De cada vez que a página se virava sem mão, as duas mulheres pasmadas com o mistério vivo, aproximavam-se mais e mais dela até poderem tocar as palavras que se contavam numa voz enflautada. Contavam-se na história da eternidade conquistada por duas amigas que, num fim de tarde, presas no tráfego cinzento de uma cidade confusa de solidão humana, liam em coro sucessivos poemas. Sem se darem conta, tombaram para dentro do livro que inclinavam abruptamente sobre o volante muito negro, muito frio. Nessa queda, esmurraram os joelhos na palavraterrae ao tentarem levantar-se agarrando as mãos de algumas letras, transformaram-se elas próprias em tinta, desaparecendo para sempre num traço fino e arqueado, que mais parecia uma larva à espera de qualquer metamorfose. Essa página do livro tornou-se incorruptível. Nem a água nem o fogo conseguiram alguma vez destrui-la. E as duas mulheres, temendo-a e desejando-a como a um vinho, passaram também elas a ler em coro, fechadas num quarto em que ninguém as podia ouvir, esse poema que acreditavam ser mais do que um poema, até se tornarem elas próprias histórias desse canto que nunca ninguém mais ouviu.
Minha grande amiga Senti toda a emoção daquela terça-feira, fim de tarde... senti as nossas forças desviadas de um qualquer trânsito insuportável da cidade invicta...senti o poder do poema de Herberto Helder que me relias em constantes repetições (a meu pedido, intrépida ouvinte!)... O texto deixou-me até arrepiada...pois senti-me lá, e aprecebi-me de como o tempoo é estranho e parece passar mais depressa quando estamos com alguém de quem gostamos muito! Acho que o tempo é provocador e encurta-se, encurva-se... para assim nos provocar! Ao ler-te doce amiga, senti tanta coisa que a minha inabilidade não me permite escrever... sei que és minha amiga e sei que tu és a melhor das amigas... e isso basta-me! Obrigada pelo carinho doce e pelas palavras tão mágicas, tão repletas de sabores e fotografias que registaremos sempre.... Anabela
Que faz um livro viver? Quantas vezes se põe esta questão!
A resposta, segundo creio, é simples. Um livro vive devido à recomendação apaixonada que um leitor faz a outro. Nada consegue reprimir este impulso básico do ser humano. Apesar das opiniões de cínicos e misantropos, julgo que a espécie humana tentará sempre partilhar as suas experiências mais profundas. Os livros são uma das poucas coisas que os homens apreciam profundamente. E quanto melhor for o homem, com mais facilidade se separará dos bens que lhe são mais queridos. Um livro abandonado numa prateleira é uma munição desperdiçada. Tal como o dinheiro, os livros têm de estar em constante circulação. Emprestem e peçam emprestado tanto quanto puderem - quer livros, quer dinheiro! Mas sobretudo livros, pois estes representam infinitamente mais do que o dinheiro. Um livro não é apenas um amigo, cria novas amizades. Quando possuímos um livro com a mente e o espírito, ficamos enriquecidos. Mas quando o passamos a alguém, enriquecemos o triplo.
1 comentário:
Minha grande amiga
Senti toda a emoção daquela terça-feira, fim de tarde... senti as nossas forças desviadas de um qualquer trânsito insuportável da cidade invicta...senti o poder do poema de Herberto Helder que me relias em constantes repetições (a meu pedido, intrépida ouvinte!)...
O texto deixou-me até arrepiada...pois senti-me lá, e aprecebi-me de como o tempoo é estranho e parece passar mais depressa quando estamos com alguém de quem gostamos muito! Acho que o tempo é provocador e encurta-se, encurva-se... para assim nos provocar!
Ao ler-te doce amiga, senti tanta coisa que a minha inabilidade não me permite escrever... sei que és minha amiga e sei que tu és a melhor das amigas... e isso basta-me!
Obrigada pelo carinho doce e pelas palavras tão mágicas, tão repletas de sabores e fotografias que registaremos sempre....
Anabela
Enviar um comentário