
Que canto há de cantar o que perdura
A sombra, o sonho, o labirinto, o caos
A vertigem de ser, a asa, o grito.
Que mitos, meu amor, entre os lençóis:
O que tu pensas gozo é tão finito
E o que pensas amor é muito mais.
Como cobrir-te de pássaros e plumas
E ao mesmo tempo te dizer adeus
Porque imperfeito és carne e perecível
E o que eu desejo é luz e imaterial.
Que canto há de cantar o indefinível?
O toque sem tocar, o olhar sem ver
A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.
Como te amar, sem nunca merecer
Hilda Hilst, Da Noite, 1992

Salvador Dali
À eterna Hilda Hilst, que para mim é um livro infinito,
Dá vontade de comer
as palavras de Hilda Hilst,
e depois de as enrolar
na saliva a salvivar,
cantá-las de uma varanda
muito alta muito estreita
onde só cabe um corpo fino,
para as lançar leves
como violetas sobre a cidade agitada
sobre as cabeças dos noivos
como uma badalada antiga
para as lançar leves
como violetas sobre a cidade agitada
sobre as cabeças dos noivos
como uma badalada antiga
ou então como gazelas espavoridas
que mal pousam nos prados
seus corpos delgados
só vêem o Longe
que mal pousam nos prados
seus corpos delgados
só vêem o Longe
e não sabem como parar de correr.
Surto de escrita, 2009
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