sexta-feira, 30 de julho de 2010

   Por falar em Literatura de Viagens, não posso deixar para trás o mais recente livro de Mathias Énard (sobre o qual já postei ainda há poucos dias) e que me deixa estupefacta pela perícia narrativa manifestada em tantas páginas dedicadas à viagem da personagem principal, viajante de comboio incansável, que encontra  outro personagem viajante, eximiamente construído,  transformado imediatamente num dos seus companheiros de viagem - um checo que possui o "livro dos livros" dos comboios e, em suma, conforme nos faz acreditar, livro da vida de todos nós.
   Como também eu me deixo fascinar por este transporte que dá sentido às Estações e aos seus mágicos placards luminosos, habitados por todas as horas e todos os lugares (que mais me parecem o Espelho do Tempo e Espaço do Universo), não posso deixar de destacar uma passagem literária que me fez verdadeiramente uma leitora feliz. Adorei o estratégico modo de narrar as possibilidades do Acontecimento na vida da personagem a partir da fusão da narração sobre a sua vida íntima com as possibilidades de leitura do gigantesco horário dos caminhos-de-ferro do seu companheiro de carruagem.  Este excerto apenas contribuiu para que esse encantamento do comboio (e de tudo que o cerca) se infiltrasse mais na minha fantasia. Também quero confessar a minha expressa admiração (chega a tocar a incredulidade!) pela capacidade de escrita criativa patente neste texto literário de um autor que nasceu depois de mim e tem o imaginário a abarrotar de palavras com histórias interessantes... Sinto-me muito feliz por ter tido a sorte de conhecer Mathias Énard estendido ao longo de tantas páginas "simplement délicieuses". Espero que também gostes muitíssimo.


Deixo o excerto a que me referi (com imensa pena de não poder deixar outros tantos igualmente fascinantes e que me fazem acreditar cada vez mais que a literatura é uma arte):

"(...) depois de acabar a sanduíche o meu companheiro extrai da bagagem um grosso volume brochado, uma espécie de catálogo que se põe a consultar febrilmente, saltando de página em página, com um dedo percorrendo colunas de algarismos, depois volta à página anterior , olha para o relógio antes de lançar uma olhadela irritada pela janela, é noite, não pode ver nada , torna a pegar no livro, anseia por me fazer uma pergunta, pergunta-me sabe se o comboio pára em Tetschen?, ou pelo menos é isso que julgo compreender, digo-lhe num alemão estropiado que não faço ideia, mas que é muito provável, é a última cidade checa antes d fronteira, junto do Elba, o homem fala alemão, está de acordo comigo, o comboio deve parar em Tetschen, mesmo que não receba passageiros, wissen Sie, diz-me ele, se descêssemos em Tetschen poderíamos apanhar o comboio de mercadorias que partia de Brno esta tarde um pouco antes das cinco, que nos deixaria em Dresden por volta das duas da manhã e poderíamos voltar a apanhar este comboio que segundo está previsto não partirá antes das três menos um quarto, é incrível, tem de concordar – eu concordo, o homem continua, o catálogo dele afinal é um gigantesco horário dos caminhos-de-ferro, estão aqui todos os comboios, compreende, todos, é um pouco complicado de usar mas quando nos habituamos é prático, é para ferroviários profissionais, por exemplo acabamos de nos cruzar com um comboio no outro sentido são vinte e uma e vinte e três ora bem posso dizer-lhe donde ele vem e para onde vai, se é um comboio de passageiros ou de mercadorias, com um livro destes a gente nunca se aborrece a viajar de comboio, diz ele com um ar manifestamente felicíssimo, então como é que ele não sabe que o comboio pára em Tetschen, ora é muito simples, está a ver, a paragem está entre parêntesis, o que significa que é opcional, mas a passagem está assinalada , e portanto temos a possibilidade de parar em Tetschen, tínhamos outra possibilidade de paragem há alguns minutos atrás e o senhor não deu por isso, nem sequer percebeu que teríamos podido parar ali, wir hatten die Gelegenheit, como vê este livro é maravilhoso, permite-nos saber o que poderíamos ter feito , o que poderíamos fazer daqui a alguns minutos, nas próximas horas, ou até mais, o olhar do homenzinho checo ilumina-se, todas as eventualidades estão neste horário, estão todas aqui – o condutor da locomotiva o que tem a fazer é confiar nele, vou dar-lhe um exemplo, sei que o senhor vai para Paris e portanto vai mudar em Frankfurt para apanhar o intercity das oito da manhã, entretanto terá comido uns Brötschen e uma salsicha na estação , e depois quando chegar irá certamente para casa no 27 da rua Eugène-Carrière no 18º bairro de Paris onde chegará cansado às quinze e vinte e três, poisa as malas toma um duche rápido e então tem duas alternativas, ir logo para o escritório ou esperar pela manhã seguinte , cada uma das possibilidades terá as suas vantagens e os seus inconvenientes, se for ao bulevar Mortier não estará em casa quando alguém lhe tocar à porta às dezassete e quarenta e oito, mas se ficar a intervenção daquela jovem e a notícia que lhe traz far-lhe-ão esquecer uma parte das informações e incluir naquele dossier secreto, naquele repertório de mortos que anda a construir há algum tempo utilizando mais ou menos ilegalmente os meios que a Segurança externa põe à sua disposição, como vê está tudo escrito aqui, páginas 26, 109 e seguintes, em ambos os casos, quer esteja presente ou não, a próxima correspondência estará na página 261 do horário, o expresso Veneza-Budapeste, onde se embriagará a cantar Três jovens tambores, e depois na página 338 num comboio Bengazi-Tripoli, está a ver, o expresso Tânger-Casablanca está na página 361, tudo isto o levará à página 480 e à perda de um descendente que não irá conhecer, e assim por diante, toda a sua vida está aqui, (…"

Mathias Énard, Zona, D. Quixote, pp. 53, 54, 55

1 comentário:

Djabal disse...

Deixo uma recomendação como retribuição, diante das valiosas resenhas, informações, bem como os belos trechos que encontrei por aqui: Paul Theroux. Um exímio contador de histórias de viagens. Grande abraço e obrigado.