quarta-feira, 6 de julho de 2011

CONTOS DE CABECEIRA

RUÍDO DE PASSOS


Tinha oitenta e um anos de idade. Chamava-se dona Cândida Raposo.
Essa senhora tinha a vertigem de viver. A vertigem se acentuava quando ia passar dias numa fazenda: a altitude, o verde das arvores, a chuva, tudo isso a piorava. Quando ouvia Liszt se arrepiava toda. Fora linda na juventude. E tinha vertigem quando cheirava profundamente uma rosa.
Pois foi com dona Cândida Raposo que o desejo de prazer não passava.
Teve enfim a grande coragem de ir a um ginecologista. E perguntou-lhe envergonhada, de cabeça baixa:
- Quando é que passa?
- Passa o quê, minha senhora?
- A coisa.
- Que coisa?
- A coisa, repetiu. O desejo de prazer, disse enfim.
- Minha senhora, lamento lhe dizer que não passa nunca.
Olhou- o espantada.
- Mas eu tenho oitenta e um anos de idade!
- Não importa, minha senhora. É até morrer.
- Mas isso é o inferno!
- É a vida, senhora Raposo.
A vida era isso, então? Essa falta de vergonha?
- E o que é que eu faço? Ninguém me quer mais...
O médico olhou-a com piedade.
- Não há remédio, minha senhora.
- E se eu pagasse?
- Não ia adiantar de nada. A senhora tem que se lembrar que tem oitenta e um anos de idade.
- E... e se eu me arranjasse sozinha? O senhor entende o que eu quero dizer?
- É, disse o médico. Pode ser um remédio.
Então saiu do consultório. A filha esperava-a embaixo, de carro. Um filho Cândida Raposo perdera na guerra, era um pracinha. Tinha essa intolerável dor no coração: a de sobreviver a um ser adorado.
Nessa mesma noite deu um jeito e solitária satisfez-se. Mudos fogos de artifícios. Depois chorou. Tinha vergonha. Daí em diante usaria o mesmo processo. Sempre triste. É a vida, senhora Raposo, é a vida. Até à benção da morte.
A morte.
Pareceu-lhe ouvir ruído de passos. Os passos de seu marido Antenor Raposo.

in Contos de Clarice Lispector, Relógio d' Água

terça-feira, 5 de julho de 2011

ÁGUA - POEMAS DE ÁGUA


ÁGUA

Procuro a água que tens. Água na pele.
Por vezes oculta antes de transpirares os sentidos,
latente como palavras que não dizes mas sei que enternece aí
arriscadamente escorregadia
Trazes nos olhos as ondas a que nos lançámos no primeiro verão e
quando mas devolves há verdade e muitos peixes a rolarem
pela tua face abaixo…
Parecem meninos quando descem do pomar que roubaram
cheios de susto.
E a língua tão dormente que trazes deitada dentro da boca
ruborizada manda os olhos falarem,
os dedos tocarem no meu joelho
mas sei que guarda belas cascatas para me beijar
E recompor na água que tens.   


 

segunda-feira, 4 de julho de 2011

NÃO HÁ DOMINGO SEM POESIA


OS DOMINGOS DE LISBOA (de Pedro Mexia)

«Os domingos de Lisboa são domingos
terríveis de passar», mais terrível
este verso ter quarenta anos.

Tenho menos de quarenta, prazo
de alegrias, mas ao domingo
é plos domingos que tenho tristeza.

Os domingos em que não soube
e se soubesse não seria diferente,
os domingos de pó e naftalina.

Os domingos sem pão e sem
correio, dia do Senhor
que morreu à sexta-feira.

Os domingos de arrumações,
de matutinos do mês passado,
da sesta hipocondríaca na cama maior.

Os domingos decrescentes,
dia em que se envelhece, missa
para os que são de missa,
futebol para os da bola,
e para as famílias almoços
em melancólicos restaurantes,

parques e lojas onde também
estou, passeando com os olhos
os filhos, saudáveis, dos outros.


in Menos por Menos, D. Quixote, 2011

sábado, 2 de julho de 2011

CÁ DENTRO


Cá dentro é escuro
tão escuro que não chego a vós
a quem prometi dar vida até um fim.
Cá dentro é escuro
e nisso sinto que tudo está para lá 
dos órgãos do meu corpo meu entrave.

Se estendo os braços arrepiam vozes
quando entra o vento pela janela
e para lá de qualquer célula que ainda
vos desenha ausentes dentro de mim
chega cada vez mais perto uma solidão
de ser, a incongruência de amar e afinal ser um,


Cá dentro é escuro
sem rasgos de um caminho para aí.
Cá dentro é escuro
sem acesso exclusivo a quem se
ama - poderia nascer entre mim e vós
uma cave interdita, uma gruta secreta cheia de vozes
enleadas e  perigos marítimos e mãos trémulas
em soluços de existir.


Cá dentro é escuro
e de tudo isto sobrevive apenas o ar frio
dentro desta ideia cercada de placenta,
cheia de um sangue que é a verdade
de me saber incapaz de ser num mesmo tempo
por dentro dos outros.
Especialmente daqueles
que quero para sempre também ser.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - A ESTRADA BRANCA


O POEMA

O poema é um exercício de dissidência, uma profissão de incredulidade na omnipotência do visíveis, do estável, do apreendido. O poema é uma forma de apostasia. Não há poema verdadeiro que não torne o sujeito um foragido. O poema obriga a pernoitar na solidão dos bosques, em campos nevados, por orlas intactas. Que outra verdade existe no mundo para lá daquela que não pertence a este mundo? O poema não busca o inexprimível: não há piedoso que, na agitação da sua piedade, não o procure. O poema devolve o inexprimível. O poema não alcança aquela pureza que fascina o mundo. O poema abraça precisamente aquela impureza que o mundo repudia.


 A ESTRADA BRANCA

Atravessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer
acima do muro alto

folhas tremiam
ao invisível peso mais forte

Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate


José Tolentino Mendonça

CONTOS CARNÍVOROS - BERNARD QUIRINY

ALGUNS ESCRITORES,  TODOS MORTOS
Descobri graças a Pierre Gould um grande número de escritores menos conhecidos, homens de letras da sombra ignorados pelos fazedores de antologias. Pierre teve sempre uma inclinação particular pelos autores de segundo plano, os discretos, os excêntricos, os pequenos mestres, os esquecidos, os discípulos de um outro, os herdeiros de uma escola passada de moda, os provincianos, os exilados, os amadores esclarecidos, os que não lograram marcar uma época e os que se desinteressaram de o fazer, os inactuais, os extravagantes, os modestos, todos os que encontramos nas bibliotecas quando deslocamos os monumentos que os escondem. Na sua maioria, não têm génio; alguns deles têm-no mais do que algumas celebridades a quem a posteridade concedeu um favor imerecido. Todos estão mortos. Eis os meus preferidos.
Enzo Tranastani (1890-1939): este italiano publicou dez livros cuja particularidade é terem todos eles, um título de obra musical. A sua primeira novela, dada à estampa em 1911 numa revista milanesa, intitulava-se Quarteto de Cordas nº 1; a seguir escreveu Sonata para Piano em mi maior, Sinfonia nº1, Sinfonia nº2, Missa em Si, Quarteto de Cordas nº 2, Obras para dois pianos, Concerto para Violino, Obras para Piano e Violoncelo e Sinfonia nº3. "Não me lêem", dizia ele: "tocam-me."
Adolphe Morceau (1855-1940): membro efémero do grupo dos Hydropathes, onde esteve ao lado de Charles Cros e de Alphonse Allais, este especialista do texto breve nunca conseguiu resolver-se a trabalhar sobre papel, como toda a gente. Todas as suas novelas (ignora-se quantas terá imaginado, ois que muitas de entre elas se perderam) foram escritas sobre suportes escolhidos pela sua relação com a intriga. A Morte de um Peão foi assim redigida sobre um sapato de couro número 46. O Amador de Chocolate, gravado no cabo de um garfo de sobremesa; A Caminho do Oeste, pintado sobre uma placa de sinalização roubada à saída de Paris, e Jogo, Set e Match, pirogravado no quadro de uma raqueta de madeira. (...)
Malcolm e Clarence Galtho (1884 - 1945 e 1884 - 1955): estes dois gémeos ingleses, saídos de uma família numerosa na qual todos tinham de uma maneira ou de outra relação com a literatura, escreveram juntos uma série de livros hoje esquecidos, mas que conheceram no seu tempo um certo sucesso. A sua maneira de escrever fascinava os críticosporque faziam tudo em comum, de tal modo que era impossível separar dos seus livros o que vinha de Clarence e o que vinha de Malcolm.Pierre sabe de cor vários poemas da sua colectânea Adeus a Gales do Norte, que nos recita com frequência, sem se preocupar com o facto de nós, que o ouvimos sem entender o inglês, nada compreendermos. (...)
Francisco Martinez y Diaz (1930 - 1981): este ex-militar espanhol começou a escrever quando passou à reforma. Era muito lento e não terminou senão um livro, Histórias Lidas num Espelho,  que colige uma dúzia de histórias maravilhosas à manira de Lewis Carroll. "Não são obras-primas", explica Pierre Gould, "mas gosto muito delas. Acima de tudo, a minha admiração vai para as condições que o autor conseguiu impor ao seu editor; todos os exemplares do deu livro foram impressos às avessas e vendidos com um pequeno espelho fixado na sobrecapa. Para o lermos, temos de fazer com que as palavras se reflictam no espelho, em conformidade com a promessa do título. Possuo um exemplar desta raridade, mas com o espelho rachado."
Bernard Quiriny, Contos Carnívoros, Ahab, 2011

quarta-feira, 29 de junho de 2011

EXCERTOS QUE FICAM

A partir do momento em que descobriu o milagre de uma noite inteira de sono e a enfermeira teve de o acordar para o pequeno-almoço, começou a sentir que o pavor diminuía. Tinham-lhe dado um medicamento para a depressão que não era o certo para ele, depois um segundo, e finalmente um terceiro que não tinha efeitos secundários intoleráveis, mas não sabia se lhe fazia algum bem. Não podia acreditar que as suas melhoras tivessem alguma coisa que ver com os comprimidos ou com as sessões com o psiquiatra ou a terapia de grupo ou a terapia artística, tudo exercícios que achava inúteis. O que continuava a apavorá-lo, à medida que se aproximava o dia em que teria alta, era que nada do que lhe estava a acontecer parecia ter que ver com nada. Como tinha dito ao Dr. Farr - e mais se tinha convencido depois de, durante as sessões com ele, ter feito tudo o que estava ao seu alcance para procurar uma causa - tinha perdido a sua magia de actor sem razão válida e foi do mesmo modo arbitrário que começou a desvanecer-se nele o desejo de pôr termo à vida, pelo menos por enquanto. «Nada tem uma razão válida para acontecer», diria ao médico nesse mesmo dia. «Perde-se, ganha-se - tudo é capricho. A omnipotência do capricho. A probabilidade da reviravolta. Sim, a imprevisível reviravolta e o seu poder.»
Perto do fim da sua estadia fez uma amiga, e sempre que jantavam juntos ela repetia-lhe a sua história. Tinham-se conhecido na terapia artística, e a partir daí costumavam sentar-se frente a frente numa mesa para dois da sala de jantar, a conversar como dois namorados, ou - dados os trinta anos de diferenças de idades - como pai e filha, embora o assunto fosse a tentativa de suicídio dela. No dia em que se conheceram - poucos dias depois da chegada dela - só estavam os dois na sala de artes com a terapeuta que, como se eles fosse meninos de jardim-escola, tinha dado a cada um umas folhas de papel branco e uma caixa de lápis de cera para brincarem e lhes tinha dito que desenhassem o que quisessem. Axler achou que na sala só faltavam as mesinhas e cadeirinhas. Para fazer a vontade à terapeuta, trabalharam em silêncio durante quinze minutos e depois, sempre para satisfazer a terapeuta, escutaram com atenção o que cada um tinha a dizer sobre o desenho do outro. Ela tinha desenhado uma casa com jardim, e ele tinha-se desenhado a fazer um desenho, «um retrato», disse à terapeuta quando ela lhe perguntou o que tinha feito, «de um homem que teve um esgotamento e se interna num hospital psiquiátrico e vai para a terapia artística e a terapeuta o manda fazer um desenho.». «E se tivesse de dar um título ao seu desenho, Simon, que título lhe daria?» «É fácil, " Que diabo estou eu a fazer aqui?"»

Philip Roth, A Humilhação, D. Quixote, 2011, pp. 22, 23, 24

DOIS POEMAS DE ADÉLIA PRADO

Salvador Dali
O PELICANO

Um dia vi um navio de perto.
Por muito tempo olhei-o
com a mesma gula sem pressa com que olho
Jonathan:
primeiro as unhas, os dedos, seus nós.
Eu amava o navio.
Oh! eu dizia. Ah, que coisa é um navio!
Ele balançava de leve
como os sedutores meneiam.
À volta de mim busquei pessoas:
olha, olha o navio
e dispus-me a falar do que não sabia
para que enfim tocasse
no onde o que não tem pés
caminha sobre a massa das águas.
Uma noite dessas, antes de me deitar
vi - como vi o navio - um sentimento.
Travada de interjeições, mutismos,
vocativos supremos balbuciei:
Ó Tu! e Ó Vós!
- a garganta doendo por chorar.
Me ocorreu que na escuridão da noite
eu estava poetizada,
um desejo supremo me queria
Ó Misericórdia, eu disse
e pus minha boca no jorro daquele peito.
Ó amor, e me deixei afagar,
a visão esmaecendo-se,
lúcida, ilógica,
verdadeira como um navio.



CASAMENTO


Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.


in Poesia Reunida, 1991

sábado, 18 de junho de 2011


Élia Laranja, Vida e Morte
I
Hoje debrucei-me sobre uma ponta de morte,
no branco desmaio de uma mulher combalida
com os mesmos cabelos longos
os mesmos olhos fechados
a mesma distância do grito
que a do meu sono à vida.
Estava ali uma alma muito fechada, uma mancha escura,
um fulgor subtraído àquele rosto
de cujos cinco sentidos tão úteis não via rasto.
 
Sim. O corpo que antes se torcia para cima,
(um corpo a agitar vida é sempre girassol)
Que subia e que descia a escadaria da escola
por onde também eu subo e desço os meus dias
o corpo que desprendia frequentemente
a simpatia de um sorriso vindo mesmo de dentro,
cheio da força de dentes sãos ,
Estava agora mudo,
Era um inverno breve naquele
instante em que a ponta da morte se instalou
nos pulsos estendidos pelo cimento fora –
E foi tudo à minha frente como
uma paisagem de mar que não esperava.

Incompreensível como pudera ter caído
naquele chão frio,
uma campa quase a abrir-se. Vi.
Sei que empurrei a morte, apaguei-a várias vezes do chão,
com os dedos, muito rapidamente,
porque a entendi como um perigo
a desenhar-se em letras
(Aqui jaz fulana que já viveu, que já ensinou como eu).

Dei-lhe água com açúcar numa colherzinha metálica
Que lembrava a hora do café, o vício do cigarro,
E alguém que visse, percebia uma floreira
branca quase  a instalar-se por detrás dos gestos
que movia esperançada na vida, que
novamente bela e a piscar os olhos, chegaria.

Esperei aflita num silêncio rugoso.
E a morte insistia naquele chão,
agachada como eu, a olhá-la de perto,
bem nos olhos uma estrela em lume
a esfriar-se, perdendo a luz aguda, emudecendo (para sempre?)
Li-a como a um livro urgente. Muito silente.

Fiquei contente descompassadamente
quando aos poucos a vida inteira,
 por ela guardada certamente na garganta,
veio em palavras bem soletradas,
penosas e vagarosas, sem sinais de entoação -
estou bem estou bem –
 repetidas  frases que a ligavam à vida

Fez-se tarde para entender aquilo,
Tocou a entrada e o rebuliço nos pavilhões de pedra,
Ela foi embora,  inteira como uma pomba a voar
ferida e eu lembrei-me que mesmo na escola
a morte é impertinente, insiste
assim, à hora em que começa a aula.


segunda-feira, 13 de junho de 2011

HÁ 123 ANOS NASCIA PESSOA

Foste tanto
                            Foste tantos
                                                            Como poucos
Tanto foste
                                 Tantos foste
                                                                       como ninguém
Pessoa és tu e apenas outros
tantos outros
que foram a partir de ti.

MANUEL ANTÓNIO PINA - A POESIA VAI


A POESIA VAI

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
– Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? –


in Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal, Assírio & Alvim, 2011

sábado, 11 de junho de 2011

EXCERTOS QUE FICAM


A mulher tem a química dos animais e o pólen das plantas,
e da Grande Alma rouba o Apetite para multiplicar as coisas que nascem.
Os contágios são calmos.
Se uma flor voasse perdia o cheiro;
e se o pássaro tivesse aroma de rosa, de certeza seria coxo.
Porque o mundo se organizaou todo de uma vez e depois calou-se.
Ficámos nós, sós, e a Filosofia.
A pedra calada, o animal grunhe,
a erva cresce tão lenta que só a vemos quando ela é adulta, e os cães ladram debaixo do Sol.
Todos somos resíduos imperfeitos
e os organizadores do Baile saíram logo no início,
deixando a Música, mas não os passos.
Por isso tropeçamos,
partimos a unha má e boa,
apaixonamo-nos por uma mulher e depois já é outra,
e, no Fundo, o que queríamos era sossego e não dançar.
Do que temos medo é da solidão, temos de o reconhecer,
esse caixão que vem antes do tempo,
e nos fecha dos outros e do dia.
O que queremos é sossego;
nem Mistérios nem passos de dança,
apaguem a Música.


in Investigações Novalis, Difel, 2002

segunda-feira, 6 de junho de 2011

EUGÉNIO DE ANDRADE - PERTO DO MAR



PERTO DO MAR

O corpo sabe.
O corpo não esqueceu ainda
a direcção do sol:
fará a casa perto do mar,
fiel ao quase adolescente
coração da água.
As mãos acesas - altas, altas.

in O Outro Nome da Terra

terça-feira, 24 de maio de 2011

POEMAS QUE ME OFERECEM

Realidade
Por causa de um livro
vieste ao meu encontro.
Era Verão, não sabias de nada
nem isso interessava. Palavras
amavam-se fora de ti,
no atropelo das emoções.
Lá chegaria a primeira vez,
o encontro apressado num lugar
público. Desfeito o erro
ao toque da pele, não sei
se havia medo, a paixão queria-me
no lugar exacto do teu coração.
Palavras enrolam-se na sombra
da vida a dor do sentimento.

Atingido o espírito, o tempo
da infância, a realidade. Em ti
a solidão que o prazer
não mata. Quero a beleza
dos versos revelada.
Alguns anos passaram sobre
a nossa história que não acabou.
A tarde envelhece e escrevo isto
sem saber porquê.


Isabel de Sá, in “Erosão de Sentimentos”, 1997

segunda-feira, 23 de maio de 2011

EXCERTOS QUE FICAM - JULIO RAMÓN RIBEYRO

10
«Olhando para o gato do restaurante: a maravilhosa elegância com que os animais assumem a sua nudez. Há algum tempo comprovei isso nos cães, nos cavalos. Não há nada de rídículo nem de desagradável nos animais. Se alguma vez as suas posições ou acções nos incomodam é pela semelhança com acções ou posições humanas: por exemplo, quando os animais fazem amor.»

in Prosas Apátridas, Edições Ahab, 2011

domingo, 15 de maio de 2011

NÃO HÁ DOMINGO SEM POESIA

Van Gogh, Livros

Real, real porque me abandonaste?
E, no entanto, às vezes bem preciso
de entregar nas tuas mãos o meu espírito
e que, por um momento, baste
que seja feita a tua vontade
para tudo de novo ter sentido,
não digo a vida, mas ao menos o vivido,
nomes e coisas, livre arbítrio, causalidade.
Oh, juntar os pedaços de todos os livros
e desimaginar o mundo, descriá-lo,
amarrado ao mastro mais altivo
do passado! Mas onde encontrar um passado?

Manuel António Pina, Os Livros, Assírio & Alvim





domingo, 8 de maio de 2011

PODE FILMAR- SE A POESIA - MANUEL S. FONSECA


Não sei se pode ou não filmar-se a poesia. Pode. Já vi. Deixem-me mostrar. Invento que, em "Atonement", a acesa boca de Keira Knightley, em que logo apetece humedecer a nossa, é apenas a tradução em filme deste resignado verso de e. e. cummings: "se os teus lábios, que outrora amei, tiverem de tocar noutros." A boca de Keira e o verso de cummings anunciam a separação dos amantes, antecipando a dor que há-de vir. Poesia e cinema coincidem ao incendiarem de imagens cada cérebro que tocam. Na poesia, o verbo é tão actor como Nathalie Wood em "Splendor in the Grass".
No poema as palavras levantam-se como a câmara que sobe para ver o mundo do alto do céu no fim de "Perfect World", de Clint Eastwood.Pergunto: que cineasta poderia ter filmado a explosão verbal de Herberto Helder, o nosso maior poeta? Cukor tinha a elegância, mas não a viril vocação animal. Talvez Preminger, o Preminger de "Bonjour Tristesse", se conquistado pelo romantismo doentio de Godard.
Imagino que todos os poemas foram já filmados. Mesmo os de Herberto. Fui ler:
"Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
pelo orvalho parado da noite."
Já vi estes versos no cinema: homens a correr "pelo orvalho parado da noite". Em filmes de guerra de Samuel Fuller, no "Target", de Arthur Penn, em que Gene Hackman é espião em Berlim. Também num velho filme de Fritz Lang, "Man Hunt", irrompe a exacta imagem do verso de Herberto. É um filme de perseguição, presas humanas e nevoeiro espesso. Diga-se: no cinema contemporâneo, só um actor, Matt Damon, tem fôlego para correr pelo orvalho dentro, atravessando as portas da morte e renascendo de todas as perseguições.
Herberto foi ainda mais narrativo nos contos de "Os passos em volta". "Polícia" é a história de um clandestino que sobrevive de expedientes e foge à extradição numa insuportável Bruxelas. Encontra Annemarie, a "criatura  mais só da terra", num sítio onde "as putas e os chuis eram mais do que as mães". Dorme com ela. Leio e penso: Já vi! Mas onde é que vi dois amantes nus a atravessar a cobertores e café, a chuva de uma noite fria? Num dos filmes de longas conversas de Eric Rohmer? Não, foi no "They live by night", de Nicolas Ray: tenho a certeza de que Farley Granger, o actor, se inspirou no herói clandestino de Herberto. E invento: no filme ideal, Juliette Binoche seria Annemarie, a subversiva amante de Bruxelas.  
O filme ideal, o que juntaria a Binoche e Matt Damon, escreveu-o Herberto, antes dos dois nascerem, no poema destes primeiros versos:
"As mulheres têm uma assombrada roseira
fria espalhada no ventre.
Uma quente roseira, às vezes, uma planta
de treva."
O cinema arde quando é dito assim.

in Actual, nº 2010, Expresso, 07 de Maio de 2011

NÃO HÁ DOMINGO SEM POESIA

Roubo, sim, gravo aquele vir.
O movimento exacto em
que a roda da saia
da maré, que já sabia irada,
se levanta em briga
e se prepara
pra cobrir as tuas mãos
que em concha a esperam,
toda fria, a recusar-se líquida.
Gravo o calar do amuo dela
que reconsidera ainda tensa,
acariciar-te os dedos fechados,
e ainda muito branca,
refrescar os teus cabelos quentes
pra lá se deixar secar,
E apenas sentir as tuas mãos passar.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

O livro de poesia 1de Gonçalo M. Tavares publicado na Relógio D’Água em 2004, recebeu o prémio Treci Trg’ no Festival de Poesia de Belgrado permitindo que o escritor partilhasse o prémio com Brian Henry (EUA) e Adam Wiedemann (Polónia). Saiu recentemente a 2ª edição (Março de 2011) que é uma preciosidade. Deixo um poema do livro 7, Autobiografia, dos muitos magníficos que escreveu:

os grupos

Mas é estranho isto, e receio o que a vida vai
fazendode mim sem a minha autorização.
Com 18 anos adorava mesas grandes, divertia-me,
via no grupo movimentos e excitações a que
Não chegava sozinho. Como se a alegria entre
Vinte pessoas fosse uma língua que um ser vivo
Isolado não conseguisse formular.
Não morrerei ignorando essa língua, mas agora,
Fujo dela: cinco pessoas numa mesa assustam
como um assalto: dá-me! , sinto que dizem,
E a expectativa dos outros em relação à frase,
Ao silêncio ou à minha imobilidade,
Encosta o frio à camisa que trago,
Como o punhal discreto de um bom assaltante.
Não gosto de grupos, de aglomerações intermédias
Entre a amizade e o exército. A amizade faz-se de um
Para um, por vezes de dois para um; em matéria de sinceridade
O número quatro assusta-me. 

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Ondjaki

Amiguinha doce...quis colocar aqui novamente este filme como forma de nos lembrarmos que,  no dia 18 de Abril,  tivemos o privilégio de  conhecer  Ondjaki no encontro Literatura em Viagem...

sábado, 16 de abril de 2011

RICARDO REIS - A FLOR QUE ÉS, NÃO A QUE DÁS, EU QUERO

A flor que és, não a que dás, eu quero.
Porque me negas o que te não peço?
Tempo há para negares
Depois de teres dado.
Flor, sê-me flor! Se te colher avaro
A mão da infausta sphynge, tu perenne
Sombra errarás absurda,
Buscando o que não deste.

Publicado na revista Athena, nº 1, 1924

sexta-feira, 15 de abril de 2011

POEMAS QUE FICAM

I

Corroendo
As grandes escadas
Da minha alma.
Água. Como te chamas?
Tempo.


Vívida antes
Revestida de laca
Minha alma tosca
Se desfazendo.
Como te chamas?
Tempo.


Águas corroendo
Caras, coração
Todas as cordas do sentimento
Como te chamas?
Tempo.


Irreconhecível
Me procuro lenta
Nos teus escuros
Como te chamas, breu?
Tempo.

Hilda Hilst, Da morte, Odes Mínimas, 2003



quinta-feira, 14 de abril de 2011

DESIDÉRIO MURCHO - FILOSOFIA EM DIRECTO

«Quando entramos num avião, não votámos no piloto. Não controlámos as suas competências. Outras pessoas e instituições fazem isso por nós. Todavia, os pilotos de aviões são muitíssimo mais competentes, a ajuizar pelo índice de erros que cometem, do que os governantes. Fossem aqueles como estes e todos os dias cairiam aviões por esse mundo fora. (...) Por que não fazer com a governação algo semelhante ao que fazemos no caso da pilotagem de aviões?
A ideia de ter governantes com o mesmo grau de profissionalismo e competência que temos noutras áreas é atraente. O problema é que não sabemos bem como poderíamos fazer tal coisa. Teriam os governantes de ser doutorados em governação? Mas, nesse caso, como poderíamos garantir que esses doutoramentos teriam a qualidade necessária para garantir a competênciados governantes?
Talvez no futuro consigamos ter cursos de governação de grande qualidade - se bem que num país que não tem governantes particularmente competentes, não é de esperar que tenha professores de governação particularmente competentes. Mas, ao passo que é razoavelmente fácil determinar se alguém é ou não um piloto competente, é muito mais difícil determinar se alguem é ou não um governante competente (...)»

segunda-feira, 11 de abril de 2011

DON DELILLO - PONTO ÓMEGA

«No deserto do Arizona. Um jovem realizador obcecado com uma ideia para um filme: um único plano-sequência, uma única personagem. Frente à câmara e encostado à parede («como num assalto ou num fuzilamento»), está Richard Elster, um intelectual que, ao serviço do Pentágono, traçou a cartografia conceptual da Guerra do Iraque («eu queria uma guerra em haiku… uma guerra em três versos»). Quando a filha de Elster entra em cena, o fio da conversa filosófica dos dois homens é abruptamente cortado e a dinâmica da história conhece uma dramática inflexão.»
(Contracapa)

Neste romance conseguimos ver uma autêntica radiografia da alma humana ao mesmo tempo que a construção de uma história invulgar, com apenas três personagens, também elas fortemente invulgares (talvez pela sua pureza ou estado humano bruto).
A linguagem ganha as cores da realidade pois é maximamente depurada, apontando de igual forma para os contornos e para o centro de tudo. Reiterando a opinião assinada por The Times são admiráveis   os "vislumbres de uma beleza despojada" que o romance nos concede através desta longa meditação sobre as ambições humanas, sobre um tempo de retiro num deserto assustadoramente só, num espaço que lembra a eternidade. Elster e o narrador são verdadeiramente humanos na descrição das singulairdades que sobre si nos fazem saber (são os fármacos que Elster guarda num armário velho da casa de banho, são as peles roídas dos seus dedos que ajudam a defini-lo, a construí-lo tão humanamente assustador). Impressionou-me o sentimento de perda (do pai, Elster, para com a sua filha, Jessie) e a fantástica abertura e fecho do romance, que se confundem na descrição das imagens de um filme projectado numa velocidade afrouxada, do princípio ao fim, até alcançar a duração de vinte e quatro horas consecutivas. "Um filme em estado puro, tempo em estado puro" como nos diz o narrador. Um livro de literatura autêntica que transborda de sabedoria. Um livro para se ler muito devagar, muito para além das mesmas 24 horas que o filme que vemos logo nas páginas iniciais demora a passar em câmara lenta, com a inteireza da essência de tudo. Para saborear com lentidão.

Um excerto:
«Certa vez, eu olhara  para dentro do armário dos medicamentos na casa de banho dele. Não precisei de abrir a porta do armário, já que não havia porta. Fiadas de frascos, tubos, embalagens de comprimidos, quase três prateleiras repletas, e mais alguns frascos, um deles aberto, sobre a tampa do autoclismo, e vários folhetos inclusos espalhados sobre um banco, desdobrados, exibindo avisos escritos em pequenos caracteres a negrito.
- Não são os meus livros, nem as minhas conferências, nem as minhas conversas, nada disso. É o raio do espigão, é a pele morta, é aí que eu estou, a minha vida, de então até cá. Falo durante o sono,, sempre falei, a minha mãe dizia-mo em pequeno e não preciso de que ninguém mo diga agora, eu sei-o, ouço-me, e isto é o mais significativo, alguém devia fazer um estudo do que as pessoas diem enquanto dormem, e provavelmente alguém já o fez, um paralinguista qualquer, porque é mais relevante do que as ilhentas cartas particulaes que um homem escreve ao longo da sua vida e é também literatura.
Nem tudo eram medicamentos receitados pelo médico, mas a maior parte era-o, e tudo aquilo era Elster.»

Don DeLillo, Ponto Ómega, Sextante Editora

sábado, 9 de abril de 2011

CONTOS QUE FICAM

Um livro de contos que vale a pena ler, com especial destaque para o originalíssimo e impressionante conto que dá o título ao livro, Pássaros na Boca, escrito por uma escritora muito nova, Samantha Schweblin, com apenas 33 anos, considerada por El Mundo “uma das vozes mais potentes da nova narrativa argentina”. Para muitos, promete, pela singularidade da sua escrita, ser a  herdeira directa dos maiores contistas argentinos do século XX, como Borges, Bioy Casares ou Cortázar.
Um excerto deste conto inquietante: Pássaros na Boca:
«(…) Sílvia voltou com uma caixa de sapatos. Trazia-a direita, com ambas as mãos, como se se tratasse de algo delicado. Foi até à gaiola, abriu-a, tirou da caixa um pardal muito pequeno, do tamanho de uma bola de golfe, meteu-o dentro da gaiola e fechou-a. Atirou a caixa ao chão e afastou-a com um pontapé, para junto de outras nove ou dez caixas semelhantes que e iam acumulando debaixo da secretária. Então Sara levantou-se, o seu rabo-de-cavalo brilhou de um e outro lado da nuca, e foi até à gaiola dando, pelo caminho, um salto, como fazem as meninas com menos cinco anos do que ela. De costas para nós, pondo-se em bicos de pés, abriu a gaiola e tirou o pássaro. Não consegui ver o que fez. O pássaro guinchou e ela esforçou-se um momento, talvez porque o pássaro tentava escapar. Sílvia tapou a boca com a mão. Quando Sara se virou para nós, o pássaro já lá não estava. Tinha a boca, o nariz, o queixo e ambas as mãos cheias de sangue. Sorriu envergonhada, a sua boca gigante arqueou-se e abriu-se, e os seus dentes encarnados obrigaram-me a levantar-me de um salto. Corri para a casa de banho, fechei-me à chave e vomitei na retrete. Pensei que Sílvia me seguiria e começaria a despejar culpas e ordens do outro lado da porta, mas não o fez. Lavei a boca e a cara, e fiquei à escuta diante do espelho. (…)»

Samanta Schweblin, Pássaros na Boca, Cavalo de Ferro, pp.41, 42

domingo, 3 de abril de 2011

Gosto de malas de viagem. Lembram-me de que o real é outro cada vez que decidimos deslocar-nos e experimentar a distância. 
Gosto de livros que viajam comigo e guardam surpresas tão grandes quanto as da viagem.

NÃO HÁ DOMINGO SEM POESIA

MEDOS

Medo do amor
quando tudo é fome.

E onde tudo é tão pouco,
medo de a carícia
despertar insuspeitos infernos.

Medo de sermos
só eu e tu
a humanidade.

E morrermos
de tanta eternidade.

Mia Couto, Tradutor de Chuvas, Caminho, 2011

quarta-feira, 30 de março de 2011

LUIGI PIRANDELLO - UM, NINGUÉM E CEM MIL


O último romance publicado por Luigi Pirandello foi este, tão original e humorístico como comovente no tratamento da questão da identidade. A revelação inusitada, feita pela sua mulher, de que o seu nariz pendia levemente para o lado direito da sua face, vai desencadear nesta personagem atitudes muito estranhas, atirando-o paulatinamente para o mundo da loucura e para uma problemática situação financeira.
Um, Ninguém, Cem Mil rompeu de originalidade o panorama literário no século XX, tendo sido considerada pela crítica uma das suas melhores obras na medida em que nela se sintetiza e compreende todo o seu universo ficcional. Aconselho-a vivamente e deixo um excerto do início da obra para aguçar o interesse:

« 1. MINHA MULHER E MEU NARIZ

- Que estás a fazer? – perguntou-me minha mulher, ao ver que me demorava inusitadamente diante do espelho.
- Nada – respondi-lhe -, estou a olhar para o meu nariz, para dentro desta narina. Quando carrego, sinto uma dorzinha.
Minha mulher sorriu e disse:
- Julgava que estavas a ver para que lado te pende.
Voltei-me, como um cão a quem tivesse pisado a cauda:
- Pende? A mim? O nariz?
E minha mulher, placidamente:
- Claro que sim, querido. Olha bem para ele: pende-te para a direita.
Tinha vinte e oito anos e até então sempre considerara o meu nariz, se não propriamente bonito, pelo menos muito decente, tal como todas as outras partes da minha pessoa. Pelo que me fora fácil admitir e alimentar a ideia que habitualmente admitem e alimentam todos os que não tiveram a infelicidade de lhes calhar em sorte um corpo disforme: que só um tolo se envaidece das suas feições. Por isso, a descoberta súbita e inesperada daquele defeito irritou-me como um castigo imerecido.
Talvez minha mulher tenha visto mais fundo que eu naquela minha irritação, e acrescentou de imediato que, se eu tinha a convicção de não ter defeitos, devia perdê-las, pois, assim como o nariz me pendia para a direita, também…
- O que mais?
Ah, muito mais! As minhas sobrancelhas pareciam dois acentos circunflexos sobre os olhos, ^ ^, as minhas orelhas estavam mal colocadas, uma mais saliente que a outra; e outros defeitos…
- Mais ainda?
Mais ainda, sim: nas mãos, o dedo mindinho; e nas pernas (não; tortas, não!), a direita era um bocadinho mais arqueada que a outra; à altura do joelho, um pouquinho.
Depois de um exame atento, tive de reconhecer que todos esses defeitos eram reais. E só então minha mulher, tomando certamente por desgosto e desânimo o espanto que senti logo a seguir à irritação, para me consolar me exortou a não me afligir tanto, pois mesmos com esses defeitos ainda era, no conjunto, um homem bonito.»

In Um, Ninguém e Cem Mil, Cavalo de Ferro

segunda-feira, 28 de março de 2011

HENRI MICHAUX

Stéphane Houdart
APPARITIONS

Visage qui ne dit qui ne rit
qui ne dit ni oui ni non.
Monstre.
Ombre.
Visage qui tend
qui passe,
qui lentement vers nous bourgeonne ...
Visage perdu.

in La Nuit Remue

domingo, 27 de março de 2011

NÃO HÁ DOMINGO SEM POESIA

Raoul Ubac

MA VIE

Tu t´en vas sans moi, ma vie.
Tu roules,
Et moi j´attends encore de faire un pas.
Tu portes ailleurs la bataille.
Tu me déserts ainsi.
Je ne t´ai jamais suivie.
Je ne vois pas clair dans tes offres.
Le petit peu que je veux, jamais tu ne l´apportes.
A cause de ce manque, j´a aspire à tant.
À tant de choses, à presque l´infini...
À cause de ce peu qui manque, que jamais tu n´apportes.


Henri Michaux

MINHA VIDA
Tu partes sem mim, minha vida.
Tu rodas,
E eu ainda espero dar um passo.
Tu levas a batalha para além.
Tu abandonas-me assim.
Eu nunca te segui.
Não vejo claramente as tuas ofertas.
O mínimo que desejo, tu jamais trazes.
Por esta falta, anseio a tanto.
A tanta coisa, quase ao infinito...
Por causa deste pouco que falta, que tu jamais trazes.





sexta-feira, 25 de março de 2011

O HOMEM QUE CONFUNDIU A MULHER COM UM CHAPÉU - OLIVER SACKS

Aconselhado por Gonçalo M. Tavares, este é um livro de contos muito singular na medida em que o seu autor, Oliver Sacks, homem assumida e simultaneamente científico e romântico, médico neurologista, regista pequenas histórias clínicas que diagnosticou e experienciou como médico, misturando-lhes a necessária ficção que condimenta a leitura e permite que torne as personagens mais humanas, antes mesmo de revelar os interessantes e estranhíssimos problemas de saúde que apresentam. O homem que confundiu a mulher com um chapeu é um professor de música que perde a capacidade de interpretar o abstracto. De um rosto, apenas reconhece cada um dos seus traços e elementos, individualmente... um queixo, uma boca, um olho, uma orelha., etc. É a música que o salva e o faz lembrar-se de tudo o que o cerca, objectos e acções quotidianas...tem uma música para se lembrar de tudo e detodos ... E até a sua própria mulher confundiu com um chapéu. Histórias que não se esquecem facilmente.

segunda-feira, 21 de março de 2011

DIA MUNDIAL DA POESIA


Um poema pronto a ser primavera
é palavra ou flor?
amor ou amargura?
suspende o quê, nos seus braços,
pra sair à rua?
primavera em flor, poema em dor
uma dor alegre é um mal que finda...
um rebentar doce de palavras?
frutos ainda verdes só dão amargura.
por isso não se colhem que é crime
não deixá-los crescer, dar vida doce.
Assim é o poema em crescendo,
como ganhando lance num baloiço, 
palavrinhas duras como caroço ao arranque
que enternecem mal dizem o teu nome
e se fazem floridas como a tal primavera.

domingo, 20 de março de 2011

NÃO HÁ DOMINGO SEM POESIA


uns mortinhos pequenos
valter hugo mãe por valter hugo mãe
do livro contabilidade/o inimigo cá dentro
leitura dedicada à isabel ribeiro, de aveiro

uns mortinhos pequenos



tenho uns caixõezinhos no coração que me
nasceram quando partiste, se regados com
cuidado, brotam mortos como flores negras pelo
interior das veias, que me assombram o sangue, corando
a minha pele numa vergonha e sentindo medo


são uns mortinhos muito pequenos que muita gente
nem sabe que existem. acreditar em fantasmas é
só possível para quem tem muito amor e recusa a
pequenez da vida sem continuação


tenho uns caixõezinhos no coração que se
abrem a toda a hora, quando me deito, ouço-os
embatendo de encontro ao peito talvez, com vontade
de ir embora, talvez só por ser o amor tão estreito.


valter hugo mãe



sábado, 19 de março de 2011

TEOLINDA GERSÃO - JL MARÇO

Já saiu neste mês de Março o novo romance de Teolinda Gersão, A Cidade de Ulisses, uma homenagem a Lisboa, cidade que admira e que fez personagem do próprio romance, numa carreira que já faz trinta anos.

Excerto da entrevista do JL (de 9 a 22 de Março), que a Anabela, tão amiga como sempre, me trouxe ontem a casa como um presente. Sobre o novo romance dela que tem que ser lido:

A Cidade de Ulisses é um contraponto a muitos ods seus contos e romances, em que dominam as questões da solidão e da incomunicabilidade:

Sim, esta é uma história de um encontro. E é realmente uma espécie de contraponto por exemplo a O Silêncio, que era efectivamente a história de um desencontro. A Cidade de Ulisses tem que ver com esse encontro muito profundo entre um homem e uma mulher e com a ideia da felicidade de que de alguma maneira andamos à procura.

É também um encontro de artistas e não é a primeira vez que as suas personagens pintam. É uma coincidência?

As pessoas criativas têm muita sorte. Estão sempre interessadas no mundo que as rodeia, num projeto, sempre à procura de coisas, nunca se aborrecem.

O ABUTRE - KAFKA

«A mais indiscutível virtude de Kafka é a invenção de situações intoleráveis. Para a impressão perdurável bastam-lhe uns breves apontamentos. A elaboração, em Kafka, é menos admirável que a invenção. Homens, há apenas um em toda a sua obra: o homo domesticus - tão judeu e tão alemão -, desejoso de encontrar um lugar, nem que seja o mais humilde, numa qualquer ordem; no universo, num ministério, num asilo de lunáticos, na prisão. O argumento e o ambiente são o essencial; não as evoluções da fábula nem a penetração psicológica. Daí a primazia dos seus contos sobre os seus romances; daí o direito de afirmar que esta compilação de narrativas nos dá integralmente a medida de um tão singular escritor.»

Jorge Luis Borges

O conto O Abutre, curto, impressionante, de mestre:

«Era um abutre que não parava de me dar bicadas nos pés. Já me tinha rasgado as botas e as meias e começava agora a atacar os próprios pés. Investia sem parar, levantava voo, esvoaçava inquieto à minha volta, em círculos, e retomava o seu trabalho. Apareceu então um senhor que ficou a observar aquilo durante algum tempo, até que me perguntou porque é que eu suportava as investidas doabutre: «Mas se estou indefeso...», justifiquei-me. «Ele apareceu e quando começou com as bicadas é claro que o quis enxotar. Na verdade, até tentei estrangulá-lo, mas um bicho destes tem imensa força. E depois também já tentou saltar-me para a cara, por isso preferi sacrificar os pés, que agora já estão quase despedaçados.» «Como pode permitir que o torturem dessa maneira», insistiu o senhor, «um tiro e acabou-se o abutre.» «Acha que sim?», perguntei. «E então não me pode tratar disso?» «Com todo o gosto», disse o senhor. «Só tenho que ir a casa buscar a espingarda. Consegue esperar mais uma meia hora?» «Isso é que eu já não sei». respondi, e mantive-me assim, paralisado pela dor, durante algum tempo, até que disse: «Por favor, tente lá, seja como for.» «Está bem», disse o senhor, «vou apressar-me». Durante a conversa o abutre tinha ficado sossegado, à escuta, olhando ora para mim, ora para o senhor. Pude então ver que percebera tudo, pois levantou voo, dobrou-se para trás tanto quanto podia, para ganhar balanço, e, como um lançador de dardo, espetou com toda a força o bico dentro da minha boca. Em queda, pude ainda sentir, liberto, como ele se afogava, sem hipótese de salvação, no oceano transbordante e sem fundo do meu sangue.»