terça-feira, 29 de junho de 2010

Margarita Sikorskaia vs Mª Teresa Horta


GOZO

Desvia o mar a rota
do calor
e cede a areia ao peso
desta rocha
que ao corpo grosso
do sol
do meu corpo
abro-lhe baixo a fenda de uma porta
e logo o ventre se curva
e adormece
e logo as mãos se fecham
e encaminham
e logo a boca rasga
e entontece
nos meus flancos
a faca e a frescura
daquilo que se abre e desfalece
enquanto tece o espasmo o seu disfarce
e uso do gozo
a sua melhor parte


JOELHO

Ponho um beijo
demorado
no topo do teu joelho

Desço-te a perna
arrastando
a saliva pelo meio

Onde a língua
segue o trilho
até onde vai o beijo

Não há nada
que disfarce
de ti aquilo que vejo

Em torno um mar
tão revolto
no cume o cimo do tempo

E os lençóis desalinhados
como se fosse
de vento

Volto então ao teu
joelho
entreabrindo-te as pernas

Deixando a boca
faminta
seguir o desejo nelas.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

L´amour (3/3)

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L' amour (2/3)

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L´amour (1/3)

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Coloco a primeira de três partes do Philosophie (este episódio dedicado ao AMOR), programa que, como sabes, não perco. Embora este episódio não seja dos melhores, ao visioná-lo consegues ficar com uma ideia da dinâmica do programa. Um programa que nos faz pensar e mais, faz-nos acreditar que qualquer homem, mais ou menos alfabetizado, consegue fazer filosofia com os objectos que o rodeiam... Afinal pensar está ao alcance de todos e não é algo inalcansável... está em nós! Isso nos repete incansavelmente o Raphael, também ele filósofo, e que sabiamente nos guia através de pinturas e fotografias aparentemente insignificantes. Beijos.

domingo, 27 de junho de 2010

Em plena época de Verão...

Amiguinha, espero que este ar estival e renovado do nosso cantinho retempere as tuas forças! Estamos quase de férias... basta sonhar mais um bocadinho... e continuar a AMAR...

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Heima (Casa)- Sigur Rós
"Une expérience amoureuse ressemble à une expérience musicale" Raphael Enthoven, Philosophie (canal Arte)

Oração


Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
o meu pecado de pensar.
Clarice Lispector

sexta-feira, 25 de junho de 2010

DIÁRIO IMPERFEITO

Descobri que o meu gato guarda na garganta um motor de afectos que faz barulho ao arranque e custa muito a desligar-se. Por vezes, ao constatar que se transforma numa espécie de máquina, só por gostar de mim, fico assustada e penso que temos muita sorte por podermos ficar com mimo em silêncio ou amarmos alguém sem qualquer espécie de barulho maquinal.
Como é muito branquinho assemelha-se a um pedaço de neve mas mal lhe fazemas uma festa no pêlo que é longo , dissipa-se qualquer semelhança porque é quente como um cachecol de inverno. Parece neve ao contrário e traz uma ternura nos olhos azuis (ou vermelhos de vez em quando) que só apetece pedir-lhe muito para ele nunca mudar de cor nem de estilo. Um estilo afectuoso, delicado com um pouco de exibicionismo à mistura. Os olhos, esses, são o contrário da língua, macios como um céu cheio de nuvens. Por isso sinto-me num céu quando cruzamo olhares. Suspeito que gosta de livros como eu pois quer virar-lhes as páginas...é um leitor muito ágil e gosta de dar conta de tudo primeiro do que os meus olhos. Também já sei que adora as letras do teclado do meu computador porque as suas patinhas dianteiras adoram tocar-lhes como se compusessem quaquer música felina que só ele entende, só ele recorda.
Dá esperança um gato branco. Apesar de ter pêlo branco é jovem e sente-se que quer viver tudo num único miar. Há sensivelmente 5 dias tornou-se irremediavelmente parte da minha vida. Espero que nunca mude a cor do seu pêlo de neve. E que mantenha esse motor esquisito de afectos mais uns bons tempos para que eu possa entendê-lo melhor.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

«Não há nada fora do texto»
Jacques Derrida

O texto é ou não é, dependendo da sua desconstrução. Adoro ouvir as diferentes interpretações de um mesmo texto...como gostaria de participar na desconstrução de uma pessoa, para lhe retirar a essência do nosso ser... Com isto não quero dizer que gostaria de destruir o texto ou a pessoa, mas antes desmontá-los, para obter o leque de componentes e significados possíveis que fazem deles outros textos, diversas pessoas, e ainda outros, e ainda mais outros e outros e outros... Desfiar uma toalha de renda para apreciar, no final, o fio que a fez tão delicada, tão gravemente branca, tão bela e única... E desse fio, desfiar outros finíssimos, quase imperceptíveis, quase cabelos, quase nada.

É banal, por exemplo, fazermos isto com as cartas de amor, em plena adolescência. Dar a ler um texto impregnado de amor e de intenções incertas, numa folha de carta colorida e com cheirinho a perfume, à melhor ou às melhores amigas é um meio de acumulação de auto-estima e de verificação de uma verdade dificilmente demonstrável doutro modo - pelo menos para os outros ...
É uma certificação ou, pelo contrário, um debilitar da possibilidade da paixão do outro por nós próprios. Tudo isso se encontra no texto daquela carta que nos escreveu fulano ou fulana tal. Então, para que o texto seja inteiro, há que seguir o postulado de Derrida e convocar não uma nem duas nem três nem quatro mas muitas amigas, de várias idades, provenientes de vários espaços geográficos, culturais e políticos (de preferência) para obter "n" interpretações das palavras que nos interessam tanto. Talvez seja até mais cauteloso convocar dois ou três inimigos para estudar todas as possibilidades semânticas da subjectiva linguística amorosa, por mais que nos custe muito. Tudo por causa de frases, por exemplo, como estas: " Nem sei o que sinto quando estás por perto. Sinto e não sinto como expiro e inspiro e continuo sem saber em qual dos momentos sou mais inteiro. "
Cada intérprete daria o seu parecer sem ouvir o dos outros, colocaria as suas palavras num outro papel, branco para não suscitar o delírio do escrevente, e remetê-lo-ia, para um marco de correio construído somente para esse efeito. Um marco que, quando aberto, entornasse todos as propostas de interpretação com uma onda de calor que impedisse qualquer possibilidade de desilusão precoce. Com a noção de que não há nada fora do texto, podemo-nos sempre iludir com a operação da desconstrução dos enunciados até deparar com a milésima sílaba, a mais remota letra que assegura afinal o amor.

AS PEQUENAS MEMÓRIAS - JOSÉ SARAMAGO


«Nem tudo foram sustos nas salas de cinema aonde o garoto de calções e o cabelo cortado à escovinha podia entrar. Havia também fitas cómicas, em geral curtas, com o Charlot, o Pamplinas, o Bucha e o Estica, mas os actores de quem eu mais gostava eram o Pat e o Patachon, que hoje parece terem caído em absoluto esquecimento. Ninguém escreve sobre eles e os filmes não aparecem na televisão. Vi-os sobretudo no Cinema Animatógrafo, na Rua do Arco do Bandeira, aonde ia de vez em quando, e recordo quanto me ri numa fita em que eles (estou a vê-los neste momento) faziam de moleiros. Muito mais tarde viria saber que eram dinamarqueses e que se chamavam, o alto e magro, Carl Schenstrom, o baixo e gordo, Harold Madsen. Com estas características físicas era certo e sabido que chegaria o dia em que teriam de interpretar Dom Quixote e Sancho Pança, respectivamente. Esse dia chegou em 1926, mas eu não vi a fita. »
in As Pequenas Memórias, José Saramago

Procurei um excerto fílmico do par "Bucha e Estica", representado pelos actores Stan Laurel e Oliver Hardy, que também acho tão engraçados. (Guardo um porta-livros muito antigo cá em casa que são dois bonecos de porcelana antiga com as caras muito sorridentes, as cabeças cobertas com os chapéus muito negros e os corpos (sentados) destes amigos a quem acho muita piada e que, afinal, são uma referência não só para mim e para o Tiago, a quem acabei por oferecê-lo, mas também para Saramago.)
É caso para dizer "Recordar é viver":
«Na verdade, eu também tive os meus toques de dislexia, ou algo que se lhe parecia, não foi só o Leandro. Por exemplo, embirrei que a palavra sacerdote deveria ler-se saquerdote, mas como, ao mesmo empo, suspeitava que devia estar enganado, se a tinha de pronunciar (tratando-se de termo tão «erudito» esses casos não podem ter sido muitos, ainda que menos seriam hoje, quando os sacerdotes são tão poucos), arranjava-me de maneira a que se percebesse mal o que dizia para que não tivessem que corrigir-me. Devo ter sido eu quem inventou o chamado benefício da dúvida. Ao cabo de algum tempo consegui resolver a dificuldade com os meus próprios meios e a palavra passou a sair-me direitinha da boca. Uma outra que me vinha retorcida (isto são histórias da época da escola primária) era a palavra sacavenense. Além de designar um natural de Sacavém, povoação hoje engolida pelo dragão insaciável em que Lisboa se tornou, era também o nome de um clube de futebol que não sei se terá conseguido sobreviver aos atropelos do tempo e aos purgaórios das segundas e terceiras divisões. E como a pronunciava eu então? DE forma absolutamente chocante que escandalizava quem me ouvia: sacanavense. Ainda recordo o meu alívio quando fui capaz, finalmente, de inverter as posições das mal-educadas sílabas.»

in Pequenas Memórias, José Saramago

sábado, 19 de junho de 2010

SARAMAGO PONTUA


Incomoda-me quando ouço alguns pretensos leitores dos livros de Saramago dizerem que ele não pontua os textos e que por isso não o lêem. É das coisas mais absurdas mas que realmente se ouve repetidamente como desculpa da rejeição em absoluto da sua obra.

Habituei-me a deixar passar estas incompreensíveis palavras de alguns, mantendo silêncio, porque, no fundo, sei que são pessoas que nunca o leram de facto, provavelmente por preconceito político ou religioso (ou então por não terem capacidade para a leitura de uma obra maior da literatura universal, isto também pode ser um facto) - senão não poderiam dizê-las.
Agora que Saramago nos falta e jamais poderá esclarecer esse equívoco, mostro o excerto que guardo para ler aos alunos (com a alegria da sua necessária tradução para o português) que um dia encontrei na revista Books nº8, como resposta a uma entrevista feita ao nosso Nobel:


«C'est dans une sorte d'abolition de la ponctuation que José Saramago a trouvé sa voix?

Il ne s'agit pas d'abolition de la ponctuation. Je crois que nous parlons avec les mêmes éléments que nous faisons de la musique: des sons et des pauses, brèves ou longues. J'ai appliqué ce principe oral et musical à mon style, en ne conservant que des mots et des pauses - les virgules et les points. Cette façon d'écrire donne la primauté à la valeur mélodique de la phrase, dont l'organisation rapproche l'écrit de l'oral.Attention, il ne s'agit pas de transcrire le discours oral à l' écrit, ce qui ne fonctionne jamais; mais de transposer à l'écrit le mécanisme du langage parlé. Au fond, ce ton n'est pas celui d'une oralité mais une "auralité", au sens où mes mots sont faits pour être entendus.»


A última entrevista dada à Books quando editou A Viagem do Elefante pode ler-se na íntegra (vale bem a pena) neste endereço, onde de resto se explica um estilo de escrita único, inovador, inaugural de uma nova literatura no mundo:

http://www.booksmag.fr/magazine/a/jose-saramago-ce-sont-les-lecteurs-qui-ont-fait-de-moi-un-ecrivain.html

sexta-feira, 18 de junho de 2010

SARAMAGO - QUE FAREMOS COM ESTE AUTOR?

18 de Junho. Morre José Saramago. Que faremos com este autor?
Sente-se já, hoje, o início do mito.
Por agora estou de luto, de luto pelo autor, que com tanta sorte pude abraçar e até acarinhar há poucos meses na Escritaria em Penafiel ...senti-lo humano como nós, senti-lo velho e fraco como um mortal. Estou de luto pelos narradores todos em que se transformou nos seus romances, nos seus contos, pelas personagens marcantes que falavam através da sua voz e que tanto me encantaram, pelos ecos de maravilhamento que possibilitou como poeta, pelas sábias ideias e polémicas que instaurou na sociedade ( contra a vontade daqueles, muitos, que nunca gostam de ver nem de mexer no invisível, no que se encontra por detrás da evidência), pelo humor muito singular com que sempre retratou as situações, fossem estas rotineiras ou solenes, pela clareza com que comunica o inexplicável, transformando o real e os sentidos em nobre literatura que perdurará para além do Tempo. Pela ruptura com as coisas tão comodamente instauradas a favor da compreensão de tudo o que nos determina como seres humanos. Por tudo isto é a face da criação literária no seu ponto mais alto que merece o meu luto.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

A amizade é...


...DAR BEIJOS

PÁGINA 186 DO DIÁRIO IMPERFEITO

18 de Junho de 2010

Penso muitas vezes no que o meu irmão disse um dia, por graça, junto da minha mãe, depois do abraço de despedida a uma amiga que tinha levado a nossa casa para almoçar, sem aviso prévio. Mas hoje pensei mesmo a sério nessas palavras. Nesse momento em que mal ela fechou a porta da rua, desafiou o humor da minha mãe:
«- Se as mulheres tivessem as mamas nas costas, não era pior...»
Lembro-me de detestar o meu irmão. Por aquelas palavras, pelo riso final de parvo, pela corrida covarde que teve que fazer até ao quarto que trancou para não levar um estalo irritado da minha mãe.
Muitas vezes me lembro dessa ideia que teve, que mais parecia um daqueles desenhos a carvão que fazia na perfeição, e hoje, pela manhã, depois de ter batido num carro estacionado atrás do meu enquanto fazia marcha atrás, cheguei mesmo a ver em algumas costas de mulheres que passavam na rua, nesse momento turvo em que me encontrava, as mamas que ele idealizou naquela tarde da minha pré-adolescência, tão descaradamente. Aliás, não sei bem se o que entrevi nas costas dessas mulheres ocasionais foram as tais mamas arquitectadas pelo meu irmão, se foram dois olhos grandes, atentos e pestanudos.
Sim, confesso que foi claro o meu desejo. Ter dois olhos nas costas. De preferência sem miopia e sem astigmatismo ou qualquer outro tipo de anomalia ocular. Seria muito mais atraente e menos ridícula em situações de embate automobilístico em marcha atrás. Podia até vir de marcha atrás desde o parque de estacionamento da minha escola até à garagem da minha casa, não temendo qualquer incidente, distracção, nada de nada nesses 40 km. E quando passasse por carros conduzidos por homens, poderia buzinar até mais não para que não lhes escapasse que sendo mulher, sabia andar de marcha atrás como mais nenhuma mulher, sem arriscar dar cabo dos seus incríveis carros (aqueles em que bati quase todos a necessitar de urgentes remodelações!) e ter que lhes explicar que para além de eles estarem a estorvar com o seu veículo nos sítios que escolhem para os estacionar, estão ainda a tentar passar-me a perna a ver se podem arranjar mais um estrago que o meu seguro cubra porque as mulheres ao volante não sabem o que fazem, muito menos quando têm que fazer marcha atrás, só com os dois olhos que têm no rosto.

Dino Valls

A Literatura rasga qualquer possibilidade de persistente hipocondria ou medo animal que possa apoderar-se de mim.

«Que valor têm as palavras que não rompem o silêncio?»

Georges Bataille

segunda-feira, 14 de junho de 2010

AVENIDA NÉVSKI - NIKOLAI GÓGOL

Sinopse:
"O espaço de privação, de sofrimento e de alienação que é a Petersburgo gogoliana cristaliza-se aqui na sua artéria principal — a Avenida Névski. Famosa é a descrição inicial da grande avenida — como num filme expressionista alemão, passam-nos diante dos olhos as figuras fragmentadas dos passeantes: pés, olhos, chapéus, braços, bigodes, casacas, galões de oficial… em loucos movimentos autónomos. […]
O conto assenta em três personagens principais: a cidade, um jovem pintor e um jovem oficial: ao jovem pintor roubam-lhe o sonho e tem um fim trágico; o jovem oficial, estouvado, realista e resignado não consegue a compensação mínima por que se esforça — o amor físico de uma alemã — e consola-se comendo uns bolos; a cidade (a Avenida Névski) assiste a tudo e é culpada de tudo…”
Filipe Guerra

Foi este o livro com que Gonçalo M. Tavares se fez acompanhar em S. Petersburgo, tendo lido algumas passagens deste livro de Nikolai Gógol sobre a imponente Avenida Névski em plena Avenida Névski . Como também a conheço do desenho que a literatura faz dela deixo um excerto de que também gosto particularmente:

«Milhares de modelos de chapéus, de vestidos, de lenços - leves, multicolores -, aos quais chega a manter-se por dois dias a afeição das suas possuidoras, deslumbram qualquer um na Avenida Névski. Parece que todo um mar de borboletas levantou subitamente voo dos ramos e ondula como nuvem brilhante sobre os escaravelhos pretos do sexo masculino. Encontrarmos aqui cinturas com que nunca sonhámos: delgadinhas, tão finas que nunca vão além da grossura de um gargalo de garrafa e das quais, ao cruzarmo-nos com elas, nos afastaremos respeitosamente para que as não molestemos, por acaso e imprudência, com o cotovelo mal-educado; apodera-se do nosso coraçao a timidez e o medo de que um gesto nosso, mesmo um simples descuido na respiração, possa quebrar aquela encantadora obra da natureza e da arte. E que mangas de senhoras encontraremos na Avenida Névski! Ah, que maravilhas! Lembram um pouco dois aeróstatos, pelo que a senhora levantaria voo de repente se não fosse segurada por um homem; porque é tão fácil e agradável levantar ao ar uma senhora como levar aos lábios uma taça de champanhe. Em lado algum se trocam vénias, no momento do encontro, de maneira tão nobre e espontânea. Encontraremos aqui um sorriso único, um sorriso que é o cúmulo da arte, um sorriso que às vezes nos derrete de prazer; (...)Achamos aqui pessoas que falam de um concerto ou do tempo com uma nobreza extraordinária e uma dignidade muito própria. Encontraremos aqui um milhar de caracteres e de fenómenos inconcebíveis. Nosso Senhor!, que caracteres estranhos é possível encontrar na Avenida Névski!»

pp.18, 19, 20

domingo, 13 de junho de 2010

L' ESQUIVE - Abdelllatif Kechiche



A adolescência e a sua agressividade retratada nos subúrbios de Paris intensamente como numa peça de teatro. Marivaux serve de mote para o encontro e o relacionamento entre alunos de uma mesma turma e surge como pretexto da encenação maior da alma humana em estado de ebulição e aperfeiçoamento.

LA CÔTE D'AMOUR


Uma costa com este nome é uma costa com mais verão.

sábado, 12 de junho de 2010

À Ana Bela Ana que está bem longe do seu amor, em Genebra, sem deixar de pensar nele com toda a certeza...

sexta-feira, 11 de junho de 2010

CONTRIBUTOS DO DOUTOR PARA A MEDICINA - GONÇALO M. TAVARES


Desaparecer a horas certas, mas para onde?

Sabe-se que Robert Walser era de uma pontualidade excepcional. Considerava a pontualidade uma obra-prima.
Trata-se pois de colocar a delicadeza no ponto certo. Não fazer esperar o outro - arte que deve ser tão valorizada como a escultura ou a pintura. Fizeste o mais belo quadro, sim, mas chegaste atrasado ao encontro com o teu sapateiro. Eis uma falha artística irremediável.
A este propósito, o Doutor Vila-Matas contratou o Doutor Pasavento para averiguar “o que se sentia ao chegar com a máxima pontualidade, mas exactamente com um ano de atraso, a um encontro na Cartuxa de Sevilha”. Uma pontualidade em diferido – semelhante ao som que chega uns segundos depois da imagem correspondente.
Mas o que importa é isto: a pontualidade no desaparecimento. Marcar a hora exacta não de um encontro, não de um desencontro (tu vais por uma rua e eu por outra); mas de um rigoroso desaparecimento. Eis o difícil.
Só quem já desapareceu percebe que é impossível definir com exactidão a hora, o minuto e os segundos em que algo ou alguém desaparece. Porque desaparecer não é apenas deixar de ser visto. No limite, é deixar de se ver a si próprio. (Só tem uma vida boa quem tem um bom esconderijo, dizia o sensato Kierkegaard.)
Desaparecer da frente dos outros requer esforço, mas é possível (o bom esconderijo resolve) – desaparecer diante do espelho, eis o grande obstáculo.

Não se quer sentar na minha cadeira?

Ser grande é saber ceder o seu lugar a outro, escreveu Handke, citado por Vila-Matas. Desaparecer, cedendo o lugar a outro - eis a grandeza deste Doutor Vila-Matas que cede o seu lugar ao colega Pasavento que, por seu turno, o cederá a outro.
Trata-se de uma série de desaparecimentos sucessivos, idêntico a uma série matemática em que uma lógica implacável conduzisse um número grande a números cada vez mais pequenos. Até se atingir o infinitamente pequeno.
Mas como chegar ao zero através de infinitas reduções?
O problema é, pois, este: o infinitamente pequeno dividido ao meio continua a não ser zero. Desaparecer, de facto, não é fácil.
No fundo, o Doutor Pasavento ilustra, em literatura, o dilema sem saída de Zenão.

A mão enorme, o papel minúsculo

Kafka queria continuar existir, mas sem ser incomodado. O Dr. Pasavento também.
A escrita desaparece primeiro através de um método de alturas, tamanhos. A letra vai ficando mais pequena. Se não fores capaz de parar de escrever, pelo menos que os teus textos ocupem menos espaço no mundo. Eis a micro-escrita. Quem escreve muitas letras numa minúscula folha, escreve muito ou pouco? Eis uma questão, apesar de tudo, significativa.
Trata-se de produzir uma escrita Liliputiana.
Podemos até imaginar a mão de um gigante, a mão enorme de um gigante que não pára de se mexer sobre a mesa, segurando no mais velho utensílio da escrita. A mão enorme que escreve letras minúsculas. Eis o génio da redução, dirás.
Michael Issacson, professor de engenharia, escreveu, com um feixe electrónico, num cristal de cloreto de sódio, palavras com dois nanómetros de largura.
Juan de Gurtabay escreveu o Pai-Nosso em castelhano (57 palavras) em 53mm². Em 1930.
No fundo, eis como o escritor desaparece (uma metodologia possível): em 1930 escreve o Pai-Nosso em 53 mm² em 1931 em 52 mm², em 1932 em 51mm², e assim sucessivamente. Aperfeiçoar, simultaneamente, a escrita e o desaparecimento.
Ao mesmo tempo: oração cada vez mais exacta e aperfeiçoamento literário.

O centro do livro

Aos 85 anos, o Doutor Vila-Matas desce do seu cavalo ainda em movimento, senta-se e escreve um livro em 2mm².
Os leitores protestam. Onde está o livro? Aqui, aponta o Doutor Vila-Matas. E coloca o dedo, com precisão, no centro dos dois mm². (Nesse momento, existe a sensação de que se falhou por 2 mm² a perfeição da escrita, a escrita que desaparece no momento em que aparece.)

Voltemos, então, a esse livro minúsculo, imaginado. A primeira letra localiza-se exactamente no topo esquerdo dos 2mm² e o último ponto final do livro localiza-se exactamente na extremidade direita da base inferior dos 2mm².
No meio destes dois limites: o livro.
A velha exigência de leitores diferentes para livros diferentes dá aqui outro passo. Não apenas novos leitores, novos olhos – eis o que se exige.
É que aquilo que parece um risco mínimo na folha (2mm² de traço involuntário) com olhos atentos e aperfeiçoados verifica-se ser o novo livro de quem quer desaparecer.

Contributos para a medicina (considerações finais)

Há no Doutor Vila-Matas essa atracção pela Patagónia em que existe “uma pessoa por quilómetro quadrado e reina o silêncio” e por esses países em que não se publicam livros.
Mas felizmente o Doutor Vila-Matas é um médico generoso e um inventor reputado – no meio da descoberta de novas doenças (a Angústia do Pasavento (APS), o Mal de Montano (MM), entre outras), consegue manter essa infinita delicadeza Walseriana de procurar nunca incomodar os outros mesmo que os outros sejam portadores de uma guilhotina e o seu pescoço seja o alvo. Provocar danos na lâmina, nada envergonharia mais o pescoço do homem discreto e delicado que quer desaparecer.
Mas o mais importante é o inverso: ainda não foi inventado (e jamais o será) a lâmina capaz de encontrar o sítio onde esta literatura colocou o pescoço.

in http://www.enriquevilamatas.com/escritores/escrtavaresgm1.html

DELÍRIO - LAURA RESTREPO

Um excerto deste livro (editado em Maio pela Editorial Presença em português, com tradução de Regina Louro), para mim um escape ao quotidiano cinzento passado na escola onde vibram, num mesmo tom, todas as obrigações de final de ano.
Com uma capa "de pasmar", que é um verdadeiro prazer segurar com as duas mãos, este romance é um belo passeio pelo mal que provoca no ser humano, um país imerso na total decadência... Colombia e as drogas, a lavagem de dinheiro, a luxúria, a ganância ... através de uma narrativa rica de vozes, de pormenores que prendem a nossa atenção, pela riqueza interior das personagens que vão construindo as histórias, os mitos, com o suspense que nos empurra com violência até às últimas páginas. O amor de Aguilar por Agustina, esse é posto à prova a toda a hora, engrandecendo este sentimento que sobrevive a tudo.


«Aguilar diz que desde que a mulher está estranha se tem dedicado a ajudá-la, mas que só consegue desagradar-lhe e importuná-la com os seus inúteis desvelos de samaritano. Por exemplo ontem, altas horas da noite, Agustina ficou colérica porque queria enxugar com um trapo o tapete que havia ensopado, obcecada pela ideia de que deitava um cheiro esquisito, e que me dá um desgosto horrível ver o monte de vasilhas de água que ela vai colocando por todo o apartamento, deu-lhe para celebrar baptismos, ou abluções, ou vá-se lá saber que rituais, invocando uns deuses de sua invenção, lava e esfrega tudo com um esmero desmedido, esta minha indecifrável Agustina, qualquer nódoa na toalha ou porcaria nos vidros tornou-se-lhe um tormento, sofre por haver pó nas cornijas e fica irascível com as marcas de lama que segundo diz os meus sapatos vão deixando, até as próprias mãos lhe parecem nojentas embora as esfregue uma e outra vez, já estão vermelhas e secas, as suas belas mãos pálidas, porque não lhes dá tréguas, nem me dá tréguas a mim, nem sequer a si própria. Diz Aguilar que enquanto celebra as suas cerimónias dementes a mulher vai dando ordens à tia Sofi, que se ofereceu para menino de coro complacente, e as duas vão arrastando cacos de água como se assim conseguissem exorcizar a ansiedade ou recuperar um pouco do controlo perdido, ao passo que ele não descobre que papel desempenhar nesta história nem sabe como travar o furor místico que vai invadindo a casa sob a forma de fileiras de xícaras de água que aparecem alinhadas contra os frisos das paredes ou sobre os peitoris das janelas, De repente abro uma porta e viro sem querer uma bacia de água que Agustina tinha escondido lá atrás, ou vou a subir ao segundo andar e sou impedido pelas panelas cheias de água que ela colocou em cada degrau. Como é que eu chego lá acima, tia Sofi, se Agustina inutilizou a escada?, Por ora fica cá em baixo, Aguilar, tem um pouco de paciência e não tires daí essas panelas, que já sabes o fanico que lhe dá, E onde é que comemos, Agustina minha, se encheste a mesa de pratos com água? Pô-los em cima das cadeiras, na varanda e à volta da cama, o rio da sua loucura vai deixando um rasto até nas estantes dos livros e nos armários, por onde passa vão-se abrindo estes quietos olhos de água que fitam o nada ou o mistério, e mais do que desgosto o que eu sinto é a agonia de um fracasso, a angústia de não saber que bolhas são essas que lhe rebentam por dentro, que peixes venenosos lhe percorrem os canais do cérebro, de maneira que não me ocorre nada melhor do que esperar por um descuido seu para esvaziar vasos e pratos e baldes e devolvê-los ao seu lugar na cozinha, e a seguir pergunto-te porque me olhas com ódio, Agustina, meu amor, será que não te lembras de mim (...)»


In Delírio, Laura restrepo, pp.16, 17

quinta-feira, 10 de junho de 2010

A VIDA DOS OUTROS - FLORIAN HENCKEL VON DONNERSMARCK

É uma sorte poder ver este filme de Donnersmarck que decorre cinco anos antes da queda do Muro de Berlim, em 1984, sobre a vigilância aterradora a que foram submetidos os habitantes da RDA. Agradeço a referência a este filme a Enrique Vila-Matas que me apressou com as suas impressões a querer ver "A Vida dos Outros".



«Um entre cada cada três cidadãos era «informador não oficial» da Stasi, a agência de segurança do Estado. É um grande filme, com um actor , Ulrich Mühe, simplesmente extraordinário. De uma forma quase imperceptível, a sua personagem, um frio espião da Stasi, dá uma volta radical no dia em que começa a investigar a vida de um dramaturgo e a sua companheira, uma famosa actriz de teatro. O cinzento predomina em todas as sequências. «O cinzento nunca teve muitos partidários, embora alguns deles fossem eminências. Era a cor preferida de Bertold Brecht», disse Florian Henckel von Donnersmarck.
Há um momento em que o dramaturgo espiado procura um livro azul de Brecht que tinha desaparecido do seu escritório e descobrimos que foi roubado pelo espião da Stasi, que o está a ler, ensimesmado no sótão. O espião está a ler no primeiro movimento poético do seu despertar moral e dir-se-ia que , de súbito, descobriu na sua espionagem um meio para aguçar a consciência e estar mais vivo e melhor. (...)
Os métodos da Stasi são-nos mostrados minuciosamente. Vemos as suas escutas, os seus interrogatórios, os seus arquivos, todos esses expedientes que (ao contrário, por certo dos arquivos franquistas) foram abertos há uns anos a todos os atingidos, não sem que isso colocasse certos problemas.
«Houve um grande debate em que muita gente se manifestou contra, porque julgavam que daria lugar a vinganças pessoais, mas enganaram-se. Não houve nenhum problema. As pessoas apenas queriam saber a verdade», comentou Von Donnersmarck.
No seu filme todas as personagens são complexas e contraditórias e escapam ao cliché do bom e do mau a que nos habituaram tantos romances e filmes, e agora os nossos políticos. (...)»
in Diário Volúvel, Enrique Vila-Matas, pp.110, 111

terça-feira, 8 de junho de 2010

À VOLTA DA EPÍGRAFE

«Sabiamente, Henry James aconselhava os escritores a não escolher um louco para personagem principal de uma narração, pois não sendo o louco moralmente responsável, não haveria verdadeira história para contar.»

Gore Vidal
in Delírio, Laura Restrepo


Mas é precisamente em Delírio, de Laura Restrepo (traduzida para a nossa língua recentemente, e editada no passado mês de Maio pela Editorial Presença), obra de onde transcrevi esta interessante epígrafe, que toda a história gira, ironicamente, à volta de Agustina, uma personagem feminina em estado de loucura.
A obra começa precisamente com Aguilar (marido de Agustina) a confessar que soube que algo de terrível tinha acontecido com ela no momento em que, devido a um telefonema de um desconhecido que recebeu, vai buscar a sua mulher a um hotel e se apercebe, no preciso momento em que um homem veio abrir a porta do quarto, da imagem dela sentada ao fundo, a olhar pela janela de modo que achou muito estranho. A partir deste momento, Aguilar não reconhece mais a sua mulher e vai empreender o papel de um detective de forma a descobrir o que provocou esse estado de loucura, esse delírio em que a mesma vive.
Lembro-me também, rumando no sentido contrário daquele que nos é sugerido por Henry James, do Diário de um Louco do conceituado autor russo Nikolai Gógol, onde assistimos ao quotidiano infernal do funcionário de uma repartição que se apaixona loucamente pela filha do seu director e fica sujeito, por esse motivo, a “ouvir e ver coisas que ainda ninguém viu nem ouviu”. Ao longo do conto assistimos ao desmoronamento da razoabilidade humana, insuflado pelo sofrimento provocado por essa paixão que o leva inclusive a perseguir, de forma patológica, o animal de estimação da amada, com o anseio de perceber o que este pensa.
De Rosa Montero, destaco A Louca da Casa, no qual mais uma vez impera a extravagância, a loucura, o sonho pela descrição dos comportamentos mais íntimos dos escritores, assumindo-se um discurso próprio ora do romance autobiográfico ora da biografia (e, resumindo, um discurso sobre cada um de nós, leitores) …
Gonçalo M. Tavares com os seus "livros pretos", nomeadamente com a série O Reino investe no retrato da loucura através de variadas personagens.
Em Jerusalém, Mylia, por exemplo, fica aterrorizada desde o início da diegese com a possibilidade de alguém “olhar para si e murmurar: eis uma louca!”. Também Hinnerk é um homem cujo medo aumentava de dia para dia, sentindo-se cada vez mais ameaçado por qualquer acontecimento que aconteceria, na sua cabeça, para breve, atemorizando as crianças com o seu próprio temor ou terror.
Em Klaus Klump, vários são os loucos que vão sendo retratados primorosamente -desde Catharina, viúva e mãe de Joanna (namorada de Klaus), até à perspectivação do real e dos outros pelo próprio Klaus, o absurdo é uma marca viva na escrita desta história passada em tempo de massacre e de guerra (tão viva que chega a dialogar com o universo da loucura e do horror de Kafka).
Também em Aprender a Rezar na Era da Técnica, Gonçalo M. Tavares aborda a esquizofrenia com uma naturalidade chocante, baptizando uma das suas personagens com o nome de Buchner, fazendo com que esta personagem, através do seu nome, reavive a referência à primeira descrição pormenorizada de um estado de esquizofrenia na literatura alemã com a obra Lenz do dramaturgo Georg Buchner.
De facto, o conselho de Henry James é, pelos vistos, levado pouco a sério por tantos autores que por investirem na loucura como personagem ou como tema ou, até mesmo, como substância criativa da escrita demonstram a evidência de novos caminhos, desenhando mais do que aquilo que nos cerca e aquilo que somos, a face completamente imprevista da realidade e da existência humana, o avesso daquilo com que habitualmente contamos, definindo-nos como não somos ou não queremos ser, em última instância.
Venham os loucos à flor da literatura! No nosso século a narrativa literária é tão estilhaçada e confusa como a mente de um louco, e não deixa, desse modo, de contar histórias com verdade.

segunda-feira, 7 de junho de 2010


Sobre o Verão de Jonh Coetzee, apetecia-me dizer num texto imenso muitas palavras de elogio, transcrever muitos excertos fascinantes e até voltar a lê-lo e comentá-lo página por página, ou pelo menos, capítulo por capítulo ... a página que me enviaste, linda amiga, foi uma alegria e em simultâneo uma tomada de consciência de que há outros que fizeram da mesma leitura a mesma alegria . Há outros que constatam que há livros e autores que forçosamente têm que ser lidos e pensados por valerem tanto a pena... Fiquei imensamente contente por verificar que com este livro não restam dúvidas da qualidade especialmente superior dos textos deste autor que se mostra num texto aparentemente autobiográfico tão reticente contra si próprio, tão capaz de se pensar e de se mostrar ao mundo cheio de "defeitos", de inventar um modo de narrar tão novo (através de entrevistas - na sua forma tradicional ou transformadas em texto narrativo na 3ª pessoa - realizadas por um biógrafo a algumas personagens que o conheceram e o marcaram por variadas razões que o leitor nem sempre entende; através dos seus simulados cadernos de notas a abrir e a fechar a obra ). É caso para anotar que hoje é tão difícil criar qualquer coisa nova que o que Coetzee faz é um prodígio na Literatura. Inventar-se morto bem como um centro de interesse desse outro biógrafo desconhecido, projectar-se para além da morte em palavras de quem o conheceu e não o amou verdadeiramente não é para todos! E afinal, onde está a verdade dos pormenores da vida que lemos na Litertura? Isso, realmente, passa-nos ao lado perante a genial arquitectura do romance, perante a criatividade e o interesse de tudo o que nos diz e sente através das suas geniais personagens.

Deixo o fecho da página intitulada "La Verdad de Coetzee" (que me enviaste este fim-de-semana) sobre este escritor e as suas obras autobiográficas mais recentes que tanto gostei de ler:
«Diría que el libro es deslumbrante si no fuera porque el deslumbramiento no deja ver y aquí, en cambio, lo que hacemos es, precisamente, ver. Léanlo como quieran ustedes, como cierto o como no cierto, pero léanlo; por su extrema inteligencia, por el derroche de talento, por su capacidad de convicción y por abrir nuevos caminos a la escritura narrativa. Por aquí sí se cuece el futuro de la novela.»

PRÉMIO CAMÕES - FERREIRA GULLAR

Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

Cantiga para não morrer

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.
Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

domingo, 6 de junho de 2010

MOBY AWARDS 2010


O booktrailer Going West de Maurice Gee, ganhou o Moby Awards deste ano, na categoria "Grande Orçamento", uma das muitas categorias singulares que distinguem tanto os melhores como os piores trabalhos fílmicos promotores de livros. Para distinguir os piores booktrailers podem-se ler nomes de categorias bem caricatas como por exemplo "Trailer Least Likely to Sell the Book" (sem dó nem piedade!).


Deixo o trailler melhor de todos, também aconselhado como uma "pequena maravilha" por José Mário Silva. E o certo é que eu concordo plenamente com ele:





(Os restantes moby awards podem ver-se em http://2010mobyawards.wordpress.com/)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Deste livro, escolhi três excertos das cartas que nos oferecem o mais íntimo de Kafka e que (tal como com Pessoa) nos levam a confundir a sua vida com a literatura. Milena foi identificada como a personagem Frieda da obra mais complexa que escreveu, O Castelo. Também o marido de Milena Jesenská (Ernst Polak) parece projectar-se na personagem «senhor Klamm», assim como a relação de inteira dependência que se criou entre os dois casais. Max Brod afirma mesmo que «a trama do romance (…) constitui a projecção simbólica e romanesca do drama vivido por Kafka na vida real.» A escrita demorada d' O Castelo, que ocorreu entre os anos de 1921 e 1922, parece reflectir alguns dos dramas pessoais deste autor, vividos no ano anterior à sua criação, 1920.

Interessante é a forma como Kafka e Milena se conheceram e aproximaram: através da literatura. O primeiro contacto deste par deu-se no ano de 1919 quando ela, impressionada com a qualidade excelente da escrita deste homem, lhe envia uma carta a pedir autorização para traduzir alguns dos seus textos mais famosos. Esta carta é o marco da abertura de uma longa correspondência entre este par. O tom amigável e sério com que a relação começa acaba por se transformar gradualmente numa relação epistolar apaixonadíssima, relação esta que terá a duração de 2 anos. Cada um deles passará por muito sofrimento pois se Milena é casada e vive em Viena com um marido que pouco lhe liga, e um pai que a renega precisamente por esta ter casado com ele, Kafka é noivo da judia Julie Woryzek, contrariando igualmente o desejo de seu pai. Assim, depreende-se que a paixão de Milena e Kafka acontece num contexto emocional tempestuoso e muito complicado. Kafka vai depositar em Milena, que considera como a sua alma gémea, os seus mais profundos segredos, mostrando-se tão humano e interessante como qualquer uma das personagens que prodigiosamente inventou.

Ficam algumas das suas palavras:

« E por isso tens razão quando dizes que já fomos um único ser, e não tenho nenhum medo disso, pelo contrário, é a minha única felicidade e o meu único orgulho e não o restrinjo de modo nenhum ao bosque»

“(…)As mais belas das tuas cartas (e isso é dizer muito, pois são, no seu todo, quase linha por linha, o que de mais belo aconteceu na minha vida) são aquelas em que justificas o meu «medo» e simultaneamente procuras explicar que não tenho de o ter. Pois também eu, por muito que às vezes pareça um defensor subornado do meu medo, no fundo o justifico, provavelmente, mais, sou feito dele e ele talvez seja o que eu tenho de melhor. E já que ele é o melhor de mim, talvez seja também a única coisa que te agrada. Porque, de outro modo, que se poderia encontrar em mim que fosse tão digno de ser amado. Isto é, no entanto, digno de ser amado.”

“ É tão triste a tua carta hoje e sobretudo encerra de tal modo a dor em si que me sinto completamente excluído. Quando por vezes tenho de sair do quarto, subo e desço as escadas a correr para apenas estar de novo lá e encontrar o telegrama em cima da mesa: «Também eu estarei no sábado em Gmund . (…)”

in Três Cartas a Milena Jesenská, Franz Kafka

terça-feira, 1 de junho de 2010



«-Escrever é tentar saber o quê? - grita-me alguém do Paseo Marítimo.
Estou em frente ao mar, na varanda de um quarto de hotel em Maiorca. A canção que ouço sem cessar desde há um bocado, «Batiscafo Katiuskas», é dos Antònia Font, um grupo musical maiorquino que ouço através do computador portátil enquanto escrevo isto. Apoiei-me no peitoril da varanda, saúdo os amigos literatos. É uma manhã limpa deste inverno insólito, tão agradável. A música dos Antònia Font, estranha e de grande força poética, contribui para a sensação geral de beleza.»
in Diário Volúvel, Enrique Vila-Matas
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É irremediável tentar convencer-me de que o livro também é meu, um pouco, sim, é como se fosse... Sofro estupidamente só porque ele pertence à biblioteca, é público, pronto, acabou-se, é de todos nós! Não vale a pena martirizar-me mais com isto, nunca o comprei e ponto final. Não posso ter todos os livros de que gosto. Não tem jeito insistir em apurar a razão que não me levou ainda a comprá-lo. Se até lá não conseguir sossegar, tenho que o comprar impetuosamente... Mas primeiro, vamos ver como reajo ao devolvê-lo à biblioteca, como se o atirasse a uma das mil e uma ondas do oceano, sem dó.
Há livros que se apoderam de nós, abusam de uma fraqueza franca, de um sofrimento que se cola à pele, levantando-lhe toda a penugem em arrepio, no momento que antecede a separação física, às vezes vinte e quatro horas antes, outras vezes apenas a longa noite mal dormida... é frequente pressentir que se abre na mesinha-de-cabeceira, ocupando-lhe todo o tampo, luxurioso, a recitar as passagens que mais fascinam, propositadamente, como chantagiando, como reforçando a ideiae que é apenas nosso, fazendo-nos sentir mal se não o tomamos nas mãos, arqueando-o, dobrando-o sobre si ... se não pensamos em furtá-lo, se deixamos de o ler...É o que se passa com o quase meu Diário Volúvel...



A criança vive muito intensamente o presente. Para ela não existe o passado nem o futuro. O hoje é o seu tempo, a sua meta. Cada segundo para si vale horas infinitas. Ela é sábia sem dar conta disso e a filosofia que dela se desprende é de um entendimento superior. Sabe amar a sério e desacreditar por razões concretas.Sabe ouvir histórias, encantada, como nenhum adulto. Tenho saudades da criança que fui.


«Del poco dormir y del mucho leer se le seco el celebro, de manera que vino a perder el juicio.»

D. Quixote