terça-feira, 30 de novembro de 2010

 
Vives nas palavras que disseste, nas palavras em que acreditaste, nas palavras em que te deste a conhecer - és muitos neste dia como sempre o quiseste ser. Vives ainda, muito, Pessoa.

Deixo um texto em que o carácter do poeta dos poetas é definido por ele próprio como se visse outro, exterior a si tal uma paisagem. Magnífico excerto para lembrar os 75 anos da sua morte física. Um espelho onde ele se viu reflectido, este texto:

«Cumpre-me agora dizer que espécie de homem sou. Não importa o meu nome, nem quaisquer outros pormenores externos que me digam respeito. É acerca do meu carácter que se impõe dizer algo.



Toda a constituição do meu espírito é de hesitação e dúvida. Para mim, nada é nem pode ser positivo; todas as coisas oscilam em torno de mim, e eu com elas, incerto para mim próprio. Tudo para mim é incoerência e mutação. Tudo é mistério, e tudo é prenhe de significado. Todas as coisas são «desconhecidas», símbolos do Desconhecido. O resultado O resultado é horror, mistério, um medo por de mais inteligente.


Pelas minhas tendências naturais, pelas circunstâncias que rodearam o alvor da minha vida, pela influência dos estudos feitos sob o seu impulso (estas mesmas tendências) - por tudo isto o meu carácter é do género interior, autocêntrico, mudo, não auto-suficiente mas perdido em si próprio. Toda a minha vida tem sido de passividade e sonho.


Todo o meu carácter consiste no ódio, no horror e na incapacidade que impregna tudo aquilo que sou, física e mentalmente, para actos decisivos, para pensamentos definidos. Jamais tive uma decisão nascida do autodomínio, jamais traí externamente uma vontade consciente. Os meus escritos, todos eles ficaram por acabar; sempre se interpunham novos pensamentos, extraordinárias, inexpulsáveis associações de ideias cujo termo era o infinito.


Não posso evitar o ódio que os meus pensamentos têm a acabar seja o que for; uma coisa simples suscita dez mil pensamentos, e destes dez mil pensamentos brotam dez mil interassociações, e não tenho força de vontade para os eliminar ou deter, nem para os reunir num só pensamento central em que se percam os pormenores sem importância mas a eles associados. Perpassam dentro de mim; não são pensamentos meus, mas sim pensamentos que passam através de mim. Não pondero, sonho; não estou inspirado, deliro. Sei pintar mas nunca pintei, sei compor música, mas nunca compus. Estranhas concepções em três artes, belos voos de imaginação acariciam-me o cérebro; mas deixo-os ali dormitar até que morrem, pois falta-me poder para lhes dar corpo, para os converter em coisas do mundo externo.


O meu carácter é tal que detesto o começo e o fim das coisas, pois são pontos definidos. Aflige-me a ideia de se encontrar uma solução para os mais altos, mais nobres, problemas da ciência, da filosofia; a ideia que algo possa ser determinado por Deus ou pelo mundo enche-me de horror. Que as coisas mais momentosas se concretizem, que um dia os homens venham todos a ser felizes, que se encontre uma solução para os males da sociedade, mesmo na sua concepção - enfurece-me. E, contudo, não sou mau nem cruel; sou louco, e isso duma forma difícil de conceber.


Embora tenha sido leitor voraz e ardente, não me lembro de qualquer livro que haja lido, em tal grau eram as minhas leituras estados do meu próprio espírito, sonhos meus - mais, provocações de sonhos. A minha própria recordação de acontecimentos, de coisas externas, é vaga, mais do que incoerente. Estremeço ao pensar quão pouco resta no meu espírito do que foi a minha vida passada. Eu, um homem convicto de que hoje é um sonho, sou menos do que uma coisa de hoje. »


Fernando Pessoa, Notas Autobiográficas e de Autognose

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

CITAÇÕES

"A poesia é criar uma espécie de angústia para a resolver"

Valéry

domingo, 28 de novembro de 2010

GLENN GOULD - BACH



O homem por mais que tente criar música, fará sempre palavras (mesmo dos gestos que não tocam no piano). Não achas? Foi Cootzee que inflamou em mim o desejo de ouvir seriamente Bach. Seria seu pai, se ele pudesse ter escolhido um pai para si. Disse-mo em Diário de um mau ano (um livro dos mais geniais que li nos últimos tempos), neste último Verão . E eu gostei de saber.
Regressar é sempre um encontro
da minha ausência comigo mesma
agora cheia de todos os caminhos
pisados por rostos sérios que vi
passarem em todos os sentidos
junto de casas, árvores e outros abrigos


É unir esse longe de que venho 
com o perto ainda meu
estático indiferente mas espelho
horas certas de palavras deitadas
nessa vida que aí acordou


Rever-me nessa paisagem de antes
agora com o corpo todo fora dela
reticente quanto à hora de pousar
para sempre o que trago
sobre o que não foi comigo
nessa viagem para o longe de mim.


Linda amiga, regressar da cidade-luz não é fácil. Ofereço-te o meu poema do regresso como uma sinfonia que te aplaudisse à chegada, cheia de saudades.

JANELAS DO MUNDO

Edward Hopper, Janelas à Noite


A noite lança-se para o lado de fora das janelas
muito devagar deixando sombras de cinza na laje
como se fosse uma premonição do que lá em baixo
na austera cidade pudesse acontecer de terrível
enquanto alinho o quarto em transe absurdo e rotineiro.

JOSÉ SARAMAGO NAS SUAS PALAVRAS - FERNANDO GOMES AGUILERA

Ter este livro em mãos é segurar em palavras que pela sua transparência parecem não existir, mesmo a dizerem tudo. É esta a sensação (até certo ponto desconfortável) que tenho. Palavras que não podem ser ditas com outras palavras. Serão, para mim, as palavras das palavras. Deixo apenas algumas delas.

«Se é verdade que não somos mais que contos ambulantes, contos feitos de contos, e que vamos pelo mundo contando o conto que somos e os contos que aprendemos, parece-me igualmente claro que  nunca poderemos chegar a ser mais do que isso, esses seres feitos de palavras, herdeiros de palavras, que vão deixando, ao longo ods tempos e do tempo, um testamento de palavras, o que têm e o que são. Tudo.

«Nunca seremos mais que seres feitos de palavras, crê José Saramago», canárias 7, Las Palmas, Canárias, 30 de Novembro de 1994

Há uma personagem [a rapariga dos óculos escuros] no meu livro[Ensaio sobre a Cegueira] que pronuncia as palavras-chave: «Dentro de nós há uma coisa que não tem nome. É isso que somos.» O que precisamos é procurar dar um nome a essa coisa: talvez, simplesmente, lhe possamos chamar «humanidade».

As palavras ocultam a incapacidade de sentir», ABC (Suplemento ABC Literário), Madrid, 9 de Agosto de 1996 [Entrevista de Juan Manuel de Prada]

«Creio, e não estou nada a ser original, achar excelente não ser possível catalogar os livros consoante os géneros a que supostamente devam pertencer. É como se entre os géneros não houvesse fronteiras tão rígidas como as que separam as razões. Olhamos o mapa e vêmo-lo dividido em riscos ou cores. É muito bom que hoje seja difícil catalogar os géneros. Se cada um puder aproveitar a riqueza dos outros, acho óptimo. Não sei se daqui a uns anos, não poderemos fundir todos os géneros para depois os tornarmos a dividir, um fenómeno de concentração e de expansão semelhante ao que existe nas galáxias. este momento, creio que cada um dos géneros literários se expande em relação a todos os outros. Às vezes dizem-me: «Você devia fazer poesia» e eu respondo: «Procurem-na nas páginas dos meus romances.»

«Sou a pessoa mais banal deste mundo», NT, Lisboa, 23 de Maio de 1984 [Entrevista de Alexandre Correia]

«A Literatura é o resultado de um diálogo de alguém consigo mesmo.»

«Saramago admite que escrever o seu novo livro não foi nada fácil», Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 1 de Novembro de 2008 [Entrevista de Bolívar Torres]


DO CONSERTO DO MUNDO [ CONTOS]

«CONTRA A INDIFERENÇA SEJA DIFERENTE
No Ano Europeu contra a Pobreza e Exclusão Social o DN convida-o a ser diferente e a juntar-se a este grito de revolta e de certeza de mudança. São 18 contos que nos transportam pelo tempo em que vivemos na esperança de que cada um de nós medite mais sobre aqueles que vivem à margem da vida.»

http://www.controlinveste.pt/Pt/Imprensa/NoticiaInterior.aspx?content_id=1706610


  Autores portugueses de renome escrevem sobre o mote "Conserto do Mundo"
 Ana Paula Tavares; Arnaldo Santos; Dulce Maria Cardoso, Gonçalo M. Tavares; Hélia Correia, Isabel Zambujal; João de Melo; Lídia Jorge; Mário de Carvalho; Mário Cláudio; Miguel Real; Patrícia Ferraz; Pedro Sena-Lino; Ricardo Cabaça; Ricardo Miguel Gomes; Richard Zimler; Ruy Zink; Urbano tavares Rodrigues.


Fica o conto menor desta colectânea:

RUY ZINK
CONSUMO PRÓPRIO


Um cidadão portador de passaporte moçambicano foi ontem detido pelos serviços de fronteira do aeroporto da Portela quando tentava entrar legalmente no nosso país.
As forças de segurança tinham razões para acreditar que o indivíduo em questão estaria envolvido numa rede de tráfico de órgãos.
Após rápida revista, as autoridades confirmaram as suas suspeitas: escondidos dentro do corpo, o cidadão moçambicano trazia dois rins, um fígado e um esófago.
Segundo os funcionários da alfândega, o indivíduo contaria vender esses órgãos a uma clínica privada em Espanha ou na Suíça.
De nada serviram os protestos do detido, de que os órgãos que traficava se destinavam apenas para consumo próprio.
Todas as ruas estreitas e empedradas têm um odor invencível a peixe fresco e parecem esperar que uma vaga desmedida passe por elas de cabeça erguida e lhes lave os muros de uma terra esquecida.
Não sei se serei eu que sonho com os peixes, deitados na pedra do caminho até a casa, como se dormissem embrulhados em papel de prata, se são eles que imaginam o meu olhar baixo, negro, rente a um chão tão húmido da invernia que demonstra procurá-los mesmo quando, de facto, os não vêem a rebrilhar. Este é um sítio onde eu ainda moro, em cada sono, em que me esvaio de saudade.

sábado, 27 de novembro de 2010

KRONOS QUARTET - WA HABIBI



Toda a vontade de se tornar humano jorra do som de um violino como se estivesse tão perto de estar triste que preferisse arder em chamas.

A BIOGRAFIA DE LIANOR DE MILETO - GONÇALO M. TAVARES



«O episódio é conhecido: contou-o Platão. Tales de Mileto, absorvido pelas ideias, olhava para o céu quando caiu a um poço. Uma criada trácia, muito simples, quase anafalbeta, presenciou a cena e desatou às gargalhadas.

Teimaram alguns historiadores em classificar de não verdadeira a anedota; outros reduziram-na a mera ilustração da conhecida distracção dos sábios.

Cumpre-nos, pois repor a verdade, e avançar um pouco. Tudo ocorreu como se conta e mais: a criadita, nesse instante, apaixonou-se por Tales de Mileto, o sábio.

A casa onde se vive é a outra parte do corpo; a roupa, essa, é a casa mais próxima. Nela, na criada, os tecidos eram pobres; nele, no sábio, eram desleixados. Entre os dois a diferença de quem se esquece da aparência – porque obcecado no que existe por detrás do sensível – e de quem não se pode lembrar dela, pois é desprovido de meios para a manter elevada, distinta.

O nome dela era Lianor. Acrescentamos: de Mileto. Haviam, pois, crescido na mesma cidade e no mesmo tempo, Lianor e Tales.

É costume entrarem em acordo com as idades, os tédios, mas nestas duas personagens, não: Lianor trabalhara desde sempre – e quem tem fome não tem filosofias nem angústias localizadas na alma. Tales, ao contrário, desde cedo começara a desenhar o seu destino de filósofo. Nele a sorte de ter nascido em leito alguns metros acima do chão.

Primeiro trabalho: preguiça.

Quisera tocar-lhe antes, mas só naquele momento o conseguiu: depois de terminar os risos, a criadita trácia – Lianor – estendeu a mão para o fundo do poço e puxou Tales de Mileto de novo para a terra, para a superfície; para o quotidiano.

“Quando o abrigo é seguro, a tempestade é boa”, e o certo é que o filósofo em nada se arrependeu da queda, tanto lhe agradou o medicamento: aquele calor terno e directo da mão da criada.

Por dias Lianor ganhou esperanças; cedo, porém, as perdeu. Dos filósofos e dos poetas sabe-se pouco; tem-se, no entanto, uma certeza: não são como os outros.
Se Procustes, o bandido de Ática, que depois de roubar os viajantes, os deitava numa cama de ferro, cortando-lhes os pés se estes fossem mais compridos que a cama, e esticando-os com cordas, no caso de serem mais pequenos; se dizíamos, Procustes, o bandido de Ática, aprisionasse um sábio ou um poeta, não teria dificuldades da sua impiedade, mas o que jamais conseguiria era normalizar-lhes as ideias, a imaginação e, acima de tudo, a vontade.
Para Tales, pessimista, o tempo trazia só um atributo: magreza à gordura, fraqueza à força.
Paixão significava casamento; e é precisamente o entusiasmo da noite que, mais tarde, nos ficará sem forças, de manhã; pensava ele.
Recusou então Lianor; não por sobranceria, mas por sabedoria. As mulheres guardam no corpo mais serpentes que cordeiros, sempre pensara.
Desespero em Lianor, claro, como em todas as mulheres rejeitadas.
Quis morrer afogada: atirou-se ao mar.
Tales interrompeu a sua tarefa de olhar o que não é possível ser olhado, com os gritos dos habitantes de Mileto:
Lianor desaparecera na águas!
Tales correu para a praia. Olhou para o fundo:
- Este mar matou – disse –. Está calmo de mais.
Indisciplinado por natureza, depois deste acontecimento, Tales transformou-se. Levantava-se então, todas as manhãs, a uma hora certa.
O que fazia então?
Ele, filósofo, o sábio, pegava no barco, cheio de arroz desde a véspera, e entrava no mar. À medida que avançava ia atirando arroz à água, como se esta fosse um ser esfomeado.
- Se os peixes e a água comerem arroz, os peixes e a água irão esquecer a carne de Lianor.
Era isto que pensava Tales, o sábio.
Durante 25 anos ele manteve, assim, o mar, alimentado com arroz. Jurava, no entanto, não o fazer por amor; era orgulhoso. Dizia:
- Sou um investigador da natureza. Quero estudar a água.
O certo é que o corpo de Lianor nunca apareceu.
As estações sucederam-se depois, como desde o início dos tempos, até que chegou o único dia que, juntamente com o nascimento, é comum a todos: o da morte.
Depois de mais uma saída no seu barco, Tales de Mileto morreu precisamente às 12 horas e 45 minutos. Não foi sábia, nem não sábia; foi morte: a carne ficou; a alma voltou para donde veio.
Ao fim da tarde um outro facto alvoraçou em definitivo o dia na cidade de Mileto.
O corpo de Lianor havia dado à costa.
Intacto.
Vinte cinco anos tinham passado, mas diz quem viu: havia um sorriso, um largo sorriso de amor, na cara do cadáver da única mulher que teve coragem para rir do maior sábio da cidade de Mileto.
Outra versão (impossível confirmá-la): deu à costa, sim, no dia da morte de Tales de Mileto, mas intacta, tanto na carne como na alma; isto é: viva, absolutamente viva; apenas envelhecida 25 anos, cabelos brancos, rugas.
Terá mesmo sido ela a tratar dos preparativos para a condução de Tales à sua última morada. Como uma simples criada, prestável.
Esta versão faz de Lianor uma trocista sádica: foram ouvidas gargalhadas nas horas do enterro mais triste da cidade de Mileto.»

Gonçalo M. Tavares, Histórias Falsas

Que poderei dizer mais deste livro de contos? Que me pareceu encontrar, na altura em que o li, textos como os da minha infância, que me deixavam tocar verdadeiramente num estado de felicidade abrupta. Que vale a pena ler todos as outras histórias, geniais como esta. Que por detrás das letras se pressente o habilidoso e inteligente cruzamento entre a Filosofia, a História e a falsidade da Ficção Literária, numa escrita, como sempre, engenhosa e diferente. Que M. Tavares é um conjunto de textos diversos e tão ricos que nos fazem descobrir o espanto. Que mais? Que por vezes penso que não vale a pena ler mais nenhum autor.



quinta-feira, 25 de novembro de 2010

ANA MARIA MATUTE - PRÉMIO CERVANTES 2010



Ana Maria Matute, escritora catalã de 85 anos é a terceira mulher escritora a ganhar o prémio mais prestigiado da literatura espanhola.

Achei algumas palavras interessantes sobre esta mulher. Aqui estão elas:

«Lectora apasionada
Matute empezó desde muy joven a interesarse por el mundo de las letras. A los cinco años ya escribió su primer texto literario, «aunque ya se puede suponer que con unas faltas de ortografía... A los cinco años, ¿qué quieres, hijo? Pero bueno, es que me gustaba mucho, pero sobre todo leer, leer... Soy una apasionada lectora».
La autora de «Pequeño teatro» o «Algunos muchachos» todavía recuerda que fueron las lecturas de los cuentos de los hermanos Grimm y de Andersen las que la animaron a probar suerte en el terreno de la narrativa, aunque también hubo otras influencias directas. «Aún recuerdo los cuentos que me contaban mi querida cocinera Isabel y mi tata Anastasia. La cocinera me explicaba historias espeluznantes, pero me encantaban como a todos los niños a los que les gustan los cuentos de miedo», rememoró la ya Premio Cervantes.

A la edad de 17 años escribió su primera novela, «Pequeño teatro», publicada 11 después y con la que se convirtió en la primera mujer ganadora del Premio Planeta en 1954. Después llegó «Los Abel», novela finalista del Nadal en 1947, que empezó a hacer conocida su creación literaria. Matute llevó a cabo su labor docente fuera de España: en la Universidad de Indiana, en la de Oklahoma y en la de Boston, donde conservan sus manuscritos en la colección Ana María Matute. Desde 1996 es miembro de la Real Academia Española, convirtiéndose así en la tercera mujer en ocupar un sillón. Tras de sí tiene una ingente producción literaria que ha sido traducida a 23 idiomas. En 1984 recibió el Nacional de Literatura Infantil y Juvenil y en 2007 el Premio Nacional de las Letras Españolas al conjunto de su labor literaria. Tras permanecer casi dos décadas en silencio volvió a la literatura en 1993 para publicar la versión original de «Luciérnagas» y luego vinieron «Olvidado Rey Gudú», «Cuentos del mar», «Aranmanoth», «Paraíso inhabitado» y «La Puerta de la luna». De esa época silenciosa, recordó ayer que «fue una etapa de mi vida en la que sufrí mucho. En esta recuperación tiene que ver mi agente, Carme Balcells, quien casi me secuestró hasta que salió mi libro y volví a ser la Matute».
A la escritora no le gusta en exceso mirar atrás, ni siquiera reelerse, «porque si lo hago lo paso mal». En todo caso, quiere apuntar que «he hecho lo que me ha gustado y no he fracasado en esto». Pero lo que tiene claro es que todavía tiene bastante que decir, por lo que ya ha anunciado que trabaja en una nueva novela, de la que no quiere dar demasiados detalles. «Tengo necesidad de escribir este libro al igual que me pasaba con los otros. Lo tengo todavía en la cabeza. Nunca sé lo que puede durar un libro. Es un misterio. La vida es mágica y eso también es magia», aseguró la autora. Matute trabaja todos los días en su domicilio barcelonés desde la diez de la mañana, una labor que luego suele retornar por la tarde. Siempre a mano, en un cuaderno, como llegó por primera vez a la redacción de la revista «Destino» y preguntó por su responsable, Ignacio Agustí. Hoy, varias décadas más tarde, Matute ha logrado la gloria del Cervantes.»


 

Tour Eiffel, Paris
Hoje para me ligar telepaticamente a ti, linda amiga, li o mesmo livro que tu lês, aí, em Paris onde te encontras tão apaixonada por tudo. Passei por ti logo na primeira linha mas não me viste. Ainda te acenei, chamei-te em francês mas não entendeste que era o teu nome, pareceu-te certamente outro e outra voz a minha, cheia de rrrrrs e assobios que também a mim me transformaram. Mesmo assim, gostei de te ver ao longe a atravessar para a linha de baixo como se fosses partir, resoluta, para sempre, à procura dos astros que encontraste na Sorbonne. Eu grite em vão: Je t'attends, mon amie!! Mas já tinhas atravessado a ponte que liga o texto à grande Paris...E já agora, peço-te: traz-me palavras, muitas, na ponta da tua língua para eu as ver, assim que chegues, de muito perto e repetir, ainda vivas e arrogantes, o que aprendeste sobre o universo. Saudades! Olha vê, agora, onde há pouco te encontrei:

«À medida que ia evocando a capital, ela ia-se reconstruindo em mim e eu substituía a sua presença física por algo quase sobrenatural a que não sei que nome atribuir. Um mapa de Paris, afixado na parede, retinha-me demoradamente o olhar e ia-me ensinando quase sem que eu desse por isso. Descobri que Paris tinha a forma de um cérebro humano. Voltou-me à memória uma cabeça de homem aberta em dois que eu observava, criança, na montra de um oculista e que mostrava aos curiosos o interior do nosso crânio. Com um misto de interesse e de horror, eu examinava aquela massa branca, rosada e vermelha que me provocava pesadelos na noite seguinte. Em vão dizia para mim próprio que aquilo não passava de um objecto de cartão ou de porcelana; continuava apesar disso a ser revoltante. (...)
Seja como for o mapa de Paris ajudou-me mais do que uma vez a passar algumas horas difíceis e, ao ter-lhe descoberto a semelhança a que já me referi com o cérebro humano, esforcei-me por colocar dentro dos limites desta cidade todas as circunvoluções observadas em tempos. Comprazia-me assim a imaginar que tinha nascido na zona da imaginação e que tinha crescido no meio da memória; hesitava quanto à localização da vontade, da reflexão e do paladar, fazendo-os incessantemente mudar de bairro. (...)»

Julien Green, Paris

EXCERTOS QUE FICAM

Michael O' Brien


«O que nas pessoas estranhas, desviadas por passo próprio ou enxotadas pelos outros, o fascinava era a absoluta liberdade individual com que faziam as suas escolhas. Num louco ou num pedinte que vagueava pelas ruas a pedir pão e sopa e que, de noite, tal qual os outros humanos, só queria dormir, Buchmann via quem poderia escolher em liberdade pura, e sem consequências, a sua moral individual. Moral que nem sequer tem um par, um elemento que a acompanhe.

Quem iria contestar a «vida imoral» de um pedinte ou de um louco? Aqueles homens tinham já em si, pela sua diferença, uma carga de imoralidade universal e profunda, que os tornava imunes às pequenas imoralidades praticadas.

Um louco, tal como um pedinte, não era imoral. Eram indivíduos sem cópia, semelhantes a um rei; alguém que não tem par, que não tem aquele que está ao seu lado. E por isso não há para esses homens escorraçados, como não há para o homem mais poderoso, qualquer critério de comparação.

Buchmann olhava com admiração para aqueles homens que traziam no bolso um sistema jurídico único, com o seu nome no fim.

De certa maneira, era isso que Buchmann desejava; ser portador de um sistema legal cujas leis só fossem aplicadas a si; ser portador de uma moral que não é a do mundo civilizado nem a do mundo primitivo; que não é a moral da cidade ou sequer a moral da sua família mas a moral que tem o seu nome, apenas o seu, escrito por cima. »
 
Gonçalo M. Tavavres, Aprender a Rezar na Era da Técnica

terça-feira, 23 de novembro de 2010

PRÉMIO DO MELHOR LIVRO ESTRANGEIRO EM FRANÇA PARA GONÇALO M: TAVARES

Acabo de saber. Gonçalo M. Tavares, com o seu romance Aprender a Rezar na Era da Técnica vence em França o Prémio do Melhor Livro Estrangeiro 2010. O livro já havia sido, no início deste mês, um dos cinco finalistas dos Prémios Féminin e Médicis. O romance agora eleito como o melhor livro estrangeiro publicado em França em 2010 (na tradução de Dominique Nédellec «Apprendre à prier à l’ère de la technique ») foi publicado em Portugal.

Para ler mais clica neste endereço: http://www.ciberescritas.com/?p=9053

Uma notícia que me enche o coração de alegria...

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

CITAÇÕES - TOLSTOI

A revista Única de 20 de Novembro comemorou o centenário de Tolstoi magnificamente. Transcrevo algumas "Frases parra mais tarde recordar" que impressionam pela sua genialidade:

«O homem não tem poder sobre nada enquanto tem medo da morte» 

«Um homem é uma fracção cujo numerador corresponde ao que ele é, enquanto o denominador é o que acredita ser.»

«As famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira.»

«O segredo da felicidade não é fazer sempre aquilo que queremos, mas querer sempre aquilo que fazemos.»

domingo, 21 de novembro de 2010

BEIJO - JORGE DE SENA

Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no abrir-se a dentes línguas
tão penetrantes quanto línguas podem.
Mais beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.
É dentes se apertando delicados.
É língua que na boca se agitando
irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
e sobretudo o que se oculta em sombras
e nos recantos em cabelos vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja.

Jorge de Sena, Exorcismos

INTRIGA-ME O TEU CORPO - JORGE DE SENA


Intriga-me o teu corpo. Harmonioso
parece que em contraste com os agudos ângulos
do rosto. E todavia tal contraste
mais acentua não beleza tua
mas quando a tua imagem se me contradiz.
Por certo que és dos seres a quem nudez
ao rosto adoça límpido e o harmoniza
a um corpo que anguloso se revela.
És a quem ver numa nudez completa.
Há que saber do sexo e dos cabelos negros
rodeando-o como, em relação a ti.

Jorge de Sena, Conheço o Sal e outros poemas...


Não há domingo sem poesia. E este livro é dos mais poderosos que conheço. A noite chega mais perto e arrepia quando os poemas de Sena se vêem, mesmo que seja de longe...

sábado, 20 de novembro de 2010

O corpo do pintor pintado. O pintor-tela. O corpo pintado do pintor.

MATTEO PERDEU O EMPREGO - GONÇALO M. TAVARES


O novo livro de Gonçalo M. Tavares, com um grafismo que se desvia do das anteriores publicações (também contém fotografias a abrirem cada um dos capítulos), é uma sucessão de pequenas narrativas sobre personagens excêntricas que se cruzam e se vão abandonando até chegar a Matteo, o personagem que dá nome a este novo título  ( cada um dos personagens através da sua mania, do seu carácter,  rasteira a estereotipada imagem da normalidade social, sendo surpreendente o modo como desestabiliza a lógica por que nos pautamos nas situações problemáticas como nas mais insignificantes). Cruzam-se duas componentes, a ficcional e a ensaística numa leitura que não consegue parar de nos surpreender, reinterpretando a tabela periódica dos elementos químicos, dando de frente com nome de personagens que coincidem com nomes de cidades/asteróides e outras coisas mais...para preencherem de um incontável prazer um fim-de-semana como este Um dos excertos que fica, é este, sobre o maníaco Baumann:




BAUMANN E O LIXO



«Poderemos falar de comportamentos maníacos precisos, embora não enquadráveis em nenhuma doença que os médicos dominem o suficiente para a domesticar com a suavidade aparente de um nome.
O Sr. Baumann aproximava-se de um caixote de lixo público. Os seus pés nada denunciavam, mas havia já nele, antes de tocar no lixo, um cheiro nauseabundo que afastava amigos e até inimigos.
Baumann lavava o lixo. Pegava em cada uma das peças dos restos e dos vestígios que um caixote de lixo público vai guardando e limpava-os com toda a dedicação, como se estivesse a recuperar velharias que, depois de polidas e bem tratadas, valeriam ouro. A questão aqui é que as velharias eram restos : latas de refrigerantes torcidas, cascas de frutos, copos partidos, pedaços de vidros de que já era impossível conhecer a origem – que belos lábios poderiam ter tocado em tempos estes cacos quando ainda não eram cacos? – utensílios de cozinha, por vezes objectos utilizados por amantes em período de excitação, etc.

Há quem diga que Baumann tinha sido historiador. E que aquela actividade maníaca, agora que passava dos setenta anos, era no fundo um vestígio perturbado dessa actividade de recuperação do passado, dessa actividade de dar atenção ao que os outros já deixaram para trás. Mas esta informação – sobre a anterior actividade - profissional de Baumann nunca foi confirmada. (…)»

Gonçalo M. Tavares, Matteo perdeu o Emprego, Porto Editora




LOUCURA E QUOTIDIANO - JEAN DE LA FONTAINE, GEORG BÜCHNER, ANTON TCHÉKHOV, LUIGI PIRANDELLO

Uma loucura de livro, da colecção Padrões Literários, este que li e me fez entender melhor a Loucura na Literatura. Deixo o texto integral de La Fontaine que abre a colectânea e um excerto de Lenz, de Georg Bücnner:

«No amor tudo é mistério: as suas setas e a sua bolsa, a sua chama e a sua infância eterna.

Mas por que é cego o amor?
Aconteceu que num certo dia o Amor e a Loucura brincavam juntos. Nessa altura o Amor ainda não era cego.
Entre eles emergiu um desentendimento qualquer.
Solicitou então o Amor que se reunisse o conselho dos deuses, para tratarem desse assunto.
Mas a loucura, na sua impaciência, deu-lhe uma pancada com tal violência que lhe privou da visão.
Vénus, mãe e mulher, pôs-se a clamar por vingança aos gritos.
E diante de Júpiter, Némesis – a deusa da vingança – e de todos os juízes do Inferno, Vénus exigiu que aquele crime fosse reparado. O seu filho não podia ficar cego.
Depois de estudar com bastante detalhe o caso, a sentença do supremo tribunal celeste consistiu em condenar a Loucura a servir de guia ao Amor.»
Jean de la Fontaine

«Ao anoitecer, chegou ao cimo da montanha, ao planalto nevado de onde se desce, do lado oeste, para a planície. Sentou-se. Tudo, com a noite, se tornara mais calmo, as nuvens firmes e imóveis no céu. Tão longe quanto a vista alcançava, nada senão cumes de onde desciam largos declives. E tudo tão tranquilo, cinzento, crepuscular. Sentiu-se assustadoramente só; estava só, absolutamente só. Queria falar consigo mesmo, mas não o conseguia. Mal ousava respirar; ao andar, mesmo com cautela, os seus passos ressoavam como trovões. Devia sentar-se. Uma angústia indizível assaltou-o, no meio deste nada gigantesco: encontrava-se no vazio! De um salto levantou-se e desceu a correr encosta abaixo.
Chegara a escuridão, a terra e o céu confundiam-se numa só coisa. Tinha a sensação de que algo o perseguia, que essa coisa terrível o ia atingir e que os homens não podem suportar: como se a loucura, montada nos seus cavalos, o perseguisse.»
Georg Büchner

AVE MUNDI LUMINAR - RODRIGO LEÃO



«Seríamos animais se não existissem certas canções.»
Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à India

JANELAS DO MUNDO

Moro na possibilidade
Casa mais bela que a prosa,
Com muito mais janelas
E bem melhor, pelas portas


De aposentos inacessíveis
Como são, para o olhar, os cedros,
E tendo por forro perene
Os telhados do céu


Visitantes, só os melhores;
Por ocupação, só isto:
Abrir amplamente minhas mãos estreitas
Para agarrar o paraíso


Emily Dickinson
 
 

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Os livros também morrem. São, então, pássaros de asas abertas que voam na escuridão, ininterruptamente, na aflição de serem uma última vez olhados pela paixão dos seus leitores, únicos que os sabem reconhecer, que os podem salvar, mesmo que em queda abrupta se percam algumas palavras virtuosas para sempre.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Walking in the Parc des Buttes Chaumont - Henri Julien Rousseau

Este é um parque inesquecível  de Paris com muitos cantos e encantos. Lembro-me de uma gruta, de uma cascata, de pontes sobre uma paisagem única, de parisienses a correr atrás de um corpo e uma mente saudáveis, de árvores e verdes frescos como água...Também Rousseau achou este parque especial e o transformou nesta obra de arte tão famosa. Há muitos parques e jardins em Paris mas este é o mais parisiense, talvez por ser o menos turístico de todos. No seu interior a língua francesa cai das folhas, palpita nas flores, corre nos lagos e ouve-se muito limpidamente como tivesse acabado de ser inventada. Não há sombras dela. Vai lá, linda amiga...vais gostar.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

CELEBRAÇÕES

«Só se nos detivermos a pensar nas pequenas coisas chegaremos a compreender as grandes.» 
 José Saramago

Parabéns José Saramago, onde quer que nos ouças ou nos ignores...

JOSÉ & PILAR



Nem pensar em perder este filme...

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

CITAÇÕES

«(...) Foi a roupa que inventou a compaixão
(e provavelmente a simpatia). Nus, os homens odeiam-se,
ou quando muito excitam-se; vestidos, pelo contrário,
fingem que ser da mesma espécie é mais importante
que não ser o mesmo corpo.»


Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia

sábado, 13 de novembro de 2010

JANELAS DO MUNDO

Tenho o mar à minha espera. Nem sei o que pensar... custa-me sempre regreSsar, custa-me a partida até às raízes do meu ser. Saber que ele fica assim imóvel e queixoso, quase três semanas, sem mudar de cor, sem expulsar ninguém dos seus caminhos, apenas a espumar, a vazar, a bramir quando a noite se deita sobre ele, e como uma amante, o beija e o lembra do meu corpo leve e branco, num sussurro muito escuro e apertado, como se aquela meia-voz viesse do fundo de uma caixa de marfim...

CARTAS DA LITERATURA

De A para X é um fascinante romance epistolar (nomeado para Booker Prize em 2008) sobre o amor e que nos concede paralelamente uma análise da forma como a humanidade se afirma pela luta. A’ida, farmacêutica, escreve cartas a Xavier - o seu amante recluso condenado a prisão perpétua por actos de terrorismo - contando-lhe pequenos acontecimentos do seu quotidiano que sabe que o alimentam e podem apaziguar a sua dor. Aqui vai uma carta entre tantas outras (encontradas na cela de Xavier) que fazem este romance. Prometo outras, para mais tarde:
«Acordei às três da manhã. Onde quer que incidisse, a luz era cor de cinza. Levantei-me, vesti-me e, sem perguntar a mim mesma porquê, saí para a rua. As luzes estavam apagadas. Por hábito, fui andando em direcção à farmácia. A certa altura vi uma raposa e pensei no Ved. As noites são mais simpáticas, dizia ele. Esta não, disse eu para mim mesma, esta faz tudo parecer lixo.

   Comecei a andar mais depressa, a ouvir o som dos meus próprios passos e o silêncio à espera de os abafar. E pensei: uma mulher pode sentir pena de um homem, ela pode consolá-lo, no entanto a consolação não dura muito. Pensei nos homens e em como eles gostam de se apresentar uns aos outros como vencedores – mesmo que as suas pequenas vitórias tenham de ser inventadas. No entanto, a provação mútua que eles dedicam uns aos outros não dura mais do que o nosso breve consolo.
A seguir ouvi o barulho de um comboio a aproximar-se e tive medo porque não existe nenhuma linha-férrea. Carruagem atrás de carruagem. Fechei os olhos. Um comboio de mercadorias, não de passageiros, com muitos de nós agarrados aos tejadilhos dos vagões.
Com os olhos fechados, pensei: aquilo que dura é o facto de as mulheres reconhecerem os homens por quem se apaixonam como vencedores, independentemente do que acontecer, e os homens se honrarem uns aos outros pela sua experiencia partilhada da derrota. É isto que dura!
O comboio ia a passar, apitou, e o apito recordou-me o meu avivo em Tora. Ele ganhava a vida a limpar comboios de passageiros à noite e referia-se às suas gares como dormitórios.
- As locomotivas dormem lá! – dizia-me ele quando eu tinha cinco anos.

A tua A’ ida

John Berger, De A para X - Cartas de Amor, Civilização Editora

EXCERTOS QUE FICAM

«Um escritor bem conhecido foi abordado por um estudante universitário que lhe perguntou: «Acha que eu tenho hipóteses de vir a ser escritor?»

«Bom», respondeu o escritor, «não sei…Gosta de frases?»
O escritor podia ver que o espanto do estudante era palpável. Frases? Se eu gosto de frases? Tenho vinte anos e gosto de frases? Se ele gostasse de frases escusado será dizer, poderia começar como um pintor meu conhecido que teve essa sorte. Perguntei-lhe como é que se tinha tornado pintor. Ele disse: « Gostava do cheiro da tinta».

Annie Dillard, The Writing Life

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

EXCERTOS QUE FICAM

101
(...)
Para um homem excitado a cidade deveria ser sempre
a descer, queixou-se Bloom.

102
Imagine uma geometria que, além de ter os lados perfeitos,
ainda libertasse calor - eis Maria E (disse Thom C).
Maravilhado, assim, com tal descrição do corpo feminino
- uma geometria com temperatura - , Bloom,
enquanto caminhava, lembrou-se da velha sabedoria
de Platão que, à entrada da sua academia, havia escrito:
«Não entre aqui quem não souber geometria.»
A filosofia, finalmete,
entusiasma certos órgãos que não o cérebro
- ironiza Bloom; e não pôde então deixar de pensar
como tal frase clássica ficaria perfeita
pendurada na entrada de um bordel

103
Entraram por fim na rua certa e em passo rápido
os dois homens chegaram à porta
de um prédio antigo. É este, disse Thom C,
e com o dedo indicador malicioso procurou
nas campainhas o ansiado 3º D.
E como se fosse uma deusa treinando a voz
para um oráculo, ouviu-se, vinda de um mecanismo
que seria divino se não tivesse por trás dezenas de fios e
ligações electricas, uma voz duplamente feminina
(como duas mulheres falando ao mesmo tempo):
Subam! Subam! - disse a duas-vezes- feminina voz.
É ela - disse Thom C. Percebi que sim - disse Bloom.

Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia

Linda amiga, o importante na escrita de M. Tavares é o meio ("estilistico-linguístico-imagético") pelo qual ele chega às coisas...não há igual no mundo (não digo na nossa língua!). O importante não é a história que nos conta (que apesar de tudo consegue ser invulgar, mesmo quando lembra outras histórias que já lemos). Há um posicionamento iconoclasta em qualquer palavra, expressão ou frase que ele escreve que parece estilhaçar toda a literatura  emergente. Que tal a "geometria com temperatura"?

PARIS PARIS - MALCOLM MCLAREN



Esta música é especialmente bonita. Sempre que a ouço (e agora a vejo como um objecto melodioso e espesso) há-de dar-se um suave arrepio cerca do trigésimo nono segundo, ao ouvir na língua francesa Catherine Deneuve citar palavras (sítios, personalidades) que identificam Paris e o seu passado deslumbrado de estrelato e reconhecimento. A sua beleza e nostalgia notam-se na forma como pronuncia a língua francesa.Também me arrepia vê-la nova, outra vez bela e ainda mais elegante, nesse tempo, nessa cidade tão cheia de amores cegos, cheia de um ar impregnado de história, de arte, de romantismo e modernidade, de uma arquitectura grande e antiga, grande e poderosa, de pessoas tão diferentes umas das outras que se cruzam como se não se vissem, vendo apenas para lá dos corpos dos outros, as suas grandes ideias, enfim, de uma língua refinada e estridentemente apaixonada, vulcânica, acompanhada de gestos altos, delicados  e inteligentes,  passíveis de perdurarem como esculturas ou estátuas no meu olhar retrospectivo. Faltas lá tu, linda amiga, cheia das tuas verdades, cheia  das tuas ficções e emergências metafísicas, cheia de sonhos pendurados no cabelo que te cobre os ombros delicados, que te encobre tão lindamente a grande vontade que trazes de pensar, de seres tu inteira no teu tempo, com todos os desencantos do outro lado das ruas por onde vais... Delicia-te, linda amiga...tu mereces arrepiar-te um pouco ao fim do dia, encontrares-te na tua nua beleza (a vida não é só trabalho!)...

A PROPÓSITO DE JOANINHA

Lembrei-me a propósito da Joaninha de As Viagens na minha Terra do post anterior de vos trazer outras Joanas do mundo... No dia em que comecei a ler Memórias do Cárcere de Camilo Castelo Branco (empurrada impetuosamente  para este livro por José Eduardo Agualusa a partir das suas referências - no seu último romance - à correspondência entre os companheiros de prisão Zé do Telhado e o próprio Camilo) fiquei precocemente deslumbrada com os paratextos que antecedem o romance propriamente dito. Não tinha ainda entrado no romance e já detectava, para além da riqueza imensa da língua portuguesa ( e do linguajar próprio do seu povo presente também  nos seus outros romances) em que este autor nos faz  mergulhar atónitos, a originalidade das curiosidades, das muitas historietas e opiniões (muitas vezes irónicas demais para a época em que viveu) que veicula numa espécie de jorro de letras perfeito e infatigável,  fazem dele único e genial. 
A leitura destes textos de Camilo fez-me, mais uma vez, concluir que o (re)investimento nos clássicos fazem muita falta, obviamente a par da leitura dos melhores autores da contemporaneidade (pois que preenchem os vazios que o passado vai deixando neste presente, esburacados e remetidos para as bermas do "novo" edifício a que chamamos de cultura literária, tão resistente à leitura, por exemplo, dos românticos, como se os mesmo nos pudessem contagiar com alguma enfermidade literária que não valesse a pena experimentar enquanto monumento pálido - e triste? nem sempre - da nossa história literária). Eu gosto bem dos românticos, mas a crítica é que estabelece o que devemos ler ou por de lado, sem que nos apercebamos disso... basta consultarmos os programas do ensino secundário ou das universidades que passam por cima de textos e autores inadiáveis...
Deixo um excerto das Notas Preliminares das Memórias do Cárcere, onde Camilo nos fornece algumas histórias acontecidas no seu trajecto de fuga ao decreto de prisão, por ter raptado Ana Plácido, a mulher que amava que por acaso era casada com outro homem, que os acusou perante tal ignominia. Em Guimarães (em plena fuga) depara-se com o hotel a que se refere logo nesta primeira linha e daí, fala-nos das Joanas:

«Guiaram-me para o primeiro hotel da terra, denominado o da Joaninha.
Este nome soara-me como de bom agouro.
Muita gente desadora o nome Joana. Eu também tinha esse capricho de mera eufonia, antes de Almeida Garret lhe dar foros de lindeza, que os não tem de maior melodia Beatriz ou Laura. Antes das Viagens na minha Terra, todas as Joanas, exceptuadas a santa, vistas à luz da história, me pareciam viragos, mulheres-homens refractárias a ternuras, e desenfeitadas de seus naturais adornos.
Aí vai erudição a froixo, como é moda:
Joana de Navarra espostejou o exército do conde de Bar, como qualquer senhora de sua casa rasga peças de Bretanha para o seu bragal.
Joana, mãe de Henrique IV, introduziu o calvinismo em França, e teve por isso o desgosto de morrer empeçonhada pelos católicos. Calvinista! Deus nos defenda!
Outra Joana Henriques, rainha de Navarra, morreu em guerra, defendendo uma praça da Catalunha.
Lembro-me agora duma Joana, que me faz piedade. Era a mãe de Carlos V, denominada a louca. Ensandeceu-a o desprezo do marido, o arquiduque de Áustria, que a teve em ferros cinquenta anos!
outra Joana me acode logo a desvanecer a piedade daquela: é Joana de Nápoles, que faz matar o marido, e casa com o assassino, e por isso veio a morrer esganada.
Uma outra Joana, sucessora daquela, é uma ladainha de reais escândalos e homicídios de amantes.
Com Joana d’ Arc não simpatizo. Aquela heróica restauração de Orléans, se fosse obra miraculosa da donzela, nem assim a lustrava mais em minha opinião. Uma menina, que acutila ingleses por ordem da divindade, dá ruim ideia de Deus, e do seu coração.
E o que me dizem de uma Joana, que teve o desaforo de fingir-se homem, e subir na hierarquia eclesiástica até fazer-se papa, e denominar-se João VIII?! A esta hora estava este João canonizado, se Joana, quando ia em procissão, não dá à luz do dia e dos círios um robusto menino! Ora vejam por que mãos tem andado a tiara de S. Pedro!
Não me lembram outras Joanas execráveis, senão a senhora Joaninha da estalagem de Guimarães.
O diminutivo aqui é figura que os retóricos nomeiam antífrase. (…)»


Camilo Castelo Branco, Memórias do Cárcere, Discurso Preliminar

(O Quadro é de autoria de Juan de Flandres : Joana, a Louca)

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

CARTAS DA LITERATURA


Deixo mais um excerto de uma carta literária com grande peso no nosso Romantismo (que já não consta do programa de Português do ensino secundário e que, por isso mesmo, pode tornar-se, quiça, mais apetecível para todos)... desta vez é Carlos que escreve a Joaninha, o par amoroso e adorado de Viagens na minha Terra de Almeida Garrett. Aqui vai:

                                        Évora Monte, ... de Maio de 1834

Viemos para Portugal; e o resto agora da minha história sabes tu.



Cheguei por fim ao nosso vale, todo o passado me esqueceu assim que te vi. Amei-te…não, não é verdade assim. Conheci, mal te vi entre aquelas árvores, à luz das estrelas, conheci que era a ti só que eu tinha amado sempre, que para ti nascera, que teu só devia ser, se eu ainda tivera coração que te dar, se a minha alma fosse capaz, fosse digna de juntar-se com essa alma de anjo que em ti habita.


Não é Joana; bem o vês, bem o sentes, como eu sinto e o vejo.


Eu sim tinha nascido para gozar as doçuras da paz e da felicidade doméstica; fui criado, estou certo, para a glória tranquila, para as delícias modestas de um bom pai de famílias.


Mas não o quis a minha estrela. Embriagou-se de poesia a minha imaginação e perdeu-se: não me recobro mais. A mulher que me amar há-de ser infeliz por força, a que me entregar o seu destino, há-de vê-lo perdido. Não quero, não posso, não devo amar a ninguém mais.


A desolação e o opróbrio entraram no seio da nossa família. Eu renuncio para sempre ao lar doméstico, a tudo quanto quis, a tudo quanto posso querer. Deus que me castigue, se ousa fazer uma injustiça, porque eu não me fiz o que sou, não me talhei a minha sorte, e a fatalidade que me persegue não é obra minha.


Adeus, Joana, adeus, prima querida, adeus, irmã da minha alma! Tu acompanhas nossa avó, tu consola esse infeliz que é o autor da sua e das nossas desgraças. Tu, sim, que podes; esquece-me.


Eu, que nem morrer já posso, que vejo terminar desgraçadamente esta guerra no único momento em que a podia abençoar, em que ela podia felicitar-me com uma bala que me mandasse aqui bem direita ao coração, eu que farei?


Creio que me vou fazer homem político, falar muito na pátria com que me não importa, ralhar dos ministros que não sei quem são, palrar dos meus serviços que nunca fiz por vontade; e quem sabe?... talvez darei por fim em agiota, que é a única vida de emoções para quem já não pode ter outras.


Adeus, minha Joana, minha adorada Joana, pela última vez, adeus!


Almeida Garrett, Viagens na minha Terra

JAZZ IS PARIS AND PARIS IS JAZZ



Já penso muito em Paris. A tua partida está próxima (que grande emoção vai ser o teu curso!) e quero dar-te algumas coisas sobre ela, embora saiba que já a conheces - pois por mais vezes que se vá a Paris ela será uma eterna desconhecida... Uma delas é esta música de Malcom Maclaren, retirada deste CD que adoro e procuro desvairadamente em todas as estantes e gavetas desta casa...quero que o ouças e sintas a forma fabulosa como esta cidade também se torna mágica quando é assim cantada... Jazz is Paris and Paris is Jazz!

EXCERTOS QUE FICAM

Giovani Dalessi
«Cheguei à parte mais difícil da minha narrativa.
Depois que Rozenn me deixou, tive inúmeras mulheres. Não tive nenhuma. Também já te disse isto. Passaram pela minha vida como através de um filme mudo, nem lhes lembro a voz, apenas certos gestos, de uma o jeito que tinha de prender a minha perna entre as dela para adormecer, de outra a maneira de olhar, como se visse além das coisas (era míope). Recordo com um sorriso triste. Uma gargalhada áspera. Um pente de madeira abandonado na gaveta da cómoda. A caligrafia nervosa de uma artista plástica com quem me correspondi durante cinco anos. Uns dedos longos, de unhas perfeitas, pintadas de azul. Pequenos nadas. Ecos, reverberações distraídas do meu primeiro amor. Então apareceste tu, pulsos delicados, olhos grandes, tão cheios de lz, tão pesados de silenciosas sombras, a gargalhada ácida e o humor friável. Aconteceu num fôlego: num instante estava lúcido e no seguinte apaixonado.

Acordo, olho-me ao espelho, e sei que envelheci. Não fossem os espelhos e colocaria em causa o que afirma o meu bilhete de identidade. Passei dos oitenta, eu, que nos meus sonhos ainda salto muros para roubar as mangas mais altas?

Impossível. Ainda, agora, assim como estou, com os músculos já um pouco lassos, os ossos enfraquecidos, dores persistentes nas articulações, seria capaz de saltar os mesmos muros e de escalar as velhas mangueiras frondosas da minha infância. Vai-me faltando o fôlego, admito, para escapar aos perdigueiros do vizinho.

(Eram três, os perdigueiros: um macho velho e plácido, chamado Tóquio, e duas fêmeas ferozes. A gente saltava o muro, atirando pedras com uma xifuta, provocando os animais, esperava que as fêmeas saltassem, rosnando, e então galgava a mangueira. Recolhidas as mangas, três ou quatro, grandes e sumarentas, o desafio era regressar com elas enroladas na camisa, descendo por um ramo propício, o qual, inclinado sobre o muro, permitia saltar para o lado de lá. Um dia, o vizinho surgiu em cuecas, camisa interior, trocando os pés, caçadeira na mão, e disparou duas vezes. Pretendia apenas assustar-nos, é claro, não mais do que isso, mas estava tão bêbado que calculou mal a pontaria e um par de chumbos foram enterrar-se nas nádegas fartas do Pedrito, o filho do farmacêutico. Eis um bom exemplo de alguém que querendo errar, acertou, cometendo assim erro maior. A partir desse desgraçado evento, Pedrito passou a ser conhecido por Cu-de-Chumbo, nome que carregou a vida inteira, o que, presumo, não deve ter sido fácil, sobretudo para um juiz.)

Agora sou sem um fim, como esta picada que me desconduz a Massangano. Um erro feliz, amiga, um jubiloso engano. Exulto ao sol , feito um lagarto. O brilho do capim enche-me a alma de um vigor repousado e verde. Enquanto te escrevo, um rio me ocorre, saltando a mata, vem até mim como um cachorro manso e me lambe os pés. (…)»

José Eduardo Agualusa, Milagrário Pessoal, pp. 170, 171

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

IMPETUOSO O TEU CORPO É COMO UM RIO


Sarah Moon
Impetuoso, o teu corpo é como um rio
onde o meu se perde.
Se escuto, só oiço o teu rumor.
De mim, nem o sinal mais breve.

Imagem dos gestos que tracei,
irrompe puro e completo.
Por isso, rio foi o nome que lhe dei.
E nele o céu fica mais perto.


Eugénio de Andrade

LIZ FRASER - TAKE ME WITH YOU



Sai líquido desta música como se da voz nascesse a própria nascente e o seu primeiro gesto em queda. Ouve-se o início de tudo a cair da boca num sopro de nitidez absoluta. Vejo daqui a Origem (da beleza e de tudo).

Echo & the Bunnyman - Bring on the dancing horses



Echo & the Bunnyman só trazia alegrias...Que pena tenho de que já não componham mais cavalos dançantes como estes...

PRÉMIO GONCOURT PARA MICHEL HOUELLEBECQ

Esteve à espera dez anos por este prestigiado prémio. Houellebecq ganhou-o desta vez com o seu quinto romance intitulado La Carte et le territoire, uma história original onde o artista Jed Martin pede a um personagem  que, como ele, se chama Houellebecq  lhe escreva um prefácio para a sua exposição de reprodução de mapas da Michelin intitulada "O Mapa é mais interessante do que o território". 
Houellebecq dá ao seu personagem um final brutal. É assassinado sem piedade, juntamente com o seu cão (e tão brutalmente que ele e o cão se confundem num só). Um livro que nos fala do envelhecimento e da França dos nossos dias. Uma leitura prioritária.

JANELAS DO MUNDO


- São posturas semelhantes.
- Não concordo.  Uma, a da menina da janela da casa velha. Outra a da árvore que espreita a casa.
- Como assim?
- Vê que ela apoia toda a incompreensão e devaneio sobre a palma da mão em concha que prende aos lábios.
- E a outra?
- A outra está danada. Não se sente capaz de inventar, de chamar com o movimento dos braços, nem sequer de se tocar a si própria como se fosse outra árvore qualquer.
- E porque será?
- Detesta que olhem para ela quando está nua. Deseja uma folhagem qualquer...por isso se torce muito sobre o tronco arqueado. Parece mais velha.
- E a menina da janela interdita?
- Imagina-se aquela árvore a ensombrar a sua própria casa com a beleza austera que o inverno traz.
- Vendo assim, com as tuas palavras, parece-me tudo verdade...
- Se olhares só para a janela, vês as duas lado a lado. Uma saboreia a idade, outra teme que as ramagens não voltem a cobrir-lhe os pulsos, os braços, as axilas rugosas.
- E a menina sabe?
- Sabe que ela já foi grandiosa por isso tem pena dela e não consegue desviar o olhar da decadência que dela grita fortemente como a pedir que a deixem recordar tudo, sem interferirem quaisquer olhos de incredulidade.