NAVEGAÇÕES



É tão fascinante a poesia suprema de Sophia como a mulher que está por detrás dela. Apetece declamar, apetece o silêncio das palavras dela.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Depois de tantos anos
ver-te
Queimando incenso num templo

Finjo não entender
O desaparecimento da luz
Que me era destinada
E regresso a casa por outro caminho.


Luís Falcão, Pétalas Negras Ardem nos Teus Olhos, Assírio e Alvim

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

MARGARIDA VALE DE GATO - MULHER AO MAR

Declaração de Intenções



Para aqueles que insistem diluir
isto que escrevo aquilo que eu vivo
é mesmo assim, embora aluda aqui
a requintes que com rigor esquivo.

À língua deito lume, o que invoco
te chama e chama além de ti, mas versos
são uma disciplina que macera
o corpo e exaspera quanto toco.


Fazer poesia é árido cilício,
mesmo que ateie o sangue, apenas pus
se extrai, nem nunca pela escrita


um sólido balança, ou se levita.
Então sobre o poema, o artifício,
a borra baça, a mim a extrema luz.


Margarida Vale de Gato, Mulher ao Mar










JANELAS DO MUNDO

Julia Kan, The way out

Há caminhos que nunca serão experimentados, apesar do desejo ser muito.

domingo, 23 de janeiro de 2011

NÃO HÁ DOMINGO SEM POESIA


Quem és tu que assim vens pela noite adiante,
Pisando o luar branco dos caminhos,
Sob o rumor das folhas inspiradas?
A tua perfeição nasce do eco dos teus passos,
E a tua presença acorda a plenitude
A que as coisas tinham sido destinadas.
A história da noite é o gesto dos teus braços,
O ardor do vento a tua juventude,
E o teu andar é a beleza das estradas.


Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, 22 de janeiro de 2011

WILLIAM FAULKNER - A RECOMPENSA DO SOLDADO

Publicado em 1926, «A Recompensa do Soldado« é a primeira obra de Faulkner e um dos mais memoráveis romances sobre a Primeira Guerra Mundial. Relata e história de um veterano que regressa a casa ferido, seguindo a vida de três soldados e o impacto do seu regresso sobre a vida das pessoas, particularmente das mulheres que foram deixadas para trás.

É a história de Donald Mahon que regressa muito marcado pela guerra, a primeira guerra mundial, à sua cidade natal, Chalerstown, na Geórgia.
Um livro que nos dá a conhecer como que a primeira voz de William Faulkner, num estilo que já anuncia a sua grandiosidade. Considerada uma história de esperança, humor negro e desespero.

Um excerto do livro:
«Donald Mahason jazia silenciosamente consciente de uma Primavera invisível e esquecida, de verdura, nem recordada nem esquecida. Passado um bocado, o nada em que vivia voltou a absorvê-lo inteiro, mas inquietantemente. Era como o mar pelo qual não podia por completo passar nem do qual completamente se afastar. O dia transformou-se em tarde, transformou-se em entardecer e numa noite iminente: noite como um navio, de velas cor de crepúsculo, que sonhava navegando pelo mundo fora, escuro em direcção à escuridão. E, de repente,  ele descobriu que estava a passar do mundo da escuridão, em que vivera durante um tempo em que não conseguia recordar, de novo para um dia que há muito tinha passado, que já fora gasto por aqueles que viviam e choravam e morriam, e assim, ao lembrar-se dele, aquele dia era só seu: o único troféu que ele roubara ao Tempo e Espaço. Per ardua ad astra.» (Pela adversidade até às estrelas)

William Faulkner, A Recompensa do Soldado, Casa das Letras, p. 290

ANNA CALVI - NO MORE WORDS



Oh, my love...
Parabéns pelo teu dia de aniversário!Uma música que sei que gostas.

ANNA CALVI - FIRST WE KISS



Este é o mais recente amor de P.
«Primeiro estranha-se, depois entranha-se» - disse ele, repetindo as palavras de F. Pessoa para me convencer. Aplica-se, sim senhor. Ouve-se bem alto, ao fim-de-semana, antes de partir em viagem, para se entranhar também muito nas paredes da casa e ressoar na nossa ausência uma voz que valha a pena ouvir.

BLINDFOLD - MORCHEEBA



Há uma grande alegria dentro de Blindfold que passa para dentro do corpo se o deixarmos mole e atento aos sons, como faz qualquer cão que espera o dono.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

ESPERA - EUGÉNIO DE ANDRADE

Pablo Picasso, A Espera
                    
Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.


Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.


Eugénio de Andrade, As Mãos e os Frutos

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

JANELAS DO MUNDO

Chagall, Vue de la fenêtre de zaolchie

Os rostos do interior ou as visões do exterior?

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O SILÊNCIO DOS LIVROS

Mnemosyne, deusa grega da memória
"A oralidade exige a verdade, a honestidade necessária à autocorrecção, e a democracia, enquanto partilha comum (…).
O segundo aspecto que ressalta do mito de Fedro não é menos significativo. O recurso à escrita debilita o poder da memória. Aquilo que fica escrito e que, portanto, pode ser armazenado – como na «base de dados» do nosso computador – já não precisa de ser confiado à memória. Cultura oral é aquela que constantemente reactualiza as memórias; um texto, ou uma cultura do livro, autoriza (uma vez mais, esta palavra delicada) todas as formas de esquecimento. A distinção conduz-nos ao cerne da identidade humana e da civilitas. Onde quer que a memória seja dinâmica, onde quer que sirva de instrumento a uma transmissão psicológica e comum, a herança passada transforma-se em presente. A transmissão de mitologias matriciais e de textos sagrados através de milénios, o facto de ser possível a um bardo ou a um aedo reproduzir narrativas épicas extremamente longas sem qualquer suporte escrito atestam o poder da memória, quer do executante, quer do ouvinte. Saber «de cor» - e que manancial de informação nesta locução – supõe a apropriação de qualquer coisa e o ser possuído pelo conteúdo do saber em questão.
Quer isto dizer que autorizamos o mito, a prece ou o poema a virem implantar-se e florir no interior de nós mesmos, enriquecendo e modificando a nossa paisagem interior, tal como, por sua vez, cada uma das incursões através da vida modifica e enriquece a nossa existência. Aliás para a filosofia e estética antigas, a memória era a mãe das musas.
Quando a escrita levou a melhor e os livros facilitaram um tanto as coisas, a grande arte mnemónica caiu no esquecimento. A educação moderna cada vez se assemelha mais a uma amnésia institucionalizada. Deixa o espírito da criança vazio do peso das referências vividas. Substitui o saber de cor, que é também um saber do cor(ação), pelo caleidoscópio transitório dos saberes efémeros. Reduz o tempo ao instante e vai instilando em nós, até quando sonhamos, uma amálgama de heterogeneidade e de preguiça. Podemos afirmar que tudo o que aprendemos e não sabemos de cor – adentro dos limites das nossas faculdades sempre imprecisas – é aquilo de que verdadeiramente não gostámos. As palavras de Robert Graves mais não fazem o que dizer que «amar de cor(ação)» ultrapassa em muito qualquer «amor pela arte». Saber de cor é entrar em estreita e activa relação com a essência daquilo que somos. Os livros apõem o selo do bem. (…)”

George Steiner, O Silêncio dos Livros, Gradiva, pp. 15, 16, 17

Este é um ensaio que vale verdadeiramente a pena ler. George Steiner partindo do mito e das figuras que    (i)legitimamente se convencionaram iletradas, Jesus de Nazaré e Sócrates, parte do principio de que  a palavra, despida da sua convenção gráfica, é detentora de um poder invencível e de uma autoridade pura. Explica-nos os passos fundamentais que se deram no interior do livro no que respeita à sua «visualização gráfica», aludindo a que, nos primórdios, em muito contribuiram as expectativas escatológicas de um apocalipse próximo que inviabilizasse um tempo suficiente para cultivar a memória oral. Depois do livro, debate a gravidade que pode assumir a entrega às humanidades, aos livros, à arte na medida em que  o homem corre o risco de se desumanizar. Debate o facto de por detrás do silêncio que discorre da genialidade da obra de alguns autores existir, paradoxalmente, tendências políticas desses mesmos autores assustadoras. Um ensaio imperdível cheio de ideias a conhecer e a debater.
Bom para qualquer educador, para qualquer cidadão que goste de arte e, particularmente, de livros e do seu silêncio.

EFTERKLANG



Fios que nos enrolam.
Uma música magnífica que dispensa a imagem...embora goste muito do vídeo.

domingo, 16 de janeiro de 2011

NÃO HÁ DOMINGO SEM POESIA


Suspendo a mão entre o A e o B,
entre a minha vida e a vida que andará
dentro da minha vida.
E o mundo refloresce
com memórias de rios e montanhas
inundando estes mares de sal e carne
onde me afogo
para respirar.

Pedro Tamen, O Livro do Sapateiro, D. Quixote, p. 34

JANELAS DO MUNDO


Cada janela tem a particularidade de provocar em mim a ideia de uma superioridade descomunal sobre o real. Uma mão aberta encobre-o como um vestido o faz ao corpo e fá-lo parecer outro, menos grandioso e obediente.

sábado, 15 de janeiro de 2011

MINHA CABEÇA ESTREMECE - HERBERTO HELDER



Incomparável, a poesia de Herberto Helder ainda mais singular com este fundo musical. Deixo também as palavras para ler sem música,nuas, perfeitas, agredindo qualquer sensibilidade adormecida, entediada. E torno-me toda estupefacção cada vez que leio e entendo o poema:

Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.
Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.

Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.

Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

- Era uma casa - como direi? - absoluta.

Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metias as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.

Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.

As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
- Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.

Era uma casabsoluta - como
direi? - um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.

- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.

Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.

Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.


In «Ou o Poema Contínuo», Assírio & Alvim, 2001

This light holds so many colours - Rodrigo Leão/ Stuart Staples



É um encanto de música, esta que o Rui sugeriu.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O LIVRO DO SAPATEIRO - PEDRO TAMEN

Um pequeno livro com imagens poéticas arrebatadoras sobre a obra que o ser humano faz, por vezes, por instinto, como no caso do poeta Pedro Tamen.
Deixo o poema de abertura:

Iremos procurar a razão da giesta
a razão do amarelo
iremos procurar a razão
iremos procurar
e os olhos tomarão todas as cores
as cores de tudo.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

EXCERTOS QUE FICAM


 Um romance fabuloso sobre o amor desmedido aos livros, às bibliotecas e à literatura.Um romance que confirma que os livros podem mudar o destino das pessoas.


«Não é assunto irrisório. Espero que me entenda. Imagine por um momentoque, ao longo da sua vida, conseguiu conservar um conjunto de recordações da sua infância; sensações, cheiros, a luz que iluminava o cabelo da sua mãe, as primeiras aventuras na rua, impressões mais ou menos caóticas de algo insondável mas que forma, ao fim e ao cabo, uma memória da sua infância, com os seus terrores, alegrias e emoções. Depois tem um registo do seu nascimento. A escola ordena. Os professores, os colegas, as primeiras aventuras, e assim continuou a acumular recordações de cada uma das suas experiências até chegar à actualidade.

«Um dia, de modo inesperado, perde a ordem das recordações. Elas continuam lá, só que se tornaram inalcançáveis. Quando procura a imagem da sua primeira mulher, encontra um sapato que um cão mordia num longínquo baldio da sua infância. Quando procura o rosto da mãe, descobre o de um tipo antipático numa obscura repartição pública. A sua história acabou. Reflecti sobre isso, enquanto procurava compreender o que Carlos tinha feito. O pior de tudo é que os factos estão aí, à espera de os encontrarmos. E não sabemos como fazê-lo. Não se trata do esquecimento, que cobre piedoso, o que não consegue tolerar. É uma memória selada, um apelo obsessivo a que não conseguimos responder. Nem sequer possui o ficheiro temático que desprezou, em busca de um novo sistema, mais complexo, mas ao mesmo tempo mais frágil.

«O facto é que levou os livros para Rocha. Para a franja de areia entre a lagoa e o mar. Uma viagem penosa, porque os livros tiveram que percorrer mais de duzentos quilómetros em vários camiões cobertos. Entraram, seguramente, pelo caminho de terra e depois foram trasladados de carroça pelo areal até ao local onde se erguia a quincha aberta, quase em cim da praia.

«Que julga que fez com eles? Encarregou-se de conseguir um pedreiro da zona, um desses operários desocupados, capazes tanto de trabalhar a madeira quanto o cimento, de colocar uma janela ou um telhado de palha atado com arames, de martelar pregos grossos como dedos, de fazer uma perfuração de água ou de britar a pedra, com resultados sempre imprevisíveis e incertos. Homens que não fazem perguntas e fazem o que se lhes pede, seja como for, enquanto houver soldo, porque eles não vão viver aí.

«Carlos pediu ao pedreiro de Rocha que enterrasse na areia os pontais da armação das janelas e os pontais de duas portas, e que, com uma parede de pedra, lhe construísse uma chaminé. Quando a chaminé ficou pronta, assente num dos lados do quincho, e as janelas e as portas ficaram fixas, pediu que lhe fizesse uma argamassa de cimento. E em cima do cimento – compreenderá que dizer-lhe isto meproduza uma sensação de horror – pediu-lhe que usasse os seus livros como tijolos.

«Assim mesmo, como está a ouvir. Sob o olhar, entre piedoso e indiferente, do pedreiro que procedia à mistura, dedicou-se a seleccionar, da montanha de livros despejada pela carroça na areia limpa e branca, aqueles que deviam protegê-lo do vento, da chuva, da inclemência do Inverno. Já não lhe importava a amizade ou a inimizade entre os autores, as afinidades ou contradições entre Espinosa , a botânica do Amazonas e a Eneida de Virgílio; se as encadernações eram boas ou medíocres, se tinham gravuras ou pranchas, se estavam intonsas ou se se tratava de incunábulos. Apenas a proporção de cada volume, a grossura, a dureza das capas para resistir à argamassa de cal, cimento e areia. O pedreiro colocou o tomo enciclopédico no ângulo de um dos postes e contou os volumes da colecção, alinhando-os em cima do fio que lhe servia de guia.»

Carlos María Domínguez, A Casa de Papel, Asa, pp. 53, 54, 55, 56.