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quinta-feira, 14 de abril de 2011

DESIDÉRIO MURCHO - FILOSOFIA EM DIRECTO

«Quando entramos num avião, não votámos no piloto. Não controlámos as suas competências. Outras pessoas e instituições fazem isso por nós. Todavia, os pilotos de aviões são muitíssimo mais competentes, a ajuizar pelo índice de erros que cometem, do que os governantes. Fossem aqueles como estes e todos os dias cairiam aviões por esse mundo fora. (...) Por que não fazer com a governação algo semelhante ao que fazemos no caso da pilotagem de aviões?
A ideia de ter governantes com o mesmo grau de profissionalismo e competência que temos noutras áreas é atraente. O problema é que não sabemos bem como poderíamos fazer tal coisa. Teriam os governantes de ser doutorados em governação? Mas, nesse caso, como poderíamos garantir que esses doutoramentos teriam a qualidade necessária para garantir a competênciados governantes?
Talvez no futuro consigamos ter cursos de governação de grande qualidade - se bem que num país que não tem governantes particularmente competentes, não é de esperar que tenha professores de governação particularmente competentes. Mas, ao passo que é razoavelmente fácil determinar se alguém é ou não um piloto competente, é muito mais difícil determinar se alguem é ou não um governante competente (...)»

quarta-feira, 16 de março de 2011

SUSAN SUNTAG - A CONSCIÊNCIA DAS PALAVRAS

Foi impossível resistir à leitura dos riquíssimos ensaios desta autora a partir dos quais reflecte sobre a literatura de uma forma tão comprometidamente séria que nos envolve nesse forte abraço (que se torna num laço único, num amor) à ideia, à palavra que residem na literatura e dela escorrem. 



«Este volume junta dezasseis ensaios e conferências escritos por Sontag nos últimos anos de vida, período em que as homenagens à sua obra se sucediam por todo o mundo. Em AT THE SAME TIME escreve sobre a liberdade da literatura, sobre a coragem e a resistência, e analisa destemidamente os dilemas da América do pós 11 de Setembro – da degradação da retórica política à horrível tortura dos prisioneiros de Abu Ghraib.

No prefácio, David Rieff descreve a paixão que a impeliu toda a vida: “Interessava-se por tudo. Na verdade, se apenas tivesse uma palavra para a evocar, essa palavra seria avidez. Queria experimentar tudo, provar tudo, ir a toda a parte, fazer tudo (...) Penso que, para ela, a alegria de viver e a alegria de saber eram uma e a mesma coisa.”

A inteligência incisiva de Susan Sontag, o brilho da sua expressividade, a profunda curiosidade pela arte e pela política e a sua responsabilidade de testemunhar enquanto autor, colocam-na entre os mais importantes pensadores e escritores do século XX.»



Deixo, neste espaço que se segue, um excerto do discurso de aceitação do Prémio Jerusalém a que atribuiu o título "A Consciência das palavras" e que tanto gostei de ler:

«Assim, a Literatura é – e falo prescritivamente – auto-consciência, dúvida, escrúpulo, rigor. E também – mais uma vez, prescritivamente, assim como descritivamente – canção, espontaneidade, celebração, júbilo.

As ideias acerca da literatura – contrariamente às ideias sobre, digamos, o amor – quase nunca surgem que não seja à resposta à ideia de outros. São ideias reactivas. Digo isto porque tenho a impressão de que tu – ou a maior parte das pessoas – dizem aquilo (…)

Digo isto quando dizes aquilo, não apenas porque os escritores são por vezes, adversários profissionais. Não apenas  para corrigir o inevitável desiquilíbrio ou parcialidade de qualquer prática que tem o carácter de uma instituição – e a literatura é uma instituição – mas porque a literatura é uma prática enraizada em aspirações inerentemente contraditórias. (…)

Assim, cada obra de literatura com importância, que merece o nome de literatura, encarna um ideal de singularidade, de voz singular. Mas a literatura,que é uma acumulação, encarna um ideal de pluralidade, de multiplicidade, de promiscuidade.

Qualquer ideia de literatura em que possamos pensar – literatura como empenhamento social, literatura como busca de intensidades espirituais pessoais, literatura nacional, literatura mundial – é ou pode vir a ser, uma forma de complacência espiritual, de vaidade ou de auto-satisfação.

A literatura é um sistema – um sistema plural – de padrões, ambições, fidelidades. Parte da função ética da literatura é a lição do valor da diversidade.

Evidentemente, a literatura deve operar dentro de limites. (Como todas as actividades humanas. A única actividade sem limites é estar morto). O problema é que os limites que a maior parte das pessoas quer traçar iriam sufocar a liberdade da literatura ser o que pode ser, com toda a sua inventiva e capacidade de servir de agitação.»

Susan Sontag, Ao mesmo tempo, Quetzal

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O SILÊNCIO DOS LIVROS

Mnemosyne, deusa grega da memória
"A oralidade exige a verdade, a honestidade necessária à autocorrecção, e a democracia, enquanto partilha comum (…).
O segundo aspecto que ressalta do mito de Fedro não é menos significativo. O recurso à escrita debilita o poder da memória. Aquilo que fica escrito e que, portanto, pode ser armazenado – como na «base de dados» do nosso computador – já não precisa de ser confiado à memória. Cultura oral é aquela que constantemente reactualiza as memórias; um texto, ou uma cultura do livro, autoriza (uma vez mais, esta palavra delicada) todas as formas de esquecimento. A distinção conduz-nos ao cerne da identidade humana e da civilitas. Onde quer que a memória seja dinâmica, onde quer que sirva de instrumento a uma transmissão psicológica e comum, a herança passada transforma-se em presente. A transmissão de mitologias matriciais e de textos sagrados através de milénios, o facto de ser possível a um bardo ou a um aedo reproduzir narrativas épicas extremamente longas sem qualquer suporte escrito atestam o poder da memória, quer do executante, quer do ouvinte. Saber «de cor» - e que manancial de informação nesta locução – supõe a apropriação de qualquer coisa e o ser possuído pelo conteúdo do saber em questão.
Quer isto dizer que autorizamos o mito, a prece ou o poema a virem implantar-se e florir no interior de nós mesmos, enriquecendo e modificando a nossa paisagem interior, tal como, por sua vez, cada uma das incursões através da vida modifica e enriquece a nossa existência. Aliás para a filosofia e estética antigas, a memória era a mãe das musas.
Quando a escrita levou a melhor e os livros facilitaram um tanto as coisas, a grande arte mnemónica caiu no esquecimento. A educação moderna cada vez se assemelha mais a uma amnésia institucionalizada. Deixa o espírito da criança vazio do peso das referências vividas. Substitui o saber de cor, que é também um saber do cor(ação), pelo caleidoscópio transitório dos saberes efémeros. Reduz o tempo ao instante e vai instilando em nós, até quando sonhamos, uma amálgama de heterogeneidade e de preguiça. Podemos afirmar que tudo o que aprendemos e não sabemos de cor – adentro dos limites das nossas faculdades sempre imprecisas – é aquilo de que verdadeiramente não gostámos. As palavras de Robert Graves mais não fazem o que dizer que «amar de cor(ação)» ultrapassa em muito qualquer «amor pela arte». Saber de cor é entrar em estreita e activa relação com a essência daquilo que somos. Os livros apõem o selo do bem. (…)”

George Steiner, O Silêncio dos Livros, Gradiva, pp. 15, 16, 17

Este é um ensaio que vale verdadeiramente a pena ler. George Steiner partindo do mito e das figuras que    (i)legitimamente se convencionaram iletradas, Jesus de Nazaré e Sócrates, parte do principio de que  a palavra, despida da sua convenção gráfica, é detentora de um poder invencível e de uma autoridade pura. Explica-nos os passos fundamentais que se deram no interior do livro no que respeita à sua «visualização gráfica», aludindo a que, nos primórdios, em muito contribuiram as expectativas escatológicas de um apocalipse próximo que inviabilizasse um tempo suficiente para cultivar a memória oral. Depois do livro, debate a gravidade que pode assumir a entrega às humanidades, aos livros, à arte na medida em que  o homem corre o risco de se desumanizar. Debate o facto de por detrás do silêncio que discorre da genialidade da obra de alguns autores existir, paradoxalmente, tendências políticas desses mesmos autores assustadoras. Um ensaio imperdível cheio de ideias a conhecer e a debater.
Bom para qualquer educador, para qualquer cidadão que goste de arte e, particularmente, de livros e do seu silêncio.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

SE A EUROPA ACORDAR - PETER SLOTERDIJK

Obrigada Paulinha pela tua sabedoria e plena bondade no empréstimo deste livro (nunca vi em ti uma "bondade autoritária", como o disse tão bem, Clarice Lispector). Vale realmente bem a pena ler o que pensa Peter Sloterdijk, este filósofo considerado na actualidade o mais inovador e expressivo pensador alemão. 

«(...)Pouco depois do fim da II Guerra Mundial, circulava no hemisfério ocidental a frase segundo a qual o ser humano seria um ente «condenado à liberdade». O autor do teorema, Jean-Paul Sartre, criara com essa formulação paradoxal a palavra de ordem do existencialismo. Condamné à la liberté: em nenhuma outra expressão se exprimia melhor, numa perspectiva indiscutivelmente neo-europeia, o sofrimento primário ante a nova abertura e o novo vazio do mundo. Naquela altura, o termo heideggeriano «estar-lançado-no-mundo» teve a sua grande hora. De facto, uma liberdade europeia que ficava a dever-se a uma tal libération pendia sobre os sobreviventes como um diagnóstico patológico. Melhor do que os outros, os franceses sabiam forçosamente o que quer dizer estar exposto a uma liberdade que não se conquistou. Condenação pela libertação: a fórmula de Sartre dava uma ideia clara não da sua época mas do humor ferido que a dominava. O imediato pós-guerra encontrou a sua tonalidade de base num sentimento de desenraizamento existencial a que a partir daí se usou chamar absurdo: o absurdo é um estar que se vê instalado num mundo gigantesco e repulsivo, sem missão inspiradora e sem tarefas objectivas. Existir passou a significar: estar privado de essência e trazer no corpo a carência do ser como primeira propriedade. O ser humano surgia pois como parasita do ser - e, por isso, condenado a invejar as coisas e a aspirar à sua substancialidade. (...)»

Peter Sloterdjik, Se a Europa Acordar, p.19

Ainda para mais o autor revela um  gosto exímio na escolha das epígrafes que abrem cada um dos seis capítulos do livro que até dá vontade de ir buscar todos os  livros a que foi recolhê-las para integrar aquelas frases soltas nos seus habitats naturais e verificar se permanecem as mesmas.
Transcrevo apenas a que abre o capítulo 2 ao qual pertence o excerto deste post:

« a mesma gente simpática a mesma falta de valor.»
George B. Shaw
On Heartbreak, 1920