
Decidimos então escolher - mas os livros ensinaram-nos também a precariedade das escolhas e das decisões. Há uma época da vida em que descobrimos que aquilo a que chamámos escolhas fundamentais resultou de um conjunto de factores e circunstâncias que, afinal, não dominámos. Fomos arrastados na enxurrada, sobrevivendo a temporais diversos - e agora, no promontório a que damos o nome de maturidade (porque ganhámos nos livros o vício de dar nome a tudo, classificar, organizar, compreender, explicar) olhamos para as escolhas que esboçámos e abandonámos, e esforçamo-nos por recomeçar o desenho da nossa vida, numa página em branco. Mas aprendemos que o branco puro não existe - nem o negro, nem o amarelo, nem o azul ou o vermelho. Nenhuma cor é afinal absoluta como nós pensávamos, nesse tempo em que chamávamos razão ao instinto, paixão ao desejo, amor ao medo, originalidade à arrogância e ousadia à provocação. Ou vice-versa - tínhamos um feixe de certezas absolutas, e uma incapacidade atávica de escutar as várias versões de uma mesma história. Talvez fosse apenas impaciência - mas nós chamavamos-lhe idealismo. Gostávamos tanto de livros que nos tornámos caçadores de palavras - e deixávamo-nos balear por elas, como se fossem canções. Agora olhamos para os livros como sinfonias, feitas de deambulações em torno de um tema recorrente, que se vai revelando em diferentes tons - à semelhança das nossas vidas.
Quando éramos jovens, sabíamos arrumar os livros. Agora não sabemos - cresceram, multiplicaram-se, por dentro e por fora. Sociologia ou Filosofia? História ou Economia? Quanto mais lemos, mais difícil se torna decidir. A Ficção nas estantes de cima - como se lêssemos um romance de cada vez; sempre pensámos que quando acabássemos de crescer seríamos menos sôfregos. Mas o que fazer aos romances que nos habituámos a reler como ensaios ou poemas, e que sentimos necessidade de folhear ao acaso, com uma saudade sensual, numa tarde de chuva?Os inclassificáveis empilham-se pelos cantos da casa, à espera de uma hora iluminante - e os recém-chegados acabam por se misturar com eles. Ao fim de uma semana já não conseguimos encontrar nada, e odiamos os livros por atacado, bradamos contra eles, juramos livrar-nos deles. Depois folheamos um e dizemos: vamos escolher, separar, deixar para trás, mudar. Mas os livros agarram-nos, lambem-nos as mãos, atiram-se ao chão para que olhemos para eles, seduzem-nos através do cheiro, do toque, do pó das memórias. Encaixotamo-los, e mudamo-nos, de novo, com eles - embora saibamos que nunca teremos tempo para os ler todos, e que continuaremos a ser injustos com eles, a amá-los mal, a perdê-los, a maltratá-los, a emprestá-los e a arrependermo-nos. "Antes a experiência que a nostalgia", disse-me certa vez uma amiga. Um bom conselho serve para tudo, até para arrumar bibliotecas e perder o medo do caos e o travo da culpa que assombra o amor dos livros."
1 comentário:
querida amiguinha
Excelente trecho escolhido!
Pareceu-me ser uma crónica (estarei errada?) da Inês Pedrosa. Também eu gosto da escrita desta mulher, que conheço através das crónicas que semanalmente escreve. Apenas li um livro dela e que achei soberbo: "Fazes-me falta". Falarei dele um dia destes , num post como merece! por agora deixa-me copiar duas frases que me deixaram encantadas:
"Quanto mais lemos, mais difícil se torna decidir."
"Mas os livros agarram-nos, lambem-nos as mãos, atiram-se ao chão para que olhemos para eles, seduzem-nos através do cheiro, do toque, do pó das memórias."
Querida amiga, que mania é a nossa de classificar tudo? Concordo com a Inês, quanto mais avançamos na idade mais difícil se torna catalogar as coisas, nomedamente os livros. Da mesma forma, quanto mais avançamos na idade mais difícil se torna escolhar uma obra a ler! Qual o critério a usar? Porquê ler esta e não aquela obra?
Existirá uma "força oculta" (não gosto da ideia, diga-se!) que no impele para uma e relega-nos de outra? como se se tratasse de uma repulsão ou atracçaõ de forças, à boa velha maneira de Isaac Newton?
Adorei a imagem dos livros lamberem as nossas mãos e de imediato vi a imagem de um possível animal de estimação que nos ama ainda que do seu dono receba apenas maus tratos! De facto assim é, o livro está ali, na nossa estante, à espera de ser folheado ou simplesmente observado..e espera...espera...
Quantas vezes o observamos de soslaio, e ignaoramos que ali está! Mas o livro, silencioso, espera e espera...
Adorei este post. Fez-me acredtira que somos pequenos perante a imensidão de tanta escrita. Ao mesmo tempo fico com uma sensação de impotência: nunca conseguirei ler tudo...~E esta sensação de impotência deixa-me entristecida. Provavelmente os meus livros terão que aguardar séculos ou, na pior das hipóteses, quando os abrir as letras das palavras fugiram de tanto esperar...
Muitos beijos
Anebela
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