quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A escola de hoje...




Continuo a intervalar as minhas leituras (agora bem raras) com a edição do Jornal de Letras do qual, confesso, tornei-me leitora compulsiva. Na edição desta quinzena, e no caderno dedicado à educação, li um extracto do diário de Sebastião da Gama, enquanto professor estagiário nos finais dos anos 40, e pensei: que texto tão actual. Não resisto, querida Pat, a colocá-lo aqui, pois inevitavelmente faz-nos reflectir.

“Aulas más são as aulas que os rapazes não querem ouvir. Mas então - poderia eu defender-me – que culpa temos nós de os rapazes serem barulhentos, desinquietos e desatentos? É verdade que às vezes a culpa não é nossa: é toda deles, a quem mais apetecia estar na rua que na escola. Mas para isso justamente é que serve o professor. Ser bom professor consiste em adivinhar a maneira de levar todos os alunos a estar interessados: a não se lembrarem de que lá fora é melhor. E foi o que ontem não consegui”

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Um Longo Domingo de Noivado - Sébastien Japrisot

Um Longo Domingo de Noivado é um lindo livro sobre a força do amor e da guerra. Como está inscrito na contracapa "Japrisot tem um dom raro: não sabe escrever um mau livro..." e esta espécie de romance policial faz desfilar perante os nossos olhos personagens muito completas, uma espécie de "pessoas-universos" que guardam dentro de si todas as histórias necessárias para a nossa compreensão absoluta do ser humano que somos. Adorei as histórias bárbaras ligadas à guerra e a forma exaustivamente encantadora como Mathilde (ou Mathi) ama Manech. Um livro que mostra que o amor e a sua memória vence qualquer guerra (não só a 1ª Guerra Mundial).

Um excerto sobre a tragédia de Manech, o noivo de Matti que faz temer qualquer pessoa: a perda das nossas memórias, o esvaziamento de nós próprios na dissolução das palavras e de todas as imagens que as criaram (a literatura trata demasiadas vezes este tema fascinante):

" Volto de Milly-la-Forêt. Vi o seu noivo, Manech, que agora é Jean Desrochelles, e essa mulher desfeita pelo medo que tem de si e se diz mãe dele, Juliette. A amnésia de Jean Desrochelles até aquela manhã de neve em que um camarada , que me reconcilia com os meus semelhantes, o transportou às costas, é total, absoluta.Houve mesmo que tornar a ensiná-lo a falar. Os psiquiatras que o acompanharam, desde 1917, dão poucas esperanças, mas eles estão bem colocados para saber que há tantas amnésias como amnésicos, por isso quem ousaria pronunciar-se? (...)"

Quanto ao filme, vi-o recentemente e achei-o pleno de beleza. Mathilde é Audrey Tatou de quem tanto gosto (parecida com a minha linda amiga Anabela, com uns olhos fabulosos cuja cor e expressões dizem tudo!). Os espaços que privilegia são lindíssimos, cheios de uma cor amareladamente nostálgica, de ambientes desmedidos de emoção - tanto os interiores penetrados por Mathilde como os exteriores ligados ao horror e à guerra. O realizador de "Amélie", Jean-Pierre Jeunet, também neste filme fixa palavras e diálogos que impressionam pela sua verdade, arremessa-nos instantes e recantos (que para muitos realizadores nunca se destacam para dar ênfase à história maior), onde a beleza dos sentimentos nobres e repulsivos é comovedora. Concordo com a crítica de Joe Morgenstern no Wall Street Journal que cito: "Avassaladoramente belo,espantosamente audacioso e por vezes muito divertido... vai mudar a forma como sentimos o amor e a guerra."
Transcrevo a sinopse da contracapa do DVD deste belo filme:

"Em 1919, Mathilde tinha apenas 19 anos. Dois anos antes, o seu noivo Manech partira para a frente de batalha na Somme. Como milhões de outros jovens antes dele, Manech foi "morto no campo de batalha". Ou pelo menos isso é o que diz o boletim oficial. Mas Mathilde recusa-se a acreditar. Se ele tivesse sido morto, ela saberia. Mathilde agarra-se à sua intuição e esperança com toda a paixão que a liga ao seu amor desaparecido, mesmo quando um sargento regressado da frente tenta em vão convencê-la que Manech morreu numa trincheira na terra-de-ninguém, na companhia de quatro outros soldados condenados à morte por ferimentos auto-infligidos. O seu percurso está repleto de obstáculos mas Mathilde não vacila - pois nada é impossível para uma mulher que está decidida a desafiar o próprio destino..."

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Dois Verões - Erik Orsenna

Deixa-me falar-te um pouco deste livro que ainda li neste Verão, antes que o frio chegue definitivamente e pareça descabida a sua leitura. Li a edição da Teorema e fiquei desapontada com tantas gralhas... Por mais do que uma vez, dei por falta de palavras, conjunções e até frases que se realizavam incorrectamente ao nível da conjugação verbal. Uma tristeza! Preferia tê-lo lido no original, mas cá não chega quase nenhuma Literatura Francesa apesar de sermos Europa e vivermos neste século... Seja como for, gostei da construção do personagem principal, um tradutor francês, e das imensas alusões às línguas, ao trabalho e anseios próprios de um tradutor, à sua relação amigável com as personagens das Côtes-du-Nord, de uma ilha bretã onde se encontra, enfim, à sua relação de amor-ódio para com a obra de um autor nobelizável que a Editora Parisiense Arthème Bayard lhe encomendou traduzir. Essa obra não é mais nem menos do que "Ada or Ardor" do escritor russo-americano Vladimir Nabokov.

Gilles, o tradutor, expressa desde logo o seu nervosismo pela grande responsabilidade que consiste em traduzir um autor que ainda não é defunto. Nabokov é apresentado como escritor de mau feitio que prima pelo génio mas não pela paciência. Há bastante pressa da parte dele e da editora para que a sua tradução para o francês se concretize por forma a torná-lo conhecido em todo o mundo e, claro está, permitir-lhe o acesso ao Nobel com que tanto anseia. Mas tudo isto depende da qualidade da tradução dos textos que na sua língua-mãe são de incomparável substância literária.


Esta obra tem um humor particular de que gostei bastante. Apresenta a figura do tradutor como a de um criador atormentado por imensos medos (temores razoáveis tendo em conta que a obra "Ada or Ardor" - em francês "Ada ou l'Ardeur" é considerada uma obra-prima intraduzivel), pressionado pela editora a toda a hora e pelo escritor genial insuportável. Este tradutor nem sempre se encontra inspirado para fazer o seu melhor. Afinal, são as pessoas da ilha que o vão ajudar a traduzir esta obra-prima, num convívio quotidiano, rodeado de um mar de sonho, que o faz tremendamente feliz.
A intriga deste romance parte de um facto verídico, passado com o próprio autor: a tradução de uma obra invejável da literatura mundial, o que de facto lhe levou dois encantadores verões como de resto ao personagem Gilles neste "Deux Étés".

Destaco alguns excertos:

I


"Porque a tradução é uma operação dolorosa aparentada com a cirurgia (cortam-se frases, amputam-se sentidos, enxertam-se trocadilhos, estropia-se, cose-se; sob a capa da fidelidade, a traição e a ofensa). Os autores defuntos nunca protestavam. E, com essa gente instalada na eternidade, pode-se dar tempo ao tempo. Não há qualquer risco de ser chamado à pedra, de deparar com um indicador e bater nervosamente no vidro de um relógio.




No comércio com essa encantadora sociedade (Henry James, Charles Dickens, Jane Austen) o tradutor foi ganhando um mau hábito, o conforto. Trabalhava quando o desejo o visitava: raramente."


II

"A sua vida em comum com quarenta e sete gatos dava-lhe motivos de reflexão. Sobre eles, os gatos, o tradutor elaborava uma profusão de hipóteses. Vou apresentar aqui apenas duas, tendo bem consciência de que esses animais mereceriam mais do que um volume.




1. No início dos tempos os gatos habitavam os corpos dos humanos. Eram a sua parte selvagem, a sua herança da selva. Cada filho de Deus tinha em si o seu gato que constituia a sua liberdade, a sua reserva de insolência. Daí esses comportamentos dificilmente explicáveis nos homens: ronronar espapaçados ao sol e interromper-se brutalmente numa fuga tresloucada; abandonar-se às carícias e de repente recusar-se, enfurecer-se, arranhar e causar feridas cruéis, tão profundas e tão difíceis de curar como o ciúme. Por aí pretende, talvez, o gato lembrar ao homem que nada é seguro e que é preciso estar sempre alerta, mesmo a dormir.




Esta coabitação não durou muito: o homem desejava mais calma e o gato queria menos auto-satisfação, menos flatulência depois das refeições , menos arrulhos ternurentos antes do coito e menos vaidade grotesca depois. Em suma, incompatibilidade de génios. Um belo dia os gatos abandonaram o corpo dos homens mas não deixaram a sua vizinhança, a que se tinham habituado.




2. Os gatos são palavras com pêlo. Os gatos, como as palavras, rondam à volta dos humanos sem nunca se deixarem domesticar. É tão difícil meter um gato num cesto quando temos um comboio para apanhar como ir à nossa memória caçar a palavra exacta e convencê-la a tomar o seu lugar na página em branco. Palavras e gatos pertencem ambos à raça dos inefáveis"


III


"- Os tradutores são uns corsários.
(...)

- Corsários?

O prior ainda não tinha vislumbrado a semelhança entre aquelas práticas, por demais violentas, e a tradução, ocupação das mais pacíficas. Foi necessário lançar alguma luz.

-Qual é o trabalho do corsário? Quando um barco estrangeiro lhe agrada, aborda-o. Atira a tripulação ao mar e põe lá os amigos. Depois iça a bandeira nacional no topo do mastro grande. É o que faz o tradutor. Captura um livro, muda toda a linguagem e dá-lhe nome francês. Nunca lhe passou pela cabeça que os livros são barcos e as palavras as suas tripulações?



- Realmente, desse ponto de vista..."


IV


" «Que loucura nos deu, anglicistas de treta para, para nos metermos com a montanha Nabokov?» Para afogar essas vozinhas maldosas da lucidez, nada como o adamado especial (da quinta de Bois Malinge). De dois, três copos, voltava-nos a confiança. E, envolvidos pelo perfume suave, quase doce, da madressilva, sentados à volta da mesa de pedra sobre a qual se eternizavam as carcaças esventradas das codornizes, discutíamos até altas horas a língua francesa, as suas cadências, os seus ecos, a sua cotenção perpétua, o seu amor impenitente pela abstracção, essa gramática tão difícil de despentear. Será que Ada, a nossa impalpável Ada, tinha lugar nesse jardim de linhas e de ordem?

De tanto ser evocada, a língua francesa acabava por se vir instalar entre nós. Como uma convidada comprometida com um outro jantar mas que não quisesse deixar de passar para o café. Sentíamo-la chegar em bicos de pés, uma vasta presença maternal na noite. De novo mortos de timidez ( apesar do quinta de Bois Malinge) pronunciávamos, para a reter, os nomes daqueles que melhor a tinham servido: Montaigne, La Fontaine, Stendhal, Appolinaire..."

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

2666 - Roberto Bolaño


Vale a pena ler os excertos de 2666:


«Conduziu durante duas horas por estradas escuras com a rádio ligada, a ouvir uma emissora de Phoenix que transmitia jazz. Passou por lugares onde havia casas, restaurantes e jardins com flores brancas e carros mal estacionados, mas nos quais não se via luz nenhuma, como se os habitantes tivessem morrido nessa mesma noite e no ar ainda restasse um hálito de sangue. Distinguiu silhuetas de cerros recortadas pelo luar e silhuetas de nuvens baixas que não se moviam ou que, em determinado momento, corriam para oeste como que impelidas por um vento repentino, que levantava poeirada a que os faróis do carro, ou as sombras que os faróis produziam, emprestavam roupagens fabulosas, humanas, como se as poeiradas fossem mendigos ou fantasmas que saltavam junto ao caminho.Perdeu-se duas vezes. Numa, esteve tentado a voltar para trás, para o restaurante ou para Tucson. Na outra, chegou a uma terra chamada Patagonia onde o rapaz que atendia na bomba de gasolina lhe indicou a maneira mais fácil de chegar a Santa Teresa. Quando saiu de Patagonia viu um cavalo. Quando os faróis do carro o iluminaram o cavalo levantou a cabeça e olhou para ele. Fate parou o carro e esperou. O cavalo era preto e ao fim de pouco tempo mexeu-se e perdeu-se na escuridão. Passou junto a uma meseta, ou pelo menos assim julgou. A meseta era enorme, totalmente plana na parte superior e de uma ponta à outra da base devia medir pelo menos cinco quilómetros. Junto à estrada apareceu um barranco. Saiu, deixou as luzes do carro acesas e urinou longamente respirando o ar fresco da noite. Depois o caminho desceu até uma espécie de vale que lhe pareceu, à primeira vista, gigantesco. Na ponta mais afastada do vale julgou discernir uma luminosidade. Mas podia ser qualquer coisa. Uma caravana de camiões a mover-se com grande lentidão, as primeiras luzes de uma localidade. Ou talvez só o seu desejo de sair daquela escuridão que de alguma maneira lhe fazia lembrar a sua infância e a sua adolescência. Pensou que houve uma altura, entre uma e outra, que chegou a sonhar com aquela paisagem, não tão escura, não tão desértica, mas certamente semelhante.Ia num autocarro, com a mãe e uma irmã da mãe e faziam uma viagem curta, entre Nova Iorque e uma localidade próxima de Nova Iorque. Ia junto à janela e a paisagem invariavelmente era a mesma, edifícios e auto-estradas, até que de repente apareceu o campo. Nesse momento, ou talvez antes, tinha começado a entardecer e ele olhava para as árvores, um bosque pequeno, mas que aos seus olhos aumentava. E então julgou ver um homem a caminhar à beira do pequeno bosque. Com grandes passadas, como se não quisesse que a noite lhe caísse em cima. Perguntou a si mesmo quem seria aquele homem. Só soube que era um homem e não uma sombra, porque ele tinha uma camisa e mexia os braços ao caminhar. A solidão do homem era tão grande que Fate se lembrava que desejou não continuar a olhar e abraçar a sua mãe, mas em vez disso manteve os olhos abertos até o autocarro deixar o bosque para trás e aparecerem de novo os edifícios, as fábricas, os armazéns que balizavam a estrada.A solidão do vale que atravessava agora, a sua escuridão, eram maiores. Imaginou-se a si mesmo a caminhar a bom passo pela berma. Sentiu um calafrio. Recordou então o jarrão onde jaziam as cinzas da mãe e a chávena de café da vizinha que não devolvera e que agora estaria infinitamente fria e os vídeos da mãe que já ninguém iria ver nunca mais. Pensou em parar o carro e esperar que amanhecesse. O instinto indicou-lhe que um local com um preto a dormir num carro alugado junto a uma berma não era o mais prudente no Arizona. Mudou de emissora. Uma voz em espanhol começou a contar a história de uma cantora de Gómez Palacio que havia voltado à sua cidade, no estado de Durango, só para se suicidar. Depois ouviu-se a voz de uma mulher que cantava rancheras. Durante um bocado, enquanto conduzia para o vale, esteve a ouvi-la. Depois tentou voltar a sintonizar a emissora de jazz de Phoenix e já não conseguiu encontrá-la.»

II
«Não há amizade, disse a voz, não há amor, não há épica, não há poesia lírica que não seja um gorgolejo, ou um gorjeio de egoístas, trinado de batoteiros, borbulhão de traidores, efervescência de arrivistas, garganteio de maricas. Mas tu o que é que tens, sussurrou Amalfitano, contra os homossexuais? Nada, disse a voz. Falo em sentido figurado, explicou a voz. Estamos em Santa Teresa?, perguntou a voz. É esta cidade parte, e não pouco destacável, do estado de Sonora? Sim, respondeu Amalfitano. Então é isso, disse a voz. Uma coisa é ser arrivista, digo eu, para dar um exemplo, disse Amalfitano alisando o cabelo como que em câmara lenta, e outra muito diferente é ser maricas. Falo em sentido figurado, repetiu a voz. Falo para que tu me entendas. Falo como se eu estivesse, e tu estivesses atrás de mim, no ateliê de um pintor ho-mos-se-xu-al. Falo de um ateliê onde o caos é só uma máscara ou uma ligeira fetidez de anestesia. Falo de um ateliê com as luzes apagadas onde o nervo da vontade se desprende do resto do corpo como a língua da serpente se desprende do corpo e repta, automutilada, entre o lixo. Falo das coisas simples da vida. Tu ensinas filosofia?, perguntou a voz. Tu ensinas Wittgenstein?, perguntou a voz. E já te perguntaste se a tua mão é uma mão?, prosseguiu a voz. Já me perguntei, disse Amalfitano. Mas agora tens coisas mais importantes para te interrogares, ou estou enganado?, perguntou a voz. Não, respondeu Amalfitano. Por exemplo: por que não ires a um viveiro e comprar sementes e plantas até talvez uma pequena árvore para plantar no meio do teu jardim das traseiras?, perguntou a voz. Sim, disse Amalfitano. Pensei no meu possível e exequível jardim e nas plantas que preciso de comprar e nas ferramentas para o executar. E também pensaste na tua filha, disse a voz, e nos assassínios que se cometem diariamente nesta cidade, e nas nuvens maricas de Baudelaire (perdão), mas não pensaste seriamente se a tua mão é realmente uma mão. Não é verdade, disse Amalfitano, claro que pensei, claro que pensei. Se tivesses pensado, disse a voz, outro galo cantaria. E Amalfitano ficou em silêncio e sentiu que o silêncio era uma espécie de eugenismo. Viu as horas no relógio. Eram quatro da manhã. Ouviu alguém a ligar o motor de um carro. O carro demorava a pegar. Levantou-se e espreitou à janela. Os carros estacionados em frente da sua casa estavam vazios. Olhou para trás e a seguir pôs a mão no manípulo da porta. A voz disse: cuidado, mas disse isto como se estivesse muito longe, no fundo dum barranco onde espreitavam pedaços de pedras vulcânicas, riolites, andesites, veios de prata e veios de ouro, charcos petrificados cobertos de ovinhos minúsculos, enquanto no céu arroxeado como a pele de uma índia morta à paulada sobrevoavam águias-de-cauda-vermelha. Amalfitano saiu para o alpendre. À esquerda, a uns dez metros de casa, um carro preto acendeu os faróis e arrancou. Ao passar diante do jardim, o motorista inclinou-se e observou Amalfitano sem parar o carro. Era um tipo gordo e de cabelo muito preto, vestido com um fato barato e sem gravata. Quando desapareceu, Amalfitano voltou para casa. Mau aspecto, disse a voz, mal ele passou a porta de entrada. E depois: tens de ter cuidado, camarada, parece-me que aqui há coisas que estão no vermelho vivo.»

In 2666, de Roberto Bolaño, trad. de Cristina Rodriguez e Artur Guerra, Quetzal, 2009

Prada's Fallen Shadows


Capturei o vídeo de divulgação da última colecção da Prada. Como sou uma apaixonada pela Moda e pelos espectáculos de Haute Coûture, fiquei muito contente por encontrar este vídeo lindíssimo em que o que realmente importa não é a moda mas os efeitos de animação de James Lima e a elegante música de Antony and the Johnsons . O filme evoca visões de um mundo surrealista com notória inspiração em autores como De Chirico, Salvador Dali, Magritte e Marcel Duchamp para exibir as suas rendas e demais peças de verdadeira arte. A Moda imbuída de Arte tem tanta força que faz cair as estrelas do céu... Espero que gostes mesmo muito como eu.

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Cheiro a terra molhada

Numa noite em que o cheiro a terra molhada invade as nossas vidas... Que linda noite de Outono! Bliss – June Leeloo
Balada do Poema que não há, Manuel Alegre (in Babilónia)

Quero escrever um poema
Um poema não sei de quê
Que venha todo vermelho
Que venha todo de negro
Às de copas às de espadas
Quero escrever um poema
Como de sortes cruzadas

Quero escrever um poema
Como quem escreve o momento
Cheiro de terra molhada
Abril com chuva por dentro
E este ramo de alfazema
Por sobre a tua almofada
Quero escrever um poema
Que seja de tudo ou nada

Um poema não sei de quê
Que traga a notícia louca
Da história que ninguém crê
Ou esta afta na boca
Esta noite sem sentido
Coisa pouca coisa pouca
Tão aquém do pressentido
Que me dói não sei porquê

Quero um poema ao contrário
Deste estado que padeço
Meu cavalo solitário
A cavalgar no avesso
De um verso que não conheço

Que venha de capa e espada
Ou de chicote na mão
Sobre esta noite acordada
Quero um poema noitada
Um poema até mais não

Quero um poema que diga
Que nada há que dizer
Senão que a noite castiga (...)

Jean Gabin, Maintenant je sais

Uma música linda, eterna, melancólica... para ti doce Pat! E um poema que é a letra da música, simplesmente delicioso, e que nos faz reflectir na vida...

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Quand j'étais gosse, haut comme trois pommes, J'parlais bien fort pour être un homme J'disais, JE SAIS, JE SAIS, JE SAIS, JE SAISC'était l'début, c'était l'printemps Mais quand j'ai eu mes 18 ans J'ai dit, JE SAIS, ça y est, cette fois JE SAIS Et aujourd'hui, les jours où je m'retourne J'regarde la terre où j'ai quand même fait les 100 pas Et je n'sais toujours pas comment elle tourne !Vers 25 ans, j'savais tout : l'amour, les roses, la vie, lessous Tiens oui l'amour ! J'en avais fait tout le tour ! Et heureusement, comme les copains, j'avais pas mangé tout monpain :Au milieu de ma vie, j'ai encore appris. C'que j'ai appris, ça tient en trois, quatre mots :"Le jour où quelqu'un vous aime, il fait très beau,j'peux pas mieux dire, il fait très beau !C'est encore ce qui m'étonne dans la vie, Moi qui suis à l'automne de ma vieOn oublie tant de soirs de tristesseMais jamais un matin de tendresse !Toute ma jeunesse, j'ai voulu dire JE SAISSeulement, plus je cherchais, et puis moins j' savaisIl y a 60 coups qui ont sonné à l'horlogeJe suis encore à ma fenêtre, je regarde, et j'm'interroge?Maintenant JE SAIS, JE SAIS QU'ON NE SAIT JAMAIS !La vie, l'amour, l'argent, les amis et les rosesOn ne sait jamais le bruit ni la couleur des chosesC'est tout c'que j'sais ! Mais ça, j'le SAIS... !

Inside [Arte e Ciência]



Na Cordoaria Nacional em Lisboa, está patente uma exposição que decorrerá de 24 de Setembro até 24 Novembro de 2009: Inside [Arte e Ciência] .

Trata-se, segundo os organizadores, da primeira exposição em Portugal sobre a arte e ciência do século XXI e resulta de uma parceria entre a Câmara Municipal de Lisboa e o Pavilhão do Conhecimento-Ciência Viva.

Patente na Galeria do Torreão Nascente da Cordoaria Nacional, pretende divulgar uma nova tendência artística que combina o conhecimento científico com a criatividade das artes, pelo que apresenta 22 artistas oriundos de todo o mundo: alguns pioneiros, como o brasileiro Eduardo Kac, o australiano Stelarc e os lusos Leonel Moura, Marta de Menezes, Carlos Fernandes e o luso-brasileiro Emanuel Pimenta, num vasto conjunto de obras que envolvem biotecnologias, inteligência artificial, robótica e interactividade.
Para mais informações consultar o sítio:
http://www.inside.com.pt/
.
A foto do cartaz que coloquei acima é simplesmente espectacular: faz-nos pensar em promessas e progressos da bioengenharia!

Aniversário de Confúcio

Em noite de insónia, descubro clicando no Google, que hoje se festeja o dia de aniversário de Confúcio.
Confúcio (em
chinês: 孔夫子, pinyin: Kǒngzǐ) (551 a.C. - 479 a.C.) é o nome latino do pensador chinês Kung-Fu-Tse. Foi a figura histórica mais conhecida na China como mestre, filósofo e teórico político. A sua doutrina, o confucionismo, teve forte influência não apenas sobre a China mas também sobre toda a Ásia oriental. Conhece-se muito pouco da sua vida. Parece que os seus antepassados foram de linhagem nobre, mas o filósofo e moralista viveu pobre, e desde a infância teve de ser mestre de si mesmo.
Coloco de seguida alguns aforismos do pensador e que ainda hoje, mais de dois milénios passados, continuam a fazer parte da sabedoria dita popular e que, infelizmente, o ser humano em geral desvaloriza.

Exige muito de ti e espera pouco dos outros. Assim, evitarás muitos aborrecimentos

A cultura está acima da diferença da condição social

Mil dias não bastam para aprender o bem; mas para aprender o mal, uma hora é demais

Aprender sem pensar é esforço vão; pensar sem nada aprender é nocivo

A humildade é a única base sólida de todas as virtudes

A essência do conhecimento consiste em aplicá-lo, uma vez possuído

domingo, 27 de setembro de 2009

O sucesso do "Milénio"


A par do "2666" do chileno Roberto Bolano (ao qual dedicaste um post completíssimo e muito interessante) , li no JL que existe outro acontecimento literário do ano: a trilogia Millenium do sueco Stieg Larsson. Além do sucesso internacional, estes romances têm pontos em comum: são obras póstumas dos seus autores, que desaparecem precocemente, e trazem consigo uma "aura de mistério e génio". Deixo aqui o sítio da net do autor onde se pode encontrar mais informação sobre o escritor e suas obras:
http://www.stieglarsson.com/
A propósito da obra do autor, o título desta obra parece sugestivo, o que achas? Será que existem homens que podem odiar-nos? O que te parece amiguinha?

sobre Zygmunt Bauman

As reflexões desta quinzena do teu e meu, ou nosso, querido Gonçalo M. Tavares são dedicadas a Z. Bauman. Transcrevo de seguida esse texto, retirado do JL, e adiciono ainda alguma informação sobre esse polaco, meio desconhecido entre nós. Espero que gostes, pois penso ser mais um personagem da série O Bairro.


«Nenhuma informação é suficiente. Um homem na cidade procura a moral que o salve. Olha para o chão, não a encontra. Olha para cima, nada. Decide atravessar a pé a estrada. O tráfego é intenso, um carro quase o atropela. Ele pára, deixa passar o carro. Depois, vê que o carro seguinte está lá ao fundo; começa a correr para o outro lado do passeio, mas o carro que há um instante estava lá ao fundo está agora mesmo ali, perto das suas pernas, do seu tronco, da sua cabeça. A velocidade é isto.

Mas o homem conhece a velocidade. Acelerou, também ele, e chegou intacto ao passeio.

A moral da cidade, em parte, é isto: a velocidade.

Nenhuma cidade moderna aceita um homem lento.»

A questão colocada por Maalouf não podia ser mais bem colocada: será que a humanidade chegou ao limiar da sua incompetência moral?

Zygmunt Bauman (19 de novembro de 1925, Poznań) é um sociólogo polonês que iniciou sua carreira na Universidade de Varsóvia, onde teve artigos e livros censurados e em 1968 foi afastado da universidade. Logo em seguida emigrou da Polônia, reconstruindo sua carreira no Canadá, Estados Unidos e Austrália, até chegar à Grã-Bretanha, onde em 1971 se tornou professor titular da universidade de Leeds, cargo que ocupou por vinte anos. Lá conheceu o filósofo islandês Ji Caze, que influenciou sua prodigiosa produção intelectual, pela qual recebeu os prêmios Amalfi (em 1989, por sua obra Modernidade e Holocausto) e Adorno (em 1998, pelo conjunto de sua obra). Atualmente é professor emérito de sociologia das universidades de Leeds e Varsóvia. Bauman tornou-se conhecido por suas análises das ligações entre modernidade e o holocausto e do consumismo pós-moderno.

(Fonte: wikipédia)

Comemorar Pessoa (2)

Magritte, Surrealism

O Guardador de Rebanhos de Alberto Caeiro
(1911-1912)


IX
Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.



(ao nosso fiel leitor/comentador/ seguidor)

sábado, 26 de setembro de 2009

Casa-poema - Comemorar Pessoa

Um evento inacreditavelmente belo...uma casa poética, com um convite à leitura de uma ode de Pessoa-Reis em 28224 versões ...uma viagem quase infinita que lembra as experiências da poesia concretista. Parabéns Inês Pedrosa por tudo o que tem feito de genial por simplesmente amar, como eu, Fernando Pessoa. Fica provada a sua imortalidade...


Transcrevo um dos eventos culturais mais criativos de que tenho memória: "Casa-Poema""A 16 de Setembro, a Casa Fernando Pessoa transformou-se num poema, por dentro e por fora. Fachada exterior e paredes albergaram inúmeras versões de uma só ode de Ricardo Reis (Fernando Pessoa). A inauguração da Casa-Poema foi acompanhada, durante o dia, de animação de rua. Às 19h30, actores da Tenda – Palhaços do Mundo disseram poemas de Pessoa, das janelas da Casa Fernando Pessoa para a rua em frente. Pelas 21h30, na mesma rua, teve lugar o espectáculo musical «Flak + Amigos», e às 22h30 a peça de teatro «Todos os Casados do Mundo são Mal Casados», dramaturgia de Inês Pedrosa a partir de textos de Ovídio e Fernando Pessoa, encenada e interpretada por Diogo Dória.
Pessoa divertiu-se a semear heterónimos póstumos. Tratou-se de um acto voluntário, generoso, perverso e, acima de tudo, erótico. O poeta conhecia com relativa exactidão a data da sua própria morte, como pode verificar-se pelos seus horóscopos. Não importa, para o caso, o que pensemos da astrologia: o que interessa é que ele levava muito a sério essa actividade e que, sabendo que tinha pouco tempo de vida, não cuidou de fixar os seus textos. Construiu uma obra aberta com a qual é possível jogar infinitamente. Nas entrelinhas de tudo o que deixou escrito encontra-se tudo o que, não estando escrito, não podendo ser escrito, existe. É esse o portentoso motor da sua voz, aquilo que a tornou, não apenas universal, mas exactamente imortal – a ideia imparável do Livro Impossível como único livro verdadeiro. O exemplo mais forte deste conceito de literatura é «O Livro do Desassossego», um livro que pode ter – e tem tido – as mais variadas versões e ser lido de todas as maneiras sem perder a sua identidade e sem se vergar ao consolo fácil de um fim. A verdade constitui a força motriz do engenho poético de Fernando Pessoa; nele nunca houve qualquer separação entre literatura e vida. A coragem de escrever com todos os recursos físicos e metafísicos de que dispunha, e de viver numa demanda contínua de conhecimento, é a raiz da sua popularidade. Não é preciso que alguém possua a chamada «cultura» para entrar num poema de Pessoa, porque cada um dos seus versos é feito da matéria bruta da existência. Essa qualidade imediata, feroz, de transcrição do indizível comum tornou-o, como ele sabia que aconteceria, eterno e popular – e afastou dele os que se afadigam a catalogar saberes e sentimentos em gavetas estanques e estéreis. Pessoa não ignorava sequer que a aparente incompletude dos seus papéis, a dificuldade da sua caligrafia e a multiplicidade de variantes que deixou em muitos poemas abriria também as portas a diversas espécies e graus de parasitas. Houve por conseguinte perversidade - uma perversidade infantil, lúdica, curiosa – nesse acto generoso de entregar a fixação de grande parte da sua obra às cabeças do futuro. O erotismo que marca qualquer acto criador é particularmente intenso no caso de Pessoa por se tratar de uma entrega consciente e radical diante do abismo escuro do tempo e do espaço. Pessoa pôs tudo o que era em tudo o que fez – incluindo as dúvidas. Mas nenhuma das suas dúvidas era uma dúvida qualquer, resultante da preguiça ou do afã laborioso que faz as vezes dela: cada variante significa uma rotação autêntica, nunca um efeito de estilo – coisa que aliás Pessoa jamais usou, porque a sua ética era a do desdobramento, ontologicamente oposta à ética sequencial que rege o mundo de faz de conta que é ainda o nosso. Em Pessoa não há máscaras que se sucedem, papel a papel, mas personalidades que ousam revelar-se para lá de todos os limites. De uma conversa com Richard Zenith sobre a impossibilidade de uma fixação «fidedigna» ou «definitiva» da obra de Pessoa nasceu a ideia desta exposição. Richard disse que seria interessante aplicar a uma ode de Ricardo Reis recheada de variantes um programa matemático, ver quantos poemas nasceriam dessa operação, e expô-los. Perguntámos à Patrícia Reis se seria possível criar uma exposição assim, e a Patrícia, que não conhece a palavra «impossível», pôs imediatamente a sua fantástica equipa (atelier 004) em movimento. Desencantaram-nos a «Dimensão Global», que fez o programa matemático gerador de poemas. Poucos meses depois nasceram, exactamente, 28224 poemas. Uma parte deles encheu a fachada e as paredes da Casa Fernando Pessoa. O poeta que viveu nesta casa os seus últimos 15 anos continua a escrever, como aqui se prova.

Inês Pedrosa

Escolho este poema de Reis que ouso também considerar como a minha verdade:



Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.


Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.


Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive .




sexta-feira, 25 de setembro de 2009

As Amigas - Gustav Klimt



Á Anabela Coelho,

AS AMIGAS

Guardo um xaile de papoilas num armário de mogno
Esse armário de mogno é alto e cor da terra molhada
Essa cor da terra molhada cheira às primeiras chuvas
Essas primeiras chuvas chamam o frio com elas
E desse frio se derrubam nas ruas os vestidos leves,
Se empurra as amigas por caminhos escuros e sujos até casa
Até essa casa distante para a qual de braços enlaçados correm
correm de braços enlaçadas levando alegres risadas
com que entram ligeiras e dobradas na cor das paredes quentes

Ouvem um pássaro negro que canta para outras aves esguias
Que as confunde com um quadro de Klimt ali num prego
pendurado ao lado do armário de mogno que é alto e guarda
um xaile de papoilas cheio de ramagens tecidas de fios de lã fina
e cores embrulhadas noutras cores que aquecem tudo ao redor

Com esse xaile de papoilas guardado no armário de mogno
Alto e cor da terra molhada ternamente para essa amiga.

Quero-te feliz, amiga!

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

René Maltête







René Maltête segue a linha surrealista da pintura e tem fotografias simplesmente brilhantes. Este fotógrafo tem trabalhos sobre a cidade e a gente de Paris que retratam a realidade como um espelho. Tem um sentido de humor fabuloso e também foi reconhecido como realizador. Espero que gostes, Ana Bela Ana desta amostra...

terça-feira, 22 de setembro de 2009

2666 de Roberto Bolaño, uma leitura para breve

É maravilhoso quando acontece uma espera assim... o romance póstumo do autor chileno Roberto Bolaño tem uma crítica soberba e eu espero poder lê-lo e comprovar a sua qualidade literária "fora-de-série". Quero que fiques curiosa e ansiosa como eu. Dá uma vista de olhos ao booktrailer e ao artigo de Maria José Oliveira, que saiu recentemente no Público, sobre esta obra considerada genial:
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"O monumental romance póstumo de Roberto Bolaño, “2666”, estará nas livrarias portuguesas a partir de 26 de Setembro, editado pela Quetzal e traduzido por Cristina Rodríguez e Artur Guerra.Esta obra do escritor chileno (1953 – 2003), falecido prematuramente aos 50 anos, vítima de doença hepática, é considerada a sua obra-prima – Bolaño reincide em alguns dos temas de livros anteriores (os escritores, o universo da literatura, a crítica literária, a memória da ditadura), associando-os a histórias terríveis, como o assassinato de 280 mulheres numa cidade perto do deserto de Sonora, no México. À agência Lusa, Francisco José Viegas, editor da Quetzal, explicou que “2666” é “um romance grandioso, maior do que o Ulysses [de James Joyce], uma espécie de narrativa de Borges em ponto grande, que junta literatura e violência de uma forma inédita, ininterrupta, ultrapassando o puro fantástico da literatura latino-americana”. Em Portugal estão já traduzidos três livros de Bolaño: “Nocturno Chileno” (Gótica), “Os Detectives Selvagens” (Teorema) e “Estrela Distante” (Teorema). Há dois anos, os EUA descobriram a obra deste autor e assistiu-se a uma verdadeira “Bolañomania”, com o aplauso da crítica e das publicações especializadas (em 2007 o jornal “The New York Times” colocou “Os Detectives Selvagens” na lista dos cinco melhores livros publicados nos EUA). Viegas nota que Bolaño é, de facto, “uma das grandes revelações” da literatura contemporânea, e afirma que se a “Bolañomania” pegar em Portugal os leitores estarão a fazer a distinção entre a literatura e aquilo que é “a sua imitação vagamente comercial”. “Depois de ter lido Bolaño a nossa vida muda um pouco. Não se pode esquecer aquilo que ele deixou escrito, e que é uma tempestade, uma torrente, um delírio, como deve ser a literatura”, acrescenta o editor. “2666” é a primeira de uma série de obras póstumas do autor chileno que a Quetzal se prepara para editar. Em Fevereiro do próximo ano será publicado, em simultâneo com a edição espanhola, o inédito “O Terceiro Reich”, seguindo-se “A Literatura Nazi na América”, “Amuleto”, “A Pista de Gelo” e “Putas Assassinas”. Poeta e romancista, Roberto Bolaño nasceu na capital chilena, Santiago, em 1953, tendo-se mudado, aos 15 anos, para a Cidade do México. Trotskista, o escritor envolveu-se activamente na política e abandonou o liceu, rumando depois para El Salvador. De regresso ao México, em 1974, faz reaparecer o movimento literário “Infrarrealismo”, reunindo um grupo de poetas mexicanos e chilenos que tenta combater a chamada “cultura oficial”. Durante os anos 70 viajou ainda pela Europa e acabou por ficar em Barcelona, com a mulher e dois filhos. Nos últimos anos da sua vida, já doente, dedicou-se febrilmente à escrita, de forma a deixar um legado literário que evitasse deixar a sua família numa situação precária. "

Viva o Outono!


Não posso deixar passar o dia de hoje sem dar as boas-vindas ao Outono! Hoje, 22 de Setembro, começa mais uma nova estação do ano. Aquela em que a natureza resplandece e se exibe como em nenhuma outra! Vaidoso, o nosso Outono! É lindo o manto que todos os anos elege...

JORGE DE SENA em Impressão Digital - Crónica Actual

Devo-te esta crónica sobre Jorge de Sena há muito tempo... Li-a o fim-de-semana passado no suplemento do jornal expresso, Actual, escrita por José Manuel dos Santos, admirador da nossa cultura e literatura in extremis. Acho que vais gostar de ler algumas palavras ditas pelo próprio Sena, um pouco do seu temperamento inconformadamente tempestuoso em relação ao mundo e aos outros, a admiração de muitas personalidades portuguesas suas contemporâneas ligadas à cultura ... Valem a pena estas palavras de José Manuel dos Santos, como quase sempre valem em tudo sobre o que reflecte, num espaço consagrado à crónica que vale como a Impressão Digital de quem as diz com conhecimento de causa. Aqui vai:

SENA

Ao contrário dos ossos daquele Camões que se dirige aos seus contemporâneos no célebre poema ("Nada tereis, mas nada: nem os ossos, /que um vosso esqueleto há-de ser buscado,/ para passar por meu."), os ossos de Sena passarão por nossos, porque ele assim o quis. Num tempo em que os símbolos foram trocados por gadgets, não sei se é possível falarmos ainda da força simbólica que tem a vinda para Portugal dos despojos mortais de Jorge de Sena. Ao encontrar aqui um abrigo, esse pó quase extinto dá corpo a um regresso demasiadamente adiado. O nome de Sena num cemitério português inverte a sua ausência - não para nos aliviar de uma culpa, mas para nos culpar de a não termos tido.
A ausência de Jorge de Sena num exílio gritado, ao mesmo tempo indesejado e desejado, tornou-se o epicentro do sismo contínuo que eram a sua obra e a sua vida. E foi também esse, frontal ou obliquamente, um dos temas da cultura portuguesa da segunda metade do século XX. Sena tornou-se a estátua do Comendador que, de tempos a tempos, vinha assombrar a paz pobre da terra triste. Alguns viam nisso uma exibição, um vício de vaidade, uma histeria literária (por exemplo, Cesariny, Natália, Lacerda). Mas outros viveram essa ausência como uma maldição e uma derrota.
No tributo que, em 1976, lhe foi prestado, Sophia de Mello Breyner falou dessa ausência como de um mal: "Se penso em Jorge de Sena, penso nos seus poemas, mas penso igualmente na sua ausência. Pois essa ausência é como uma parte da nossa vida e do nosso país que nos roubaram. É uma forma de termos menos a pátria que temos e a vida, única, que tem. A 25 de Abril pensámos que éramos um país que se ia reconciliar consigo próprio e que se ia reconhecer. Acreditámos na transparência possível. Acreditámos que a lei da negatividade iria ser ultrapassada. A continuada ausência de Jorge de Sena também nos diz que algo não correu inteiramente bem." E, na última carta que lhe escreveu, lamenta-se ela: "Que pena morares tão longe e as nossas viagens não coincidirem. Mas espero ver-te quando o Verão vier."
O Verão veio e não o trouxe, pois a morte o levara nesse mês de Junho de 1978. Na mensagem que então enviou a Mécia de Sena, Sophia diz: "Para além do desgosto e da saudade sinto um profundo acabrunhamento. Do Jorge oiço o grande rio em cheio da sua poesia passando através do espaço e do tempo em que vivo. Sei que dificilmente existirá alguém que seja seu igual. E não me consolo destes dezoito anos de ausência que poderiam ter sido dezoito anos de convívio, de encontros, conversas, riso comum, aflições e alegrias comunicadas."
Esta ausência, em vida e em morte, de Jorge da Sena da terra portuguesa foi acusação e prova contra nós. Uma ausência que, antes do 25 de Abril, era exílio forçado, tornou-se depois exílio voluntário, com o qual ele desafiava altivamente um país que amava com ódio e odiava com amor: "Ó, terra de ninguém, ninguém, ninguém: /eu te pertenço. És cabra, és badalhoca, /és mais que cachorra pelo cio,/ és peste e fome e guerra e dor de coração./ Eu te pertenço mas seres minha, não!"
Sena era lúcido e megalómano, terno e cruel, astuto e ingénuo. A tal questão que, dizia O'Neill, cada português tem consigo-mesmo e que se chama Portugal, ele agigantou-a à altura lívida de um fantasma. O meu amigo Fernando Dacosta, quando o visitava na sua casa do Restelo, ouvia-o, juiz justiceiro, vociferar horas contra tudo e contra todos, possesso de furor e de vingança. Só depois se apaziguava e fazia da angústia uma música que se juntava à música da noite que chegava.
José-Augusto França conta que, um dia, ao vê-lo com uma insatisfação tão zangada, lhe disse: "Jorge, não vale a pena estares assim. A tua obra é tão grande que o reconhecimento chegará. Terás a glória! Se não for hoje, será para o mês que vem, ou para daqui a dez anos. Mas ela virá"! Sena ouviu-o e gritou-lhe: "Mas eu preciso da glória já, nos próximos quinze minutos".
Encontrei-o uma vez, em casa do Ruy Cinatti, num tempo em que tudo acontecia a toda a hora. Estava ele excitado, ansioso e perplexo com a Revolução. E muito inquieto com a perturbação do seu velho amigo por causa de Timor.
O que eu mais gosto em Jorge de Sena é a grandeza de quem quer chegar ao que não alcança. É a atitude inconformada e ardente perante a gravidade da vida: "Soube-me sempre a destino a minha vida." É a proximidade ao corpo, sabendo que o seu auge coincide com o auge do espírito. É a raiva insolente e excessiva, autenticamente moral porque ferozmente antimoralista.
Entre nós, está a partir de agora a memória fúnebre de Jorge de Sena, com a pouca glória que temos para lhe oferecer. Que ao menos essa presença nos acrescente do que nos falta e a ele não faltou: a violência que ordena à mediocridade que falhe.

José Manuel dos Santos (www.expresso.pt) 8:00 Terça-feira, 22 de Set de 2009

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Victor Willing, Sailling


Numa época em que tanto se fala de Paula Rego e se elogia a sua pintura, é bom recordar que o falecido marido da artista era ele próprio pintor. Segundo percebi da entrevista que a Paula deu à Paula M. Pinheiro (igualzinha à minha Pat!), o marido foi o melhor crítico da sua obra. Fui buscar um quadro de Vic Willing, para começar... E como me sinto de momento a navegar por outras paragens, ao sabor da ondulação de um CD com que a minha amiguinha me prendou, escolhi Sailing...

Mais algumas fotos de Robert Doisneau


















Encompassing the Globe- Portugal e o mundo nos séc. XVI e XVII

Ontem à noite, depois do excelente programa da RTP2 Câmara Clara dedicado a Paula Rego e à recente inauguração da sua Casa de Histórias (obrigada doce Pat pela dica, não fosses tu e ter-me-ia descuidado...), passou um breve documentário sobre a exposição "Encompassing the globe" que, segundo me pude aperceber, foi um enorme sucesso nos EUA (Washington) em 2007.
« (...) A exposição é um elogio justo à capacidade de Portugal para gerar civilização através das suas viagens de expansão iniciadas no século XV, propiciadoras de novas conexões humanas, económicas, sociais, politicas e culturais, fundadoras do ciclo moderno da História da Europa e do Mundo, nucleares para a compreensão da contemporaneidade. »
Em Portugal a exposição está patente desde o dia 16 de Julho no Museu Nacional de Arte Antiga (em Lisboa) e findará a 11 de Outubro deste ano. O sítio oficial é:
http://mnaa.imc-ip.pt/pt-PT/Encompassing%20The%20Globe/ContentList.aspx
O sucesso nos EUA foi de tal ordem que o periódico New York Times ousou dizer:

WASHINGTON, 2007, June 22—“ A little-known fact: A version of the Internet was invented in Portugal 500 years ago by a bunch of sailors with names like Pedro, Vasco and Bartolomeu. The technology was crude. Links were unstable. Response time was glacial. (A message sent on their network might take a year to land.)”

É de ficarmos orgulhosos!

Mas preocupam-me duas questões (desculpa Pat este modo tão objectivo de as colocar mas sou de ciências...):

1º Por que é que um documentário desta natureza é passado na televisão a um domingo à noite, bem perto da meia noite? Será que as pessoas que gerem a programação esqueceram que os Portugueses se levantam cedo para ir trabalhar no dia seguinte?

2ºQuando é que teremos a coragem de assumir que queremos um país que valorize o seu património e a sua cultura e isso terá de passar, necessariamente, por colocar os programas culturais no horário nobre?

domingo, 20 de setembro de 2009

A Vida Interior de Martin Frost

Acho boa ideia ocuparmos uma galeria do nosso blog com os filmes da nossa vida. Podemos dividi-los nas categorias "visto" e "expectante por ver" - V. e EV. . Os filmes mais antigos reabilitam uma doce memória de nós mesmas e têm o estranho poder de fazer reviver uma aparente realidade onde também nós um dia nos cruzámos com determinadas personagens, espaços e histórias. Os mais recentes criam pontes em que o nosso dia-a-dia se cruza e se espreita, em que a actualidade nos apanha desprevenidas, e nos presenteia... com obras de arte que cheiram a fresco...
Aproximo a literatura do cinema com imensa felicidade... Dou sempre comigo a pressentir nos filmes , as folhas de papel, os livros que os pré-determinaram. Literatura e cinema formam o casal perfeito, não achas? ELA, inventiva e imprevisível, constrói os espaços, instaura um (ou múltiplos) tempos, sempre com a ingenuidade própria do sonho (mesmo do mais provocador e obsceno). Enfim, ELA constrói e ELE, sensível, adulador, seu conformado cativo, mostra ao mundo.

Transcrevo a síntese da contracapa do DVD de The Inner Life of Martin Frost ( acho incrível a palavra que a língua inglesa arranjou para designar interior (inner), possivelmente motivada pela preposição com o mesmo sentido "in" - as palavras encantam como o som da flauta que encanta a serpente...)

"Um escritor de sucesso acabou de publicar o seu último romance e decide ir descansar sozinho para uma casa de campo. Na manhã do seu primeiro dia na casa, ele descobre uma misteriosa e surpreendente mulher deitada a seu lado. Fascinado pela sua beleza e inteligência , Martin apaixona-se profundamente por ela. Ele encontrou a musa que o leva sem remissão a escrever o seu livro mais perfeito. Mas quem é essa estranha mulher que tão bem conhece a sua vida e o seu trabalho? Será uma musa verdadeira? Ou imaginária? Ou um fantasma que se introduziu na vida interior de Martin Frost?"

Não me posso esquecer de referir que por detrás deste magnífico filme está Paul Auster, um não menos magnífico escritor, de quem sou refém há muito... Aproveito ainda para dizer que o produtor é o português Paulo Branco e que o filme é rodado cá em Portugal, um país com locais que fascinam Auster (quem diria?!) Sophie Auster, a filha do romancista, também participa no filme.


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Buddha Eden Garden


Fiquei surpreendida ao deparar-me com este sítio: o BuddhaEden Garden. Saber que ainda existem em Portugal pessoas (ricas ou milionárias) que se dedicam a promover iniciativas culturais gratuitas deve deixar-nos orgulhosos. Concorde-se ou não com o estilo de Berardo, eu confesso a minha admiração por este homem que tem a ousadia de reclamar que a cultura em Portugal deve ser gratuita para todos. Se assim fosse, a cultura deixaria de ser apanágio de uma elite da sociedade e passaria a estar à disposição de todos. Estou certa de que a nossa sociedade evoluiria e seria melhor. Assim acontece em Londres em que os museus do Estado são totalmente gratuitos. Quando lá estive olhava, admirada, as famílias que traziam os filhos e faziam daquele acto de ir ao museu um ritual semanal. Porque é que em Portugal temos que aceitar escandalizarmo-nos com os preços desses espaços? Na Páscoa estive em Vila Viçosa e visitei o Palácio Ducal pagando a módica quantia de 6 euros. Ora, uma família de baixos/médios salários e com dois filhotes poderá comportar esse custo? É óbvio que não. (Por isso hei-de rezar a todos os deuses desse jardem-éden para que Portugal consiga mais "berardos" que tomem a cultura como um bem ao alcance de todos. Temos que arrepiar tanto caminho ainda… ).

Deixo mais algumas informações sobre o Buddha Eden Garden que tirei do sítio:
O Buddha Eden Garden é um espaço com cerca de 35 hectares (situado no Bombarral), idealizado e concebido pelo Comendador José Berardo, em resposta à destruição dos Budas Gigantes de Bamyan, naquele que foi, um dos maiores actos de barbárie cultural, apagando da memória obras primas, do período tardio da Arte de Gandhara. Em 2001, profundamente chocado com a atitude do Govern o Talibã, que destruiu, intencionalmente, monumentos únicos do Património da Humanidade, o Comendador Berardo deu início, a mais um, dos seus sonhos, a construção deste extenso jardim oriental. Prestando, de certo modo, homenagem aos colossais Budas esculpidos na rocha do vale de Bamyan, no centro do Afeganistão, e que durante séculos foram referências culturais e espirituais. O Buddha Eden Garden pretende ser um lugar de reconciliação, sem nenhuma tendência religiosa, aberto a todas as pessoas, independentemente, da religião, etnia, nacionalidade, sexo, idade, condição cultural ou social, convidando à união, comunicação e meditação, como forma de redescobrir a felicidade. Esta é uma instituição cultural sem fins lucrativos e ao serviço da comunidade nacional e internacional, que tem como missão sensibilizar o visitante para o conhecimento interior, através do seu jardim em diálogo com um vasto património escultórico, vocacionado para a meditação e promoção da interacção social e cultural, conforme os princípios da solidariedade e da dignidade humana.
O Buddha Eden Garden é um espaço de livre acesso embora solicitem uma doação, dentro das possibilidades de cada um.

sábado, 19 de setembro de 2009

Unas mariposas in mi estomago...

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Neste verão esteve em cartaz um filme que foi amplamente aclamado pela crítica e que em Portugal passou quase despercebido: Nunca é tarde demais para amar, do alemão Andreas Dresen. O filme trata da relação amorosa e adúltera entre um casal dito idoso: ela passa dos sessenta e ele dos setenta anos. Com essa idade seremos capazes de nos apaixonar? Sentiremos o mesmo frenesim de adolescentes? Sentiremos as mariposas no estomâgo, tal como descreve a mulher enamorada neste excelente trailer (com a música linda Clair de Lune)? Quem disse que o amor tem idade e prazo de validade?
Embora esteja a sugeri-la sem a ter visto ainda, parece-me uma excelente película cinematográfica.

Hopper, o pintor da solidão urbana


A maior solidão é a do ser que não ama, Vinicius de Moraes


A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.