MEDOS
Medo do amor
quando tudo é fome.
E onde tudo é tão pouco,
medo de a carícia
despertar insuspeitos infernos.
Medo de sermos
só eu e tu
a humanidade.
E morrermos
de tanta eternidade.
Mia Couto, Tradutor de Chuvas, Caminho, 2011
domingo, 3 de abril de 2011
quinta-feira, 31 de março de 2011
quarta-feira, 30 de março de 2011
LUIGI PIRANDELLO - UM, NINGUÉM E CEM MIL
O último romance publicado por Luigi Pirandello foi este, tão original e humorístico como comovente no tratamento da questão da identidade. A revelação inusitada, feita pela sua mulher, de que o seu nariz pendia levemente para o lado direito da sua face, vai desencadear nesta personagem atitudes muito estranhas, atirando-o paulatinamente para o mundo da loucura e para uma problemática situação financeira.
Um, Ninguém, Cem Mil rompeu de originalidade o panorama literário no século XX, tendo sido considerada pela crítica uma das suas melhores obras na medida em que nela se sintetiza e compreende todo o seu universo ficcional. Aconselho-a vivamente e deixo um excerto do início da obra para aguçar o interesse:
« 1. MINHA MULHER E MEU NARIZ
- Que estás a fazer? – perguntou-me minha mulher, ao ver que me demorava inusitadamente diante do espelho.
- Nada – respondi-lhe -, estou a olhar para o meu nariz, para dentro desta narina. Quando carrego, sinto uma dorzinha.
Minha mulher sorriu e disse:
- Julgava que estavas a ver para que lado te pende.
Voltei-me, como um cão a quem tivesse pisado a cauda:
- Pende? A mim? O nariz?
E minha mulher, placidamente:
- Claro que sim, querido. Olha bem para ele: pende-te para a direita.
Tinha vinte e oito anos e até então sempre considerara o meu nariz, se não propriamente bonito, pelo menos muito decente, tal como todas as outras partes da minha pessoa. Pelo que me fora fácil admitir e alimentar a ideia que habitualmente admitem e alimentam todos os que não tiveram a infelicidade de lhes calhar em sorte um corpo disforme: que só um tolo se envaidece das suas feições. Por isso, a descoberta súbita e inesperada daquele defeito irritou-me como um castigo imerecido.
Talvez minha mulher tenha visto mais fundo que eu naquela minha irritação, e acrescentou de imediato que, se eu tinha a convicção de não ter defeitos, devia perdê-las, pois, assim como o nariz me pendia para a direita, também…
- O que mais?
Ah, muito mais! As minhas sobrancelhas pareciam dois acentos circunflexos sobre os olhos, ^ ^, as minhas orelhas estavam mal colocadas, uma mais saliente que a outra; e outros defeitos…
- Mais ainda?
Mais ainda, sim: nas mãos, o dedo mindinho; e nas pernas (não; tortas, não!), a direita era um bocadinho mais arqueada que a outra; à altura do joelho, um pouquinho.
Depois de um exame atento, tive de reconhecer que todos esses defeitos eram reais. E só então minha mulher, tomando certamente por desgosto e desânimo o espanto que senti logo a seguir à irritação, para me consolar me exortou a não me afligir tanto, pois mesmos com esses defeitos ainda era, no conjunto, um homem bonito.»
In Um, Ninguém e Cem Mil, Cavalo de Ferro
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Literatura universal Patricia F.
segunda-feira, 28 de março de 2011
HENRI MICHAUX
Stéphane Houdart
APPARITIONSVisage qui ne dit qui ne rit
qui ne dit ni oui ni non.
Monstre.
Ombre.
Visage qui tend
qui passe,
qui lentement vers nous bourgeonne ...
Visage perdu.
in La Nuit Remue
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Poesia Patrícia F.
domingo, 27 de março de 2011
NÃO HÁ DOMINGO SEM POESIA
Raoul Ubac
MA VIE
Tu t´en vas sans moi, ma vie.
Tu roules,
Et moi j´attends encore de faire un pas.
Tu portes ailleurs la bataille.
Tu me déserts ainsi.
Je ne t´ai jamais suivie.
Je ne vois pas clair dans tes offres.
Le petit peu que je veux, jamais tu ne l´apportes.
A cause de ce manque, j´a aspire à tant.
À tant de choses, à presque l´infini...
À cause de ce peu qui manque, que jamais tu n´apportes.
Henri Michaux
MINHA VIDA
Tu partes sem mim, minha vida.
Tu rodas,
E eu ainda espero dar um passo.
Tu levas a batalha para além.
Tu abandonas-me assim.
Eu nunca te segui.
Não vejo claramente as tuas ofertas.
O mínimo que desejo, tu jamais trazes.
Por esta falta, anseio a tanto.
A tanta coisa, quase ao infinito...
Por causa deste pouco que falta, que tu jamais trazes.
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Poesia Patrícia F.
sexta-feira, 25 de março de 2011
O HOMEM QUE CONFUNDIU A MULHER COM UM CHAPÉU - OLIVER SACKS
Aconselhado por Gonçalo M. Tavares, este é um livro de contos muito singular na medida em que o seu autor, Oliver Sacks, homem assumida e simultaneamente científico e romântico, médico neurologista, regista pequenas histórias clínicas que diagnosticou e experienciou como médico, misturando-lhes a necessária ficção que condimenta a leitura e permite que torne as personagens mais humanas, antes mesmo de revelar os interessantes e estranhíssimos problemas de saúde que apresentam. O homem que confundiu a mulher com um chapeu é um professor de música que perde a capacidade de interpretar o abstracto. De um rosto, apenas reconhece cada um dos seus traços e elementos, individualmente... um queixo, uma boca, um olho, uma orelha., etc. É a música que o salva e o faz lembrar-se de tudo o que o cerca, objectos e acções quotidianas...tem uma música para se lembrar de tudo e detodos ... E até a sua própria mulher confundiu com um chapéu. Histórias que não se esquecem facilmente.
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Literatura universal Patrícia F.
segunda-feira, 21 de março de 2011
DIA MUNDIAL DA POESIA
Um poema pronto a ser primavera
é palavra ou flor?
amor ou amargura?
suspende o quê, nos seus braços,
pra sair à rua?
primavera em flor, poema em dor
uma dor alegre é um mal que finda...
um rebentar doce de palavras?
frutos ainda verdes só dão amargura.
por isso não se colhem que é crime
não deixá-los crescer, dar vida doce.
Assim é o poema em crescendo,
como ganhando lance num baloiço,
palavrinhas duras como caroço ao arranque
que enternecem mal dizem o teu nome
e se fazem floridas como a tal primavera.
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surto de escrita Patrícia F.
domingo, 20 de março de 2011
NÃO HÁ DOMINGO SEM POESIA
uns mortinhos pequenos
valter hugo mãe por valter hugo mãe
do livro contabilidade/o inimigo cá dentro
leitura dedicada à isabel ribeiro, de aveiro
uns mortinhos pequenos
tenho uns caixõezinhos no coração que me
nasceram quando partiste, se regados com
cuidado, brotam mortos como flores negras pelo
interior das veias, que me assombram o sangue, corando
a minha pele numa vergonha e sentindo medo
são uns mortinhos muito pequenos que muita gente
nem sabe que existem. acreditar em fantasmas é
só possível para quem tem muito amor e recusa a
pequenez da vida sem continuação
tenho uns caixõezinhos no coração que se
abrem a toda a hora, quando me deito, ouço-os
embatendo de encontro ao peito talvez, com vontade
de ir embora, talvez só por ser o amor tão estreito.
valter hugo mãe
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Poesia Patrícia F.
sábado, 19 de março de 2011
TEOLINDA GERSÃO - JL MARÇO
Já saiu neste mês de Março o novo romance de Teolinda Gersão, A Cidade de Ulisses, uma homenagem a Lisboa, cidade que admira e que fez personagem do próprio romance, numa carreira que já faz trinta anos.
Excerto da entrevista do JL (de 9 a 22 de Março), que a Anabela, tão amiga como sempre, me trouxe ontem a casa como um presente. Sobre o novo romance dela que tem que ser lido:
A Cidade de Ulisses é um contraponto a muitos ods seus contos e romances, em que dominam as questões da solidão e da incomunicabilidade:
Sim, esta é uma história de um encontro. E é realmente uma espécie de contraponto por exemplo a O Silêncio, que era efectivamente a história de um desencontro. A Cidade de Ulisses tem que ver com esse encontro muito profundo entre um homem e uma mulher e com a ideia da felicidade de que de alguma maneira andamos à procura.
É também um encontro de artistas e não é a primeira vez que as suas personagens pintam. É uma coincidência?
As pessoas criativas têm muita sorte. Estão sempre interessadas no mundo que as rodeia, num projeto, sempre à procura de coisas, nunca se aborrecem.
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Entrevista Patrícia F.
O ABUTRE - KAFKA
«A mais indiscutível virtude de Kafka é a invenção de situações intoleráveis. Para a impressão perdurável bastam-lhe uns breves apontamentos. A elaboração, em Kafka, é menos admirável que a invenção. Homens, há apenas um em toda a sua obra: o homo domesticus - tão judeu e tão alemão -, desejoso de encontrar um lugar, nem que seja o mais humilde, numa qualquer ordem; no universo, num ministério, num asilo de lunáticos, na prisão. O argumento e o ambiente são o essencial; não as evoluções da fábula nem a penetração psicológica. Daí a primazia dos seus contos sobre os seus romances; daí o direito de afirmar que esta compilação de narrativas nos dá integralmente a medida de um tão singular escritor.»
Jorge Luis Borges
O conto O Abutre, curto, impressionante, de mestre:
«Era um abutre que não parava de me dar bicadas nos pés. Já me tinha rasgado as botas e as meias e começava agora a atacar os próprios pés. Investia sem parar, levantava voo, esvoaçava inquieto à minha volta, em círculos, e retomava o seu trabalho. Apareceu então um senhor que ficou a observar aquilo durante algum tempo, até que me perguntou porque é que eu suportava as investidas doabutre: «Mas se estou indefeso...», justifiquei-me. «Ele apareceu e quando começou com as bicadas é claro que o quis enxotar. Na verdade, até tentei estrangulá-lo, mas um bicho destes tem imensa força. E depois também já tentou saltar-me para a cara, por isso preferi sacrificar os pés, que agora já estão quase despedaçados.» «Como pode permitir que o torturem dessa maneira», insistiu o senhor, «um tiro e acabou-se o abutre.» «Acha que sim?», perguntei. «E então não me pode tratar disso?» «Com todo o gosto», disse o senhor. «Só tenho que ir a casa buscar a espingarda. Consegue esperar mais uma meia hora?» «Isso é que eu já não sei». respondi, e mantive-me assim, paralisado pela dor, durante algum tempo, até que disse: «Por favor, tente lá, seja como for.» «Está bem», disse o senhor, «vou apressar-me». Durante a conversa o abutre tinha ficado sossegado, à escuta, olhando ora para mim, ora para o senhor. Pude então ver que percebera tudo, pois levantou voo, dobrou-se para trás tanto quanto podia, para ganhar balanço, e, como um lançador de dardo, espetou com toda a força o bico dentro da minha boca. Em queda, pude ainda sentir, liberto, como ele se afogava, sem hipótese de salvação, no oceano transbordante e sem fundo do meu sangue.»
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Literatura Fantástica Patrícia F.
A MÁQUINA DE JOSEPH WALSER - GONÇALO M. TAVARES
Deliciosa a leitura deste romance que pertence à colecção de livros pretos, à tetralogia do Reino. A personagem anunciada no título, Joseph Walser, prende a nossa atenção desde o início e leva-nos a querer fortemente entendê-lo a si e à relação estranha (de pura amizade) que mantém com a perigosa máquina com que trabalha diariamente. A relação do Homem com a Tecnologia está aqui retratada de um modo extremamente original e com uma autenticidade tal que chega a espantar-nos, a fazer-nos estremecer como quando, em certa passagem, o narrador alude, com exemplaridade, ao facto de que «Ser feliz já não depende de coisas que vulgarmente associamos à palavra Espírito. Depende de matérias concretas. A felicidade humana é um mecanismo.»
Dois Excertos:
«-Veja esta fábrica: estamos perante o espanto sobrenatural. Tudo é tão estupidamente previsível nestas máquinas que se torna surpreendente ; é o grande espanto do século, a grande surpresa: conseguimos fazer acontecer exactamente o que queremos que aconteça. Tornámos redundante o futuro, e aqui reside o perigo.
SE a felicidade individual depende destes mecanismos e se torna também previsível, a existência será redundante e desnecessária: não haverá expectativas, luta ou pressentimentos.
Fala-se em máquinas de guerra, mas nenhuma máquina é pacífica, Walser. (...)
Dada a natureza do seu trabalho e da máquina perigosa com que contactava, Joseph Walser não precisava de maior intensidade na vida. A chegada da guerra e a invasão da cidade foram encaradas por ele como acontecimentos quase enfadonhos. A eclosão da guerra foi recebida como se não fosse uma novidade, mas uma repetição. A sensação de continuidade no tempo era para Walser algo, de facto, indestrutível, apesar dos novos barulhos que surgiam do céu, anunciando máquinas e ódios aéreos. O tempo de paz continua para o tempo de guerra e este tempo continuará mais tarde para outro tempo de paz. E nada é interrompido. Nada de fundamental. O indivíduo não se interropmpia na guerra, não havia tempos de interrupção: é sempre o Homem, não há um segundo Homem, há apenas um, o primeiro; e é esse - que é o mesmo de séculos atrás, e será o mesmo no futuro -, é esse que tudo atravessa com enfado, até a guerra. Monotonia e desinteresse.
A existência humana, o seu essencial, não se deslocara um centímetro, trinta séculos depois de três mil conflitos. Se queres deslocar a existência é evidente que não o conseguirás, com a guerra, ouvira Walser do encarregado Klober.
Mas nem a paz modificará o Homem, claro. Os dados há muito que foram lançados.»
Gonçalo M. Tavares, A Máquina de Joseph Walser
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Literatura Portuguesa Patrícia F.
quarta-feira, 16 de março de 2011
SUSAN SUNTAG - A CONSCIÊNCIA DAS PALAVRAS
Foi impossível resistir à leitura dos riquíssimos ensaios desta autora a partir dos quais reflecte sobre a literatura de uma forma tão comprometidamente séria que nos envolve nesse forte abraço (que se torna num laço único, num amor) à ideia, à palavra que residem na literatura e dela escorrem. «Este volume junta dezasseis ensaios e conferências escritos por Sontag nos últimos anos de vida, período em que as homenagens à sua obra se sucediam por todo o mundo. Em AT THE SAME TIME escreve sobre a liberdade da literatura, sobre a coragem e a resistência, e analisa destemidamente os dilemas da América do pós 11 de Setembro – da degradação da retórica política à horrível tortura dos prisioneiros de Abu Ghraib.
No prefácio, David Rieff descreve a paixão que a impeliu toda a vida: “Interessava-se por tudo. Na verdade, se apenas tivesse uma palavra para a evocar, essa palavra seria avidez. Queria experimentar tudo, provar tudo, ir a toda a parte, fazer tudo (...) Penso que, para ela, a alegria de viver e a alegria de saber eram uma e a mesma coisa.”
A inteligência incisiva de Susan Sontag, o brilho da sua expressividade, a profunda curiosidade pela arte e pela política e a sua responsabilidade de testemunhar enquanto autor, colocam-na entre os mais importantes pensadores e escritores do século XX.»
Deixo, neste espaço que se segue, um excerto do discurso de aceitação do Prémio Jerusalém a que atribuiu o título "A Consciência das palavras" e que tanto gostei de ler:
«Assim, a Literatura é – e falo prescritivamente – auto-consciência, dúvida, escrúpulo, rigor. E também – mais uma vez, prescritivamente, assim como descritivamente – canção, espontaneidade, celebração, júbilo.
«Assim, a Literatura é – e falo prescritivamente – auto-consciência, dúvida, escrúpulo, rigor. E também – mais uma vez, prescritivamente, assim como descritivamente – canção, espontaneidade, celebração, júbilo.
As ideias acerca da literatura – contrariamente às ideias sobre, digamos, o amor – quase nunca surgem que não seja à resposta à ideia de outros. São ideias reactivas. Digo isto porque tenho a impressão de que tu – ou a maior parte das pessoas – dizem aquilo (…)
Digo isto quando dizes aquilo, não apenas porque os escritores são por vezes, adversários profissionais. Não apenas para corrigir o inevitável desiquilíbrio ou parcialidade de qualquer prática que tem o carácter de uma instituição – e a literatura é uma instituição – mas porque a literatura é uma prática enraizada em aspirações inerentemente contraditórias. (…)
Assim, cada obra de literatura com importância, que merece o nome de literatura, encarna um ideal de singularidade, de voz singular. Mas a literatura,que é uma acumulação, encarna um ideal de pluralidade, de multiplicidade, de promiscuidade.
Qualquer ideia de literatura em que possamos pensar – literatura como empenhamento social, literatura como busca de intensidades espirituais pessoais, literatura nacional, literatura mundial – é ou pode vir a ser, uma forma de complacência espiritual, de vaidade ou de auto-satisfação.
A literatura é um sistema – um sistema plural – de padrões, ambições, fidelidades. Parte da função ética da literatura é a lição do valor da diversidade.
Evidentemente, a literatura deve operar dentro de limites. (Como todas as actividades humanas. A única actividade sem limites é estar morto). O problema é que os limites que a maior parte das pessoas quer traçar iriam sufocar a liberdade da literatura ser o que pode ser, com toda a sua inventiva e capacidade de servir de agitação.»
Susan Sontag, Ao mesmo tempo, Quetzal
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Ensaio Patrícia F.
GONÇALO M. TAVARES - O homem ou é tonto ou é mulher
Deixo um excerto famoso de um poema deste livro de poesia (esgotadíssimo) de Gonçalo M. Tavares, seguido de um outro poema em que o medo se mostra tão verdadeiramente humano que parece uma cópia da tradução dos registos de um cérebro que tenta entender-se, entender razões do seu temor e registá-lo poeticamente.
1.
Mas não julguem que não penso.
Eu sou é um pensador doméstico.
Fecho-me em casa e penso muito.
Quando venho cá para fora é que começo a disfarçar.
(...)
É muito difícil ser inteligente com tanta rapariga bonita a passar.
2.
Às vezes tenho medo, muito medo.
Às vezes sofro.
Às vezes, penso nas pessoas que amo e penso na
possibilidade de as perder.
Às vezes vejo alguém doente e fico incomodado.
Pode não ser um amigo ou familiar.
Posso estar a vê-lo pela primeira vez.
Mas fico incomodado.
Aquela doença pertence-me.
Todas as doenças pertencem a toda a gente.
Todos os sofrimentos pertencem a toda a gente.
Todas as mortes pertencem um pouco a toda a gente.
Às vezes sinto isso muito,
outras vezes sinto menos.
Quando sinto menos posso preocupar-me com o mundo,
brincar com a poesia,
com a filosofia e com as palavras.
Mas quando sinto, deixo de conseguir pensar.
Quando sofro ou sinto o que alguém sofre, deixo mesmo
de querer ser inteligente.
Se estivermos cheios a sentir, não temos espaço para pensar.
Não fazem sentido as lógicas,
as filosofias,
as discussões.
Todo o nosso corpo sente.
E o que resta? Nada.
Só existe aquela morte, aquela doença, aquela velhice.
Só aquele pai que amo e está a envelhecer. Só aquela mãe
que amo e está a envelhecer.
Só aquele amigo que morreu num estúpido acidente.
Só aquele amigo que se tornou amargo
porque a mulher o deixou.
Só o amor e a falta de amor.
As mulheres que nos enganam e as mulheres que são enganadas,
as mulheres e os homens que enganam.
Os amigos que deixam de o ser,
alguns inimigos que morrem, e temos pena.
Que importa o resto?
Onde está o livro importante?
O filme que resolve?
Podemos chorar à frente de um quadro, mas não resolve nada.
Podemos pintar um quadro, escrever um poema, mostrar às
mulheres bonitas como somos bonitos, exibir o nosso corpo,
mas que adianta?
Estamos sozinhos.
Se não estamos, vamos estar.
Os amigos vão-nos deixando, vão-nos deixar.
Vão morrer ou nós vamos morrer.
Ou então deixam de nos telefonar, ou então deixamos de
lhes querer telefonar.
Estamos sozinhos. As pessoas que amo vão morrer.
Os livros não resolvem nada. A poesia é bonita e por vezes
descansa, acalma, mas não resolve nada, não resolve nada.
Somos artistas ou não somos, e qualquer coisa que seja não
adianta nada e nada impede.
Escrevemos poemas, mas não ajudam ninguém.
Escrevemos peças de teatro, sorrimos, tentamos pensar,
tentamos ter ideias, tentamos distrair as pessoas, tentamos
fazer pensar as pessoas, tentamos fazer chorar as pessoas, e
isso é bom, e até pode ser bonito, mas não adianta nada,
não resolve nada,
não adianta nada.
Gonçalo M. Tavares, O homem ou é tonto ou é mulher
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Poesia Patrícia F.
domingo, 13 de março de 2011
MORRISSEY E VINI REILLY
Ternurenta e cheia de sorrisos invejáveis no final.
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Música Patrícia F.
NÃO HÁ DOMINGO SEM POESIA
Há dias poderosos de uma presença total.
Toco-te a mão que assombra a minha
mão - E a cara, tão lírica,
aterradora, frente
a frente, cercada pela tensão lunar.
Vejo-a crispar-se com a minha imagem
inserida . E escrevo:
«Quando eu morrer.» - erguendo esse espelho
em tamanho de espuma.
Como se fosse beleza, a transfusão amarga,
o sopro boca a boca.
Herberto Helder, Última Ciência
Toco-te a mão que assombra a minha
mão - E a cara, tão lírica,
aterradora, frente
a frente, cercada pela tensão lunar.
Vejo-a crispar-se com a minha imagem
inserida . E escrevo:
«Quando eu morrer.» - erguendo esse espelho
em tamanho de espuma.
Como se fosse beleza, a transfusão amarga,
o sopro boca a boca.
Herberto Helder, Última Ciência
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Poesia Patrícia F.
sábado, 12 de março de 2011
Franco Fontana
Ana Bela Ana,
Ofereço-te esta praia como se fosse minha. E as sombras também, de perfil arredondado e pontiagudo, muito escuras, de bruços sobre o areal, como se o quisessem tornar noutra matéria e impressionar-te. Ofereço-tas assim, sem embrulho, para poderes encher os olhos destas belezas todas, tão passageiras que ficam contigo para sempre.
Mts bjinhos e saudades de ti, amiga.
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Fotografia Patrícia F.
EXCERTOS QUE FICAM
Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie – nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.
Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa selecta o passo célebre de Vieira sobre o rei Salomão. «Fabricou Salomão um palácio…» E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso: depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais – tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei: hoje, relembrando, ainda choro. Não é – não – a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica.
Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico.Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.
Livro do Desassossego, Bernardo Soares, Vol.I, Fernando Pessoa
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Literatura Portuguesa Patrícia F.
quarta-feira, 2 de março de 2011
NUNO JÚDICE - A FONTE DA VIDA
Friso das Mulheres Azuis, Palácio de Cnossos
ENCANTAMENTO
Vi as mulheres azuis do equinócio
voarem como pássaros cegos; e os seus corpos
sem asas afogarem-se, devagar, nos lagos
vulcânicos. Os seus lábios vomitavam o fogo
que traziam de uma infância de magma
calcinado. A água ficava negra, à sua volta;
e os ramos das plantas submersas pelas chuvas
primaveris abraçavam-nas, puxando-as num
estertor de imagens. Tapei-as com o cobertor
do verso; estendi-as na areia grossa
da margem, vendo as cobras de água fugirem
por entre os canaviais. Espreitei-lhes
o sexo por onde escorria o líquido branco
de um início. Pude dizer-lhes que as amava,
abraçando-as, como se estivessem vivas; e
ouvi um restolhar de crianças por entre
os arbustos, repetindo-me as frases com uma
entoação de riso. Onde estão essas mulheres?
Em que leito de rio dormem os seus corpos,
que os meus dedos procuram num gesto
vago de inquietação? Navego contra a corrente;
procuro a fonte, o silêncio frio de uma génese.
Nuno Júdice, A Fonte da Vida
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Poesia Patrícia F.
domingo, 27 de fevereiro de 2011
NÃO HÁ DOMINGO SEM POESIA
Declaração de amor a uma romana do século segundo
Um dia passaste pelos meus versos
Como eu agora passo por diante destas esculturas
que não merecem mais que um apressado olhar
Mas na tua presença eu tenho de parar
dama desconhecida com certeza viva mais aqui
que no segundo século em Roma onde viveste
Moldaram-te esse rosto abriram-te esse olhar
decerto impressionante para que uns dezoito séculos mais tarde
te pudesse encontrar quem mais que tu morreu
mas te ama ó mulher perdidamente
Não mais te esquecerei hei-de sonhar contigo
sei que te conquistei e libertei
de qualquer compromisso que tivesses
Ninguém sabe quem eras nem eu próprio
não tens sequer um nome uns apelidos
nada se sabe acerca do teu estado civil
Sei mais que tudo isso porque sei
que atravessaste séculos na forma de escultura
só para um dia nós nos encontrarmos
Tenho mulher e filhos sou de longe
a lei é rígida e severa a sociedade
Não te importes mulher deixa-te estar
não penses não te mexas podes estar certa
de que me deste mais do que tudo o demais que me pudesses dar
pois para ser diferente de quem era
bastou-me ver teu rosto e mais que ver olhar
Ruy Belo, Transporte no Tempo
(Hoje faria78 anos, o nosso poeta Ruy Belo)
Um dia passaste pelos meus versos
Como eu agora passo por diante destas esculturas
que não merecem mais que um apressado olhar
Mas na tua presença eu tenho de parar
dama desconhecida com certeza viva mais aqui
que no segundo século em Roma onde viveste
Moldaram-te esse rosto abriram-te esse olhar
decerto impressionante para que uns dezoito séculos mais tarde
te pudesse encontrar quem mais que tu morreu
mas te ama ó mulher perdidamente
Não mais te esquecerei hei-de sonhar contigo
sei que te conquistei e libertei
de qualquer compromisso que tivesses
Ninguém sabe quem eras nem eu próprio
não tens sequer um nome uns apelidos
nada se sabe acerca do teu estado civil
Sei mais que tudo isso porque sei
que atravessaste séculos na forma de escultura
só para um dia nós nos encontrarmos
Tenho mulher e filhos sou de longe
a lei é rígida e severa a sociedade
Não te importes mulher deixa-te estar
não penses não te mexas podes estar certa
de que me deste mais do que tudo o demais que me pudesses dar
pois para ser diferente de quem era
bastou-me ver teu rosto e mais que ver olhar
Ruy Belo, Transporte no Tempo
(Hoje faria78 anos, o nosso poeta Ruy Belo)
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Poesia Patrícia F.
sábado, 26 de fevereiro de 2011
Imogen Cunningham
Subjectividades
1.Surpresa da juventude perante a velhice e vice-versa ...
2.Uma troca de olhares, providenciada pelo acaso, mostra repentinamente uma mulher velha que revê o passado e uma jovem muito bela a projectar-se num tempo futuro.
3.A identificação de uma com a outra desencadeia espanto, pudor.
4.O tempo e a voracidade da sua passagem está aqui fotografado.
5. Pretensão da velhice em querer roubar a beleza através da fotografia.
6. A Natureza guarda um modelo para todas as idades e todos os tempos se desenvolvem nela e a partir dela.
7. Nunca encontramos o nosso tempo total, o nosso ritmo temporal absoluto - passado, presente e futuro - em nós mesmos, mas dominamo-lo na observação dos outros.
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Fotografia e Subjectividades Patrícia F.
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
Na página da Quetzal lê-se o seguinte sobre este livro:
«Uma série de "receitas" em belíssimos textos, traduzidos pelo poeta Pedro Tamen, para ajudar à cura dos "males de que padecem as mulheres, ou a identidade feminina", que vão da infelicidade à traição, à frigidez, ao receio de ficar velha, ao nervosismo, ao medo das sogras, ao mau hálito, etc., etc., através duma sabedoria que vem de trás e que conhece o "feminino" em profundidade. Isto apesar de o autor ser um homem. Mas que teve cinco irmãs, ou seis mães, como ele diz, e a quem dedica esta obra. Ele, Hector Abad Faciolince, apenas "gostava de ser (...) um bom boticário, um farmacêutico, o senhor das receitas que te perfumem (mulher triste) a fantasia." Experimente, para ver se resulta.»
Um excerto como um retalho de felicidade:
« Se algum dia te enjoares de palavras, como acontece a todos, e estiveres farta de as ouvir, de as dizer... Se uma qualquer que escolhas te parecer gasta, sem brilho, inválida...Se sentires náuseas quando ouvires «horrível» ou «divino» a propósito de qualquer assunto - é evidente que a cura não estará numa sopa de letras.
Deves fazer o seguinte: cozinha al dente um prato de esparguete que vais condimentar com tempero mais simples: alho, azeite e pimento. Por sobre a massa mexida com a mistura anterior, rala uma camada de queijo parmesão. Do lado direito do prato fundo cheio de esparguete temperado com o que indiquei, coloca um livro aberto. Em frente, um copo cheio de vinho tinto seco. Não é recomendável qualquer outra companhia. Passa ao acaso as páginas de um e outro livro, mas ambos terão de ser de poesia. Só os bons poetas nos curam da fartura das palavras. Só a comida simples e essencial nos cura dos excessos de gula.»
Outro excerto cheio de humor e surpresa, onde obrar é também receita para combater a tristeza:
«Saudável costume é obrar diariamente e à mesma hora. Esttejas onde estiveres, ao menos durante seis minutos (e não mais de quarenta, que o excesso provoca hemorróidas), sentada ou agachada, mas em paz. Com um bom livro ou um bom pensamento. Não existe fórmula mais sábia para que sejas visitada pelo bom humor que os os antigos situavam, com razão, entre o estômago e os intestinos. Se alguma coisa correr mal, considera aquilo que comeste dezasseis horas antes, e suprime-o. Se, em contrapartida, de nada sofreres, considera o mesmo e toma alimento de costume.»
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Receitas da Literatura Patrícia F.
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
CITAÇÕES
Federico Faruffini, A Leitora
«A leitura é uma experiência sensível que se situa no mundo real em que nos expomos a ferimentos, em que a alma sofre lesões.»
Lévi-Strauss
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Citações Patrícia F.
domingo, 20 de fevereiro de 2011
Lucian Freud, Rapariga com Cão Branco
Uma palavra, um latido
um silêncio, um olhar expressivo
O pêlo branco lembra o seio branco
a rapariga dos olhos grandes
e juntos, lãnguidos
são seres que esperam
no descanso o prazer de uma vida.
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Pintura com notas Patrícia F.
NÃO HÁ DOMINGO SEM POESIA
Desta edição bilingue da Assírio & Alvim, com tradução de Maria de Loourdes Guimarães, destaco As Tulipas, poema que comove pelo despojamento dos nexos da vida, pela desesperança e pelo desencanto que o sujeito poético, hospitalizado, imprime nas suas palavras. As tulipas, da cor da sua grave ferida interior, espiam-na, sugam-lhe todo o oxigénio (referência arrepiantemente irónica, para quem sabe que a própria Sylvia, se suicidará na cozinha de sua casa com a libertação premeditada do gás do fogão).
As túlipas são demasiado sensíveis; é Inverno aqui.
Vê como tudo está branco, silencioso e calmo.
Deitada, isolada e calma vou apreendendo a quietude
enquanto a luz incide naquelas paredes brancas, nesta cama,
nestas mãos.
Não sou ninguém; nada tenho a ver com sobressaltos.
Entreguei o meu nome, as minhas roupas de sair às
enfermeiras,
a minha história ao anestesista e o meu corpo ao cirurgiões. (…)
Não queria flores, apenas queria
estar prostrada com as palmas das mãos para cima e ficar
toda vazia.
Como me sinto livre sem que ninguém faça ideia da
libertação…
A paz é tão intensa que nos entorpece
e nada exige em troca, uma etiqueta com o nome, algumas
bugigangas.
Aquilo a que finalmente os mortos se agarram: imagino-os
introduzindo-as na boca, como se fosse hóstias.
Mais do que tudo o vermelho intenso das túlipas fere-me.
Mesmo através do papel de celofane as ouvia respirar
suavemente, por entre as suas faixas brancas, como um
bebé medonho.
A minha ferida corresponde à sua cor rubra.
São subtis: parecem pairar, embora me esmaguem,
perturbando-me com as suas línguas súbitas e a sua cor,
uma dúzia de vermelhos pesos de chumbo em volta do
meu corpo.
Nunca alguém me vigiara, vigiam-me agora.
As túlipas voltam-se para mim, assim com a janela
donde, uma vez por dia, a luz se espraia e esvai
lentamente,
e vejo-me, estendida, ridícula, uma sombra de papel
recortado
entre o olhar do sol e o olhar das túlipas,
e, sem rosto, quis apagar-me.
As túlipas plenas de vida comem-me o oxigénio.
Antes de elas virem todo o ar era calmo,
entrando e saindo, sopro a sopro, sem alvoroço.
Então as túlipas encheram-no com um forte ruído.
O ar agora embate nelas e redemoinha como um rio
embate e redemoinha num engenho imerso e vermelho de
ferrugem.
Chamam a minha atenção, que era feliz
quando se entretinha e descansava despreocupadamente.
Também as paredes parecem animar-se.
As túlipas deviam estar atrás de grades como animais
perigosos;
abrem-se como a boca de um animal africano,
e é ao meu coração que estou atenta: ele abre e fecha
o seu vaso de florescências vermelhas pelo puro amor que
me tem.
A água que saboreio é quente e salgada como o mar,
e vem de país tão longínquo como a saúde.
Sylvia Plath, Pela Água, Assírio & Alvim
E essa imagem poderosa das tulipas cor-de-sangue, da sua ferida exposta à luz do sol, a contrastar com as paredes brancas do quarto onde repousa, encontrando no auto-abandono a sua verdadeira libertação - essa imagem gritante da cor sangrenta das tulipas, de seres vivos, como animais perigosos e asfixiantes à solta, perturbadoras por este visualismo pleno de vitalidade, figura anímica que destrói a própria vida ao sujeito poético pelo simples facto de respirar o mesmo ar daquele quarto, esculpe intensamente um drama puramente humano. Inesquecíveis, As tulipas, da imortal poeta Sylvia Plath:
As túlipas são demasiado sensíveis; é Inverno aqui.
Vê como tudo está branco, silencioso e calmo.
Deitada, isolada e calma vou apreendendo a quietude
enquanto a luz incide naquelas paredes brancas, nesta cama,
nestas mãos.
Não sou ninguém; nada tenho a ver com sobressaltos.
Entreguei o meu nome, as minhas roupas de sair às
enfermeiras,
a minha história ao anestesista e o meu corpo ao cirurgiões. (…)
Não queria flores, apenas queria
estar prostrada com as palmas das mãos para cima e ficar
toda vazia.
Como me sinto livre sem que ninguém faça ideia da
libertação…
A paz é tão intensa que nos entorpece
e nada exige em troca, uma etiqueta com o nome, algumas
bugigangas.
Aquilo a que finalmente os mortos se agarram: imagino-os
introduzindo-as na boca, como se fosse hóstias.
Mais do que tudo o vermelho intenso das túlipas fere-me.
Mesmo através do papel de celofane as ouvia respirar
suavemente, por entre as suas faixas brancas, como um
bebé medonho.
A minha ferida corresponde à sua cor rubra.
São subtis: parecem pairar, embora me esmaguem,
perturbando-me com as suas línguas súbitas e a sua cor,
uma dúzia de vermelhos pesos de chumbo em volta do
meu corpo.
Nunca alguém me vigiara, vigiam-me agora.
As túlipas voltam-se para mim, assim com a janela
donde, uma vez por dia, a luz se espraia e esvai
lentamente,
e vejo-me, estendida, ridícula, uma sombra de papel
recortado
entre o olhar do sol e o olhar das túlipas,
e, sem rosto, quis apagar-me.
As túlipas plenas de vida comem-me o oxigénio.
Antes de elas virem todo o ar era calmo,
entrando e saindo, sopro a sopro, sem alvoroço.
Então as túlipas encheram-no com um forte ruído.
O ar agora embate nelas e redemoinha como um rio
embate e redemoinha num engenho imerso e vermelho de
ferrugem.
Chamam a minha atenção, que era feliz
quando se entretinha e descansava despreocupadamente.
Também as paredes parecem animar-se.
As túlipas deviam estar atrás de grades como animais
perigosos;
abrem-se como a boca de um animal africano,
e é ao meu coração que estou atenta: ele abre e fecha
o seu vaso de florescências vermelhas pelo puro amor que
me tem.
A água que saboreio é quente e salgada como o mar,
e vem de país tão longínquo como a saúde.
Sylvia Plath, Pela Água, Assírio & Alvim
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Poesia Patrícia F.
domingo, 13 de fevereiro de 2011
POEMAS QUE FICAM (O EXCESSO MAIS PERFEITO - ANA LUÍSA AMARAL)
Rubens, Bain de Diane
Um poema que é uma arte poética, este de Ana Luísa Amaral. Lê-se tensa e fulgorosamente como se fosse um quadro. Um quadro de Rubens. É Fátima Freitas Morna que o apresenta como um dos mais significativos da poesia do século XX e o lê criticamente na antologia "Século de Ouro". É para ler e reler, para ficar para sempre:
O EXCESSO MAIS PERFEITO
Queria um poema de respiração tensa
O EXCESSO MAIS PERFEITO
Queria um poema de respiração tensa
e sem pudor.
Com a elegância redonda das mulheres barrocas
e o avesso todo do arbusto esguio.
Um poema que Rubens invejasse, ao ver,
lá do fundo de três séculos,
o seu corpo magnífico deitado sobre um divã,
e reclinados os braços nus,
só com pulseiras tão (mas tão) preciosas,
e um anjinho de cima,
no seu pequeno nicho feito nuvem,
a resguardá-lo, doce.
Um tal poema queria.
Muito mais tudo que as gregas dignidades
de equilíbrio.
Um poema feito de excessos e dourados,
e todavia muito belo na sua pujança obscura e mística.
Ah, como eu queria um poema diferente da pureza do granito,
e da pureza do branco,
e da transparência das coisas transparentes.
Um poema exultando na angústia,
um largo rododendro cor de sangue.
Uma alameda inteira de rododendros por onde o vento,
ao passar, parasse deslumbrado
e em desvelo.
E ali ficasse, aprisionado ao cântico
das suas pulseiras tão (mas tão) preciosas.
Nu, de redondas formas, um tal poema queria.
Uma contra-reforma do silêncio.
Música, música, música a preencher-lhe o corpo
e o cabelo entrançado de flores e de serpentes,
e uma fonte de espanto polifónico a escorrer-lhe dos dedos.
Reclinado em divã forrado de veludo,
a sua nudez redonda e plena
faria grifos e sereias empalidecer.
E aos pobres templos,
de linhas tão contidas e tão puras,
tremer de medo só da fulguraçãodo seu olhar.
Dourado.
Música, música, música e a explosão da cor.
Espreitando lá do fundo de três séculos,
um Murillo calado, ao ver que simples eram os seus anjos
junto dos anjos nus deste poema,
cantando em conjunção com outros
astros louros
salmodias de amor e de perfeito excesso.
Gôngora empalidece, como os grifos,
agora que o contempla.
Esta contra-reforma do silêncio.
A sua mão erguida rumo ao céu,
carregada de nada.
Ana Luísa Amaral, Século de Ouro, Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX, Cotovia
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Poesia Patrícia F.
NÃO HÁ DOMINGO SEM POESIA
NEM DIÁLOGO, OU QUASE
Um tempo pouco apetecido – ou muito apetecido, igual a esta nuvem, a este rio que vai e vem, mas não fica nunca. «Escreve», disse.
Imagino-te, minha mão,
numa sala cheia de sol,
as cortinas transparentes ao lado,
uma mesa ampla.
Dizes-me: «escreve».
Desejar uma onda,
uma avalanche de paixão entre os dedos,
o tempo: este papel pequeno.
Escuto, mas há coisas com gume de espada
e não consigo obedecer como gostava.
Estão impressas na memória,
as palavras,
mas era aqui que um verso do avesso,
sons transparentes,
haver bolhas de sons
Como uma sala a sol,
os grãos de luz
na mesa muito ampla
não formam um padrão que se organize.
«Escreve»,
continua a minha mão.
Mas o céu repete-se tão claro,
o rio é como roda que não pára,
bicicleta com aros de metal fundente.
E o frio sente-se aqui.
«Não sei», respondo-lhe.
«Comprei agora este caderno, a sua capa é verde,
não conheço esta mesa, nem o seu mármore,
não há família entre mesa, caderno, esta nova caneta,
onde se esconde a mesa que conheço?,
o verde carregado?,
não sei», insisto.
«Só te conheço a ti, ó minha mão.
E até hoje me pareces longínqua.
Onde está essa onda?
Onde a avalanche de que eu precisava?»
Toca-te devagar a outra mão.
Conhecem-se a calor.
Mas, eu?
Entre verde e caderno, tudo novo,
o azul quase gume,
as espadas de gume circular,
o tempo em vidro,
é tão fácil perder-te.
«Talvez virando aí à tua esquerda», digo-te,
«descendo-me do ombro.
Talvez aí eu te consiga ver ao longe,
acenar-te sem sons».
«É por aqui», repito.
Mas tu não vês a luz
que passou a vermelho e de repente.
E moves-te entre carros, sons de carros,
de vozes.
E só agora, e afinal, reparo
que a minha mão nunca saiu daqui,
ficou entre cadeiras, sossegada.
Não está dispersa,
não era sua a voz,
por isso essa avalanche lhe pareceu serena.
Chamei-vos «minha mão»,
mas sois os monstros largos que me assaltam.
Já não é sol o sol,
é deste tempo o tempo.
E todavia, pesadelos meus,
podemos tomar chá, se desejardes,
vós que não me sois mão,
mas lhes sabeis da forma, a imitais,
vos transformais em dedos,
unhas, sangue.
Vinde,
ressuscitados em carne e gente,
e sentai-vos aqui.
Olhai: as minhas duas mãos,
as duas:
preparam-vos o espaço.
Não sei como chamar-vos, por que nome.
Parcas, moiras, melopeias de brilho.
Não sei como chamar-vos.
Mas finalmente escrevo.
Ana Luísa Amaral, Raízes
Um tempo pouco apetecido – ou muito apetecido, igual a esta nuvem, a este rio que vai e vem, mas não fica nunca. «Escreve», disse.
Imagino-te, minha mão,
numa sala cheia de sol,
as cortinas transparentes ao lado,
uma mesa ampla.
Dizes-me: «escreve».
Desejar uma onda,
uma avalanche de paixão entre os dedos,
o tempo: este papel pequeno.
Escuto, mas há coisas com gume de espada
e não consigo obedecer como gostava.
Estão impressas na memória,
as palavras,
mas era aqui que um verso do avesso,
sons transparentes,
haver bolhas de sons
Como uma sala a sol,
os grãos de luz
na mesa muito ampla
não formam um padrão que se organize.
«Escreve»,
continua a minha mão.
Mas o céu repete-se tão claro,
o rio é como roda que não pára,
bicicleta com aros de metal fundente.
E o frio sente-se aqui.
«Não sei», respondo-lhe.
«Comprei agora este caderno, a sua capa é verde,
não conheço esta mesa, nem o seu mármore,
não há família entre mesa, caderno, esta nova caneta,
onde se esconde a mesa que conheço?,
o verde carregado?,
não sei», insisto.
«Só te conheço a ti, ó minha mão.
E até hoje me pareces longínqua.
Onde está essa onda?
Onde a avalanche de que eu precisava?»
Toca-te devagar a outra mão.
Conhecem-se a calor.
Mas, eu?
Entre verde e caderno, tudo novo,
o azul quase gume,
as espadas de gume circular,
o tempo em vidro,
é tão fácil perder-te.
«Talvez virando aí à tua esquerda», digo-te,
«descendo-me do ombro.
Talvez aí eu te consiga ver ao longe,
acenar-te sem sons».
«É por aqui», repito.
Mas tu não vês a luz
que passou a vermelho e de repente.
E moves-te entre carros, sons de carros,
de vozes.
E só agora, e afinal, reparo
que a minha mão nunca saiu daqui,
ficou entre cadeiras, sossegada.
Não está dispersa,
não era sua a voz,
por isso essa avalanche lhe pareceu serena.
Chamei-vos «minha mão»,
mas sois os monstros largos que me assaltam.
Já não é sol o sol,
é deste tempo o tempo.
E todavia, pesadelos meus,
podemos tomar chá, se desejardes,
vós que não me sois mão,
mas lhes sabeis da forma, a imitais,
vos transformais em dedos,
unhas, sangue.
Vinde,
ressuscitados em carne e gente,
e sentai-vos aqui.
Olhai: as minhas duas mãos,
as duas:
preparam-vos o espaço.
Não sei como chamar-vos, por que nome.
Parcas, moiras, melopeias de brilho.
Não sei como chamar-vos.
Mas finalmente escrevo.
Ana Luísa Amaral, Raízes
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Poesia Patrícia F.
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
XXV
Eu gosto disto aqui, da reserva com que escrevo
e lanço fogo sobre o indiviso fogo da escrita.
Eu gosto de cidades que se desenham, sobre a mesa
do sangue dispostas e repetidas no pretérito,
como se de massas escuras se tratasse,
tomadas de assalto pela linguagem, mas não são
linguagem tais cidades amadas, nem sequer
erva tumultuada pelo vário vento da terra.
Eu ainda sei o que é o nó desatando-se,
o mesmo que Frost disse estar na garganta
e que nos persegue como motivo e enigma,
como disparos de células nervosas transparecendo
[o obscuro desejo.
Eu gosto disto aqui, deste lugar, desta clarividente
margem dos dedos pensando sobre o rosto fechado.
Luis Quintais, Riscava a palavra dor no quadro negro, 2010
Eu gosto disto aqui, da reserva com que escrevo
e lanço fogo sobre o indiviso fogo da escrita.
Eu gosto de cidades que se desenham, sobre a mesa
do sangue dispostas e repetidas no pretérito,
como se de massas escuras se tratasse,
tomadas de assalto pela linguagem, mas não são
linguagem tais cidades amadas, nem sequer
erva tumultuada pelo vário vento da terra.
Eu ainda sei o que é o nó desatando-se,
o mesmo que Frost disse estar na garganta
e que nos persegue como motivo e enigma,
como disparos de células nervosas transparecendo
[o obscuro desejo.
Eu gosto disto aqui, deste lugar, desta clarividente
margem dos dedos pensando sobre o rosto fechado.
Luis Quintais, Riscava a palavra dor no quadro negro, 2010
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Poesia Patrícia F.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
JANELAS DO MUNDO
Luis Brea Martinez, Taller de Mascaras
Máscaras gessos lascas formas esgares enfeites suspeitos dissimulados
de ti
de ti
seres desdobrados
seres bem cavos
seres bem cavos
onde dentro de ti és outras
e o teu mais fundo interior
as expulsa junto à superfície
previsível desgastada do teu rosto.
Assim ninguém sabe ninguém te adia
essa outra vida essas outras vidas
desejadas recalcadas que dormem enroladas
como um caracol no teu cérebro - sonho
- deixando um rasto um corrimento
de desejos de outras tu - noutros lugares
desejadas recalcadas que dormem enroladas
como um caracol no teu cérebro - sonho
- deixando um rasto um corrimento
de desejos de outras tu - noutros lugares
Dissimulados suspeitos enfeites esgares formas lascas gessos
máscaras de ti.
surto de escrita
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Janelas Patrícia F.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
A BIBLIOTECA INFERNAL - UM CONTO
Um pequeno grande livro que aconselho a todos aqueles que vêem na biblioteca um lugar de culto e de prazer. De um autor natural da Sérvia, escritor de uma vasta obra de ficção que tem vindo a ser traduzida em muitas línguas, considerado um dos mais interessantes autores da narrativa contemporânea. Com este livro de contos, editado pela Cavalo de Ferro em Setembro de 2010, ganhou o Worl Fantasy Award, em 2003. A tradução para o portugês é deArijana Medvedec.
Zoran Zivkovic, A Biblioteca, Cavalo de Ferro, p.65
Transcrevo um excerto do 4º conto deste precioso livrinho:
"(...) Lá também existem bibliotecas, claro, mas para que é que elas servem quando quase ninguém as usa? Como se nem sequer existissem. Olhe veja outra vez o seu exemplo. Alguma vez pelo menos entrou na biblioteca de uma das muitas prisões em que esteve?
- Nem sabia que existiam, retorqui com sinceridade.
- Eu não lhe disse? Mas não se apoquente, em breve lhe daremos a oportunidade de recuperar o tempo perdido. E muito mais do que isso, aliás. Diante de si está, literalmente, toda uma eternidade de leitura.
Estive a fitar o homem durante um tempo, sem dizer nada.
- É este, então, o meu castigo? Ler?
- A sua terapia.
- Terapia, sim. Não haverá mais nada? - tentei cortar o tom de alívio na minha voz, mas não o consegui.
- Não, não haverá, claro. Ficará sentado na sua cela a ler. É tudo. Não terá mais nenhuma obrigação. Queria, entretanto, chamar a sua atenção para o facto de a eternidade ser um tempo muito longo. A leitura pode aborrecê-lo num certo momento. Isso acontece a muitos dos nossos internos que se tornam, então, extremamente engenhosos. Que truques passam a utilizar para deixar a impressão de que estão a ler, embora não o estejam! Mas nós temos meios para desvendarmos todas essas aldrabices astutas. Nesses casos temos de, infelizmente, aplicar medidas de coacção para os levarmos a voltar a ler. No caso dos mais persistentes e mais teimosos, elas são bastante dolorosas, receio.
- E direitos humanos? Humanidade?
- Nisso não tocamos sequer. Trata-se exclusivamente do bem deles. Não podemos deixar que por causa de preguiça espiritual façam mal a si próprios, não é?
- Talvez - respondi, não completamente convencido.
- É o essencial que deve saber. Em breve aprenderá a conviver com as nossas condições. No início ser-lhe-á provavelmente mais difícil, até se habituar, mas por fim perceberá que a leitura oferece prazeres inigualáveis. Todos o percebem durante a eternidade, alguns mais cedo, outros mais tarde. Espero que entretanto se comporte de maneira madura e sensata, e que não nos obrigue a usar medidas de coacção. Será mais agradável e mais fácil para todos."
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