sábado, 22 de outubro de 2011

ANA LUÍSA AMARAL - VOZES

DOIS POEMAS:

A noite invade,
agora

Como disse uma vez:
nem tu, Ícaro, nem nada

Fui eu que o apaguei,
ao sol,
ao longo das palavras,
num advérbio
longo:
irredutivelmente

Depois o acendi
mais uma vez,
como uma lâmpada
de milhares de watts

E todavia,
aqui,
nesta cidade,
devendo haver cinzento
e chuva,
ele teima em brilhar

Quem
o mandou ligar,
ao sol,
se eu o queria
apagado?

Resta-me só
sinestesia
e pouco mais:
talvez falar do mito
e imitar com Ícaro
o medo
ou a alegria
que o chão traz -

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Eterno é este instante, o dia claro,

as cores das casas desenhadas em aguada rasa,
castanhos e vermelhos quase em declive,
as janelas limpíssimas, os vidros muito honestos.
este instante que foi e já não é, mal pousei a caneta
no papel: eterno


Sonhei contigo, acordei a pensar
que ainda eras, como é esta janela,
como o corpo obedece a este vento quente, e é ágil,
mas tudo: tão confuso como são os sonhos


Agora, neste instante, recordo a sensação
de estares, o toque.
Não distingo os contornos do meu sonho, não sei
se era uma casa, ou um pedaço de ar.
A memória limpíssima é de ti
e cobriu tudo, e trouxe azul e sol a esta praça
onde me sento, organizada a esquadro,
como as casas


E agora, o teu andar
acabou de passar mesmo ao meu lado, igual,
e agora multiplica-se nas mesas e cadeiras
que cobrem rua e praça,
e eu vejo-te no vidro à minha frente,
mais real que este instante, e se Bruegel te visse
pintava-te, exactíssima e aqui.
E serias: mais perto de um eterno


(Eu, que nada mais sei, só o fulgor do breve,
eu dava-te palavras - )


In Vozes, D. Quixote, pp. 33 e 116

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