Adorei esta imagem tirada por Kambrosis! O ar da avozinha inspira ternura e faz-me ter saudades de uma tia que me contava tantas histórias... Eu passava horas a ouvi-la. Chamava-se Cremilde...
é realmente encantador como é possível ver retratada a candura da velhice numa simples fotografia a preto e branco na qual a personagem principal nem sequer olha para nós.Gostei muito. A tua tia cremilde deve ser a minha tia odília (ou tia gorda, porque todas as outras tias eram magras) que preencheu grande parte do espaço de fantasia a que a minha criança se abria. Também ela contava com palavras deliciosas histórias - da sua gente, da sua aldeia, da sua rotina, dos livros grossos que requisitava na biblioteca gulbenkian de espinho - que me impressionavam como a cor do entardecer junto à praia. Era a voz narrativa mais alegre e mais amarga, como num tecido, que conhecia. Abalava-me saber que era esquizofrénica e imaginava que por detrás das suas histórias que me faziam sempre rir, podia surgir a qualquer instante o trágico numa espécie de faca com que mataria todos aqueles de quem gostava.Adorava-a e tinha-lhes muito medo, a ela e a todas as vozes que fazia para ilustrar a acção dos factos que, jurava a pés juntos, aconteceram mesmo, era uma vez...
Que faz um livro viver? Quantas vezes se põe esta questão!
A resposta, segundo creio, é simples. Um livro vive devido à recomendação apaixonada que um leitor faz a outro. Nada consegue reprimir este impulso básico do ser humano. Apesar das opiniões de cínicos e misantropos, julgo que a espécie humana tentará sempre partilhar as suas experiências mais profundas. Os livros são uma das poucas coisas que os homens apreciam profundamente. E quanto melhor for o homem, com mais facilidade se separará dos bens que lhe são mais queridos. Um livro abandonado numa prateleira é uma munição desperdiçada. Tal como o dinheiro, os livros têm de estar em constante circulação. Emprestem e peçam emprestado tanto quanto puderem - quer livros, quer dinheiro! Mas sobretudo livros, pois estes representam infinitamente mais do que o dinheiro. Um livro não é apenas um amigo, cria novas amizades. Quando possuímos um livro com a mente e o espírito, ficamos enriquecidos. Mas quando o passamos a alguém, enriquecemos o triplo.
1 comentário:
Bela Ana,
é realmente encantador como é possível ver retratada a candura da velhice numa simples fotografia a preto e branco na qual a personagem principal nem sequer olha para nós.Gostei muito.
A tua tia cremilde deve ser a minha tia odília (ou tia gorda, porque todas as outras tias eram magras) que preencheu grande parte do espaço de fantasia a que a minha criança se abria. Também ela contava com palavras deliciosas histórias - da sua gente, da sua aldeia, da sua rotina, dos livros grossos que requisitava na biblioteca gulbenkian de espinho - que me impressionavam como a cor do entardecer junto à praia. Era a voz narrativa mais alegre e mais amarga, como num tecido, que conhecia. Abalava-me saber que era esquizofrénica e imaginava que por detrás das suas histórias que me faziam sempre rir, podia surgir a qualquer instante o trágico numa espécie de faca com que mataria todos aqueles de quem gostava.Adorava-a e tinha-lhes muito medo, a ela e a todas as vozes que fazia para ilustrar a acção dos factos que, jurava a pés juntos, aconteceram mesmo, era uma vez...
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