quarta-feira, 30 de março de 2011

LUIGI PIRANDELLO - UM, NINGUÉM E CEM MIL


O último romance publicado por Luigi Pirandello foi este, tão original e humorístico como comovente no tratamento da questão da identidade. A revelação inusitada, feita pela sua mulher, de que o seu nariz pendia levemente para o lado direito da sua face, vai desencadear nesta personagem atitudes muito estranhas, atirando-o paulatinamente para o mundo da loucura e para uma problemática situação financeira.
Um, Ninguém, Cem Mil rompeu de originalidade o panorama literário no século XX, tendo sido considerada pela crítica uma das suas melhores obras na medida em que nela se sintetiza e compreende todo o seu universo ficcional. Aconselho-a vivamente e deixo um excerto do início da obra para aguçar o interesse:

« 1. MINHA MULHER E MEU NARIZ

- Que estás a fazer? – perguntou-me minha mulher, ao ver que me demorava inusitadamente diante do espelho.
- Nada – respondi-lhe -, estou a olhar para o meu nariz, para dentro desta narina. Quando carrego, sinto uma dorzinha.
Minha mulher sorriu e disse:
- Julgava que estavas a ver para que lado te pende.
Voltei-me, como um cão a quem tivesse pisado a cauda:
- Pende? A mim? O nariz?
E minha mulher, placidamente:
- Claro que sim, querido. Olha bem para ele: pende-te para a direita.
Tinha vinte e oito anos e até então sempre considerara o meu nariz, se não propriamente bonito, pelo menos muito decente, tal como todas as outras partes da minha pessoa. Pelo que me fora fácil admitir e alimentar a ideia que habitualmente admitem e alimentam todos os que não tiveram a infelicidade de lhes calhar em sorte um corpo disforme: que só um tolo se envaidece das suas feições. Por isso, a descoberta súbita e inesperada daquele defeito irritou-me como um castigo imerecido.
Talvez minha mulher tenha visto mais fundo que eu naquela minha irritação, e acrescentou de imediato que, se eu tinha a convicção de não ter defeitos, devia perdê-las, pois, assim como o nariz me pendia para a direita, também…
- O que mais?
Ah, muito mais! As minhas sobrancelhas pareciam dois acentos circunflexos sobre os olhos, ^ ^, as minhas orelhas estavam mal colocadas, uma mais saliente que a outra; e outros defeitos…
- Mais ainda?
Mais ainda, sim: nas mãos, o dedo mindinho; e nas pernas (não; tortas, não!), a direita era um bocadinho mais arqueada que a outra; à altura do joelho, um pouquinho.
Depois de um exame atento, tive de reconhecer que todos esses defeitos eram reais. E só então minha mulher, tomando certamente por desgosto e desânimo o espanto que senti logo a seguir à irritação, para me consolar me exortou a não me afligir tanto, pois mesmos com esses defeitos ainda era, no conjunto, um homem bonito.»

In Um, Ninguém e Cem Mil, Cavalo de Ferro

segunda-feira, 28 de março de 2011

HENRI MICHAUX

Stéphane Houdart
APPARITIONS

Visage qui ne dit qui ne rit
qui ne dit ni oui ni non.
Monstre.
Ombre.
Visage qui tend
qui passe,
qui lentement vers nous bourgeonne ...
Visage perdu.

in La Nuit Remue

domingo, 27 de março de 2011

NÃO HÁ DOMINGO SEM POESIA

Raoul Ubac

MA VIE

Tu t´en vas sans moi, ma vie.
Tu roules,
Et moi j´attends encore de faire un pas.
Tu portes ailleurs la bataille.
Tu me déserts ainsi.
Je ne t´ai jamais suivie.
Je ne vois pas clair dans tes offres.
Le petit peu que je veux, jamais tu ne l´apportes.
A cause de ce manque, j´a aspire à tant.
À tant de choses, à presque l´infini...
À cause de ce peu qui manque, que jamais tu n´apportes.


Henri Michaux

MINHA VIDA
Tu partes sem mim, minha vida.
Tu rodas,
E eu ainda espero dar um passo.
Tu levas a batalha para além.
Tu abandonas-me assim.
Eu nunca te segui.
Não vejo claramente as tuas ofertas.
O mínimo que desejo, tu jamais trazes.
Por esta falta, anseio a tanto.
A tanta coisa, quase ao infinito...
Por causa deste pouco que falta, que tu jamais trazes.





sexta-feira, 25 de março de 2011

O HOMEM QUE CONFUNDIU A MULHER COM UM CHAPÉU - OLIVER SACKS

Aconselhado por Gonçalo M. Tavares, este é um livro de contos muito singular na medida em que o seu autor, Oliver Sacks, homem assumida e simultaneamente científico e romântico, médico neurologista, regista pequenas histórias clínicas que diagnosticou e experienciou como médico, misturando-lhes a necessária ficção que condimenta a leitura e permite que torne as personagens mais humanas, antes mesmo de revelar os interessantes e estranhíssimos problemas de saúde que apresentam. O homem que confundiu a mulher com um chapeu é um professor de música que perde a capacidade de interpretar o abstracto. De um rosto, apenas reconhece cada um dos seus traços e elementos, individualmente... um queixo, uma boca, um olho, uma orelha., etc. É a música que o salva e o faz lembrar-se de tudo o que o cerca, objectos e acções quotidianas...tem uma música para se lembrar de tudo e detodos ... E até a sua própria mulher confundiu com um chapéu. Histórias que não se esquecem facilmente.

segunda-feira, 21 de março de 2011

DIA MUNDIAL DA POESIA


Um poema pronto a ser primavera
é palavra ou flor?
amor ou amargura?
suspende o quê, nos seus braços,
pra sair à rua?
primavera em flor, poema em dor
uma dor alegre é um mal que finda...
um rebentar doce de palavras?
frutos ainda verdes só dão amargura.
por isso não se colhem que é crime
não deixá-los crescer, dar vida doce.
Assim é o poema em crescendo,
como ganhando lance num baloiço, 
palavrinhas duras como caroço ao arranque
que enternecem mal dizem o teu nome
e se fazem floridas como a tal primavera.

domingo, 20 de março de 2011

NÃO HÁ DOMINGO SEM POESIA


uns mortinhos pequenos
valter hugo mãe por valter hugo mãe
do livro contabilidade/o inimigo cá dentro
leitura dedicada à isabel ribeiro, de aveiro

uns mortinhos pequenos



tenho uns caixõezinhos no coração que me
nasceram quando partiste, se regados com
cuidado, brotam mortos como flores negras pelo
interior das veias, que me assombram o sangue, corando
a minha pele numa vergonha e sentindo medo


são uns mortinhos muito pequenos que muita gente
nem sabe que existem. acreditar em fantasmas é
só possível para quem tem muito amor e recusa a
pequenez da vida sem continuação


tenho uns caixõezinhos no coração que se
abrem a toda a hora, quando me deito, ouço-os
embatendo de encontro ao peito talvez, com vontade
de ir embora, talvez só por ser o amor tão estreito.


valter hugo mãe



sábado, 19 de março de 2011

TEOLINDA GERSÃO - JL MARÇO

Já saiu neste mês de Março o novo romance de Teolinda Gersão, A Cidade de Ulisses, uma homenagem a Lisboa, cidade que admira e que fez personagem do próprio romance, numa carreira que já faz trinta anos.

Excerto da entrevista do JL (de 9 a 22 de Março), que a Anabela, tão amiga como sempre, me trouxe ontem a casa como um presente. Sobre o novo romance dela que tem que ser lido:

A Cidade de Ulisses é um contraponto a muitos ods seus contos e romances, em que dominam as questões da solidão e da incomunicabilidade:

Sim, esta é uma história de um encontro. E é realmente uma espécie de contraponto por exemplo a O Silêncio, que era efectivamente a história de um desencontro. A Cidade de Ulisses tem que ver com esse encontro muito profundo entre um homem e uma mulher e com a ideia da felicidade de que de alguma maneira andamos à procura.

É também um encontro de artistas e não é a primeira vez que as suas personagens pintam. É uma coincidência?

As pessoas criativas têm muita sorte. Estão sempre interessadas no mundo que as rodeia, num projeto, sempre à procura de coisas, nunca se aborrecem.

O ABUTRE - KAFKA

«A mais indiscutível virtude de Kafka é a invenção de situações intoleráveis. Para a impressão perdurável bastam-lhe uns breves apontamentos. A elaboração, em Kafka, é menos admirável que a invenção. Homens, há apenas um em toda a sua obra: o homo domesticus - tão judeu e tão alemão -, desejoso de encontrar um lugar, nem que seja o mais humilde, numa qualquer ordem; no universo, num ministério, num asilo de lunáticos, na prisão. O argumento e o ambiente são o essencial; não as evoluções da fábula nem a penetração psicológica. Daí a primazia dos seus contos sobre os seus romances; daí o direito de afirmar que esta compilação de narrativas nos dá integralmente a medida de um tão singular escritor.»

Jorge Luis Borges

O conto O Abutre, curto, impressionante, de mestre:

«Era um abutre que não parava de me dar bicadas nos pés. Já me tinha rasgado as botas e as meias e começava agora a atacar os próprios pés. Investia sem parar, levantava voo, esvoaçava inquieto à minha volta, em círculos, e retomava o seu trabalho. Apareceu então um senhor que ficou a observar aquilo durante algum tempo, até que me perguntou porque é que eu suportava as investidas doabutre: «Mas se estou indefeso...», justifiquei-me. «Ele apareceu e quando começou com as bicadas é claro que o quis enxotar. Na verdade, até tentei estrangulá-lo, mas um bicho destes tem imensa força. E depois também já tentou saltar-me para a cara, por isso preferi sacrificar os pés, que agora já estão quase despedaçados.» «Como pode permitir que o torturem dessa maneira», insistiu o senhor, «um tiro e acabou-se o abutre.» «Acha que sim?», perguntei. «E então não me pode tratar disso?» «Com todo o gosto», disse o senhor. «Só tenho que ir a casa buscar a espingarda. Consegue esperar mais uma meia hora?» «Isso é que eu já não sei». respondi, e mantive-me assim, paralisado pela dor, durante algum tempo, até que disse: «Por favor, tente lá, seja como for.» «Está bem», disse o senhor, «vou apressar-me». Durante a conversa o abutre tinha ficado sossegado, à escuta, olhando ora para mim, ora para o senhor. Pude então ver que percebera tudo, pois levantou voo, dobrou-se para trás tanto quanto podia, para ganhar balanço, e, como um lançador de dardo, espetou com toda a força o bico dentro da minha boca. Em queda, pude ainda sentir, liberto, como ele se afogava, sem hipótese de salvação, no oceano transbordante e sem fundo do meu sangue.»

A MÁQUINA DE JOSEPH WALSER - GONÇALO M. TAVARES

Deliciosa a leitura deste romance que pertence à colecção de livros pretos, à tetralogia do Reino. A personagem anunciada no título, Joseph Walser, prende a nossa atenção desde o início e leva-nos a querer fortemente entendê-lo a si e à relação estranha (de pura amizade) que mantém com a perigosa máquina com que trabalha diariamente. A relação do Homem com a Tecnologia está aqui retratada  de um modo extremamente original e com uma autenticidade tal que chega a espantar-nos, a fazer-nos estremecer como quando, em certa passagem, o narrador alude, com exemplaridade, ao facto de que «Ser feliz já não depende de coisas que vulgarmente associamos à palavra Espírito. Depende de matérias concretas. A felicidade humana é um mecanismo.»

Dois Excertos:
«-Veja esta fábrica: estamos perante o espanto sobrenatural. Tudo é tão estupidamente previsível nestas máquinas que se torna surpreendente ; é o grande espanto do século, a grande surpresa: conseguimos fazer acontecer exactamente o que queremos que aconteça. Tornámos redundante o futuro, e aqui reside o perigo.
SE a felicidade individual depende destes mecanismos e se torna também previsível, a existência será redundante e desnecessária: não haverá expectativas, luta ou pressentimentos.
Fala-se em máquinas de guerra, mas nenhuma máquina é pacífica, Walser. (...)

Dada a natureza do seu trabalho e da máquina perigosa com que contactava, Joseph Walser não precisava de maior intensidade na vida. A chegada da guerra e a invasão da cidade foram encaradas por ele como acontecimentos quase enfadonhos. A eclosão da guerra foi recebida como se não fosse uma novidade, mas uma repetição. A sensação de continuidade no tempo era para Walser algo, de facto, indestrutível, apesar dos novos barulhos que surgiam do céu, anunciando máquinas e ódios aéreos. O tempo de paz continua para o tempo de guerra e este tempo continuará mais tarde para outro tempo de paz. E nada é interrompido. Nada de fundamental. O indivíduo não se interropmpia na guerra, não havia tempos de interrupção: é sempre o Homem, não há um segundo Homem, há apenas um, o primeiro; e é esse - que é o mesmo de séculos atrás, e será o mesmo no futuro -, é esse que tudo atravessa com enfado, até a guerra. Monotonia e desinteresse.
A existência humana, o seu essencial, não se deslocara um centímetro, trinta séculos depois de três mil conflitos. Se queres deslocar a existência é evidente que não o conseguirás, com a guerra, ouvira Walser do encarregado Klober.
Mas nem a paz modificará o Homem, claro. Os dados há muito que foram lançados.»

Gonçalo M. Tavares, A Máquina de Joseph Walser


quarta-feira, 16 de março de 2011

SUSAN SUNTAG - A CONSCIÊNCIA DAS PALAVRAS

Foi impossível resistir à leitura dos riquíssimos ensaios desta autora a partir dos quais reflecte sobre a literatura de uma forma tão comprometidamente séria que nos envolve nesse forte abraço (que se torna num laço único, num amor) à ideia, à palavra que residem na literatura e dela escorrem. 



«Este volume junta dezasseis ensaios e conferências escritos por Sontag nos últimos anos de vida, período em que as homenagens à sua obra se sucediam por todo o mundo. Em AT THE SAME TIME escreve sobre a liberdade da literatura, sobre a coragem e a resistência, e analisa destemidamente os dilemas da América do pós 11 de Setembro – da degradação da retórica política à horrível tortura dos prisioneiros de Abu Ghraib.

No prefácio, David Rieff descreve a paixão que a impeliu toda a vida: “Interessava-se por tudo. Na verdade, se apenas tivesse uma palavra para a evocar, essa palavra seria avidez. Queria experimentar tudo, provar tudo, ir a toda a parte, fazer tudo (...) Penso que, para ela, a alegria de viver e a alegria de saber eram uma e a mesma coisa.”

A inteligência incisiva de Susan Sontag, o brilho da sua expressividade, a profunda curiosidade pela arte e pela política e a sua responsabilidade de testemunhar enquanto autor, colocam-na entre os mais importantes pensadores e escritores do século XX.»



Deixo, neste espaço que se segue, um excerto do discurso de aceitação do Prémio Jerusalém a que atribuiu o título "A Consciência das palavras" e que tanto gostei de ler:

«Assim, a Literatura é – e falo prescritivamente – auto-consciência, dúvida, escrúpulo, rigor. E também – mais uma vez, prescritivamente, assim como descritivamente – canção, espontaneidade, celebração, júbilo.

As ideias acerca da literatura – contrariamente às ideias sobre, digamos, o amor – quase nunca surgem que não seja à resposta à ideia de outros. São ideias reactivas. Digo isto porque tenho a impressão de que tu – ou a maior parte das pessoas – dizem aquilo (…)

Digo isto quando dizes aquilo, não apenas porque os escritores são por vezes, adversários profissionais. Não apenas  para corrigir o inevitável desiquilíbrio ou parcialidade de qualquer prática que tem o carácter de uma instituição – e a literatura é uma instituição – mas porque a literatura é uma prática enraizada em aspirações inerentemente contraditórias. (…)

Assim, cada obra de literatura com importância, que merece o nome de literatura, encarna um ideal de singularidade, de voz singular. Mas a literatura,que é uma acumulação, encarna um ideal de pluralidade, de multiplicidade, de promiscuidade.

Qualquer ideia de literatura em que possamos pensar – literatura como empenhamento social, literatura como busca de intensidades espirituais pessoais, literatura nacional, literatura mundial – é ou pode vir a ser, uma forma de complacência espiritual, de vaidade ou de auto-satisfação.

A literatura é um sistema – um sistema plural – de padrões, ambições, fidelidades. Parte da função ética da literatura é a lição do valor da diversidade.

Evidentemente, a literatura deve operar dentro de limites. (Como todas as actividades humanas. A única actividade sem limites é estar morto). O problema é que os limites que a maior parte das pessoas quer traçar iriam sufocar a liberdade da literatura ser o que pode ser, com toda a sua inventiva e capacidade de servir de agitação.»

Susan Sontag, Ao mesmo tempo, Quetzal

GONÇALO M. TAVARES - O homem ou é tonto ou é mulher

Deixo um excerto famoso de um poema deste livro de poesia (esgotadíssimo) de Gonçalo M. Tavares, seguido de um outro poema em que o medo se mostra tão verdadeiramente humano que parece uma cópia da tradução dos registos de um cérebro que tenta entender-se, entender razões do seu temor e registá-lo poeticamente.  

1.
Mas não julguem que não penso.
Eu sou é um pensador doméstico.
Fecho-me em casa e penso muito.
Quando venho cá para fora é que começo a disfarçar.
(...)
É muito difícil ser inteligente com tanta rapariga bonita a passar.
2.
Às vezes tenho medo, muito medo.
Às vezes sofro.
Às vezes, penso nas pessoas que amo e penso na
possibilidade de as perder.
Às vezes vejo alguém doente e fico incomodado.
Pode não ser um amigo ou familiar.
Posso estar a vê-lo pela primeira vez.
Mas fico incomodado.
Aquela doença pertence-me.
Todas as doenças pertencem a toda a gente.
Todos os sofrimentos pertencem a toda a gente.
Todas as mortes pertencem um pouco a toda a gente.
Às vezes sinto isso muito,
outras vezes sinto menos.
Quando sinto menos posso preocupar-me com o mundo,
brincar com a poesia,
com a filosofia e com as palavras.
Mas quando sinto, deixo de conseguir pensar.
Quando sofro ou sinto o que alguém sofre, deixo mesmo
de querer ser inteligente.
Se estivermos cheios a sentir, não temos espaço para pensar.
Não fazem sentido as lógicas,
as filosofias,
as discussões.
Todo o nosso corpo sente.
E o que resta? Nada.
Só existe aquela morte, aquela doença, aquela velhice.
Só aquele pai que amo e está a envelhecer. Só aquela mãe
que amo e está a envelhecer.
Só aquele amigo que morreu num estúpido acidente.
Só aquele amigo que se tornou amargo
porque a mulher o deixou.
Só o amor e a falta de amor.
As mulheres que nos enganam e as mulheres que são enganadas,
as mulheres e os homens que enganam.
Os amigos que deixam de o ser,
alguns inimigos que morrem, e temos pena.
Que importa o resto?
Onde está o livro importante?
O filme que resolve?
Podemos chorar à frente de um quadro, mas não resolve nada.
Podemos pintar um quadro, escrever um poema, mostrar às
mulheres bonitas como somos bonitos, exibir o nosso corpo,
mas que adianta?
Estamos sozinhos.
Se não estamos, vamos estar.
Os amigos vão-nos deixando, vão-nos deixar.
Vão morrer ou nós vamos morrer.
Ou então deixam de nos telefonar, ou então deixamos de
lhes querer telefonar.
Estamos sozinhos. As pessoas que amo vão morrer.
Os livros não resolvem nada. A poesia é bonita e por vezes
descansa, acalma, mas não resolve nada, não resolve nada.
Somos artistas ou não somos, e qualquer coisa que seja não
adianta nada e nada impede.
Escrevemos poemas, mas não ajudam ninguém.
Escrevemos peças de teatro, sorrimos, tentamos pensar,
tentamos ter ideias, tentamos distrair as pessoas, tentamos
fazer pensar as pessoas, tentamos fazer chorar as pessoas, e
isso é bom, e até pode ser bonito, mas não adianta nada,
não resolve nada,
não adianta nada.


Gonçalo M. Tavares, O homem ou é tonto ou é mulher

domingo, 13 de março de 2011

MORRISSEY E VINI REILLY



Ternurenta e cheia de sorrisos invejáveis no final.

NÃO HÁ DOMINGO SEM POESIA

Há dias poderosos de uma presença total.
Toco-te a mão que assombra a minha
mão - E a cara, tão lírica,
aterradora, frente
a frente, cercada pela tensão lunar.
Vejo-a crispar-se com a minha imagem
inserida . E escrevo:
«Quando eu morrer.» - erguendo esse espelho
em tamanho de espuma.
Como se fosse beleza, a transfusão amarga,
o sopro boca a boca.

Herberto Helder, Última Ciência

sábado, 12 de março de 2011

Franco Fontana
Ana Bela Ana,
Ofereço-te esta praia como se fosse minha. E as sombras também, de perfil arredondado e pontiagudo, muito escuras, de bruços sobre o areal, como se o quisessem tornar noutra matéria e impressionar-te. Ofereço-tas assim, sem embrulho, para poderes encher os olhos destas belezas todas, tão passageiras que ficam contigo para sempre.
Mts bjinhos e saudades de ti, amiga.

EXCERTOS QUE FICAM


Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie – nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.
Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa selecta o passo célebre de Vieira sobre o rei Salomão. «Fabricou Salomão um palácio…» E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso: depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais – tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei: hoje, relembrando, ainda choro. Não é – não – a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica.
Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico.Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.

Livro do Desassossego, Bernardo Soares, Vol.I, Fernando Pessoa

quarta-feira, 2 de março de 2011

NUNO JÚDICE - A FONTE DA VIDA

Friso das Mulheres Azuis,  Palácio de Cnossos



ENCANTAMENTO
Vi as mulheres azuis do equinócio
voarem como pássaros cegos; e os seus corpos
sem asas afogarem-se, devagar, nos lagos
vulcânicos. Os seus lábios vomitavam o fogo
que traziam de uma infância de magma
calcinado. A água ficava negra, à sua volta;
e os ramos das plantas submersas pelas chuvas
primaveris abraçavam-nas, puxando-as num
estertor de imagens. Tapei-as com o cobertor
do verso; estendi-as na areia grossa
da margem, vendo as cobras de água fugirem
por entre os canaviais. Espreitei-lhes
o sexo por onde escorria o líquido branco
de um início. Pude dizer-lhes que as amava,
abraçando-as, como se estivessem vivas; e
ouvi um restolhar de crianças por entre
os arbustos, repetindo-me as frases com uma
entoação de riso. Onde estão essas mulheres?
Em que leito de rio dormem os seus corpos,
que os meus dedos procuram num gesto
vago de inquietação? Navego contra a corrente;
procuro a fonte, o silêncio frio de uma génese.

Nuno Júdice, A Fonte da Vida