sexta-feira, 30 de julho de 2010

   Por falar em Literatura de Viagens, não posso deixar para trás o mais recente livro de Mathias Énard (sobre o qual já postei ainda há poucos dias) e que me deixa estupefacta pela perícia narrativa manifestada em tantas páginas dedicadas à viagem da personagem principal, viajante de comboio incansável, que encontra  outro personagem viajante, eximiamente construído,  transformado imediatamente num dos seus companheiros de viagem - um checo que possui o "livro dos livros" dos comboios e, em suma, conforme nos faz acreditar, livro da vida de todos nós.
   Como também eu me deixo fascinar por este transporte que dá sentido às Estações e aos seus mágicos placards luminosos, habitados por todas as horas e todos os lugares (que mais me parecem o Espelho do Tempo e Espaço do Universo), não posso deixar de destacar uma passagem literária que me fez verdadeiramente uma leitora feliz. Adorei o estratégico modo de narrar as possibilidades do Acontecimento na vida da personagem a partir da fusão da narração sobre a sua vida íntima com as possibilidades de leitura do gigantesco horário dos caminhos-de-ferro do seu companheiro de carruagem.  Este excerto apenas contribuiu para que esse encantamento do comboio (e de tudo que o cerca) se infiltrasse mais na minha fantasia. Também quero confessar a minha expressa admiração (chega a tocar a incredulidade!) pela capacidade de escrita criativa patente neste texto literário de um autor que nasceu depois de mim e tem o imaginário a abarrotar de palavras com histórias interessantes... Sinto-me muito feliz por ter tido a sorte de conhecer Mathias Énard estendido ao longo de tantas páginas "simplement délicieuses". Espero que também gostes muitíssimo.


Deixo o excerto a que me referi (com imensa pena de não poder deixar outros tantos igualmente fascinantes e que me fazem acreditar cada vez mais que a literatura é uma arte):

"(...) depois de acabar a sanduíche o meu companheiro extrai da bagagem um grosso volume brochado, uma espécie de catálogo que se põe a consultar febrilmente, saltando de página em página, com um dedo percorrendo colunas de algarismos, depois volta à página anterior , olha para o relógio antes de lançar uma olhadela irritada pela janela, é noite, não pode ver nada , torna a pegar no livro, anseia por me fazer uma pergunta, pergunta-me sabe se o comboio pára em Tetschen?, ou pelo menos é isso que julgo compreender, digo-lhe num alemão estropiado que não faço ideia, mas que é muito provável, é a última cidade checa antes d fronteira, junto do Elba, o homem fala alemão, está de acordo comigo, o comboio deve parar em Tetschen, mesmo que não receba passageiros, wissen Sie, diz-me ele, se descêssemos em Tetschen poderíamos apanhar o comboio de mercadorias que partia de Brno esta tarde um pouco antes das cinco, que nos deixaria em Dresden por volta das duas da manhã e poderíamos voltar a apanhar este comboio que segundo está previsto não partirá antes das três menos um quarto, é incrível, tem de concordar – eu concordo, o homem continua, o catálogo dele afinal é um gigantesco horário dos caminhos-de-ferro, estão aqui todos os comboios, compreende, todos, é um pouco complicado de usar mas quando nos habituamos é prático, é para ferroviários profissionais, por exemplo acabamos de nos cruzar com um comboio no outro sentido são vinte e uma e vinte e três ora bem posso dizer-lhe donde ele vem e para onde vai, se é um comboio de passageiros ou de mercadorias, com um livro destes a gente nunca se aborrece a viajar de comboio, diz ele com um ar manifestamente felicíssimo, então como é que ele não sabe que o comboio pára em Tetschen, ora é muito simples, está a ver, a paragem está entre parêntesis, o que significa que é opcional, mas a passagem está assinalada , e portanto temos a possibilidade de parar em Tetschen, tínhamos outra possibilidade de paragem há alguns minutos atrás e o senhor não deu por isso, nem sequer percebeu que teríamos podido parar ali, wir hatten die Gelegenheit, como vê este livro é maravilhoso, permite-nos saber o que poderíamos ter feito , o que poderíamos fazer daqui a alguns minutos, nas próximas horas, ou até mais, o olhar do homenzinho checo ilumina-se, todas as eventualidades estão neste horário, estão todas aqui – o condutor da locomotiva o que tem a fazer é confiar nele, vou dar-lhe um exemplo, sei que o senhor vai para Paris e portanto vai mudar em Frankfurt para apanhar o intercity das oito da manhã, entretanto terá comido uns Brötschen e uma salsicha na estação , e depois quando chegar irá certamente para casa no 27 da rua Eugène-Carrière no 18º bairro de Paris onde chegará cansado às quinze e vinte e três, poisa as malas toma um duche rápido e então tem duas alternativas, ir logo para o escritório ou esperar pela manhã seguinte , cada uma das possibilidades terá as suas vantagens e os seus inconvenientes, se for ao bulevar Mortier não estará em casa quando alguém lhe tocar à porta às dezassete e quarenta e oito, mas se ficar a intervenção daquela jovem e a notícia que lhe traz far-lhe-ão esquecer uma parte das informações e incluir naquele dossier secreto, naquele repertório de mortos que anda a construir há algum tempo utilizando mais ou menos ilegalmente os meios que a Segurança externa põe à sua disposição, como vê está tudo escrito aqui, páginas 26, 109 e seguintes, em ambos os casos, quer esteja presente ou não, a próxima correspondência estará na página 261 do horário, o expresso Veneza-Budapeste, onde se embriagará a cantar Três jovens tambores, e depois na página 338 num comboio Bengazi-Tripoli, está a ver, o expresso Tânger-Casablanca está na página 361, tudo isto o levará à página 480 e à perda de um descendente que não irá conhecer, e assim por diante, toda a sua vida está aqui, (…"

Mathias Énard, Zona, D. Quixote, pp. 53, 54, 55

quinta-feira, 29 de julho de 2010

JL ACONSELHA LIVROS DE VIAGENS

Gostei muito do tema do JL desta quinzena e aproveito para deixar as sugestões de uma escritora que muito admiro, Teolinda Gersão, a propósito de Literatura de Viagens:

A Odisseia, de Homero

A Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto


Na Patagónia, de Bruce Chatwin


Canto Nómada, de Bruce Chatwin


O Livro de San MIchèle, de Axel Munthe

«A Odisseia porque se pode ler, 29 séculos depois, como a viagem de todas as viagens, o primeiro romance europeu e a viagem da vida de todos nós. A Peregrinação porque é a história prodigiosa da nossa viagem, de como achámos (ou perdemos) o mundo, e nos perdemos (ou achámos) nele. O Livro de San Michel, de Axel Munthe, porque é uma espécie de autobiografia, através dos vários lugares da sua vida: Estocolmo, Lapónia, Paris, Londres, Nápoles, Messina, Roma, Anacapri e outros. É um livro imensamente sedutor, porque a personalidade do autor também o é. Não sei se Ingmar Bergman alguma vez o leu, mas quando vi pela primeira vez alguns filmes de Bergman não pude impedir-me de pensar neste livro de Axel . Na Patagónia e também Canto Nómada, de Bruce Chatwin. Porque um homem que abandona de repente o emprego, e deixa escrito num bilhete "Vou para a Patagónia" , é um poeta. E quando depois nos fala da Patagónia (ou do que quer que seja) tem de certeza algo a dizer.»

in JL, 28 de Julho a 10 de Agosto

quarta-feira, 28 de julho de 2010

"Toutes choses sont dites déjà, mais comme personne n'écoute il faut toujours recommencer."

André Gide

terça-feira, 27 de julho de 2010

BETWEEN TWO LUNGS - FLORENCE + THE MACHINE



Deixo-te uma das minhas músicas preferidas deste cd, Between two Lungs, para que também tu  com a força total dos teus pulmões possas sentir a vida que a Música insufla, cantando algumas palavras nesta língua que parece de brincar. Mts bjs:

Between two Lungs

It was released
the breath that passed
from you to me
flew between us as we slept
that slipped from your mouth
into mine it crept
Um balão cor do fogo para a minha amiga Ana Bela Ana (de quem tenho muitas saudades) é o suficiente para que ela voe adentro qualquer espaço real ou imaginário.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

A LÍNGUA MATERNA - LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO

Franz Kafka

Franz Kafka escreveu no seu diário que nunca tinha amado a sua mãe como ela merecia por causa da língua alemã. A mãe judia não é uma mutter, escreveu ele. Chamá-la de mutter é um pouco cômico. Para um judeu, mutter é especificamente alemão. Portanto, a mulher judia que é chamada de mutter se torna não apenas cômica como estranha.

Kafka escrevia em alemão. A língua do seu cotidiano era o tcheco. A língua da sua mãe era o iídiche. Além de tudo, o mais que representa para a literatura moderna, Kafka foi o primeiro a falar do estranhamento com a língua materna, que no fim é um estranhamento com toda linguagem, que acomete quem a abandona. Escritores escrevendo na língua que não era a da sua casa foi uma constante do século. Foi Kafka quem, no século dos exílios, definiu uma das suas formas: o exílio em outra língua. Na qual ninguém se sentia em casa com sua "mutter" e talvez por isso tenham criado o que criaram.

Joseph Conrad

Falar e escrever em latim era comum na Idade Média e na Renascença e, até há pouco tempo, em quem recebia uma educação clássica. Mas o latim era a língua universal do privilégio e da alta cultura, um pouco como foi o francês mais tarde. Um adendo, não uma alternativa. O primeiro notável a abandonar sua língua materna e adotar, e dominar totalmente, outra foi Joseph Conrad, o polonês que acabou como um dos grandes estilistas do idioma inglês. Muito depois, o exemplo mais notório dessa migração foi o russo Vladimir Nabokov.

Vladimir Nabokov

Nabokov também é o melhor exemplo do estranhamento citado por Kafka e das suas consequências literárias. Talvez nenhum outro escritor do século tenha usado a linguagem com a sua destreza e inventividade, frutos do estranhamento. Só quem chega adulto numa língua estranha vindo de outra pode descobrir todas as suas possibilidades e brincar com todas as suas peculiaridades, como Nabokov fez com o inglês até beirar o preciosismo. No seu caso, a língua abandonada, a língua da casa, era a de uma infância idílica na São Petersburgo pré-revolução, cujas lembranças só alimentavam a mordacidade da sua linguagem no exílio.

Samuel Beckett

Samuel Beckett era um irlandês que escrevia em francês. Como no caso de Nabokov, isso também lhe possibilitou escrever numa linguagem pura, no sentido de intocada pelas tradições e pelos vícios acumulados da língua da infância. Ele usou a linguagem como um jogo, como o máximo de liberdade e experimentação permitida longe da mãe. É verdade que levou a depuração da linguagem a tal ponto que seu objetivo lógico parecia ser o silêncio, ou um exílio intelectual além do exílio em outra língua, ou a pureza no seu estado máximo. Para Beckett, o estranhamento só trouxe a angústia da impossibilidade de nos comunicarmos, em qualquer língua.

Jorge Luís Borges

Jorge Luis Borges transitou por todas as línguas, por todas as literaturas e por toda a História, sem contar as partes que ele mesmo inventou. Dizem que seu primeiro texto, sobre os mitos gregos, foi escrito quando ele tinha sete anos de idade, em inglês. Depois, ninguém como ele brincou tanto com a linguagem, com a tênue linha que separa a erudição da paródia de erudição, a criação literária de outras formas de prestidigitação - enfim, com a linguagem como travessura. Mas escrevia na língua da sua infância. E, depois da cegueira, quem lia para ele era sua mãe. Borges tinha a língua e a voz maternas com ele, portanto. O seu não era um exemplo de estranhamento kafkiano. Ou era um estranhamento que Kafka invejaria.

in Actual, 24 de Julho de 2010, Expresso

domingo, 25 de julho de 2010

ZONA - MATHIAS ÉNARD


É uma história de guerras, da Europa e do século XX que parte de uma viagem de comboio e da memória ainda sangrenta de segredos, a abarrotar de detalhes marcantes, de um narrador que é um exímio contador de histórias, com quinze anos de actividade como agente de informações na sua Zona (inicialmente Argélia, depois, sucessivamente todo o próximo Oriente. Uma escrita fluida, com frases longas, reflectindo, com o uso exclusivo de vírgulas, uma oralidade excessiva que, sem contenção, nos leva por arrastamento no trajecto das recordações desta personagem, Francis Servain Mirkovic, em quem depositaram os nomes e a memória de muitos homens que contribuíram para a carnificina que é a guerra. Ele próprio se assume como culpado quando a guerra na Croácia e na Bósnia o levou a cometer como os outros actos de violência que nunca esquecerá. A fusão de vários tempos ( o das guerras por que passou, o de todas as guerras desde os primórdios da vida humana, o da sua própria vida privada e íntima, as vidas e histórias dos outros a que assistiu bem como aquelas que lhe contaram os próprios,...) torna esta obra num texto literário único, que reflecte um poder de escrita ímpar e um modelo dos textos pós-modernos. Como diz a crítica, uma epopeia dos nossos tempos. O autor é francês. A tradução de Pedro Tamen para a nossa língua é bem merecedora da nossa atenção e reconhecimento.

Contracapa:

“Num comboio nocturno para Roma, um antigo espião e antigo militar faz desfilar as suas memórias da zona onde exerceu as suas actividades – o contorno do Mediterrâneo: guerras balcânicas, violências na Argélia, guerras do Próximo Oriente… Zona compõe um palimpsesto ferroviário de vinte e quatro «cantos» conduzidos de um fôlego, e magistralmente orquestrados, como uma Ilíada do nosso tempo”.

(…) e quantas vezes dei comigo a tomar um café ao romper do dia com pilotos e maquinistas de vaporetti para quem eu não existia, porque os venezianos têm aquela faculdade atávica de ignorar tudo o que não seja eles, de não ver, de fazer desaparecer o estrangeiro, e este desprezo soberano, esta extravagante nobreza fora de moda do auxiliado que se permite ignorar em absoluto a mão que o alimenta não era desagradável, pelo contrário, era uma grande franqueza e uma grande liberdade, longe da simpatia comercial que invadiu o mundo inteiro, o mundo inteiro excepto Veneza, onde continuamos a ser ignorados e menosprezados como se não precisassem de nós, como se o dono do restaurante não precisasse de clientes, já que é rico com a sua cidade inteira e está seguro, tem a certeza de que outros comensais menos choninhas não tardarão a vir ocupar-lhe as mesas, aconteça o que acontecer, e isso confere-lhe uma temível superioridade sobre o visitante, a superioridade do abutre sobre a carne morta, o viajante acabará sempre depenado, feito em pedaços com ou sem sorriso, para quê mentir-lhe, até o padeiro do outro lado da rua admitia, sem pestanejar, que o seu pão Não era grande coisa e que os seus bolos eram exageradamente caros, esse padeiro viu-me todos os dias todos os dias durante meses sem nunca me sorrir a sua força era a sua certeza do meu desaparecimento, um dia eu ia-me embora de Veneza e da laguna, daí a um, dois, três, dez anos, e ele, ele pertencia à ilha e não a mim, e recordava-mo todas as manhãs, o que era salutar, nada de ilusões, eu só me dava com estrangeiros, Eslavos, Palestinianos, Libaneses, Ghassan, Nayef, Khalil e até um sírio de Damasco que tinha um bar que era o ponto de encontro dos estudantes e dos exilados, era um antigo marinheiro que desertara numa escala, um tipo bastante enrugado que ninguém associaria nunca a qualquer espécie de mar ou de barco, tinha uma verdadeira cabeça de homem da terra com enormes orelhas bastante peludas na minha memória, era muito religioso, rezava, jejuava e nunca bebia do álcool que servia aos clientes, o seu fraco eram as raparigas, sobretudo as putas, coisa que ele justificava dizendo que o Profeta tivera cem mulheres, que gostava de mulheres, e que ao fim e ao cabo a fornicação era um belo pecado (…)

(…) naquele quarto duplo dormia com Marianne, ela despia-se na casa de banho, tinha um corpo, um rosto de rasgar a alma de um homem e a minha não pedia outra coisa senão essa, no perfume de chuva e de mar de Alexandria embriagava-me com os perfumes da Marianne (…)

Belo sítio para esperar pelo fim do mundo comendo peixe frito sob um grande sol de inverno aninhado no céu limpo pelo vento, está muito calor nesta carruagem, vou adormecer, estou já meio a dormir embalado pela Marianne de brancos braços, o seu rosto transforma-se, é deformado pelo crepúsculo que se estende das árvores que desfilam, regressei a Alexandria voltei lá muitas vezes e nem sempre em sonhos, para concluir umas transacções mais ou menos secretas com generais egípcios cuja importância se media pelo número não de estrelas mas de Mercedes, queles generais que lutavam contra o terrorismo islâmico esfregando conscienciosamente a testa com lixa todas as noites para imitar o desgaste da pele contra o tapete da oração até fazerem um calo e parecerem mais piedosos que os seus inimigos, No Egipto é sempre tudo desmesurado (…)”

Mathias Énard, Zona, 2010, Publicações D. Quixote

quinta-feira, 22 de julho de 2010

MITOLOGIAS - ROLAND BARTHES

O ESCRITOR EM FÉRIAS
(...) O que prova a singularidade maravilhosa do escritor é que durante estas famosas férias, que partilha fraternalmente com os operários e os caixeiros, ele não deixa, se não de trabalhar, pelo menos de produzir. Falso trabalhador, ele é também um falso veraneante. Um escreve as suas memórias, um outro corrige provas, um terceiro prepara o seu próximo livro. E aquele que nada faz confessa-o como se se tratasse de uma atitude verdadeiramente paradoxal, uma proeza de vanguarda, que só um espírito forte pode permitir-se exibir. Reconhece-se, através desta última fanfarronice, que é muito «natural» que o escritor escreva sempre, em todas as situações. Antes de mais, isso assimila a produção literária a uma espécie de secreção involuntária, e portanto tabu, dado que escapa aos determinismos humanos: para falar num estilo mais nobre, o escritor está possuído de um deus interior, que fala a a todo o momento, sem se preocupar, o tirano, com as férias do seu médium. Os escritores estão em férias, mas a sua Musa vela, e dá à luz sem parar.

A segunda vantagem desta logorreia é que, em razão do seu carácter imperativo, ela faz-se passar muito naturalmente pela própria essência do escritor. Este admite, sem dúvida, que possui uma existência humana, uma velha casa de campo, uma família, uns calções, uma filha pequena, etc., mas contrariamente aos outros trabalhadores, que mudam de essência, e que não são na praia mais do que meros veraneantes, o escritor conserva, quanto a ele, onde quer que se encontre, a sua natureza de escritor; provido de férias, ele exibe o signo da sua humanidade; mas o deus permanece, e é-se escritor como Luís XIV era rei, mesmo sentado numa cadeira esburacada. Assim, a função do homem de letras está um pouco para o trabalho do comum dos mortais como a ambrósia está para o pão: uma substância miraculosa, eterna, que condescende em assumir a forma social para melhor se fazer apreender na sua prestigiosa diferença. Tudo isto nos introduz à mesma ideia de um escritor super-homem, de uma espécie de ser diferencial que a sociedade põe em destaque, a fim de mais perfeitamente se servir da singularidade factícia que lhe concede.
A imagem bonacheirona do «escritor em férias» não é mais do que uma destas mistificações retorcidas que a boa sociedade põe em prática para melhor submeter os seus escritores: nada manifesta tão bem a singularidade de uma «vocação» como o facto de ser contraditada – mas não negada, bem longe disso – pelo prosaísmo da sua encarnação: é um velho truque de todas as hagiografias. Deste modo, podemos ver este mito das «férias literárias» ganhar um grande alcance , estendendo-se para lá do Verão: as técnicas do jornalismo contemporâneo empenham-se cada vez mais em dar do escritor um espectáculo prosaico. Mas seria errado tomar-se isso por um esforço de desmistificação. Antes pelo contrário. Sem dúvida que pode parecer-me tocante e mesmo lisonjeiro, a mim, simples leitor, participar através das confidências na vida quotidiana de uma raça seleccionada pelo génio: não deixaria de sentir como deliciosamente fraterna uma humanidade em que sei pela leitura dos jornais que determinado grande escritor usa pijamas azuis, e que certo jovem romancista gosta «das raparigas bonitas, do queijo Reblochon e do mel de alfazema». Isto não impede que o saldo da operação seja tal que o escritor se torna ainda um pouco mais vedeta, trocando um pouco mais esta terra por uma habitação celeste em que os seus pijamas e os seus queijos não o impedem de forma alguma de retomar o uso da sua palavra nobre e demiúrgica.
Dotar publicamente o escritor de um corpo bem de carne e osso, revelar que ele gosta do vinho branco seco e do bife bem passado, é fazer-me julgar ainda mais miraculosos, de essência mais divina, os produtos da sua arte. Longe de estes pormenores da sua vida privada me tornarem mais próxima e mais clara a natureza da sua inspiração, é toda a singularidade mítica da sua condição que o escritor denuncia, através de confidências desse género. Porque eu não posso atribuir senão a uma super-humanidade a existência de seres com uma envergadura tal que vestem pijamas azuis no preciso momento em que se manifestam como consciência universal, ou que exprimem o amor do queijo Reblochon com a mesma voz com que anunciam a sua próxima Fenomenologia do Ego. A aliança espectacular de tanta nobreza e de tanta futilidade significa que se acredita ainda na contradição: se esta é totalmente miraculosa, cada um dos seus termos é-o de igual modo: ela perderia evidentemente todo o seu interesse num mundo em que o trabalho do escritor fosse dessacralizado ao ponto de parecer tão natural como as suas funções gustativas ou vestimentares.


Roland Barthes, Mitologias, pp.77, 78, 79

PROTOPOEMA - JOSÉ SARAMAGO

Protopoema

Do novelo emaranhado da memória, da escuridão dos
nós cegos, puxo um fio que me aparece solto.
Devagar o liberto, de medo que se desfaça entre os dedos.
É um fio longo, verde e azul, com cheiro de limos,
e tem a macieza quente do lodo vivo.
É um rio.
Corre-me nas mãos, agora molhadas.
Toda a água me passa entre as palmas abertas, e de
repente não sei se as águas nascem de mim, ou para mim fluem.
Continuo a puxar, não já memória apenas, mas o
próprio corpo do rio.
Sobre a minha pele navegam barcos, e sou também os
barcos e o céu que os cobre e os altos choupos que
vagarosamente deslizam sobre a película luminosa dos olhos.
Nadam-me peixes no sangue e oscilam entre duas
águas como os apelos imprecisos da memória.
Sinto a força dos braços e a vara que os prolonga.
Ao fundo do rio e de mim, desce como um lento e
firme pulsar do coração.
Agora o céu está mais perto e mudou de cor.
É todo ele verde e sonoro porque de ramo em ramo
acorda o canto das aves.
E quando num largo espaço o barco se detém, o meu
corpo despido brilha debaixo do sol, entre o
esplendor maior que acende a superfície das águas.
Aí se fundem numa só verdade as lembranças confusas
da memória e o vulto subitamente anunciado do futuro.
Uma ave sem nome desce donde não sei e vai pousar
calada sobre a proa rigorosa do barco.
Imóvel, espero que toda a água se banhe de azul e que
as aves digam nos ramos por que são altos os
choupos e rumorosas as suas folhas.
Então, corpo de barco e de rio na dimensão do homem,
sigo adiante para o fulvo remanso que as espadas
verticais circundam.
Aí, três palmos enterrarei a minha vara até à pedra viva.
Haverá o grande silêncio primordial quando as mãos se
juntarem às mãos.
Depois saberei tudo.

José Saramago

terça-feira, 20 de julho de 2010

CANTIGA DE AMIGO - B FACHADA



Muito bonita esta Cantiga de Amigo para celebrar a tua ida para Paris, a tua investida no conhecimento, nessa astronomia que é toda tua quando falas sobre ela na nossa língua, com sorrisos. Ao som desta Cantiga de Amigo, lembro-me de ti debaixo do girassol que plantaste no teu jardim e que se apaixonou pela Lua. Lembro-me de festejar as tuas mais recentes decisões, tão humanas, tão sabedoras que nos orgulhamos mesmo muito de todas elas ... uma Cantiga de Amigo para sentir que a amizade deve ser tão forte como o amor...

AFINAL O QUE É A ARTE?

Desperta a polémica a crónica de Valter Hugo Mãe do último JL acerca de Marina Abramovic, uma artista jugoslava que pretende dar a si própria a importância de um objecto de arte. Lê para mais tarde discutirmos o conceito alargado ( e estapafúrdio?) em que a arte se inscreve nos nossos tempos... Transcrevo um excerto dessa Autobiografia Imaginária que me fez pensar.
A ARTE É UMA ARTISTA - VALTER HUGO MÃE

Marina Abramovic está sentada diante de nós. Intitulou à sua majestosa retrospectiva The artist is present, e é a sua presença, aparentemente tão simples, o ponto fulcral de todo um percurso genial nas artes durante quatro décadas.
Acontece no Moma (Museum of Modern Art, em Nova Iorque) e, as milhares de pessoas que para ali se encaminham a ver Marina, que há tantos anos não se expunha, deslumbram-se com o desarmante modo como nos é devolvida a arte, despida da parafernália de matérias ou movimentos, para ser simplesmente a presença da artista, diria que madura, intensamente madura, derramando por sobre o espectador a sua energia enfim equilibrada, dominada, esplendorosa.
Marina Abramovic está sentada numa cadeira ao centro de um grande quadrado desenhado no chão. À sua frente uma outra cadeira que, à vez, é ocupada por um espectador. A fila para os que querem a oportunidade de ficar olhos nos olhos com a artista pode ser frustrante de tão grande. A mim levou-me quarenta minutos a conseguir a cadeira, tendo eu feito fila à porta do museu bem de manhã antes de as portas abrirem.
Entramos para dentro do quadrado desenhado no chão, sentamo-nos na cadeira que nos está reservada e colocamos as mãos nas pernas, como faz Marina. É inevitável queremos fazer como ela faz, parece que somos levados a crer que existe um modo perfeito para simplesmente sentar diante de alguém. Depois, ela levanta a cabeça, abre os olhos e não sorri. Simplesmente existe diante de nós com o impressionante ar de quem está absoluto no seu ser. Um rosto muito belo, a idade toda a seu favor, o vestido longo cortando pelo chão como alma larga, delicada e tão confortável. O espectador demora o quanto quiser, mas a demora é toda uma busca dentro de nós, procurando equiparar-nos minimamente com a intensidade da artista. Procuramos dentro de nós essa humanidade tão consciente e superior que se despe e vulnerabiliza com o outro, sem dramas, nenhuma tragédia, apenas a vibrante contingência de existir, existir o melhor possível, na plenitude das nossas capacidades. Afinal o que Marina Abramovic faz é mostrar que a arte é uma artista, a arte é a artista, posta diante do espectador como manifestação bastante do que procuramos, afinal, quando questionamos tudo. (…)”



JL, Autobiografia Imaginária

Não resisti em procurar o rosto desta mulher e o que encontrei abalou-me tanto como o texto... Em NY é assim, há coisas que dão que falar... Vê:


sexta-feira, 16 de julho de 2010

O GERÂNIO - FLANNERY O'CONNOR

Foi uma leitura aconselhada por Gonçalo M. Tavares numa revista que desfolhei no balcão de um restaurante, (já muito desejada por mim, quando deparei com o livro de capa verde, repleta de penas de pavão e o nome de uma flor masculina - gerânio - com uma sonoridade nasal da qual me pareceu sair um odor magnífico de verão). Gonçalo M. Tavares apontou o nome desta autora, considerada uma das melhores autoras da literatura norte-americana, e deste livro em particular, dizendo: "Aconselho, e muito". E eu também.

Destaco excertos de dois belos contos (O 1º conto fascina pelo modo como se explora a cidade, um dos temas de que muito gosto; no 2º conto, A Colheita, um belo exemplo de um intratexto - um texto dentro do texto. Nota 5!): 

" O velho Dudley gostaria de ter explicado Nova Iorque a Rabie. Se lha pudesse ter mostrado não lhe teria parecido tão grande – não se teria sentido oprimido cada vez que saía à rua. Não é assim tão grande, teria dito. Não te deixes abater por ela Rabie. É como outra cidade e as cidades não são assim tão complicadas.
Mas eram. Nova Iorque era elegante e agitada num instante, suja e mortiça no seguinte. A filha dele nem sequer morava numa casa. Morava num prédio – no meio de uma fileira de prédios todos iguais, cinzentões e vermelhos, enegrecidos, cheios de gente de voz áspera que ficava pendurada para fora da janela a olhar para outras janelas e outra gente como aquela que olhava também. Dentro do prédio podia subir-se e podia descer-se e havia um sem-fim de corredores que faziam lembrar fitas métricas desenroladas com portas de centímetro em centímetro. Recordava-se de ter ficado espantado com o prédio na primeira semana. Acordava na expectativa de os corredores terem mudado de sítio a meio da noite, espreitava pela porta e lá estavam eles, estendidos como canis corridos. As ruas também eram assim. Perguntava-se a si próprio onde iria parar se caminhasse até ao fim de uma delas. Numa noite sonhou que assim fazia e ia ter à ponta do prédio – a lado nenhum."

In O Gerânio

Flannery O'Connor e auto-retrato

“«Lot Motun», registou a máquina «chamou pelo seu cão. Ao «cão» seguia-se uma pausa abrupta. Miss Willerton produzia sempre o seu melhor trabalho na primeira frase. «As primeiras frases», costumava dizer, ocorriam-lhe num ápice! Num ápice!» e estalava os dedos, «num ápice!» E era a partir delas que construía as suas histórias. «Lot Motun chamou pelo seu cão», saira-lhe automaticamente, e, ao reler a frase desde o início, decidiu que «Lot Motun» não só era um bom nome para um rendeiro, como chamar pelo seu cão era um excelente gesto para por um rendeiro a fazer. «O cão espetou as orelhas no ar e aproximou-se de Lot com um ar comprometido.» Miss Willerton concluiu a frase antes de se ter apercebido do seu erro: escrevera «Lot» duas vezes num parágrafo. Era desagradável ao ouvido. A máquina de escrever arranhou em marcha atrás e Miss Willerton aplicou três «X » sobre «Lot». Por cima destes escreveu a lápis: «dele». Agora estava pronta para recomeçar . «Lot Motun chamou pelo seu cão. O cão espetou as orelhas no ar e aproximou-se dele com um ar comprometido.» Também ficaram dois cães, pensou Miss Willerton. Hummm… decidiu que isso não lhe afectava os ouvidos da mesma maneira que dois «Lots»
Miss Willerton tinha muita fé naquilo que designava por «arte fonética». Defendia que o ouvido era tão importante para o leitor como a visão. Gostava de exprimir assim a ideia. A vista desenha uma imagem, dissera uma vez a um grupo da União das Filhas dos Colonos, que pode ser pintada em abstracto, e o êxito de um empreendimento literário (Miss Willerton gostava da expressão «empreendimento literário») depende da abstração criada na mente e da qualidade tonal (também lhe agradava o termo «qualidade tonal») captada pelo ouvido. Havia algo de preciso e acutilante na frase «Lot Motun chamou pelo seu cão», seguida de «O cão espetou as orelhas no ar e aproximou-se dele com um ar comprometido», que rematava o parágrafo com o desfecho que se impunha.
«Puxou as orelhas curtas, magras, do animal e rebolou com este na lama.» Talvez, meditou Miss Willerton, estivesse a exagerar. Porém, ao que sabia, seria razoavelmente expectável que um rendeiro rebolasse na lama. (…)”


In A Colheita



quinta-feira, 15 de julho de 2010

A ESCRITA PARA BARTHES



Barthes , por uma metamorfose mútua da escrita em leitura e da leitura em escrita, define esta, simultaneamentte, como «uma fala criada» e uma «fala recebida», em que o outro é ao mesmo tempo objecto e sujeito do desejo de escrever: «a escrita é com efeito, a todos os níveis, a fala do outro, e pode ver-se nesta inversão paradoxal o verdadeiro«dom» do escritor». A relação com o outro implicada pela escrita é assim, originariamente, uma relação erótica: «não há um significado primeiro para a obra literária que não seja um certo desejo: escrever é um modo de Eros».
Edgar Martins, A Pista

Há sempre uma estrada por detrás do tédio que o tempo teima, como uma amarra, lançar ao corpo. Essa estrada é uma viagem que me transforma na própria velocidade. Só vejo para dentro nesse instante. E a inconsistência azul do céu que parece o mar.

sábado, 10 de julho de 2010

Rember Yahuarcani

Rember Yahuarcani, artista plástico autodidacta descendiente de la nación amazónica Huitoto.Nació en 1985 en La Colonia, una comunidad Bora, Provincia de Ramón Castilla, en la Región Loreto. Llegó a Lima en 2003 para la Expo La Serpiente de Agua, y desde entonces se ha convertido en el centro de su trabajo artístico.

(Exposição: Dilúvio)

IMPOSSIBLE GUITAR - DOMINIC FRASCA



Ouve o sonho de uma guitarra, que me mostrou o Paulinho. Fecha os olhos que hoje é sábado. Faz de conta que é o primeiro sábado de todos os sábados da tua vida. És a própria música sem que o saibas.Vibra-bra-bra-bra-ra-ra-ra e ocupa todo o espaço à tua volta. 

sexta-feira, 9 de julho de 2010

quinta-feira, 8 de julho de 2010

PEACH, PLUM, PEAR - JOANNA NEWSOM



São as pessoas que existem e que imagino puderem existir que ocupam o meu imaginário e me fazem feliz.

Na falta de mais tempo para trazer mais livros sublimes, deixo esta música que me encanta pela austeridade dos sons (que tocam no religioso) e pelo paradoxal prosaismo contido nesta voz de Joanna Newsom, sem tratamento, quase sem educação, como fazem as crianças quando cantam sem pedir permissão, sem se importarem se agradam aos outros...só pelo prazer de serem cantoras, nem que seja a fingir, nesta vida sem sentido, se nao a cantarmos.
Para além de tudo isto, é fabuloso pronunciar repetidamente o título desta música: Peach, Plum, Pear - como uma explosão de alegria o que a fonética da língua inglesa neste caso proporciona.
Toda a gente é interessante se a gente souber ver toda a gente
Que obra-prima para um pintor possível em cada cara que existe!
Que expressões em todas, em tudo!
Que maravilhosos perfis todos os perfis!
Vista de frente, que cara qualquer cara!
Os gestos humanos de cada qual, que humanos os gestos!


in  Poesia, Álvaro de Campos

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Apaziguava-se com o tapete liso e morno do mar a ameaça das  nuvens. E eu identificava-me com aquele fim do mundo em que parecia reconhecer toda a minha vida debaixo da lenta maré. Foi nesse instante que me apercebi que qualquer lugar estranho era eu. Que senti que me transformava no real em que assentava a minha atenção extrema. Que tudo absorvia em nostalgia e transformava nos meus sentidos como se já o tivesse vivido há muitos anos, quando a memória era ainda espuma. Ou num tempo que ainda não tinha chegado às minhas mãos. Era Setembro, quando eu nasci.

sábado, 3 de julho de 2010



«Gosto de todos os cineastas que se chamam Jean: Jean Vigo, Jean Renoir, Jean Cocteau, Jean Eustache, Jean Rouch, Jean Luc-Godard e Wong Kar-way, porque tenho a certeza de que Wong quer dizer Jean em chinês»

In Diário Volúvel, Enrique Vila-Matas

A Dor Tem um Elemento de Vazio



A Dor Tem um Elemento de Vazio



A Dor - tem um Elemento de Vazio -

Não se consegue lembrar

De quando começou - ou se houve

Um tempo em que não existiu -



Não tem Futuro - para lá de si própria -

O seu Infinito contém

O seu Passado - iluminado para aperceber

Novas Épocas - de Dor.

Emily Dickinson, in "Poemas e Cartas" , Tradução de Nuno Júdice

sexta-feira, 2 de julho de 2010

GARDEN OF LOVE - WILLIAM BLAKE

Garden of Love


I laid me down upon a bank,
Where Love lay sleeping;
I heard among the rushes dank
Weeping, weeping.


Then I went to the heath and the wild,
To the thistles and thorns of the waste;
And they told me how they were beguiled,
Driven out, and compelled to the chaste.


I went to the Garden of Love,
And saw what I never had seen;
A Chapel was built in the midst,
Where I used to play on the green.


And the gates of this Chapel were shut
And "Thou shalt not," writ over the door;
So I turned to the Garden of Love
That so many sweet flowers bore.


And I saw it was filled with graves,
And tombstones where flowers should be;
And priests in black gowns were walking their rounds,
And binding with briars my joys and desires.


William Blake
I went to the Garden of love

"O Amor é o estado no qual os homens têm mais probabilidade de ver as coisas tal como elas não são".

Friedrich Nieetzsche

A Propósito do Amor

Eduard Munch

A propósito dos conceitos de Amor debatidos no programa Philosophie - que como tu dizes, e bem, podia  integrar um dos nossos canais, feitas as devidas tradução e legendagem para o português, num horário nobre que tornasse as pessoas mais viradas para o acto de pensar e para o diálogo com os outros - lembrei-me de transcrever algumas palavras de Friedrich Nietzsche que também enriquecem esse extraordinário diálogo acerca do amor.

"Quando amamos, queremos que os nossos defeitos permaneçam escondidos...não por vaidade, mas para que o ser amado não sofra. Aquele que ama gostaria mesmo de aparecer como um deus...e também isto não se deve à vaidade."

in A Gaia Ciência, Friedrich Nietzsche


À Pat, a mulher mais bela do cosmos...


Porque os outros se mascaram mas tu não
 (Sophia de Mello B. Andresen)

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

 
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.


Doçura, foi o poema possível...Contudo, e porque mesmo assim não diz tudo, eu vou acrescentar  mais umas frases... Mas antes tenho que pedir desculpa à Sophia... é por uma boa causa!


Porque és bela e resplandeces
 E vês sempre beleza à tua volta
Porque és imensa e os outros não
 
Porque pressentes amizades em tudo aquilo que te rodeia
E valorizas tudo o que é bom
Porque és bondosa e os outros não
 
Porque maravilhas a tua família, és esposa e mãe dedicada e maravilhosa
E és o oposto de um "buraco negro", és um Big Bang que tudo ilumina
Porque és LINDA e os outros não.
 
(não me atrevo a mais, por mais palavras que use, não conseguirei nunca expressar o quão bela és...)