domingo, 29 de novembro de 2009

Tanto de meu estado me acho incerto - Camões



Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, justamente choro e rio,
O mundo todo abarco e nada aperto.


É tudo quanto sinto, um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.


Estando em terra, chego ao Céu voando;
Numa hora acho mil anos, e é jeito
Que em mil anos não posso achar uma hora.


Se me pergunta alguém por que assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.


Hoje andei particularmente feliz ao ler um "sem número" de vezes este poema - sem dúvida um dos meus predilectos de Camões. Todos os anos, quando chega o momento de dar a conhecer a lírica de Camões aos alunos, é uma festa para o meu espírito. São semanas felizes, trabalho sem trabalho, feito só de prazer de leitura, de leitura de prazer. E penso sempre ao reler este poema (e tantos outros): Que novidade poderá ser escrita pelos novos poetas perante um amor assim dito, nestas palavras desmesuradas de tensão e, simultaneamente, contidas em sílabas certamente contadas pelos dedos? Palavras nuas, palavras sóbrias para um amor, que como verdadeiro amor, não cabe no peito de quem o sente.

Apaixona-me a forma servidora (tal como na poesia trovadoresca) de como o poeta se refere distanciada e respeitosamente à mulher - "minha Senhora" - e ao mesmo tempo se vincula no humanismo renascentista de que afirma o seu sentir, tenso e exacerbadamente inquietado pela dúvida do "sentir-se enganado pelo seu sentir"... Conflui ainda no poema um modo maneirista de viver o amor, pelo exagero da hiperbole e do paradoxo. E é simplesmente incrível como um sentimento descrito em pleno século XVI é a mesma matéria, a mesma língua, a mesma expressão final do século XXI. Hoje, durmo mais apaixonada.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Arte Digital

- O Livro da Natureza -

É um livro a natureza - diz o fotógrafo neste olhar que imprime e tranforma o real a seu bel-prazer. E as cores chamam com força alguém que as distinga e lhes entenda a textura, criando na paisagem uma e outra letras que se pareçam com um gesto, um embarque, uma curva mais estreita onde caiba uma emoção humana.


domingo, 22 de novembro de 2009

Discurso Directo de David Mourão-Ferreira



Perante a questão " Que dez romances levaria para a Lua?", o teu querido David Mourão-Ferreira responde o seguinte, provando que é um leitor de bom gosto: «... imaginando-me na Lua por tempo indeterminado, creio que seleccionaria dez romances que constituíssem dez imagens diversas, no plano da ficção, daquela realidade cultural e afectiva - ou afectiva e cultural - em que nasci, em que me criei, e a que me sinto profundamente ligado. se é preciso dar-lhe um nome, chamemos-lhe : Europa. Seriam, portanto dez romances "europeus"; seriam talvez estes: As Metamorfoses, de Apuleio; A Demanda do Santo Graal; D. Quixote, de Cervantes; Les Liaisons Dangereuses de Laclos; Guerra e Paz de Tolstoi; Os Maias de Eça de Queirós; À la Recherche du Temps Perdu de Proust; Doctor Faustus de Thomas Mann; The Waves de Virginia Woolf (ou Ulisses de James Joyce ?); Alexandrian Quartet de Lawrence Durrell.

É claro que nem todos estes romances foram eleitos pelas mesmas razões. (...)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

TETRO

O último filme de Francis Ford Coppola (que esteve recentemente entre nós no Estoril Film Festival) estreia hoje, 19 de Novembro. Rodado em Buenos Aires, Tetro conta a história de reencontro, numa família de emigrantes italiana.


Para saber mais sobre a carreira de Coppola:


http://pt.wikipedia.org/wiki/Francis_Ford_Coppola



O trailer de Tetro:



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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

CINANIMA


Doce Pat, escrevo-te ao sabor da agradabilíssima música que colocaste no post anterior! Que surpresa tão saborosa... verdadeiramente suculenta...

Aproveito este relax para te dizer que (talvez saibas já, mas deixa lá, faz de conta que é novidade....) acabou no domingo, dia 15 de Novembro, mais um festival de animação que decorreu desde o dia 9, em Espinho... é verdade... no teu belo recando, bem junto ao mar. Segundo os críticos, trata-se do maior festival de cinema de animação português e um dos mais destacados a nível internacional e esta foi já a 33ªedição!

Não sei se aprecias o género, mas a mim agrada-me imenso a animação pois neste tipo de cinema conseguimos ver o quão ilimitado é o potencial humano ! A imaginação, de facto, surpreende-nos constantemente e o ser humano é uma caixinha de surpresas. Repara bem na qualidade dos filmes que te proponho e que passaram no certame. Tive a preocupação de escolher filmes também em português pois a elevada qualidade dos mesmos não fica nada a dever aos estrangeiros! Somos bons a fazer cinema, apesar dos poucos meios e fracos ou raros incentivos. Porque insiste Portugal em monopolizar os subsídios nos produtores de sempre e não dá oportunidade de se afirmarem no mercado novos talentos?


Espero que gostes da selecção e junto ainda o sítio oficial do festival...
E porque sonhar é bom, VOOS ILIMITADOS, AMIGUINHA


De Portugal:


Mi vida en tus manos (de Nuno Beato): sobre a tourada e ganhou o Prémio António Gaio


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Pássaros (de Filipe Abranches): ganhou o Grande Prémio Tobis


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Do Estangeiro

The Spine (de Chris Landreth): ganhou o Grande Prémio Cinanima 2009

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URS (de Moritz Mayerhofer): ganhou o Prémio Melhor Banda Sonora Original

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In attic: who has a birthday (de Jiri Barta): de acordo com a crítica, uma animação fabulosa


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Goat Stor- the old Prague Legends (de Jan Tománek): a primeira longa metragem 3D da República Checa e que conta a história do homem que fez o relógio mais famoso da Europa

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The tale of the soldier Fedot, the Darkling fellow (da russa Ludmila Steblyanko): a crítica refere tratar-se de uma história de encantar em verso e ainda ao estilo soviético

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Boogie, el acetoso (do argentino Gustavo Cova): segundo a crítica trata-se de uma obra excessivamente violenta e inspirada numa BD proibida na Argentina durante a ditadura



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Fonte: Jornal de Letras de 4-17 de Novembro 2009

terça-feira, 17 de novembro de 2009

ST. VINCENT

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Ana Bela Ana,

espero que gostes muito desta música de St Vincent e dos National que para mim é soberba. Ambas as vozes são distintas e belas como os cantores. Conseguem contar histórias e despertar emoções que fazem de nós outros. É um lance de dados novo, um sobrevoar sobre tudo o que não interessa nesta rotina irremediavelmente absurda do trabalho. E viva a música e o sonho que traz. Bjs amiga...

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Parabéns José Saramago


José de Sousa Saramago (Azinhaga, 16 de Novembro de 1922) é um escritor, roteirista, jornalista, dramaturgo e poeta português.
Foi galardoado com o Nobel de Literatura de 1998. Também ganhou o Prémio Camões, o mais importante prémio literário da língua portuguesa. Saramago é considerado o responsável pelo efectivo reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa.
O seu livro Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness, em inglês) foi adaptado para o cinema e lançado em 2008, produzido no Japão, Brasil e Canadá, dirigido por Fernando Meirelles (realizador de O Fiel Jardineiro e Cidade de Deus).
Nasceu na província do Ribatejo, no dia 16 de Novembro, embora o registo oficial apresente o dia 18 como o do seu nascimento. Saramago, conhecido pelo seu ateísmo e iberismo, é membro do Partido Comunista Português e foi director do Diário de Notícias. Juntamente com Luiz Francisco Rebello, Armindo Magalhães, Manuel da Fonseca e Urbano Tavares Rodrigues foi, em 1992, um dos fundadores da Frente Nacional para a Defesa da Cultura (FNDC). Casado com a espanhola Pilar del Río, Saramago vive actualmente em Lanzarote, nas Ilhas Canárias.
Wikipédia

sábado, 14 de novembro de 2009

Ainda Ondjaki

Doce amiguinha, e nao e´ que estou a gostar de Ondjaki? Voltei a pegar naquele livro de poesia que custou uma pechincha... e estou a entende-lo de outra forma... Ha´ coisas inexplicaveis... Nao fosse o texto de que te falava no post anterior e dificilmente voltaria a pegar neste livro (Ha Prendisajens com o xao). Por agora vou deixar-te com um texto deste autor tao criativo e que colocou logo nas primeiras paginas...


«aprendizagem e´ a palavra que, ela sim, ramifica e desramifica uma pessoa; ela enlaça, abraça, mastiga um alguem cuspindo-o a si mesmo, tudo para novas geneses pessoais. estas palavras sao, elas sim, para pessoas que se autorizam constantes aprendicismos. modos. maneiras. viveres. ate sangues. aprendizar nao e´ repessoar-se?»

Ondjaki



Doce Pat, nao sei se leste o texto que Ondjaki escreveu na ultima ediçao do JL. Caso nao o tenhas feito sugiro-te que o faças pois e´´ um texto belisimo de Outono: "Carta de Bloomington Indiana". Fiquei maravilhada com a descriçao que este autor (tao novo!) faz dos tons e das sensaçoes desta epoca tao cativante. Uma verdadeira alma poetica... E as fotos (tiradas pelo proprio) sao magnificas... repara bem nesta ultima: um chao repleto de folhas lindas...
E nesta pesquisa sobre o autor acabei por encontrar o seu sitio na net http://www.kazukuta.com/ondjaki/ondjaki.html
e que e´´ um adepto do twitter
http://twitter.com/ondjaki
Coloquei no nosso cantinho imaginarium o endereço para mais facilmente sabermos por onde vagueia! Muitos sonhos...

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Parábolas e Fragmentos - Franz Kafka

Mais uma vez me apresso por "postar" um pequeno livrinho que dentro de dois dias tem forçosamente que ser entregue à biblioteca onde reside a maior parte do seu tempo de vida.

Um autor de fascínio que, neste livrinho me torna a espantar com tantas ideias em forma de apontamentos e impressões descomprometidas ao nível temático, alguns deles incluindo desenhos de riscos primários e elucidativos (à semelhança do que Gonçalo M. Tavares faz com os senhores do bairro). Todos estes fragmentos revelam a total solidão de Kafka e sua singularidade de pensamento. As "parábolas" merecem um estudo prefaciado por João Barrento mostrando-nos a propósito delas como «...atravessando as palavras há restos de luz...». Um livro especial, que nos deixa lê-lo aos pedaços, possuí-lo de forma fragmentada, sem por isso desviar-se dos sentidos primeiros dos textos. Transcrevo dois deles, que como os restantes fragmentos, são estrutural e tematicamente primorosos:


1.
«Ah», disse o rato, «o mundo cada dia fica mais apertado. A princípio era tão grande que até me metia medo, depois continuei a andar e ao longe já se viam os muros à esquerda e à direita, e agora - e não passou assim tanto tempo desde que eu comecei a andar - estou no quarto que me foi destinado e naquele canto está já a armadilha em que vou cair.» «Tens de inverter o sentido de marcha - disse o gato, e comeu-o».

2. A Aldeia Vizinha

O meu avô costumava dizer: "A vida é espantosamente curta. Agora, ao olhar para trás, ela concentra-se em mim de tal maneira que, por exemplo, não consigo compreender como é que um rapaz novo se decide a ir a cavalo até à aldeia vizinha sem recear - isto, para não falar já de acasos infelizes - que o próprio tempo de uma vida normal e feliz nem de longe chegue para uma tal cavalgada.»
3. O Exame
«Então, em que ficamos?», disse o cavalheiro, olhando-me com um sorriso e ajeitando a gravata. Consegui aguentar o olhar, mas depois voltei-me, de livre vontade, um pouco para o lado e olhei para o tampo da mesa com olhos cada vez mais fixos, como se aí se abrisse e afundasse uma caverna que me atraía o olhar. E fui dizendo: "O senhor que examinar-me, mas ainda não me apresentou provas que lhe confiram esse direito". Desta feita, ele riu alto. "O meu direito é a minha existência, o meu direito é o eu estar aqui sentado, o meu direito é a minha pergunta, o meu direito é o que me advém de o senhor me entender". "Está bem", respondi eu, "partamos então do princípio de que é assim". "Então vou examiná-lo", disse ele; "faça o favor de puxar a poltrona um pouco mais para trás, que me sinto apertado. E peço-lhe também que não olhe para o lado, mas bem nos meus olhos. Talvez seja mais importante para mim vê-lo do que ouvir as suas respostas". Correspondi ao seu pedido, e depois ele começou: "Quem sou eu?". "O meu examinador", respondi. "Claro", disse ele. "E que mais?". "O meu tio", disse eu. "Seu tio!", exclamou ele. "Mas que resposta mais absurda!". "Meu tio", respondi com ênfase. "Nem mais".
4.
«Apenas uma palavra. Uma súplica apenas. Apenas uma aragem. Apenas uma prova de que ainda estás vivo e à espera. Não, nada de súplicas, apenas um respirar, respirar não, apenas estar pronto, estar pronto não, apenas um pensamento, um pensamento não, apenas o sono tranquilo.»


5.
«Desvio-me do caminho.O verdadeiro caminho passa por uma corda que não está esticada a grande altura, mas muito próxima do chão. Parece estar ali para nos fazer tropeçar, e não para que se passe por cima dela.»
6.
«O que eu toco desfaz-se.»

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Anos de Cão - Günter Grass

A propósito dos duros anos de repressão de que o muro de Berlim foi prova, lembrei-me das narrativas de Günter Grass, autor que muito admiro, e do espelho fidelíssimo que elas constituem da História que os Alemães desenharam, cheia de caminhos tortuosamente absurdos e espectaculares por todo o lado negro do ser humano que apresentam. Fica a sugestão de "Anos de Cão":
"Numa pequena aldeia alemã, o pequeno Walter Mattern e o seu amigo de infância, o meio-judeu Eddi Amsel, são o fio condutor para que um certo narrador que se assina Brauxel, Haksel ou Castrop-Rauxel, conforme o momento componha o painel da Alemanha entre a Primeira Guerra Mundial e os anos da Guerra Fria. Eddi Amsel começa a ganhar a vida fazendo e vendendo espantalhos, e, com isso, acaba transformando-se numa grande figura do processo industrial alemão. Senta, filhote do cão Perkun pertencente a Walter Mattern será pai de um cão pastor nobre, presenteado a Hitler ? motivo de orgulho para Walter, a quem o nazismo separa de Eddi. Com imagens fascinantes, uma narrativa forte e enorme plasticidade, Grass constrói um romance envolvente em que os personagens recriam o clima tenso da Alemanha do Führer. Anos de cão, publicado originalmente em 1963, integra a trilogia que o autor dedicou a Dantzig, a sua cidade natal, e da qual também fazem parte O tambor (1959) e Gato e rato (1961). Com Anos de cão, Günter Grass, activista político, ex-soldado da Luftwaffe e artista plástico, confirma o seu talento para a verdadeira instituição alemã que é o conto de fadas. Fábula e política são os trilhos de uma história comovente em direcção à liberdade. "
Sobre o próprio Günter Grass (que aliás, quando se deu a queda do muro se mostrou reticente quanto à reunificação da Alemanha, facto que me demonstra que esse muro de pedra se tinha alastrado ao interior das pessoas, circulando, também, dentro delas, configurando a desconfiança com muitos metros a mais de altura do que o próprio muro de Berlim...esse muro ainda hoje não foi totalmente derrubado.):
Günter Grass (1927 - ) Prémio Nobel de Literatura em 1999, Günter Wilhelm Grass nasceu a 16 de outubro de 1927 em Danzig, na Alemanha, hoje cidade polonesa (seus pais eram alemães de origem polonesa). Durante a Segunda Guerra Mundial, Grass serviu na Força Aérea alemã, e terminou como prisioneiro do exército americano. Foi trabalhador rural e de minas, e depois foi estudar arte em Düsseldorf e Berlim. Entre 1956 e 1959 manteve-se como escultor, pintor e escritor em Paris e Berlim. Seu primeiro romance, ´O tambor´ (1959), foi também seu primeiro sucesso, tendo sido adaptado ao cinema em 1979. Seguiram-se ´Gato e rato´ e ´Anos de cão´, que completam a chamada ´trilogia de Danzig´. Na década de 1960 associou-se ao partido social-democrata, e advogou pela participação política de artistas e intelectuais. Como artista gráfico, Grass costuma desenhar as capas de seus livros e fazer exposições de aquarelas. Sua ficção mistura admiravelmente a fantasia com o realismo, com elementos do macabro e simbolismo que muitas vezes explora o tema da culpa coletiva.
Marcelo Cid

9 -11-1989- Recordando a queda do Muro


A Alemanha festeja hoje o vigesimo aniversario da queda do muro de Berlim e eu nao podia deixar passar este dia sem colocar um post dedicado a este tema tao contemporaneo para nos! Felizmente que a humanidade se livrou deste muro vergonhoso (ergo palavras de elogio aos milhares de alemaes que se insurgiram e que nunca desistiram de lutar pela liberdade).
Lembrei-me por isso, de colocar uma musica e um trailer de um filme em que Berlim aparece como cenario ou personagem principal (depende dos pontos de vista!)... A pelicula e´ Asas do Desejo, de Wim Wenders, sobre a qual ja tanto falamos doce Pat, e a musica e´ dos Radiohead. Embora o filme nao trate do muro, o cenario centra-se numa capital bastante devastada, acabada de entrar num pos guerra traumatico e o muro (que aparece debilmente) acentua esse drama. Achei interessante revermos o sonho e os anseios de um povo verdadeiramente humilhado... o filme e´´ de rara beleza, muito profundo no sentido filosofico e, na minha opiniao, o que melhor retrata a capital alema no contexto da historia do seculo XX.
Para mim, e sem duvida, dos mais belos filmes de sempre...


domingo, 8 de novembro de 2009

Emily Jane White

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Ana Bela Ana,

Obrigada pelo post anterior que me dedicas.

Em resposta, trago-te uma música muito bonita nesta noite fria em que a nossa amizade parece suspensa em algumas notas musicais e numa ou noutra folha da Tília que me espreita na portada da frente, cada vez que o vento lhe concede balanço. A música de que gosto mostra-me palavras e inúmeras possibilidades de as alcançar...como num sonho.

Sara Tavares, uma vozinha magnifica

Pat, doce Pat, apetece-me oferecer-te a harmonia dos sons. Os sons elevam a nossa alma tambem e fazem-nos voar! Hoje escolhi a Sara Tavares, porque procurava a voz de uma mulher.
Achei belas as letras destas musicas e decidi dedicar um post a esta nossa querida cantora.
As musicas sao so´ para ti! Espero que as aprecies. Um optimo Domingo...

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PONTO DE LUZ

Escutando no vento
Tua voz secreta
Que me sopra por dentro
Deixe-me ser só ser
No teu colo eu me entrego
Para que me nutras
E me envolvas
Deixa-me ser só ser

Um ponto de luz
Que me seduz
Aceso na alma
Um ponto de luz
Que me conduz
Aceso na alma

Por trás dessa nuvem
Ardendo no céu
O fogo do sol rai
Eternamente quente
Liberta-me a mente
Liberta-me a mente

Um ponto de luz
Que me seduz
Aceso na alma
Um ponto de luz
Que me seduz
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SAIU PARA A RUA

Rui Veloso e Sara Tavares
Composição: Carlos Tê / Rui Veloso

Saiu decidida para a rua
Com a carteira castanha
E o saia-casaco escuro
Tantos anos tantas noites
Sem sequer uma loucura

Ele saiu sem dizer nada
Talvez fosse ao teatro chino
Vai regressar de madrugada
E acordá-la cheio de vinho

Tantos anos tantas noites
Sem nunca sentir a paixão
Foram já as bodas de prata
Comemoradas em solidão

Pôs um pouco de baton
E um leve toque de pintura
Tirou do cabelo o travessão
E devolveu ao rosto a candura

Saiu para a rua insegura
Vageou sem direcção
Sorriu a um homem com tremura
E sentiu escorrer do coração
A humidade quente da loucura

sábado, 7 de novembro de 2009

Uma Data em Cada Mão - Livro de Horas I de Maria Gabriela LLansol


Há textos que mexem comigo como algumas pessoas:


"11 de Junho de 1972


O que me desespera é que eu própria não seja um codicilo, um caderno, um livro, onde tudo o que acontece possa, a todo o momento, ser escrito."



" 30 de Dezembro de 1972, Maredret


Os fantasmas para mim são os discursos; os fantasmas para Grandville são homens com cabeças de animais, etc., ou seja, representação de coisas. Para mim, a representação faz-se ao nível da palavra. Todo o passeio da homilia primeira é um fantasma."


Notas a este texto: Maredret é uma abadia beneditina belga, perto de Namur, onde Maria Gabriela LLansol fica algumas vezes e onde lê uma biografia de S. João da Cruz e escreve parte d' O Livro das Comunidades.


Grandville é o pseudónimo do caricaturista francês Jean Ignace Isidore Gérard (1803-1847) . As suas "Metamorfoses" influenciaram muito a caricatura fantástica.


"homilia primeira" é uma referência à «Primeira homilia», do Lugar 4 d' "O Livro das Comunidades"


" s.d. [1974?]


Pôr os livros em cima da mesa, empilhados, é a sobreposição de paisagens.

A importância que dou ao Livro, à escrita que faz o Livro, é a importância que dou à Revelação contida no Livro."


*


"Os pés, os detalhes dos pés que são uma geografia.
Cristina escreve cartas e deita-as, insatisfeita, para o dia.
Põe a mão sobre ela e faz amor com ela.
A nuvem sobre Portugal _____
O jardim interior com um quarto pleno de tons de azul.
Atenaia
Situa-se fisicamente ao nível do coração.
A água nova é o sangue.
O pénis penetra até ao coração. Quando o pénis chega ao cora-
ção, vem o sopro.
A nuvem precisa do vento para chover.
Cabeça e ventre translúcidos, parte dos peitos - terra. O cora-
ção da mulher é situado na terra,
lilás
preto
azul.


Fechou os olhos sobre poeira ligeiramente cansada."

O Muro do Fundamentalismo - Crónica Feminina por Inês Pedrosa

Não posso deixar de publicar esta crónica deliciosa de Inês Pedrosa, que li já há algum tempo, a propósito do fundamentalismo e hipocrisia de muitos dos intelectuais (ou em muitos casos como ela própria refere, e muito bem, a meu ver, pseudo-intelectuais) relativamente à reacção ao novo romance "Caim", verdadeiro agitador de consciências, como, de resto, qualquer obra de arte tem o direito de ser.
Na rádio, antes de ter acontecido em Penafiel a "Escritaria" onde foi lançado este livro, ouvi Pilar del Rio dizer, com força de sabedoria, mais ou menos isto: " A arte verdadeira é mesmo assim... basta lembrar da reacção à brutal pintura do tecto da Capela Sistina no seu tempo."
O que mais me escandaliza cruza-se com o que Inês Pedrosa nos diz, logo no início da crónica. Anda para aí muita gente que não quer que se questione a verdade religiosa, muito menos na literatura de ficção... Há muitos autores que o fazem tanto em texto ensaístico (e são grandes nomes!) como na Filosofia (Nietszche: "Deus está morto") ou na Poesia (a descrença em Deus foi decretada muito cedo pelos poetas modernistas e pós-modernistas, todos eles geniais - tal como Saramago - na Literatura Mundial. É o caso do Pessoa (que tão bem o faz com Caeiro, considerado por Ricardo Reis o maior poeta do século vinte, que afirma que ele é “o mais completo subversor de todas as sensibilidades diversamente conhecidas, e de todas as fórmulas intelectuais variamente aceites”) ou o idolatrado Roberto Juarroz em quase todos os seus poemas ("Só deus não me dói hoje./Será porque hoje ele não existe?") ou de tantos e tantos outros artistas que ao brotarem arte, fazem uso despreconceituado, com capacidade crítica, de elementos culturais e civilizacionais de qualquer domínio, tornando-o tangível ou, pelo menos, mais compreensível pela capacidade de questionamento a que o sujeita, pela subversão que lhe impõe para ver tudo num novo espelho...
Inteira igorância daqueles que se dizem intelectuais e "pessoas da cultura" ( que no fundo reagem como aqueles que não sabem muito bem do que o livro trata, e ignoram, em simultâneo, qualquer um dos mitos bíblicos que tanto defendem, nem mesmo sabendo a diferença existente entre o Antigo e o Novo Testamento) defenderem única e exclusivamente a sua faceta religiosa com um fundamentalismo lastimável quando se fala em "Caim" (ou "José Saramago", que para eles é a mesma pouca vergonha!) arremessando a ideia de que ele não atinge o significado dos textos bíblicos... lendo-os só na sua superfície... Desculpem-me a invectiva mas tenho que a verbalizar: "Seus grandes imb... acham que alguém que escreveu "O Ano da Morte de Ricardo Reis, A Jangada de Pedra, Memorial do Convento, Ensaio sobre a Cegueira, O Homem Duplicado, Todos os nomes e tantas outras obras valiosíssimas, não consegue perceber muito bem na sua pesquisa religiosa os textos bíblicos sobre os quais quer efabular?!!?? Deixai-me confessar que acho isto de um estado primitivo incrível... Acredito (como tenho a certeza que acreditaria Pessoa) que eram necessários muitos Saramagos neste mundo para cultivar mais inteligência. Deixo algumas linhas de um texto de Pessoa, que extraí de"Ideias Políticas" como forma de abrir o apetite para a crónica da sempre fabulosa Inês Pedrosa:
" Portugal precisa dum indisciplinador (...) Trabalhemos ao menos - nós, os novos - por perturbar as almas, por desorientar os espíritos. "

O Muro do Fundamentalismo (Inês Pedrosa)

Saramago tem o direito de ler na Bíblia o que lá está escrito.


"Caim", de José Saramago, é um romance, isto é: uma ficção literária. É, além disso, um bom romance, isto é: uma narrativa de grande beleza, que rasga o tecido dos saberes sossegados e ergue um vendaval de perguntas. No lançamento deste romance, no "Escritaria" de Penafiel, evocando o Padre António Vieira, Saramago recordava essa coisa só aparentemente simples: escrever é "conhecer o sítio das palavras". A sua disposição exacta na frase.


Escrever é escolher, e a escolha pressupõe conhecimento das múltiplas possibilidades em jogo. Saramago debruçou-se sobre a Bíblia, o livro que determinou e determina ainda a visão do mundo que nos enforma, e interrogou as escolhas de deus - assim, com a mesma letra minúscula que usa para cada membro da humanidade por ele criada, porque é preciso abandonarmos a maiúscula da reverência quando queremos interrogar genuinamente. E viu-se mergulhado num dilúvio de vozes escandalizadas - algumas, poucas, de forma transparente, e a maior parte delas disfarçando o escândalo nas trincheiras da análise intelectual de segundo ou terceiro grau.

Explicam-nos essas vozes doutas, esforçando-se por conter a ira nos infolios da erudição (às vezes mal; salta-lhes o tom), que a Bíblia não pode ser lida de forma literal: tudo o que lá está é para ser interpretado, deduz-se que pelos doutores que reclamam a interpretação. Talvez por isso, de facto, a Igreja Católica nunca tenha feito grande esforço para publicitar o Velho Testamento, antes pelo contrário: nos meus dez anos de catequese consecutiva só me mandavam ler o Novo Testamento, e por partes.

Quando, em 1991, Saramago publicou "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", a polémica foi alta, mas o escândalo circunscreveu-se às instâncias religiosas propriamente ditas - e a um patético senhor do PSD, então com poder bastante para impedir que a obra fosse considerada num prémio europeu. Agora apareceu outro senhor do PSD, felizmente sem poder, a pôr-se em bicos dos pés para aproveitar a onda.

O escritor leu e releu a Bíblia e verificou uma evidência: que ela é um "manual de maus costumes, um catálogo de crueldades". Aliás, Saramago não foi, nem pretende ser, a primeira alma a ter feito essa verificação: sim, a Bíblia é também, entre outras coisas, esse catálogo. Há cerca de dois anos, Christopher Hitchens publicou "Deus não É Grande - Como as religiões envenenam tudo" e Fernando Savater publicou "A Vida Eterna", dois excelentes livros sobre a questão da maldade divina - ou de como os homens inventaram deus para se matarem uns aos outros. Na época, não vi nenhum dos que agora se assanham contra Saramago contestar as teorias idênticas de Hitchens ou Savater. É curioso que um romance, mesmo antes de ser lido, cause um terramoto que nenhum destes ensaios causou.


Uma vez um padre irritou-se comigo porque eu me recusei a ler, num casamento, aquela célebre carta de São Paulo que começa por dizer que o homem é a cabeça da mulher como Cristo a cabeça da Igreja, e exigi ler um texto do Génesis que a ele lhe parecia "muito carnal". Necessitado de exegese e enquadramento, portanto. Sucede que numa sociedade laica e livre ninguém tem que se fixar às leituras alheias.


A acusação, repetida por intelectuais (e aparentados) de diversos quadrantes, de que, ao escolher a letra da Bíblia, Saramago manifesta um espírito fundamentalista igual ao dos que, em nome da sua Bíblia (no caso, o Corão, que aliás tem muitos enredos e personagens em comum com a Bíblia), se explodem a si mesmos e aos outros, não tem razão de ser.
Há uma diferença radical entre escrever e matar, perguntar e bombardear, exercer a liberdade e proibi-la. Estas mistificações têm um objectivo: o de rasurar como terroristas, loucos ou ignorantes os que pensam de maneira diferente. Isso, sim, é fundamentalismo. Verifico, com preocupação, que esse fundamentalismo permanece muito aceso em Portugal.


Saramago tem o direito de ler na Bíblia o que lá está escrito. Cada palavra existe na frase para dizer alguma coisa - é aquela palavra e não outra que lá está. Todo o livro digno desse nome traça um pacto sagrado com a justeza de cada palavra. Escreveu Walter Benjamin: "A arte de narrar tende a acabar porque o lado épico da verdade - a sabedoria - está a morrer." A obra de Saramago prova que esta morte não está iminente.
E conseguiu já um feito notável: trazer para o horário nobre da televisão o debate sobre os fundamentos da nossa civilização, o sentido da vida e da morte - em vez da politiquice e do futebol que são os únicos debates constantes neste nosso mundo de crentes.



Texto publicado na edição do Expresso de 31 de Outubro de 2009

Sobre o mesmo assunto, leia-se (com a minha alegria, caso contrário, não vale a pena...) o artigo de Carlos Reis sobre "Caim" no JL desta quinzena.

O Nietzsche do jazz


«Livre de quê? Que importa a Zaratustra! Mas o teu olhar deve dizer-me claramente: Livre para quê?»
















O que ha de comum entre o Jazz de Julio Resende e Zaratustra de Nietzsche?

Colo aqui um pequeno extracto da noticia de Andre Pinto, que esclarece este misterio...


«Depois "Da alma", o pianista Julio Resende profetiza-nos agora que Assim falava Jazzatustra- e´ mesmo esse o nome do novo album, num simbolico jogo de palavras com o titulo de Nietzsche, Assim falava Zaratustra. Tal como o poema do filosofo alemao, este segundo disco e´ tambem um disco para todos e para ninguem: fresco, poderoso, sensivel e seguro. Sempre em busca de autenticidade e pelo meio de um reportorio estonteante de grandes composiçoes originais ha ainda espaço para uma versao sorridente e luminosa de "Shine on your crazy diamond", dos Pink Floyd (...). Fonte: JL


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sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Alexandre Desplat no Estoril Film Festival




Doce amiguinha, o Estoril Film Festival esta a decorrer (de 5 a 14 de Novembro) e uma vez mais a quantidade de estrelas que invadem o nosso cantinho luso sao imensas: Francis Ford Coppola, David Cronenberg, Juliette Binoche, Peter Handke, David Byrne, Robert Frank, Cindy Sherman ... Alexandre Desplat, entre outros mais.
Por agora vou deixar uma musica de Alexandre Desplat, compositor bastante conhecido por ter feito a banda sonora de dezenas de filmes muito apreciados pelo publico em geral: Rapariga com brinco de perola; O curioso caso de Benjamin Button...
Segundo a noticia do JL, irao passar neste festival dois filmes (em antestreia)com banda sonora sua: O fantastico senhor raposo (Wes Anderson) e Um profeta (Jacques Audiard).
Para saber tudo sobre o decurso deste festival, segue o endereço do sitio:
http://www.estoril-filmfestival.com/

Para conhecer mais detalhes da obra de Desplat:
http://www.alexandredesplat.net/

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Literatura no Feminino


Não posso dizer que prefiro este ou aquele livros, ancorando a minha predilecção no sexo do seu autor... isso seria um autêntico absurdo. A qualidade da Literatura não depende absolutamente do género humano nem tão pouco da orientação sexual de quem escreve (a propósito de rótulos na literatura segundo a orientação sexual, é de leitura imprescindível o capítulo II do livro de Ensaios de Alberto Manguel "No Bosque do Espelho - Uma viagem fantástica ao mundo dos livros" - gostaria até de falar dele num próximo post). Também não quero partilhar da opinião de que há uma escrita no feminino e outra no masculino, no entanto quando leio determinados textos escritos por mulheres, é inevitável o desenho de uma outra espécie de mundo, intelectual e emocionalmente habitado por uma sensibilidade particularmente feminina. Com esses textos que transbordam (uns muito mais do que outros) dessa sensibilidade especial - que de tanto exprimirem com todas as letras e emoções os seus limites e excessos, me fazem reconhecer "a minha mulher" na literatura - mantenho uma relação de total afecto e encantamento. Há também (e todavia) homens, escritores que inscrevem o sentir feminino da mesma forma maravilhosa que as escritoras (quase todos os poetas). Não me refiro, de nenhum modo, à literatura feminista (isto é outro assunto embora se cruze em tantos pontos com este de que falo...). Aliás, em Portugal não se pode falar propriamente em Literatura Feminista (exceptuando as Novas Cartas Portuguesas que tiveram verdadeiro impacto tanto cá como no estrangeiro). O que me interessa, por agora, é deixar algumas chaves de acesso a esse mundo em que se pode descobrir a verdadeira face do feminino, sem disfarces ou imposturas.





De Irene Lisboa, a indagadora obra Voltar Atrás para Quê?







" Ela desatou o pacote de papéis, muito atado, metido numa pasta de cartão, e recomeçou a lê-lo. Já o conhecia. Tinha-o escrito e lido, mas deixara-o adormecer, esquecer quase. Não era uma escritora, não mirava à publicidade. Estava ali um pequeno coração morto, que já não era o seu. Para ela própria se acanhava de o ressuscitar. Tão inútil é viver, reviver um passado longínquo, de raízes secas... Mas por teima e porque andava desasada com a mudança de terra (voltara à cidade, sentia calor, moleza, estranheza), por teima, pura teima, se pôs a relê-lo.
Dois anos, dois anos apenas, ela assim passou, seguidos mas incompletos. Tão longos, tão cheios e tão vazios! Lembrados como nenhuns outros da sua vida.
Lembradas também, ou dentro deles, as rosas-chá e as flores de beladona, os bons-dias e as boas-noites, a Lúcia-lima, a baunilha e as papoilas da índia… que cresciam sem trato num pequeno jardim traseiro da casa e no seu espírito juvenil, sem recheio quase nem obrigações, as suas mais finas particularidades. Para ela, as flores tinham romances, uma vida íntima além de toda a variedade e graça, patentes essas; eram especiais seres idílicos; as flores e também os pássaros, as estrelas… Um dos seus gostos, quando ninguém a via, consistia em se deitar no chão, de olhos para o céu, como se o estivesse bebendo."


Excerto extraído da Contracapa da obra:
“A alma de uma adolescente posta a nu. As alegrias e os sofrimentos, as perplexidades e os deslumbramentos de uma rapariga que se abre para a vida. O mundo secreto um ser- necessariamente, ainda frágil e hesitante – revelado tal qual. Irene Lisboa, com a objectividade, a frieza e a segurança dos grandes mestres, descreve-nos tudo quanto se passa no interior da sua heroína em páginas de uma simplicidade inigualável. E, em páginas pungentes. Mas… quem é a heroína desta espantosa novela? – verdadeira obra-prima da Literatura -, que nos aparece agredida e ferida pelo mundo, pelas pessoas? Indiscutivelmente, a própria autora. Voltar atrás para quê? Tem um sabor único a confissão terrível, que se levou a limites quase insuportáveis e que nos empolga e comove. Voltar Atrás Para Quê? é um grito – que ressoará, para sempre, dentro de quem o ler.”




De Agustina Bessa-Luís ( a criadora do feminino a partir do nada na nossa literatura), A Sibila (noutra obra qualquer se encontra um mundo feminino inigualável):


"Eis Quina, exemplo de energias humanas que entre si se devoraram e se deram vida. Vaidade e magnífico conteúdo espiritual foram os seus pólos; equilibrando-se entre eles, percorreu um extremo e outro da terra, venceu e foi vencida, sem que, porém, as suas aspirações mais inquietantes deixassem de ser, no seu íntimo, as mesmas formas incompletas, chave da transfiguração que os homens eternamente tentam moldar e se legam de mão em mão, como um segredo e como uma dúvida.
Eis Germa, que, embalando-se na velha rocking-chair, pensa e pressente, sabendo-se actual relicário desse terrível, extenuante legado de aspiração humana. Nas suas veias, estão todos os infinitos estados do passado, no seu cérebro condensaram-se muitas e muitas experiências que não viveu, as negações e afirmações ocupam vastos espaços da sua alma. Ela move-se ritmicamente baloiçando-se naquela sala onde se recolhem em pilhas as maçãs; todo o ar rescende a maçã que suga da própria pele a frescura e dela dessangra o suco que acrescentará a reserva da polpa viva, ainda por todo o Inverno.
Eis Germa, eis a sua vez agora e o tempo de traduzir a voz da sua sibila. Talvez, porém, o seu tempo seja improdutivo e nefasto, e ela fique de facto silenciosa, porque - quem é ela para ser um pouco mais do que Quina e esperar que os tempos novos sejam mais aptos a esclarecer o homem e a trazer-lhe a solução de si próprio? Talvez ela fique de facto imóvel no seu constante, lento ou vertiginoso baloiçar, na casa que fortuitamente habita, e a sua história fique hermeticamente fechada no círculo de aspirações que não conseguiu detalhar e cumprir, porque aconteceu ser cedo ou ser tarde, porque não se compreende ou não se crê o bastante, porque se deseja demasiado e isto é todo o destino, porque... porque...»

(últimos excertos da obra)


De Maria Gabriela LLansol, uma leitura de Um Beijo Dado Mais Tarde (não consegui a capa que queria) ou outro livro qualquer, desde que seja da sua autoria. Transcrevo um texto de "Amigo e Amiga - Curso de Silêncio de 2004" (adquirido de forma desprevenida muito recentemente juntamente com "Uma data em cada mão -Livro de HorasI") para fazer corresponder o excerto à capa que apresento:


" LXX.uma esfinge


Nunca mais desejar que o amor a atormente,atirar com o nome e o pronome cada um para seu lado, jogá-lo para


o meio da matéria das árvores,e declarar que o nome é bebida da terra, como o pronome é jarro devinho sobre a toalha de uma ágape.Era fortíssimo o desejo de repelir os ensinamentos.


Era,
é uma noite de ervas, de corpos nus de sentimentos que se queriam
deitar sobre ervas, fechar-se nelas para a prova dos gostos_______
afinal, sem o amor que perpetua o amor. E que, por vezes, lhe é tão
hostil.


O sonho desejante da mulher era legítimo. A sua realização não
dependia da sua vontade. Mas a sua ___ ou a minha ___, vontade ilumi-
nada não conseguia apagar a luz que entrara em cena _______ luz que
me obrigava a dormir, e a deixar uma decisão definitiva para o dia de
amanhã.


Sendo, afinal, indecidido o destinatário da sua própria carta, veri-
fiquei que o fulgor estava em mim e que, de modo algum,
podia fugir-lhe ou suspendê-lo.
Se o fulgor nõa abolia os fragmentos,
o seu corpo cantante era unidade e unificação,
a força de coesão do Há.


(p.98)



Experimenta-os quando puderes, Anabela, na íntegra e sôfrega. Com tempo, experimente-os, FL, e sinta o pulsar feminino na escrita de todas estas escritoras.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

The Paris Review

Continuo a vasculhar... mais uma sugestao de uma revista literaria, esta internacional! E repara no elenco... da vontade de a roubar, se preciso fosse...



Jorge Luis Borges, William Faulkner e Ernest Hemingway são alguns dos 10 escritores cujas entrevistas à Paris Review chegam agora a Portugal, compiladas num volume editado pela Tinta-da-China. E.M. Forster, Graham Greene, Truman Capote, Lawrence Durrell, Boris Pasternak, Saul Bellow e Jack Kerouac são os outros autores presentes nestas entrevistas com selecção e tradução do jornalista Carlos Vaz Marques. The Paris Review foi uma revista criada em 1953 por um grupo de jovens intelectuais norte-americanos em Paris, que inventaram a entrevista literária tal como hoje a conhecemos. Neste volume da Tinta-da-China, com ilustrações de Vera Tavares, foi mantida a ordem pela qual as entrevistas foram publicadas na revista literária trimestral, tendo decorrido 15 anos entre a de E.M. Forster e a de Jack Kerouac.(fonte: Público)

Relâmpago


Doce amiguinha, mais uma revista literaria, Relâmpago, este numero exclusivamente dedicado ao meu eterno e bem amado... DAVID! Junto a capa da revista, um dos meus sonetos favoritos e o convite dos editores...





SONETO DO CATIVO

Se é sem dúvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;

o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que os outros dirão ou não dirão;

se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;

não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!
...
.
A Fundação Luís Miguel Nava e a Casa Fernando Pessoa gostariam de contar com a sua presença na sessão de lançamento do número 24 da revista Relâmpago, que terá lugar na Casa Fernando Pessoa no próximo dia 12 de Novembro, pelas 18:30. A revista será apresentada por Fernando Pinto do Amaral e Gastão Cruz. António Carlos Cortez e Teresa Martins Marques falarão sobre a obra de David Mourão-Ferreira, a quem este número da Relâmpago é dedicado.O actor Luís Lucas lerá alguns poemas de David Mourão-Ferreira.
Para saber mais sobre a fundaçao Luis Nava: http://www.relampago.pt/fundacaolmn.htm

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Susana Baca e Chabuca Granda - duas grandes mulheres do Peru

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Continuando no ritmo latino...
Depois da literatura vagueio pelos sons e lembrei-me de um artigo do JL que recomenda o novo CD de uma grande senhora peruana, Susana Baca. O artigo diz que Susana Baca esta de volta com uma pequena prenda de poesia e arte, capaz de nos trazer novos mundos. O album chama-se Seis Poemas. (...) Curiosamente nao se trata de um album tipico e linear de poesia cantada. Começa por ser uma homenagem a Chabuca Granda, a grande estrela folfclore peruano.
(O meu balanço global ´´e que acabo por descobrir nao uma mas duas vozes lindas! Irresistivel! Ouve com atençao doce Pat, pois parece-me que tambem vais gostar!)



Sobre a poetisa Chabuca Granda encontrei estas palavras:

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María Isabel Granda y Larco (Cotabambas, Perú, 1920 - Miami, Estados Unidos, 1983), más conocida como Chabuca Granda, fue una cantautora y folclorista peruana. Creó e interpretó un gran número de valses criollos y ritmos afro-peruanos. Su tema más conocido en el mundo es La flor de la canela.
Isabel "Chabuca " Granda nació el 3 de septiembre de 1920, en un asentamiento minero de oro, llamado Ccochasayhuay en Progreso Grau Apurimac, cerca de la provincia de Abancay, ubicada en la región de Apurímac. Esta artista peruana comienza a cantar a los 12 años de edad, y forma parte del coro del elitista Colegio Sophianum de Lima por su voz de soprano. Una operación le produjo la voz grave con la que se dio a conocer. Formó parte del conjunto "Luz y Sombra" junto con Soledad Mujica. Su despliegue personal como cantautora se inicia luego de su divorcio, que fue visto como un escándalo para la sociedad limeña de aquella época.
El primer período de su producción creativa es netamente evocativo y pintoresco; “Chabuca” -–este es el nombre con el que se hizo llamar -– le canta a la
Lima antigua, señorial, de comienzos de 1900. Es la ciudad que ella conoció a través de su padre don Eduardo Granda San Bartolomé, la del barrio del Barranco, de grandes casonas afrancesadas, con inmensos portales y jardines de invierno.
Ella rompe la estructura rítmica convencional del vals peruano, y sus melodías, de tesitura muy amplia, alternaron el nuevo lenguaje que propuso con el de los antiguos valses de salón. Su producción también revela una estrecha relación entre letra y melodía, que fue variando con el tiempo hacia una tendencia poética cada vez más sintética.


En sus últimos años, Chabuca Granda interpretó un repertorio ligado al renacimiento de la música afroperuana que, a pesar de haber estado presente en el país, había sido denostada por razones sociales. Manejó con maestría “negra” el abanico de ritmos que enriquecieron la música popular peruana y su poesía tomó el sesgo de la acuarela, el trazo sintético y sugerente de colores y sensaciones.
Su voz y su vasta obra se extendieron más allá de las fronteras de su
país. Sus letras han sido cantadas también por intérpretes de todo el mundo, que han visto en sus composiciones una fina y sensible expresión de la música del Perú.
Falleció por una isquemia cardíaca en una clínica de Miami, Estados Unidos, el 8 de marzo de 1983.