terça-feira, 15 de setembro de 2009

Jorge de Sena encena 2009/ 2010

Querida Pat! Espero que todos os teus dias de aulas sejam dias de festa e de alegria contagiante... Eu continuo cada vez mais céptica em relação ao futuro deste nosso país. Que fazer?
Apetece-me colocar uns escritos de Jorge de Sena, de quem se tem ouvido falar tanto nestes últimos dias a propósito da trasladação dos seus restos mortais.
Escolhi estas reflexões, por me sentir bem ao vesti-las...

1. «DIZIA UMA VEZ AQUILINO...
Dizia uma vez Aquilino que em Portugal os filósofos se exilavam ainda em seu país (v.g. Spinoza). O curioso porém é que também ninguém foi santo lá: os nascidos em Portugal foram todos sê-lo noutra parte (St. António, S. João de Deus, etc.) e outros santos portugueses, se o foram, terá sido, porque, estrangeiros que eram e em Portugal vivendo, não tiveram outro remédio (v.g. Rainha Santa) senão ser santos, à falta de melhor. Oh país danado. Porque os heróis também nunca tiveram melhor sorte (Albuquerque e outros que o digam) a menos que tivessem participado de revoluçõ es feitas *em vez de* (v.g. o Condestável que fez fortuna e a casa de Bragança e acabou só Santo quase). »
2. «ESTÃO PODRES AS PALAVRAS....
Estão podres as palavras - de passarem
por sórdidas mentiras de canalhas
que as usam ao revés como o carácter deles.
E podres de sonâmbulos os povos
ante a maldade à solta de que vivem
a paz quotidiana da injustiça.
Usá-las puras - como serão puras,
se caem no silêncio em que os mais puros
não sabem já onde a limpeza acaba
e a corrupção começa? Como serão puras
se logo a infâmia as cobre de seu cuspo?
Estão podres: e com elas apodrece a mundo
e se dissolve em lama a criação do homem
que só persiste em todos livremente
onde as palavras fiquem como torres
erguidas sexo de homens entre o céu e a terra.»

2 comentários:

Leitores SOS Murça disse...

Aquilino só dizia cisas acertadas! E Sena é tão inteligente que lhes pegou em jeito de denúncia de um país cujos santos se expatriam... Só podia ter parado perante estas palavras de Aquilino pois elas são cruas, transparentes como água e pertinentes ao ponto de nos repensarmos.Tive dó na referência à Rainha Santa...dá para rir!

"Estão podres as palavras"

Leitores SOS Murça disse...

No 1º comentário onte se lê "cisas" deve ler-se "coisas" ( a falta que uma só letra pode acometer!!!)
Num dos momentos de insurreição contra o seu não reconhemimento como genial poeta, escritor e crítico, vendo o nosso país de fora ousa insultar a língua com que se torna imortal("Estão podres as palavras") e cheio de razão pois até hoje é actualíssima a sua crítica e insurgimento. A moral é desmoral quando mais convém aos que podem (e aos que não podem também), a maldade anda à solta e pelos vistos não há justiça mais injusta do que a nossa que ninguém apanha (juízes intocáveis como Deuses fabricam leis desleais para governarem a seu bel-prazer)e o mundo apodrece de escandalosos procedimentos que assolam todas as áreas da nossa sociedade com desumanidade. As palavras servem a corrupção, a indiferença, a ignorância e apodrecem porque as suas jarras em vez de água cristalina são cabeças irreparáveis, sem interesse algum...