sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Juan José Millás - O Mundo

Tenho pena de não ter lido este romance na língua espanhola pois presumo que, se a sua tradução (de Luísa Diogo e Carlos Torres), espelho em que se vê o primeiro texto, me deu tanto prazer, o seu original deve condensar o seu valor literário em estado puro. O estado primitivo da escrita literária. Millás surpreendeu-me com a sua fantástica capacidade de contar histórias, dos outros como se fosse um deles e, de si, distanciado até à comiseração.

O humor atravessa a obra, de cariz autobiográfico, de forma singular. Na voz da criança que foi, a personagem Juanjo injecta a ingenuidade e a pureza da infância a esse humor tornando o riso do leitor num dos prazeres da leitura das 3 partes da obra. Aqui encontramo-nos também com 9 anos, abandonados às nossas brincadeiras e convicções, encontramos os nossos pais, as suas decisões, os vizinhos marcantes, os professores e a escola...

"O Mundo" é a sua rua da infância, “Canillas”, localizada num subúrbio de Madrid, onde viveu experiências desconcertantes e inesquecíveis mas, simultaneamente, sem apagarem a dureza que foi a vida de uma família pobre a que pertencia, que lutava mecanicamente pela sobrevivência dos seus nove filhos. Juanjo não conseguindo separar a sua vida da vontade prematura que sempre revelou de escrever, de compreender a realidade, de vê-la em estado febril, de descrevê-la a partir desse outro olhar, inebriado como se estivesse anestesiado, alia a palavra à voracidade com que experiencia todos os pormenores da vida. A personagem narradora, numa longa analepse, vai procurando em tudo a origem do romancista, sentindo que nunca pertenceu verdadeiramente aquela família e retratando-se até à idade adulta, separa dois seres em si: a pobre criança pobre que não podia ter sido e o escritor de renome endinheirado em que se tornou. No entanto a sua rua está em todo o lado para onde vai, ela é o mundo e o mundo torna-se nela a todo o instante. A infância marca-nos definitivamente pois como nos diz: " No princípio foi o frio. Quem teve frio em pequeno terá frio para o resto da vida, porque o frio da infância nunca desaparece."

Agrada-me as várias reflexões metalinguísticas que tece ao longo da obra, tendo mesmo encontrado excertos fantásticos que me desenharam projectos de escrita criativa que poderei desenvolver com os meus alunos neste novo ano lectivo. A ideia soberba de que a escrita como o bisturi (utensílio médico que o pai inventa na sua oficina, por baixo da casa onde moram) cauteriza a ferida ao mesmo tempo que a causa.


" Quanto a mim, caí na obsessão de corrigir, para mim próprio, todas as frases mal usadas pelos outros. Se um dos meus irmaõs, por exemplo, dizia que fizera um ferimento numa perna, eu sussurrava perno, magoou-se num perno. Se era uma das minhas irmãs, fizera uma ferimenta numa perna. Compor a realidade era esgotante, mas alguém tinha de se ocupar disso. Nem tudo na linguagem, era assim tão imperfeito. Surpreendia-me por exemplo a capacidade das palavras para se encontrarem com os objectos que nomeavam. (...) Parecia-me inexplicável, por outro lado, que se ao pronunciar a palavra gato aparecia um gato dentro da minha cabeça, ao dizer «ga» não aparecesse meio gato. "


Poderia escolher qualquer excerto da obra para demonstrar a sua singularidade, para justificar a minha inteira devoção a este autor que não pretendo abandonar tao cedo. Deixo outra amostra da qualidade deste espanhol que tanto prezo ter conhecido:

"Entretanto, descobri que o meu pai escondia o frasco de éter num armário da sua oficina ao qual se supunha que ninguém chegava. Mas eu cheguei com a ajuda de uma cadeira e de um banco que colocava por cima da cadeira, em equilíbrio precário. E cheirava-o de vez em quando, pois conseguira descobrir e apreciar as suas propriedades narcóticas. Quando a casa ficava sossegada, depois do almoço, passava pela casa de banho, tirava do armário dos remédios um bocado de algodão e ia com ele até à oficina onde o empapava em éter. Depois deitava-me no vão das escadas, em posição fetal, tal como fazia para dormir, e punha-o como se fosse uma máscara, entrando imediatamente numa lassidão profunda que, quando acordava e me levantava a meio da tarde, era como se entrasse no interior de um sonho. O que fazia a partir de então tinha essa qualidade alucinatória em que nada, por extraordinário ou assombroso que seja, nos surpreende. Talvez por isso a recordação que guardo daquela época é a que se conserva de um sonho muito vivido, um daqueles sonhos que nos fazem duvidar do grau de realidade da vigília."

2 comentários:

anabela disse...

Doce amiga:
O último excerto que escolheste comoveu-me de tal forma que as lágrimas subitamente soltam-se... Que magnífica pessoa deve ser Millás! Olha minha querida, a expressão que li sobre "o frio da infância" (que permanece sempre na alma) pode ser motivo de tantos devaneios nossos...
Anseio por estar contigo e, apertando fortemente a tua delicada mãozita, ler as reflexões deste autor que, sem o conhecer ainda, já gosto dele!
Muitos beijos e um obrigada dfo tamanho do infinito...
Anabela

PS: Será a minha próxima leitura obrigatória!

Leila Silveira disse...

estou lendo
chego sentir o frio que nele ficou
sentir as pessoas o vão da escada
a fresta do porão q dá p rua...

amando