sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

2011 ESTÁ QUASE A CHEGAR


O Tempo, hoje mais do que noutro dia, coisificou-se e todos esperamos que se estilhace, se desfaça numa espécie de poeira vasta para o levarmos com muito jeitinho para o lixo.
No buraco que ele ocupava nas nossas vidas, repentinamente para além da meia-noite, surgirá um Tempo limpo e novo, sem mágoas, sem qualquer experiência, sem hábitos rotineiros, como se não nos reconhecesse do lugar dele para o nosso lugar. É por isso preciso tratá-lo bem, causar boa impressão para o apertarmos na mão quando quisermos e o levarmos connosco até à nossa velhice.
Suspiro por beijá-lo assim que chegue, cheio do fogo-de-artifício por detrás dele, a empurrá-lo com cor a toda a força para os nossos braços.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

DN de 29 de Dezembro de 2010 - FELIZ ANIVERSÁRIO!


Linda amiga,
antes de tudo o resto "FELIZ ANIVERSÁRIO!"
Agora aproveito para te confessar que assim que me avisaste disto, nem queria acreditar...  logo hoje, no dia em que comemoramos os teus anos de vida, a edição do DN, repito, a edição do dia 29 de Dezembro de 2010, é especialmente coordenada pelo Gonçalo M. Tavares... e até uma garrafa de champanhe trouxe para casa com o jornal. Foi cheia de inveja (inveja com minúscula,  mais saudável do que a vulgar Inveja humana, dada a grande amizade que por ti sinto) que conclui que, afinal, depois desta coincidência, nenhuma outra ocorrência, cheia deste carácter excepcional, me poderá cruzar, a mim, mortal-leitora-do-séc-XXI com Gonçalo M. Tavares, imortal-escritor-do-mesmo-séc.-XXI, numa mesma data tão importante. Pretendo fazer com este jornal que comprei há algumas escassas horas, num ímpeto sem igual (não sei se fora a tal inveja que se apoderou de mim, mal dei com a data do jornal seguida da fotografia do rosto sério de M. Tavares a olhar para os meus olhos...), o mesmo que fiz quando nasceu toda a pequenada da família: oferecer-to porque traz notícias de um dia que é teu. Sinceramente, acho que é uma sorte o que te aconteceu. Como encontrares alguém que consegue fazer do teu dia de aniversário, um dia ainda mais especial (se isso for possível, linda amiga... e por isso mesmo tornares-te uma amiga ainda mais bela do que a que para mim eras).
Deixo-te o Editorial assinado pelo Gonçalo M. Tavares (sabes que gosto sempre de ler editoriais frescos...), pretenso director do DN. (Impossível fazer melhor!).









EDITORIAL


DAS LEITURAS E DA MEDICINA
por Gonçalo M. Tavares

1. Um médico responsável, um médico de seres humanos e não um médico de órgãos que ainda estão vivos, logo a seguir à questão: o que é que come?
deveria perguntar ao seu paciente: o que é que lê? E que imagens é que vê habitualmente?
2. Sempre associámos a saúde às consequências de algo que o corpo absorve. Ou culpamos a genética ou culpamos o que comemos, as experiências físicas, os nossos hábitos e vícios.
Se falarmos de saúde mental não deveremos esquecer o que a cabeça absorve. A cabeça que absorve boas palavras, palavras que fazem pensar, palavras que exigem trabalho de interpretação, que exigem esforço, movimento mental, a cabeça que absorve esse tipo de palavras terá melhor saúde, eis a evidência.
3. Uma expressão de que gosto particularmente é a do escritor Henri Michaux. Ele chama à sua cabeça "as minhas propriedades": a cabeça é o seu território - é o território de cada um; são, no fundo, metros quadrados por ocupar, uma extensão interminável, felizmente. Quando Michaux vê num álbum de fotografias uma bela imagem de um animal, ele murmura, que bonita esta imagem - vou levá-la para as minhas propriedades! E assim faz: leva aquela imagem para a sua cabeça, isto é, guarda-a na memória.
A nossa cabeça é, em parte, um armazém, sim, e enorme: por dia, levamos para o nosso território mental centenas de imagens, centenas de frases e sons.
4. Mas a cabeça não é um armazém ou um museu que tenta conservar exactamente aquilo que recebe.
A nossa cabeça é mais um espaço de absorção e digestão. A cabeça é o estômago alto, o estômago inteligente: digere alimentos mentais, digamos assim, digere, por exemplo, textos que lê, imagens que vê, músicas e sons que ouve.
E por isso é que escrever ficção (literatura) e escrever realidades (notícias) - usemos esta expressão - são duas formas de exercer uma responsabilidade. O que cada um lê e vê entra na cabeça e aí alojado faz o seu percurso, avança e muda, interfere com os antigos habitantes desse espaço, com as ideias e imagens anteriores, entra em conflito, faz novas associações.
5. Regressando ao início. O médico que se preocupe com a saúde do seu paciente, dos pés ao cabelo, não deve apenas aconselhar mudanças de dieta alimentar e hábitos físicos. Deve ainda aconselhar mudanças de dieta de leitura, mudanças de dieta de música, mudanças de dieta de imagens. Tal como aconselha alimentos e hábitos, poderia aconselhar filmes, livros, fotografias e artigos de jornal, compositores e concertos.
6. Quando se faz algo que pode interferir na cabeça dos outros é interessante pensar nesse médico ideal, lúcido e sábio, provavelmente inexistente, que algures, no seu consultório, aconselha dietas intelectuais.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

JORGE DE SENA - ANTOLOGIA POÉTICA

 «A obra Antologia Poética de Jorge de Sena é uma selecção de cerca de 200 poemas de um dos mais importantes poetas de língua portuguesa. Esta edição é valorizada pela organização, selecção e prefácio de Jorge Fazenda Lourenço, o maior especialista da obra de Jorge de Sena. Antologia Poética de Jorge de Sena é uma das mais belas e importantes antologias da Poesia mundial do século xx.»

Um dos pontos fortes deste livro de poesia constitui-se (para além da beleza física do livro e da inteligente selecção de poemas dos poemas) pelo texto crítico da autoria do próprio Sena sobre a sua poesia e obra, a que Jorge Fazenda Lourenço deu o título " A poesia de Jorge de Sena por Jorge de Sena". Antes de entrarmos na poesia estamos já inflamados pelas palavras do autor acerca dela. Entra-se nesta antologia, editada recentemente, como numa estrada em que cada poema-paragem fosse um abrigo para a contemplação.
Deixo um dos poemas que tenho como preferido.   

OS TRABALHOS E OS DIAS

Sento-me à mesa como se a mesa fosse o mundo inteiro
e principio a escrever como se escrever fosse respirar
o amor que não se esvai enquanto os corpos sabem
de um caminho sem nada para o regresso da vida.


À medida que escrevo, vou ficando espantado
com a convicção que a mínima coisa põe em não ser nada.
Na mínima coisa que sou, pôde a poesia ser hábito.
Vem, teimosa, com a alegria de eu ficar alegre,
quando fico triste por serem palavras já ditas
estas que vêm, lembradas, doutros poemas velhos.


Uma corrente me prende à mesa em que os homens comem.
E os convivas que chegam intencionalmente sorriem
e só eu sei porque principiei a escrever no princípio do mundo
e desenhei uma rena para a caçar melhor
e falo da verdade, essa iguaria rara:
este papel, esta mesa, eu apreendendo o que escrevo.


Jorge de Sena, Coroa da Terra

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Uma mulher-mito que faz arrepiar sempre que se ouve (bem alto enquanto a casa dorme):
http://www.youtube.com/watch?v=GIjITrAiZCA&feature=related

QUARTO DE BADULAQUES - RUBEM ALVES

Com receio de que não entres num dos quartos da casa de Rubem Alves, transcrevo um dos textos que o decora porque o achei especial. Ora lê, linda amiga:

«Os trinta e três nomes de Deus: De vez em quando perguntam-me se acredito em Deus. Mas é claro. Acredito mais que a maioria das pessoas. Tenho até trinta e três nomes para ele. Esses nomes foi a Margueritte Yourcenar que me contou. Ela foi uma escritora maravilhosa, autora do livro Memórias de Adriano, quem lê nunca mais esquece, quer ler de novo. Pois esses são os trinta e três nomes de Deus que ela me ensinou. É só falar o nome, ver na imaginação o que o nome diz, para que a alma se encha de uma alegria que só pode ser um pedaço de Deus... Mas é preciso ler bem devagarinho... 1.Mar da manhã. 2.Barulho da fonte nos rochedos sobre as paredes de pedra. 3.Vento do mar de noite, numa ilha... 4.Abelha. 5.Vôo triangular dos cisnes. 6. Cordeirinho recém-nascido.... 7.Mugido doce da vaca, mugido selvagem do touro. 8.Mugido paciente do boi. 9. Fogo vermelho no fogão. 10.Capim. 11.Perfume do capim. 12.Passarinho no céu. 13.Terra boa... 14.Garça que esperou toda a noite, meio gelada, e que vai matar sua fome no nascer do sol. 15. Peixinho que agoniza no papo da garça. 16. Mão que entra em contato com as coisas. 17.A pele, toda a superfície do corpo 18. O olhar e tudo o que ele olha. 19.As nove portas da percepção. 20.O torso humano. 21.O som de uma viola e de uma flauta indígena. 22.Um gole de uma bebida fria ou quente. 23.Pão. 24.As flores que saem da terra na primavera. 25.Sono na cama. 26. Um cego que canta e uma criança enferma. 27. Cavalo correndo livre. 28.A cadela e os cãezinhos. 29.Sol nascente sobre um lago gelado. 30.O relâmpago silencioso. 31. O trovão que estronda. 32.O silêncio entre dois amigos. 33.A voz que vem do leste, entra pela orelha direita e ensina uma canção...” Agradeço ao Carlos Brandão por haver me apresentado os trinta e três nomes de Deus da Margueritte. Não é preciso que sejam os seus. Faça a sua própria lista. Eu incluiria: Ouvir a sonata Apassionata de Beethoven. Sapos coaxando no charco. O canto do sabiá. Banho de cachoeira. A tela “Mulher lendo uma carta”, de Vermeer. O sorriso de uma criança. O sorriso de um velho. Balançar num balanço tocando com o pé as folhas da árvore... Morder uma jabuticaba... Todas essas coisas são os pedaços de Deus que conheço... Sim, acredito muito em Deus.»


In http://www.rubemalves.com.br/quartodebadulaquesLXXX.htm

OS REIS MAGOS - RUBEM ALVES


No dia 25 de Dezembro o Tiago e a Ana Luís viveram um Natal a mais através deste conto que lhes li. Também li para mim própria. Para eu ouvir e ver todas as palavras que Rubem Alves escreveu e as tornar presentes naquela sala maior onde se encontrava toda a família. Elas entraram para junto de nós e transformaram-nos a todos, de uma maneira estranha, em crianças. Deixo um pequeno excerto para que também tu entres dentro desse outro Natal (mais? ou menos? verdadeiro do que aquele que agendamos anualmente) e que dura naquelas páginas há muitos e muitos anos porque há sempre leitores para ele. A Literatura brasileira tem disto:

«A estrela iluminava uma gruta. Os reis se aproximaram. Na gruta havia vacas, cavalos, burros, ovelhas. Era uma estrebaria. Mas, junto com os animais, uma pequena família: um jovem e uma jovem que amamentava um nenezinho recém-nascido. Era só isso. Nada mais.

Perceberam que haviam se enganado: não era a estrela que iluminava a cena. Era o nenezinho que iluminava a estrela. E olhando bem para ela puderam ver, nela refletido como num espelho, o rosto da criancinha. E disseram: “O universo é um berço onde uma criança dorme!“.
Aí uma coisa estranha aconteceu: ao olhar para o nenezinho os reis perdiam a sua compostura real; eram dominados por uma vontade incontrolável de rir. E quando riam, ficavam leves e começavam a flutuar. Era assim: quem visse o menino se transformava em anjo...
Os reis, em meio aos risos e vôos, olharam cada um para o outro e disseram: “Nossa busca chegou ao fim. Encontramos a alegria. Para se ter alegria é preciso voltar a ser criança...“. Ato contínuo tomaram suas coroas, capas de veludo, dinheiro, ouro, jóias – coisas de adulto - e as depuseram no chão, ao lado das vacas e dos burros... Eram pesadas demais. E partiram leves, ora andando, ora pulando, ora voando, mas sempre rindo.
“Vou mudar de vida“, disse Gaspar. “É horrível ter de estar estudando ciência o tempo todo. Vou me transformar em poeta...“
“Eu também vou mudar de vida“, disse Balt-hazar. “É horrível estar rezando o tempo todo. Vou ser palhaço. O riso é o início da oração.“
Ao que Mélek-hor acrescentou: “E eu descobri o prazer supremo, que vem sempre acompanhado de alegria: brincar. Vou ser um fabricante de brinquedos. Quem brinca volta a ser criança. E quem volta a ser criança está de volta no Paraíso.“.
E assim partiram, cada um por num caminho. E se você, nas suas andanças, se encontrar com um poeta, um palhaço ou um fabricante de brinquedos, pergunte se ele não tem notícias de uns três reis...»


Rubem Alves, Transparências da Eternidade, Verus, 2002

Podes entrar na casa do autor e ler o conto na íntegra porque ele é muito encantador. Quando mudar de casa, quero construir uma como esta de Rubem Alves, sólida e singular:

http://www.rubemalves.com.br/osreismagos.htm

sábado, 25 de dezembro de 2010

A PALAVRA MAIS BELA - ADOLFO SIMÕES MÜLLER

Fui ver ao dicionário de sinónimos
a palavra mais bela e sem igual,
perfeita como a nave dos Jerónimos...
E o dicionário disse-me Natal.

Pergunto aos poetas que releio:
Gabriela, Régio, Goethe, Poe, Quental,
Lorca, Olegário...E a resposta veio:
E é Christmas...Natividad...Noël...Natal.

Interroguei o firmamento todo!
Cobra, formiga, pássaro, chacal!
O aço em chispa, o "pipe-line", o lodo!
E a voz das coisas respondeu Natal!

Pedi ao vento e trouxe-me, dispersos,
- riscos de luz, fragmentos de papel -
cânticos, sinos, lágrimas e versos:
Um N, um A, um T, um A, um L...

Perguntei a mim próprio e fiquei mudo...
Qual a mais bela das palavras, qual?
Para quê perguntar se tudo, tudo,
diz Natal, diz Natal e diz Natal?!

Adolfo Simões Müller, Moço, Bengala e Cão - Poemas, 1971
Edição do autor, Lisboa

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

FELIZ NATAL FELIZ NATAL FELIZ NATAL FELIZ NATAL FELIZ NATAL

FALAVAM-ME DE AMOR - NATÁLIA CORREIA



FALAVAM-ME DE AMOR


Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,


menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.


Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.


O fel que por nós bebes te liberta
 e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.


Natália Correia
O Dilúvio e a Pomba
Lisboa, Publicações D. Quixote, 1979

domingo, 19 de dezembro de 2010

NÃO HÁ DOMINGO SEM POESIA

POEMA DA QUANTIDADE

Aqui são excessivas as estrelas.
O homem é excessivo. As gerações
Inúmeras de aves e de insectos,

Do jaguar constelado e da serpente,
De galhos que se tecem e entretecem,
Do café, da areia e das folhas
Oprimem as manhãs e nos prodigam
Seu minucioso labirinto inútil.
Talvez cada formiga que pisamos

Seja única ante Deus, que a define
Para a execução das regulares
Leis que regem Seu curioso mundo.
Não fosse assim, o universo inteiro
Seria um erro e um oneroso caos.
Os espelhos do ébano e da água,
O espelho inventivo de um sonho,
Os liquenes e os peixes, as madréporas,
Tartarugas alinhadas no tempo,
Os vaga-lumes de uma única tarde,
As araucárias e suas dinastias,

As perfiladas letras de um volume
Que a noite não apaga são sem dúvida
Não menos pessoais e enigmática
Que eu, que as confundo. Não me atrevo
A julgar nem a lepra nem Calígula.”

Jorge Luís Borges

sábado, 18 de dezembro de 2010

SILENTLY - BLONDE REDHEAD



As palavras, ao contrário da imagem, são voláteis e têm dificuldade em fazerem-se recordar com exactidão para sempre. Reside aí o seu mistério. No silêncio que fica para além delas.

FOR THE DAMAGED - BLONDE REDHEAD



Música.Porque ao ouvir se vê o impossível.

ÁREA DE SERVIÇO - FERNANDO PINTO DO AMARAL


« (...) Amei-te muito, sim, amei-te desde o princípio do tempo, desde que o mundo começou a ser mundo: revelação total, febre secreta a iluminar o corpo, a abrir caminhos que mais ninguém conhecera antes de nós , a acender-te no sexo mais do que o sexo, a percorrer em ti, pela primeira vez, todos os corpos de todas as mulheres que desejara até esse momento,

Todas as raparigas que nunca possuíra, todas subitamente concentradas em ti, nesse amor fora do tempo e do espaço, como se só na tua pele a minha fosse lume, sem sabermos porquê, no instante do relâmpago antes do trovão, com a memória de uma tempestade a correr-nos nas veias, a obrigar-nos nas veias, a obrigar-nos a isso, a dizer-nos que tinha de ser,

Es muss sein, es muss sein, sem alternativa, voz de dentro e de fora do mundo,

A fazer-nos receber com júbilo e quase terror a surpresa de um sismo em que tudo de repente se movera, sem deixar pedra sobre pedra, rosto sobre rosto, com os seus epicentros explodindo à superfície do corpo, alterando para sempre o chão onde assentavam as nossas vidas. Quando é assim, não vale a pena perguntar nada ou iludir o destino com as armadilhas da razão: estavas ali e tudo se explicava, numa lógica cega cuja certeza não admitia hesitações. Por isso nos pareceu tão natural esse amor infinitamente maior do que todos os pequenos sonhos que a sociedade nos ensina a cultivar, para que todos os afectos se meçam por uma escala humana. A nossa paixão não se comportava assim, sempre foi muito mais do que humana, fazia-nos atravessar o vazio do mundo como se cada um dos nossos passos pressentisse o abismo e ao mesmo tempo o ignorasse. Foi há sete anos que nos apaixonámos, unidos por um mistério sem medida real, fieis a essa voz omnisciente que nos falava, viviados num oxigénio que respirávamos um do outro para nos salvar a vida,

Respiração boca a boca, ar incandescente,

Como se fosse inesgotável e nos invadisse a boca, a garganta, os pulmões cheios de sol, nas madrugadas que passávamos dentro do carro, um com o outro e um no outro, cada noite mais perto do nosso infinito. Foi há sete anos, meu amor (…)»

Fernando Pinto do Amaral, Área de Serviço, Dom Quixote, pp.163, 164

Um excerto que ofereço ao Márcio para ele poder levar palavras de amor para o seu casamento como se fossem cristais para a sua amada. 

MAGIC MOUNTAIN - BLONDFE REDHEAD



Toda a montanha é mágica especialmente na voz de Kazu Makino(tão bem acompanhada pelos gémeos Simone e Amedeo Pace). Esta versátil banda nova iorquina tem músicas cantadas em várias línguas: inglês, japonês, francês, italiano num estilo muito próprio e que faz sonhar.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

JOANNA NEWSON NA CASA DA MÚSICA

O concerto é no dia 24 de Janeiro na Casa da Música.

JANELAS DO MUNDO

Nicola Slattery

Estar à janela é
ter uma perspectiva íntima 
do mundo. Estar à janela requer
 um silêncio interior maior do que os outros
 silêncios. Como uma luz apagada com a intenção
 de nos tornarmos sombras que esperam um brilho maior
 surgido de repente do lado de fora da vida. A unidade da poesia. 

DUBLINESCA - ENRIQUE VILA MATAS

Está para breve a chegada da tradução portuguesa de Dublinesca pela Teorema. Em França recebeu o prémio Jean-Carrière. Cá, não sei o que receberá, mas espero-o com muita ansiedade.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

 Carrossel de La Defense, Paris

«O estilo de uma cidade é visível na arquitectura,
na roupa das mulheres e na qualidade dos poemas.
Mas se para se conhecer uma flor bastará cheirá-la,
uma cidade, se olhada com atenção, é apenas o indício
 de um homem: e esse homem é sábio,
ladrão ou polícia.Um único homem (mas onde estará ele?)
resume as maravilhas da cidade,
as suas perversões,
o modo como os líquidos circulam na cidade.»

Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia
kawamata

Há tantas cadeiras em Paris à nossa espera, transformando esse tempo paciente numa obra de arte. É urgente conhecer mais criações de Kawamata para reconhecer o caos que os objectos na contemporaneidade constroem à nossa volta como prova de uma abundância desregrada e de uma vontade desmedida de nos projectarmos para além do quotidiano através de um sentido agudo de posse. Uma imagem pode servir de explicação de um século.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

USELESS CREATURES - ANDREW BIRD


O novo CD de Andrew Bird já se pode comprar. São muito bonitas as musicas, instrumentais, deste novo trabalho onde o violino, o assobio e a voz (que mais parece um terceiro instrumento) se misturam e impõem.
A. Bird diz que desconfia das palavras por elas nos poderem enganar, preferindo a nudez da melodia, muito mais honesta, na sua opinião.
Um CD que se ouve muito alto para sonhar para lá de todas as palavras.


terça-feira, 14 de dezembro de 2010

CARTAS DA LITERATURA

«Quero falar a sós contigo, dizer-te tudo pela primeira vez; hás-de ficar a saber toda a minha vida que sempre foi tua e acerca da qual jamais soubeste. Contudo apenas hás-de ficar a saber do meu segredo quando estiver morta, quando já não tiveres de responder-me, quando chegar verdadeiramente ao fim aquilo que agora me estremece pés e mãos, ora me afrontando ora me enregelando. Caso fique viva, então rasgarei esta carta e guardarei silêncio como sempre fiz. Caso a tenhas em teu poder, ficas então a saber ser uma morta quem te conta aqui a sua vida, que foi a tua desde a sua primeira até à sua última hora (...).»

Stefan Zweig, Carta de uma desconhecida, a esfera dos livros

Era o dia do seu quadragésimo aniversário e o conhecido romancista R. recebia, entrea habitual correspondência, uma misteriosa carta. Escrita à pressa, com letra de mulher, duas duzias de páginas de uma confissão que começava assim: «Para ti que nunca me conheceste.» Um relato dramático de uma mulher que ama, desesperadamente, um homem incapaz de amar alguém.

Carta de uma desconhecida é um dos mais aclamados livros de Stefan Zweig que traça um profundo retrato psicológico de uma mulher que amou sem ser amada. Uma relíquia literária onde o autor austríaco descreve com mestria os sentimentos humanos e o drama das suas condições.

(informação da contracapa)

GONÇALO M. TAVARES EM ENTREVISTA

"(...) Há um livro que é determinante no meu percurso: as cartas a Lucílio, de Séneca. Li-o com uns 18 ou 19 anos. É um livro que me acompanha muito. Logo a primeira carta é uma carta sobre o tempo. Lucílio é um discípulo a quem Séneca diz: «Caro Lucílio, já que te queixas de falta de tempo, relata-me o teu dia anterior, diz-me o que fizeste e quanto tempo gastaste com cada coisa; depois de teres feito essa lista, vê de entre as coisas que fizeste quais são as que consideras essenciais e quais são as acessórias, aquelas que poderias dispensar, depois de definires o essencial e o acessório, elimina amanhã o que é acessório e faz apenas as coisas essenciais.» O que acho muito bonito nisto é ele aconselhar a fazer uma contabilidade do tempo. Isto é marcante para mim."

Tenho a certeza de que, como eu, queridas amigas, vocês sentem que o encontro com o Gonçalo M. Tavares, em Viana do Castelo, nunca poderia ser dispensado da lista das coisas essenciais. Não acham? Nem tão pouco a revista Ler deste mês de Dezembro. Haverá melhor presente?

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O SENHOR ELIOT - GONÇALO M. TAVARES


Para recordar todos os senhores do bairro, um vídeo muito interessante, da Caminho, é este:

Mas o novo livro do bairro, O Senhor Eliot e as Conferências, é uma porta aberta para a gargalhada. É uma ousadia o que Gonçalo M. Tavares faz dizer (aparentemente de forma tão pueril e na superfície do texto!) acerca de  alguns versos que escolheu de uma série de poetas estrangeiros. Cada capítulo é uma conferência proferida pelo Senhor Eliot, frente a um público assistente diminuto mas de enorme gabarito (Borges, Breton, Swedenborg, etc) e uma aventura inconsequente da capacidade de interpretação. Transcrevo um excerto da 1ª conferência, na qual o Senhor Eliot começa por explicar um verso de Cecília Meireles:

Vem ver o dia crescer entre o chão e o céu

Trata-se, em primeiro lugar, podemos pensar, de uma mentira. O dia não cresce. Porém, as coisas não são assim tão simples.
Antes do mais, note-se neste verso que o crescer de um dia não é em direcção aum sítio alto qualquer. O dia poderia crescer em direcção ao topo de um edifício. Mas não. Cresce em direcção ao céu.
Reparem ainda que o dia, no verso de Cecília Meireles, vem do chão; o chão visto assim como o outro lado do céu.
Uma dúvida se instala de imediato sobre este verso.
De que chão se trata?
Porque se o dia, imaginemos, crescer desde o chão de uma montanha de três mil metros de altura até ao céu, será evidente que quem vem ver tem menos para ver, pois o percurso é menor. Se se tratasse aqui de algo comercial, seria perfeitamente legítimo que alguém que vem ver o dia crescer entre o chão de uma montanha de três mil metros e o céu não pague o mesmo. (...)

Gonçalo M. Tavares, O Senhor Eliot e as Conferências, Caminho

O POETA COMO NU

um dia apareceu um poeta sem pétalas. nunca tal se vira.
sem pétalas, dizia-se, estava igual a nu, coberto de nada que
o diferisse, como se ser poeta não trouxesse marcas à flor da
pele. algumas pessoas riram-se nervosamente, e só por isso o
estranho poeta se foi embora sem outra notícia.

valter hugo mãe, contabilidade, p. 165

O POEMA FORMIGA

era um poema tão trabalhador que, a cada palavra, construía
cidades inteiras. expunha nitidamente extensões como da
terra ao sol e até incluía o tamanho de deus. tudo visível aos
olhos humanos abertos em surpresa. era, contudo, um poema
sucinto.

valter hugo mãe, Contabilidade, p. 164

domingo, 12 de dezembro de 2010

«A poesia de valter hugo mãe recolhida neste volume mostra quinze anos de oficina lírica que, na verdade, foi a grande escola do escritor. São onze títulos aqui incluídos que se revelam muito diferentes pela progressiva narratividade, acentuada nos trabalhos mais recentes, e pela intimidade, ou confessionalidade, que os seus versos começam a assumir. Entre uma ferocidade incondicional e uma vulnerabilidade profunda, a poesia deste autor passa por livros como: útero, pornografia erudita, a natureza revolucionária da felicidade, ou o mais recente título, o inimigo cá dentro.»






NÃO HÁ DOMINGO SEM POESIA


Morri pela beleza, mas apenas estava
Acomodada em meu túmulo,
Alguém que morrera pela verdade,
Era depositado no carneiro próximo.
Perguntou-me baixinho o que me matara.
– A beleza, respondi.
– A mim, a verdade, – é a mesma coisa,
Somos irmãos.
E assim, como parentes que uma noite se encontram,
Conversamos de jazigo a jazigo
Até que o musgo alcançou os nossos lábios
E cobriu os nossos nomes.




Emily Dickinson
Antologia da Poesia Americana, Ediouro, 1992
Tradução de Manuel Bandeira

sábado, 11 de dezembro de 2010

REPÚBLICA DAS MULHERES - MARIA JOÃO SEIXAS

Trouxe o livro de Maria João Seixas, a quem admiro muito, para casa pois já era um vício entrar na biblioteca da escola e capturá-lo para espreitar uma nova escritora, uma nova voz. Ana Hatherly foi determinante para querer ver mais neste livro pois é absolutamente fantástico o modo como fala do caminho que fez e desfez na conquista do conhecimento (para isso lhe serve a escrita). As suas respostas à entrevista partem de cada um dos versos do seu poema "Asas", e essa ordem e progressão vão permitindo que ela fale de si e da importância daquilo que se esconde (e liberta) em cada uma das palavras que fazem a sua poesia. Transcrevo uma resposta  desta poetisa que, se já admirava, passei a admirar ao quadrado. Ora vê (porque ver é sempre ler):

MJS - «Ébria de Escrita» é o quarto verso do seu poema. Quer ajudar-me a entender melhor o que nele vem dito?
AH- Sempre que começo a fazer qualquer coisa, sou um pouco obsessiva e um pouco insistente. Quando entrei para o Grupo da Poesia Experimental, nos anos cinquenta, comecei a trabalhar com uns trabalhos que eram umas composições de palavras ilegíveis , pareciam uns desenhos estranhos, caligráficos.
A ilegibilidade era rigorosamente a minha intenção, porque quando não conseguimos ler uma palavra, prestamos maior atenção à forma das letras, que  era o que me interessava destacar. Inspirei-me num presente raro que me tinham oferecido, um dicionário chinês, com palavras desde as origens arcaicas até hoje. Fiquei fascinada com aqueles caracteres e pus-me a copiá-los. O princípio de todas as civilizações traduz-se em tentativas de representação humana e a escrita é uma delas. Tendo estudado História de Arte e Arqueologia, aqueles caracteres eram muito reveladores.É fascinante o antropomorfismo dos signos, mesmo que mais ou menos distorcidosque se encontram na origem de todas as escritas (a nossa, a latina, vinda dos romanos, não é tão antropomórfica, é mais simples, mais geométrica, mas também mais elegante). À medida que copiava do livro os caracteres chineses, à medida que mergulhava neles com mais e maior atenção (não sabendo uma palavra de chinês, então e hoje), reparei que a minha mão se foi tornando inteligente e comecei a perceber o mecanismo da ligação de cabeça à mão. Deixei de precisar de pensar para fazer – quando a mão sabe, eu sei, quando eu sei, a mão sabe. É um processo extremamente interessante. Passei a olhar para a escrita de outro modo, um modo que se tornou uma verdadeira embriaguez, uma obsessão eufórica, uma possessão. («Ébria de escrita»).

Maria João Seixas, República das Mulheres, Bertrand Editora

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

EXCERTOS QUE FICAM

Para comemorar o aniversário de Clarice Lispector, um excerto que fica:

«- Tu eras a pessoa mais antiga que eu jamais conheci. Eras a monotonia de meu amor eterno, e eu não sabia. Eu tinha por ti o tédio que sinto nos feriados. O que era? era como a água escorrendo numa fonte de pedra, e os anos demarcados na lisura de pedra, o musgo entreaberto pelo fio d'água correndo, e a nuvem no alto, e o homem amado repousando, e o amor parado, era feriado, e o silêncio no voo dos mosquitos. E o presente disponível. E minha libertação lentamente entediada, a fartura, a fartura do corpo que não pede e não precisa.»

Clarice Lispector, A Paixão Segundo G.H., Relógio d'Água
E quando viram o tornado do amor desceram, novos e velhos, as escadas  para a rua, e olharam-se todos dentro dos olhos uns dos outros à procura de se verem como num espelho.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

SE A EUROPA ACORDAR - PETER SLOTERDIJK

Obrigada Paulinha pela tua sabedoria e plena bondade no empréstimo deste livro (nunca vi em ti uma "bondade autoritária", como o disse tão bem, Clarice Lispector). Vale realmente bem a pena ler o que pensa Peter Sloterdijk, este filósofo considerado na actualidade o mais inovador e expressivo pensador alemão. 

«(...)Pouco depois do fim da II Guerra Mundial, circulava no hemisfério ocidental a frase segundo a qual o ser humano seria um ente «condenado à liberdade». O autor do teorema, Jean-Paul Sartre, criara com essa formulação paradoxal a palavra de ordem do existencialismo. Condamné à la liberté: em nenhuma outra expressão se exprimia melhor, numa perspectiva indiscutivelmente neo-europeia, o sofrimento primário ante a nova abertura e o novo vazio do mundo. Naquela altura, o termo heideggeriano «estar-lançado-no-mundo» teve a sua grande hora. De facto, uma liberdade europeia que ficava a dever-se a uma tal libération pendia sobre os sobreviventes como um diagnóstico patológico. Melhor do que os outros, os franceses sabiam forçosamente o que quer dizer estar exposto a uma liberdade que não se conquistou. Condenação pela libertação: a fórmula de Sartre dava uma ideia clara não da sua época mas do humor ferido que a dominava. O imediato pós-guerra encontrou a sua tonalidade de base num sentimento de desenraizamento existencial a que a partir daí se usou chamar absurdo: o absurdo é um estar que se vê instalado num mundo gigantesco e repulsivo, sem missão inspiradora e sem tarefas objectivas. Existir passou a significar: estar privado de essência e trazer no corpo a carência do ser como primeira propriedade. O ser humano surgia pois como parasita do ser - e, por isso, condenado a invejar as coisas e a aspirar à sua substancialidade. (...)»

Peter Sloterdjik, Se a Europa Acordar, p.19

Ainda para mais o autor revela um  gosto exímio na escolha das epígrafes que abrem cada um dos seis capítulos do livro que até dá vontade de ir buscar todos os  livros a que foi recolhê-las para integrar aquelas frases soltas nos seus habitats naturais e verificar se permanecem as mesmas.
Transcrevo apenas a que abre o capítulo 2 ao qual pertence o excerto deste post:

« a mesma gente simpática a mesma falta de valor.»
George B. Shaw
On Heartbreak, 1920  

JANELAS DO MUNDO

Ao lado desta janela fico com a cabeça mesmo no ar, entontecida, por isso ela não existe na minha realidade de mulher voadora. Junto da ausência dela, só existem as pálpebras fechadas, o pressentimento de passageiros desconhecidos muito perto e uma litânia da cor das nuvens repetida vezes sem conta, sem mexer os lábios, como a sonhar que a não-janela se tornará janela dentro em breve, com a paisagem por detrás dela a bater-me no vidro porque já lhe chega na ponta dos pés, no seu tamanho quase-quase natural.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

AS MAGIAS - HERBERTO HELDER

Na colecção Gato Maltês (que adoro), da Assírio & Alvim,  os "poemas mudados para português" que Herberto Helder intitulou As Magias, comprovam esse êxtase pré-anunciado. Cheiro-lhes um primitivismo poético que parece fazer-me encontrar em cada verso, em cada palavra, a sua feroz origem  na literatura. Leio, aqui, a poesia como um caminho para o início de tudo e de todos os povos. A palavra poética, mesmo solitária ou imperceptível, é uma magia que nos faz chegar a tudo. É uma teoria contra o mal porém que muitas vezes também o atrai. É a transmutação do ser primitivo no homem e na mulher que somos. É  o tempo infinito materializado num objecto que podemos tocar e dizer.
Passo-te, agora, palavras de outra sobre este mesmo livro:

«No segundo livro de versões – As Magias – Herberto Helder inclui não só textos anónimos, mas também textos de autores conhecidos na história das literaturas – alguns escolheram, como ele, sair da Europa, viveram em países como o Brasil ou o México, e a sua escrita revela também traços dessas tradições primitivas. É o caso de D.H.Lawrence e de Henri Michaux.»

Maria Etelvina Santos

E agora um poema, inteiro, deste livro de poesia que é poesia:
O Coração
(Stephen Crane)

No deserto,
vi uma criatura nua, brutal,
que de cócoras na terra
tinha o seu próprio coração
nas mãos e comia...
Disse-lhe: «É bom, amigo?»
«É amargo - respondeu -,
amargo, mas gosto
porque é amargo
e porque é o meu coração.


Outro que apetece cantar:

(Índios Comanches, EUA)

Djá i dju nibá u
i dju nibá i dju nibá u
djá i dju nibá i ná ê nê ná
i djá i naí ni ná
i dju nibá u
i dju nibá i dju nibá u
djá i dju nibá i djá ê nê ná

E por último:

As coisas feitas em ferro

(D. H. Laurence)

As coisas feitas em aço e trabalhadas em ferro
nascem mortas, como sudários, devoram a nossa vida.
E um dia, quando já deitaram velhas raízes na nossa
                                                                        vida,
aplacam-se, e apaziguam-nos; e é então que as atiramos
                                                                             fora.


terça-feira, 7 de dezembro de 2010

À CONVERSA COM GONÇALO M. TAVARES - BIBLIOTECA MUNICIPAL DE VIANA DO CASTELO

«Dia 11 de Dezembro, pelas 18,00 horas, na Sala Couto Viana, vamos estar À conversa com… Gonçalo M. Tavares, a propósito do lançamento do seu livro intitulado "Uma viagem à Índia". Com esta iniciativa pretende-se promover, em torno do livro, o diálogo e a troca de conhecimentos com escritores contemporâneos, proporcionando a oportunidade de conviver de perto com os autores e a sua obra.»



http://www.biblioteca.cm-viana-castelo.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=221%3Aa-conversa-com-goncalo-tavares&catid=70%3Aactualidade&Itemid=285

domingo, 5 de dezembro de 2010

MORCHEEBA - THE SEA



Debaixo do mar habitam todas as melodias.

NÃO HÁ DOMINGO SEM POESIA


COISAS, PEQUENAS COISAS

Fazer das coisas fracas um poema.

Uma árvore está quieta,
murcha, desprezada.
Mas se o poeta a levanta pelos cabelos
e lhe sopra os dedos,
ela volta a empertigar-se, renovada.
E tu, que não sabias o segredo,
perdes a vaidade.
Fora de ti há o mundo
e nele há tudo
que em ti não cabe.


Homem, até o barro tem poesia!
Olha as coisas com humildade.


Fernando Namora, Mar de Sargaços

sábado, 4 de dezembro de 2010

My one and only love



Como nunca me canso de ouvir esta melodia tão romantica... decidi oferecer-te... para continuares com as mãozinhas grudadas pelo amor...
Das tuas mãos o tédio desfaz-se em flores
de tantas cores que cegam ensurdecem calam
qualquer dúvida que nasça do fio de água
que procuro debaixo das pedras que calcas
e reduzes a um pó vagaroso de ouro fino
quase transparente como as tardes de vento
da minha terra amareladamente furtivas
quase líquidas e pétalas as tuas mãos morenas
quase opacas as minhas quando me tocas desejoso
quando cara a cara só vejo os teus olhos - cega.

ÚLTIMA CIÊNCIA - HERBERTO HELDER

A solidão de uma palavra. Uma colina quando a
[ espuma
salta contra o mês de maio
escrito. A mão que o escreve agora.
Até cada coisa mergulhar no seu baptismo.
Até que essa palavra se transmude em nome
e pouse, pelo sopro, no centro
de como corres cheio de luz selvagem,
como se levasses uma faixa de água
entre
o coração e o umbigo.

*
Ninguém sabe se o vento arrasta a lua ou se a lua

arranca um vento às escuras.
As salas contemplam a noite com uma atenção
[ extasiada.
Fazemos álgebra, música, astronomia,
um mapa
intuitivo do mundo. O sobressalto,
a agonia, às vezes um monstruoso júbilo,
desencadeiam
abruptamente o ritmo.
— Um dedo toca nas têmporas, mergulha tão
[ fundo
que todo o sangue do corpo vem à boca
numa palavra.
E o vento dessa palavra é uma expansão da
[ terra.

Herberto Helder, Última Ciência

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

ENTREVISTAS A GONÇALO M. TAVARES

Hoje resolvi procurar o rosto e a voz real (?) do autor com que ocupo tantas horas dos meus dias. Aliás, a primeira vez (e última) que o vi na televisão já foi há muitos anos, aquando do prémio que Jerusalém lhe concedeu. Hoje, cheia de imagens de Matteo e Ana na cabeça, procurei-o para o ver e ouvir em discurso directo, sem rodeios ou figuras de estilo no papel, apenas ele, o criador de tantas páginas que me deixam perplexa e com vontade de nunca desistir da literatura.Consequência: beijei todas as palavras que disse. De todas as entrevistas que vi, escolhi duas. Uma por dar a conhecer quase toda a obra dele (faltam os três mais recentes livros, todos eles editados em Outubro de 2010). Outra porque me deu a saber que ele não é arquitecto nem tão pouco engenheiro civil, também não é formado em Filosofia nem em Letras... É uma surpresa também muito grande, aquilo que ele foi sendo, construindo e é (ou parece ser). Achei-o fantástico como os seus livros. Tu também vais achar, linda amiga. E vais ter muita pena, como eu, de não teres embarcado na viagem rumo à Rússia, no grupo que ele liderou como escritor absoluto. Antes de veres, adianto-te, mais uma vez, que vais ficar a gostar tanto da pessoa como da sua escrita e imaginário. Ora vê:



E agora outra:

Gosto muito deste pequeno livro traduzido do italiano para o francês por Maurice Javion e Jean-Paul Manganaro que me ofereceste, linda amiga. Primeiro porque me cheira a Paris e às bancas ambulantes de livros antigos expostos magnificamente ao sol (e à chuva) a preços aliciantes, à espera de compradores...normalmente leitores apaixonados como tu.   A capa é uma obra de arte de 1925, lindíssima, da autoria de  Antonio Donghi, com o título em italiano La Canzonettista. As Éditions du Seuil, com livros de bolso, magicamente portáteis, permitiram que eu lesse muito em francês quando era ainda estudante  e fizeram de muitas das minhas viagens de comboio, Porto-Espinho e Espinho-Porto, deliciosas. Tenho inúmeros livrinhos em língua francesa desse tempo à espera deste na prateleira consagrada aos livros em francês... Este é um livro de aventuras, muitas aventuras estanques, todas unidas pelo subtítulo "Les amours difficiles", numa primeira parte do livro.  A primeira aventura é a de um soldado e todas as que se seguem pertencem a personagens que desde logo temos vontade de conhecer: aventure d'un lecteur, d'un myope, d'un photographe, d'un poète, d'un skieur, d'un voyageur,  etc. A segunda parte da obra  é constituída por duas novelas de maior extensão (que aumentaram esta edição) sob o grande subtítulo" La Vie Difficile". Tudo indicia que deste livro fazem parte muitas dificuldades que pela sua essência problematizante (do não-encontro do casal apaixonado) constroem o verdadeiro amor, construindo, por isso mesmo, histórias aliciantes e o prazer da leitura.

Uma curiosidade enorme fez-me ler, desde logo, L'aventure d'un myope (antes mesmo de L'aventure d'un poète ou L'aventure d'un lecteur...). Transcrevo uma parte que nos apresenta a personagem:

L’aventure d’un myope



«Hamilcar Carruga était jeune, il ne manquait pas de ressources, il n’avait pás trop d’ambitions matérielles ou spirituelles: rien ne l’empêchait de jouir de l’existence.


Or, depuis quelques temps, cette existence allait perdant, jour après jour, de sa saveur. Il s’en apercevait à des petits details: par exemple, en regardant les femmes dans la rue; naguère, il leur lançait des oeillades avides, possessives; à present, il les cherchait bien encore du regard, mais elles disparaissaient comme en coup de vent, sans lui laisser la moindre impression; résigné, il bassait les paupières. Les villes inconnues, auparavant, l’enthousiasmaient (il voyageait beaucoup, étant dans les affaires); ells ne lui procuraient plus qu’ennui, effarement disorientation. Il avait l’habitude, vivant seul, d’aller chaque soir au cinema; il s’amusait toujours, quel que fut le programme: quand on y va quotidiennement, c’est un peu comme si se déroulait un même film aux multiples episodes; on connaît les acteurs, de la vedette au second au second et troisième role, et le fait de les identifier à coup sûr est déjà un divertissement. Eh bien, meme au cinema, les visages devenaient falots, sans relief, interchangeable: Hamilcar bâillait d’ennui.


Il finit par comprendre: le mal était en lui, qui devenait myope. L’oculiste ordonna dês verres. Ce fut un changement total; s avie devint cent fois plus excitante qu’avant.


Rien qu’à chausser les lunettes, Hamilcar éprouvait un choc. Il se trouvait, disons, à un arrêt de tram, et ça le rendait un peu triste que tout, choses et gens, eût un aspect vague, monotone et comme usage, avec lui, là, aumilieu, avançons à tâtons dans un chãos de formes et de couleurs fantomatiques. Il mettait les lunettes, pour lire le número d’un tram: comme un enchantement, les objects les plus quelconques, à commencer par la perche du tram, se dessinaient dans leurs moindres détails, avec une netteté d’épure; les visages, cês visages indistincts, se remplissaient de signes tout particuliers: pointillé de la barbe, boutons, nuances d’expression à quoi on ne s’attendait guère; les vêtements, on savait quel tissu ils étaient faits, et la qualité d’une étoffe, l’usure d’un ourlet ne passaient plus inaperçues. Regarder devenait un jeu, une fête: pas regarder une chose plûtot qu’une autre, non, regarder pour regarder. Hamilcar Carruga en oubliait de prêter attention aux trams; il les ratait l’un après l’autre, ou quelquefois partait dans une mauvaise direction. Il voyait tant et tant de choses qu’à la fin c’était comme s’il n’y voyait plus. Il lui fallut, petit à petit, s’habituer, réapprendre à distinguer entre ce qu’il faut voir et ce qu’il est bon de négliger.


Quant aux femmes croisées au hasard dês rues, elles dont il ne lui restait naguère que d’inconsistantes ombres floues, maintenant qu’Hamilcar était à même d’apprécier ce jeu de pleins et de rentrants que font leurs corps en bougeant sous la toilette, la fraîcheur de leur peau, le feu de leur regard, il lui semblait qu’il faisait mieux que les voir, qu’elles étaient pour ainsi dire en son pouvoir. Il arrivait que, se promenant sans ses lunettes (afin de s’épargner de la fatigue, il les portait uniquement pour regarder de loin), il vît surgir devant lui, sur son trottoir, une robe aux couleurs pimpantes: aussitôt, d’un geste déjà machinal, il tirait ses lunettes de sa poche, les posait bien d’aplomb sur son nez. Cette soif incôntrolée de sensations lui jouait plus d’un tour: parfois, ce n’était qu’une vieille. Il devint circonspect. Mais, d’autres fois, il advenait qu’une femme lui parût, de loin, à son allure, à la couleur de sa robe, négligeable, indigne d’examen; il ne mettait pas ses lunettes; puis, au moment où ils passaient tout prés l’un de l’autre, Hamilcar découvrait en elle quelque chose qui l’attirait vivement, allez savoir quoi, il croyait surprendre un regard qui se posait sur lui, un regard d’attente, un regard qui peut-être le suivait depuis tout à l’heure et dont il ne s’était pas aperçu; maintenant, c’était trop tard: elle traversait le carrefour, montait dans un bus, le feu passait au vert, elle était loin, et lui, incapable de la reconnaître. Ainsi, parce qu’il était condamné aux lunettes, il apprenait à vivre, peu à peu. (…)»





quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

HYSTERIA - T. S. ELIOT

«As she laughed I was aware of becoming involved in her laughter and being part of it, until her teeth were only accidental stars with a talent for squad-drill. I was drawn in by short gasps, inhaled at each momentary recovery, lost finally in the dark caverns of her throat, bruised by the ripple of unseen muscles. An elderly waiter with trembling hands was hurriedly spreading a pink and white checked cloth over the rusty green iron table, saying: “If the lady and gentleman wish to take their tea in the garden, if the lady and gentleman wish to take their tea in the garden…” I decided that if the shaking of her breasts could be stopped, some of the fragments of the afternoon might be collected, and I concentrated my attention with careful subtlety to this end. »



T. S. Eliot, Prufrock and Other Observations

 

EXCERTOS QUE FICAM

Não fechei o livro para oferecer estas palavras a ti, linda amiga e ao Gonçalo M. Tavares pois tenho a certeza de que ambos acharão esta página tão deslumbrante como eu.
Reescrever é reler e apoderarmo-nos das palavras dos outros com alguma autoridade. Aqui vai o excerto, agora meu e vosso:

«There is geometry in the humming of the strings. Ther is music in the spacings of the spheres.»



THIS IS NOT A LOVE SONG



Como na Matemática as palavras são sinais que se opõem e muitas vezes se anulam... This is not a love song, this is a love song ...
Lindíssima esta música de Anita Lane, reinterpretada pelos Nouvelle Vague... Falta-lhe o ênfase da afirmação peremptória This is a love song, na voz de Anita Lane, que se mistura e se enrola no final da música e de toda a excitação nela contida, com a falsa negação "This is not a love song" (só porque tem lá not - quanto poder dissimulador uma palavra pode ter...).

terça-feira, 30 de novembro de 2010

 
Vives nas palavras que disseste, nas palavras em que acreditaste, nas palavras em que te deste a conhecer - és muitos neste dia como sempre o quiseste ser. Vives ainda, muito, Pessoa.

Deixo um texto em que o carácter do poeta dos poetas é definido por ele próprio como se visse outro, exterior a si tal uma paisagem. Magnífico excerto para lembrar os 75 anos da sua morte física. Um espelho onde ele se viu reflectido, este texto:

«Cumpre-me agora dizer que espécie de homem sou. Não importa o meu nome, nem quaisquer outros pormenores externos que me digam respeito. É acerca do meu carácter que se impõe dizer algo.



Toda a constituição do meu espírito é de hesitação e dúvida. Para mim, nada é nem pode ser positivo; todas as coisas oscilam em torno de mim, e eu com elas, incerto para mim próprio. Tudo para mim é incoerência e mutação. Tudo é mistério, e tudo é prenhe de significado. Todas as coisas são «desconhecidas», símbolos do Desconhecido. O resultado O resultado é horror, mistério, um medo por de mais inteligente.


Pelas minhas tendências naturais, pelas circunstâncias que rodearam o alvor da minha vida, pela influência dos estudos feitos sob o seu impulso (estas mesmas tendências) - por tudo isto o meu carácter é do género interior, autocêntrico, mudo, não auto-suficiente mas perdido em si próprio. Toda a minha vida tem sido de passividade e sonho.


Todo o meu carácter consiste no ódio, no horror e na incapacidade que impregna tudo aquilo que sou, física e mentalmente, para actos decisivos, para pensamentos definidos. Jamais tive uma decisão nascida do autodomínio, jamais traí externamente uma vontade consciente. Os meus escritos, todos eles ficaram por acabar; sempre se interpunham novos pensamentos, extraordinárias, inexpulsáveis associações de ideias cujo termo era o infinito.


Não posso evitar o ódio que os meus pensamentos têm a acabar seja o que for; uma coisa simples suscita dez mil pensamentos, e destes dez mil pensamentos brotam dez mil interassociações, e não tenho força de vontade para os eliminar ou deter, nem para os reunir num só pensamento central em que se percam os pormenores sem importância mas a eles associados. Perpassam dentro de mim; não são pensamentos meus, mas sim pensamentos que passam através de mim. Não pondero, sonho; não estou inspirado, deliro. Sei pintar mas nunca pintei, sei compor música, mas nunca compus. Estranhas concepções em três artes, belos voos de imaginação acariciam-me o cérebro; mas deixo-os ali dormitar até que morrem, pois falta-me poder para lhes dar corpo, para os converter em coisas do mundo externo.


O meu carácter é tal que detesto o começo e o fim das coisas, pois são pontos definidos. Aflige-me a ideia de se encontrar uma solução para os mais altos, mais nobres, problemas da ciência, da filosofia; a ideia que algo possa ser determinado por Deus ou pelo mundo enche-me de horror. Que as coisas mais momentosas se concretizem, que um dia os homens venham todos a ser felizes, que se encontre uma solução para os males da sociedade, mesmo na sua concepção - enfurece-me. E, contudo, não sou mau nem cruel; sou louco, e isso duma forma difícil de conceber.


Embora tenha sido leitor voraz e ardente, não me lembro de qualquer livro que haja lido, em tal grau eram as minhas leituras estados do meu próprio espírito, sonhos meus - mais, provocações de sonhos. A minha própria recordação de acontecimentos, de coisas externas, é vaga, mais do que incoerente. Estremeço ao pensar quão pouco resta no meu espírito do que foi a minha vida passada. Eu, um homem convicto de que hoje é um sonho, sou menos do que uma coisa de hoje. »


Fernando Pessoa, Notas Autobiográficas e de Autognose