Deixo o trailler do filme:
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
Em nome da amizade (Reign over me) - Mike Binder
Deixo o trailler do filme:
domingo, 14 de fevereiro de 2010
Rodrigo Leão em Concerto - "Mãe"
sábado, 13 de fevereiro de 2010
O livro de San Michele
Axel Martin Fredrik Munthe (Oskarshamn, Suécia, 31 de outubro de 1857 — Estocolmo, 11 de fevereiro de 1949) foi um médico, psiquiatra e escritor sueco. Sua obra mais famosa é The Story of San Michele ("O Livro de San Michele") publicada em 1929. Munthe também foi conhecido por sua natureza filantrópica e por advogar os direitos animais.O leopardo ao sol
(um extracto retirado da Wook)
Premiada e aplaudida por escritores como Gabriel García Márquez e Alvaro Mutis, a escritora colombiana Laura Restrepo foi dada a conhecer ao público português através de «Doce Companhia», uma arrebatadora história de amor que não deixa de denunciar os problemas sociais vividos num país como a Colômbia, obra galardoada com o 'Prémio France Culture' pela melhor obra estrangeira editada em França em 1997 e com o Prémio mexicano 'Sor Juana Inés de la Cruz'. É , portanto, uma autora que dispensa apresentações entre o público português, e sabe, como ninguém, mesclar com uma mestria sublime e incomparável o humor e a crueza, a ficção e a realidade. «O Leopardo ao Sol», espelho do submundo colombiano, o retrato vivo da ficção tornada realidade, foi inspirado na tradição sul-americana e carrega consigo uma forte carga de destruição e morte. No dia em que Nando Barragán assassina, durante um acesso de raiva, provocado pelo álcool, o seu primo Adriano Monsalve, desencadeia uma guerra fraticida, destinada a durar até ao fim dos tempos. Essa guerra será marcada pela lei do deserto: sangue paga-se com sangue. As duas famílias alimentar-se-ão de uma terrível sede de vingança e vão acumulando riquezas através do crime e de negócios obscuros. Nando Barragán e Mani Monsalve são os trágicos protagonistas de uma época ensombrada pela atrocidade da morte que irá mais tarde engolir tudo. «O Leopardo ao Sol» resulta, assim, num livro brutal, intenso e extraordinariamente bem concebido.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
a máquina de fazer espanhóis - valter hugo mãe
blogue casadeosso
Que tal, "bora aí"?
Deixo um pedacinho da "máquina de fazer espanhóis" (um livro que faz explodir qualquer noite com as suas palavras) para despertar qualquer tipo de inércia que possa servir a recusa deste programa:
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
"Muitos" - Em Permanente Poesia
Muitos
Muitos
Tu não és um és muitos
como aquela árvore
é todas as folhas que mexem
como aquele mar
é todas as ondas que avançam
como aquela casa
é todas as luzes acesas
como esta rua
é todas as vozes que nela palpitam
e todos os carros que a atravessam
em ruídos escuros de uma memória.
abres silêncio ao arredares os lençóis
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Falling down a mountain - Tindersticks
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Coisas Estúpidas (Carta a Eric Rohmer) - Inês Pedrosa
O trailler de Conte d'hiver:
http://www.youtube.com/watch?v=BMIW4GrKsYg
domingo, 31 de janeiro de 2010
The XX - nova banda londrina
http://www.youtube.com/watch?v=kHZVGqqf3gg
o escafandro e a borboleta
Com este olho piscava uma vez para dizer sim e duas vezes para dizer não. Com ele chamava também a atenção do seu visitante para as letras do alfabeto, formando palavras, frases, páginas inteiras. Assim escreveu este livro: todas as manhãs, durante semanas, decorou as suas páginas antes de ditá-las, depois de as ter corrigido mentalmente durante a noite.(...) Bauby faleceu a 9 de Março de 1997, mas deixou este seu testemunho impressionante, bem escrito, e melhor traduzido, do que é ter um intelecto vivo dentro de um corpo morto."
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
Biblioteca - Gonçalo M. Tavares
"O ponto de partida deste livro é a obra dos autores - nunca aspectos biográficos. Uma ideia ou apenas uma palavra mais usada pelo escritor (por vezes, mesmo associações inconscientes e puramente individuais) estão na origem do texto. Mas cada fragmento sege o seu ritmo próprio.
O percurso de leitura poderá ser determinado pelo acaso ou pela vontade dirigida (e não apenas pela sequência da paginação). Agrada-me a ideia de que alguém possa ler alguns destes fragmentos hoje, e outros daqui a alguns anos."
Adorei este fragmento com que me deparei casualmente na letra h, quando procurava vorazmente Harold Bloom:
Hans Magnus Enzensberger
Um homem, com os pés dentro de uma caixa, faz um discurso sobre a rapidez no mundo.
Outro homem, com a cabeça numa caixa, faz um discurso sobre a clareza no mundo.
Um terceiro homem, com uma caixa em redor das ancas, faz um discurso sobre a necessidade de a sedução ser uma prática tão considerada socialmente como a simpatia.
Entretanto, no canto da sala, uma caixa sem homem nenhum permanece imóvel e muda (como seria de esperar). Mas essa caixa perturba. Porque traz um mistério.
Magnus Enzensberger (11 de novembro, 1929 11 de Novembro de 1929 em Kaufbeuren) é poeta, ensaista, tradutor e editor alemão. É também escritor sob o pseudônimo de Andreas Thalmayr, Linda Quilt, Elisabeth Ambras e Serenus M. Brezengang.
Enzensberger estudou literatura e filosofia nas universidades de Erlangen, Freiburg, Hamburgo e também em Sorbonne, Paris, recebeu seu doutorado em 1955.
Trabalhou como redator na rádio de Stuttgart e exerceu a docência até 1957, com o volume de poesias Verteidigung der Wölfe (Defesa dos Lobos).
Entre 1965 e 1975 foi membro do Grupo 47. Em 1965 criou a revista "Kursbuch" e desde 1985 edita a série literária Die andere Bibliothek.
Publicou entre outras obras Zigue Zague, O naufrágio do Titanic, Outra Europa.
Também gostei muito do texto para Virginia Wolf. Ora, lê:
Virginia Wolf
Numa festa 1, 2, 3 homns passeiam com os seus quilos e os seus membros.A mulher traz uma rosa que ontem lhe ofereceram. Tem os olhos verdes e as rosas vermelhas. Uma mulher inteligente, mas tem pele, como as outras. O seu cabelo é uma pintura que os homens observam demoradamente. Todos os outros penteados parecem falsificações.
Histórias de Amor - Robert Walser

A contracapa diz muito:
Conheço uma importante musa que nada sabe de poesia, mas que é ela própria um poema, o que para um poeta é muito importante. Quem é insolente com ela apenas se depara com o seu magnífico espanto. Já lhe dediquei o meu canto uma ou duas vezes, mas por ora fiquei sempre aquém. Ela afugentou-me e eu ri-me alegremente, como se ela tivesse concedido uma noite ao poeta, e ele respondesse com frieza, porque a sua fantasia já lhe tivesse oferecido a visão do corpo dela. Nunca mais voltarei a amar. Ela fez de mim uma criança que admira o mundo, que segue a mais bela doutrina e teme a Deus. Os sapatos dela não são maravilhosos. Mas gosto bastante do guardanapo com que ela brinca. Nunca poderei voltar a vê-la, e no entanto sou feliz, ainda que na verdade não devesse ser. Fui um sem-vergonha com ela, porque a sua presença me deixava a tremer e porque queria dar uma ilusão de superioridade e porque achava tolo e quase odiava este estremecimento, este amor. Mas quando estamos longe um do outro, brinco com ela e afago-a, salto como um doido, como um rapazinho tonto. Seria bem capaz de a esquecer aí uns quatro anos, mas depois tudo voltaria outra vez. É espantoso saber isto! Nunca tinha reparado no poder que uma rapariga tem. Toda a lealdade e tudo o que em mim há de bom fica prostrado por terra diante do vestido da única mulher. Estou tão alegre como só me sinto de manhã cedo, e no entanto é meia-noite, e escrevo estas linhas como se não as fosse dar a ler a ninguém.
Deux Personnages - Picasso
De cada vez que a página se virava sem mão, as duas mulheres pasmadas com o mistério vivo, aproximavam-se mais e mais dela até poderem tocar as palavras que se contavam numa voz enflautada. Contavam-se na história da eternidade conquistada por duas amigas que, num fim de tarde, presas no tráfego cinzento de uma cidade confusa de solidão humana, liam em coro sucessivos poemas. Sem se darem conta, tombaram para dentro do livro que inclinavam abruptamente sobre o volante muito negro, muito frio. Nessa queda, esmurraram os joelhos na palavra terra e ao tentarem levantar-se agarrando as mãos de algumas letras, transformaram-se elas próprias em tinta, desaparecendo para sempre num traço fino e arqueado, que mais parecia uma larva à espera de qualquer metamorfose. Essa página do livro tornou-se incorruptível. Nem a água nem o fogo conseguiram alguma vez destrui-la. E as duas mulheres, temendo-a e desejando-a como a um vinho, passaram também elas a ler em coro, fechadas num quarto em que ninguém as podia ouvir, esse poema que acreditavam ser mais do que um poema, até se tornarem elas próprias histórias desse canto que nunca ninguém mais ouviu."O homem é um grande faisão sobre a terra" - Herta Müller

" Herta Müller nasceu em 1953 em Nitzkydorf, Roménia. Pertence a uma minoria de origem alemã. Entre 1973 e 1976 faz estudos germanísticos e romanísticos na Universidade de Timisoara. Em 1987 deixa a Roménia, passando a residir em Berlim. "O homem é um grande faisão sobre a terra" é o retrato de uma comunidade que vive entre o embrutecimento, a resignação e uma esperança débil."
Este livro que me ofereceste, o primeiro que li da autora, é tão belo como perturbador...sublinha-se em todas as páginas deste "O homem é um grande faisão sobre a terra" que a escritora muito antes de ser romancista, é poeta. A estrutura fragmentada do romance, com capítulos breves de títulos nominais que revelam toda a atenção que ela dá aos instantes da vida - o leite; a navalha; a lágrima; o açougue; a gaivota; a macieira (...) - despertam o interesse do leitor logo nas primeiras linhas de descrição da aldeia de um dos personagens principais, Windish, onde se concentra a acção de forma quase sufocante.É a vida miserável e conflituosa de Windish e sua mulher e filha,uma família romena desencontrada há muito da felicidade, e a força que resta do desespero do seu quotidiano explorado ao máximo pelo regime ditatorial, que se exibe em páginas e páginas de pura literatura. Ao lado destes personagens vão surgindo personagens-vizinhos que são fotografados com a mesma crueza e poesia, na sua dura rotina, mostrando de igual forma os seus sonhos, medos, taras, violências, mesquinhez, opressões...Enfim, explica-se o pior que o ser humano tem, muitas vezes com uma ironia crescente que desemboca na caricatura, e a sua brutal resistência à humilhação, à exploração constante, à morte lenta decretada pelo próprio homem que se revela um grande faisão que ensombra a terra no seu poderoso voo intimidante,nessa constante investida sem escrúpulos.
Deixando de parte o excelente fragmento "A macieira" ou o referente à infância de Amalie, intitulado "O leite" que já conheces, há tantos outros admiráveis que poderia transcrever... opto por estes que me marcaram muito:
O sapo
(…)
Uma nuvem mancha a lua de vermelho. Windisch encosta-se à parede da azenha. «O ser humano é estúpido», diz o guarda-nocturno, «e está sempre pronto a perdoar». O cão come um pedaço do coirato. «A ela, perdoei tudo», diz o guarda-nocturno. «Perdoei-lhe o padeiro. Perdoei-lhe o comportamento na cidade.» Passa as pontas dos dedos pela lâmina da faca: «A aldeia em peso fez pouco de mim.» Windisch suspira. «Eu nem conseguia olhá-la nos olhos», diz o guarda-nocturno: «Só uma coisa não consegui perdoar-lhe: é que tivesse morrido tão depressa como se não tivesse ninguém. Isso é que não lhe perdoei.»
«Sabe Deus» diz Windisch, «para que é que elas existem, as mulheres?».O guarda-nocturno encolhe os ombros: «Para nós é que não» diz ele. «Nem para mim, nem para ti. Não sei para quem.» O guarda-nocturno faz uma festa ao cão. «E as filhas», diz Windisch, « Sabe Deus, também elas se tornam mulheres.»
Sobre a bicicleta há uma sombra e uma sombra sobre a relva. «A minha filha», diz Windisch medindo mentalmente a frase, «a minha Amalie também já não é virgem.» O guarda-nocturno olha para a nuvem vermelha. As barrigas das pernas da minha filha parecem melões», diz Windisch. « Como tu dizes, já não consigo olhá-la nos olhos. Tem uma sombra nos olhos.» O cão vira a cabeça. «Os olhos mentem», diz o guarda-nocturno, «as barrigas das pernas, essas é que não mentem.» Afasta os pés. «Olha para os pés da tua filha quando anda», diz ele. «Se afastar as pontas dos pés ao andar, então já não há nada a fazer.»
Pp 14, 15
Amalie lambe um osso de galinha. Na boca rangem-lhe as folhas de alface. A mulher de Windisch segura uma asa de galinha à altura da boca. «Ele emborcou a aguardente toda», diz ela. Chupa ruidosamente a pele amarela: «Com o desgosto».
Amalie pica a folha de alface com os dentes do garfo. Segura a folha à altura da boca. A folha estremece no momento em que fala. «Com a tua farinha não vais longe», diz. Os lábios dela mordem-se com força, como uma lagarta à folha de alface.
«Os homens têm de beber porque sofrem», diz a mulher de Windisch sorrindo. A sombra dos olhos de Amalie dobra-se em azul sobre as pestanas. «E sofrem porque bebem», acrescenta com um risinho. Olha através de uma folha de alface.
O chupão vai-lhe amadurecendo no pescoço. Vai ficando azulado e move-se quando ela engole.
A mulher de Windisch chupa as pequenas vértebras brancas. Engole as minúsculas fibras de carne do pescoço da galinha. «Quando casares, abre os olhos», diz ela. «O hábito de beber é uma doença péssima.» Amalie lambe as pontas dos dedos vermelhas. «E não é nada saudável,» diz ela.
Windisch olha para a aranha negra. «Ser puta é mais saudável», diz ele.
A mulher de Windisch bate com a mão na mesa.
p. 87
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Olhos que passam com o tempo

Picasso, Figuras à Beira-Mar
O meu primeiro namorado tinha olhos claros. Tinha olhos claros até de noite, quando o medo do fim descia das paredes do meu quarto e, com a humidade tão própria das casas costeiras, se infiltrava nos lençóis e começava a percorrer a minha espinha dorsal como um incómodo metálico. Nesses lençóis que a minha mãe esticava ao máximo no meu colchão, até parecerem um pedaço de lago gelado, é que eu escondia os meus sonhos. Os meus sonhos a transbordar do azul dos olhos do Zeca. Os meus sonhos tão grandes que pareciam não caber naqueles olhos pequenos demais para tanto azul. Grandes de curiosidade de saber como era beijar de olhos fechados e boca dentro de outra boca. Assim desaparecia o medo.
Muitas vezes, a minha irmã mais velha não sabia que o Zeca estava deitado entre nós. Em noites de saudade, mal surgia a claridade dos seus olhos a palpitar num canto do tecto, eu metia-o entre as duas. O colchão era enorme. E mal lhe sentia a desconfiança no corpo a virar-se repentino, como se a espreitar-nos sem licença, apertava a mão ao Zeca o mais que podia e parava com as carícias, deixava fugir os beijos cheios de saliva por entre as cabeças, agora estátuas… suspendia a respiração até à última resistência para que a minha irmã mais velha não notasse nada de anormal ali mesmo, nas barbas dela. Mas o certo é que algumas vezes ela me dizia, numa voz enrouquecida de sono, coisas. Pareces maluca. Ou então, enfurecida de sono. Vais já pela janela fora se não sossegas. E eu sabia que era tudo ciúmes por saber que estávamos muito apaixonados um pelo outro.
(...)
O meu pai também não me deixava sonhar com o Zeca. Costumava levantar as persianas num esticão drástico mal pressentia o meu sorriso dentro dos lençóis. Dizia sempre numa espécie de revolta que a vida não era um sonho. Na cabeça dele era preciso muita luz para que eu, cega logo pela manhã, não distinguisse mais a cor clara dos olhos dele a contemplarem-me desmedidos, em baba, a desejarem-me. Aliás, adivinhava sempre na expressão do meu pai, o segundo em que as palavras “ tens que fazer pela vida ” saiam disparadas dos seus lábios, esbranquiçados de espuma nos cantos pela autoridade irritada com que falava com os outros, como a rolha sob pressão de uma garrafa de champanhe.
Para ele nunca atingi definitivamente a idade para começar com namoros. Dizia este plural quase irado. (...)
Passava as ruas que se cruzavam em pura geometria a correr. Corria sempre muito e havia momentos que mesmo com os olhos fechados sabia o caminho que me levava àqueles olhos. Eram segundos emocionantes os que eu adivinhava o chão e as suas irregularidades sem ver nada. Passava-me ao lado, como um cheiro entranhado, toda a textura da arquitectura do meu percurso. As cores das plantas rasteiras, dos gatos e dos cães que em pobreza uivavam, do arvoredo alto em dança, dos rostos e corpos dos outros, tornavam-se todas no azul que me esperava, deitado ao comprido a contemplar as gaivotas no céu, mesmo por cima dessa duna ventosa onde nos amávamos até à última réstia do entardecer. A vida é um sonhar. Um sonhar que se cumpre. Não é o trabalhar para comprar o pão ou o suor em sacrifício a escorrer pela testa.
O Zeca não tinha palavras. Só os gestos do seu olhar contavam. Gestos que pareciam ondas, cada um com uma rebentação diferente. Mas eu lia as palavras bem gordas que ele tinha por detrás das pupilas radiosas sem que ele desse conta. Conseguia sempre saber o que me diria, não fosse a timidez.
Todos os dias eram amarelos como a areia. Nesse amarelecer visitavam-nos pássaros corpulentos com fome de peixe vivo. Plumas cinzentas de olhos negros que comunicavam com uma linguagem quase ausente, mas que dava sentido àquele deserto ventoso cheio de silêncios. Como intrusos de patas negras debicavam os grãos de areia à procura do nosso desejo. Gaivotas ciosas. Eu tinha-lhes medo. Mais medo do que do segredo que o Zeca me obrigara a guardar nessa tarde. Um segredo sangrento que enterrámos na duna mais alta, o mais fundo possível para o meu pai nunca o poder encontrar. A partir desse segredo, um peso caminhou em direcção ao meu peito, instalando-se por detrás do pulmão direito a lembrar que o nosso amor se tinha instalado seriamente no meu corpo, como um órgão novo, uma peça que prendesse para sempre o meu ventre ao corpo forte dele. E senti que o amor existia em mim doutro modo, como se tivesse sido transportado de uma praia para um campo de batalha. E na eminência de ter de se defender a todo o instante da palavra morte. Mesmo quando quem existia era sobretudo a alma.
Os dias eram canções. Sempre as mesmas gaivotas com um cheiro a maresia nas penas grossas. Sempre o mesmo ondular de corpos cada vez mais nus, num espaço unicamente velado pelo bater do azul do mar na areia molhada da dura baía atlântica. O vento arrepiava. Obrigava a abraços mais fortes. A vestir a roupa com mais pressa depois da sofreguidão dos corpos que se esvaziavam e enchiam imitando as ondas. Cada vez mais era eu própria aquela areia.
Pelo anoitecer entrava em casa como uma fortificação em concha austera. Todos os ruídos eram o mar, todas as conversas eram líquidas e lembravam beijos e o sexo, como uma estrela-do-mar, molhado, a inundar tudo o que tocava. E olhava muitas vezes o céu através dos cortinados claros que logo se tornavam no azul dos olhos do Zeca. Então ria-me mesmo sem estar a dormir.
Não controlei parte do segredo como devia por isso o meu pai desconfiou. E não tardou em seguir-me até à duna, armado da sua dureza de pai. Foi então que viu o que algumas pessoas lhe disseram com palavras desajustadas ao que sentia por mim. Ao longe, o desenho da minha felicidade transposta pelo corpo pendido do Zeca.
Nessa noite permitiu que eu namorasse. Nessa noite exigiu que eu casasse. Eu não dormi porque não tinha palavras que chegassem para construir a ordem do meu pai em sons perceptíveis. Não sabia atirá-las como um íman ao Zeca, como uma rede de caça, como notas dissonantes da canção que ele adorava.
Foi a partir dessa exigência cujas palavras nunca fui capaz de pronunciar na totalidade que o Zeca deixou de ir à duna. E eu já não corria para ir ao seu encontro. Tornei-me pesada sobre o alcatrão.Um rochedo na areia. Leve e muda em casa.
(...)
Aos Amigos - Herberto Helder

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
construímos um lugar de silêncio.
De paixão.
Para ti querida Anabela,
este poema que ajudou a criar uma imagem poderosa da tarde cheia de livros e amizade que hoje passámos juntas. Que as palavras de Herberto Helder sejam verdadeiros encantamentos para ti como o são para mim, sempre que as leio e sinto que "o poema cresce tomando tudo em seu regaço".
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Todas as cartas de amor são ridículas...

Até as do próprio Fernando Pessoa...
Deixo-te uma carta de amor do genial Pessoa totalmente reduzida ao mimo que o amor imprime na linguagem até dos seres humanos mais geniais (o amor torna-nos mais parecidos uns com os outros). Vê lá se não achas deliciosas estas palavras que seguem um circuito circular inesgotável (como o próprio amor) e parecem ser escritas propositadamente para ser lidas num sussurro bem juntinho ao ouvido de Ofélia:
Terrivel Bebé:
Gosto de suas cartas, que são meiguinhas, e tambem gosto de si, que é meiguinha também. E é bombom, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e tudo está certo, e o Bebé deve escrever-me sempre, mesmo que não escreva, que é sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguém gosta de mim, e também porque é que a havia de gostar, e isso mesmo, e torna tudo ao princípio, e parece-me que ainda lhe telephono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na bocca, com exactidão e gulodice e comer-lhe a bocca e comer os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu hombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa, e a desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e ponto final até recomeçar, e porque é que a Ophelinha de um meliante de um cevado e (...) e eu gostava que a Bebé fôsse uma boneca minha, e eu fazia como uma crença, despia-a, e o papel acabava aqui mesmo, e isto parece impossível de ser escripto por um ente humano, mas é escripto por mim.
Fernando
domingo, 17 de janeiro de 2010
Eric Rohmer
"Os jansenistas são tristes".
Eric Rohmer foi pioneiro da nouvelle vague
Cineasta que morreu na segunda-feira, aos 89 anos, deixou legado de filmes autorais, de caráter intimista, sempre focado em relações amorosas e com forte viés filosófico A morte do cineasta francês Eric Rohmer, na segunda-feira, em Paris, aos 89 anos, encerra um importante capítulo da história do cinema.Nascido Jean-Marie Maurice Schérer em 21 de março de 1920, em Tulle (França), Rohmer foi um dos maiores nomes do cinema e figura central da nouvelle vague – “nova onda”, movimento do final dos anos 1950 criado por jovens críticos como Jean-Luc Godard, Claude Chabrol e François Truffaut (1932-84) que questionava o cinema clássico francês.Rohmer era conhecido por seu estilo intimista, com filmes sobre desencontros amorosos que colocavam a palavra no centro da ação cinematográfica. Seus diálogos tomavam a forma de divagações filosóficas. Em artigo publicado em sua edição eletrônica, o jornal Le Monde classificou a obra de Rohmer como uma “concepção muito francesa da arte”.“Clássico e romântico, inteligente e iconoclasta, leve e sério, sentimental e moralista, ele criou o ‘estilo Rohmer’, que sobreviverá a ele”, disse o presidente francês, Nicolas Sarkozy, em nota oficial, acrescentando que Rohmer foi um “grande autor, que continuará dialogando conosco e nos inspirando por anos e anos”.– Cada um de seus filmes era um jogo compartilhado, com regras próprias, em que cada ator fazia sua parte – disse Serge Toubiana, diretor da Cinemateca Francesa.Camus e Renoir foram influências.
Rohmer venceu o Leão de Ouro pelo conjunto de sua obra no Festival de Veneza, em 2001, e foi indicado ao mesmo prêmio pelo filme Os Amores de Astrée e Céladon em 2007, ainda inédito no Brasil. O diretor foi indicado uma vez ao Oscar, por melhor roteiro, em 1971, por Minha Noite com Ela. Venceu também o Urso de Prata, no Festival de Berlim, pelo filme A Colecionadora, em 1967.Em texto publicado segunda-feira, o Le Monde lembra ainda sua “sutileza espiritual, seu gosto pela impertinência e pela liberdade”, classificando o diretor como “representante do cânone do cinema francês” e, ao mesmo tempo, um “clássico contrariado”. Antes de se dedicar à direção de filmes, Rohmer foi crítico de cinema e comandou a revista Cahiers du Cinéma de 1957 a 1963. Rohmer era considerado o mais conservador do grupo. Nas críticas que escreveu, defendia o cinema clássico de Hollywood e foi um dos primeiros a reconhecer a importância do britânico Alfred Hitchcock.–Há em todos os meus filmes algo que não é leve – afirmou Rohmer em entrevista de 2007.Cita entre suas influências o norte-americano Howard Hawks, o francês Jean Renoir e o italiano Roberto Rossellini. Na literatura, enumera entre seus preferidos o escocês Robert Louis Stevenson e o norte-americano Herman Melville. Lembra-se também de O Estrangeiro (1942), de Albert Camus, livro que inspirou sua ideia de um “presente no passado”.– É um pretérito simples, só que no presente. Não marca a continuidade da ação, mas o momento da ação – disse.Rohmer tem três principais ciclos: os Contos Morais; Comédias e Provérbios (ambos com seis filmes cada um); e Contos das Quatro Estações.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
Dicionário técnico-literário dos Bloom Books – 38

PALAVRAS CRUZADAS EM TELA, paulo Barreiro
[14-01-2010] | Gonçalo M. Tavares
Solidificar – Método inimigo da literatura Bloom. Solidificar é imobilizar. Pelo contrário: derreter e evaporar.Tornar toda a matéria do texto inagarrável.
Construir o indíce-de-agarrabilidade de uma frase tal como pode existir o indíce de agarrabilidade de um objecto (objecto com pega/objecto sem pega).
Festa do Livro

terça-feira, 12 de janeiro de 2010
MULHERES CORRENDO, CORRENDO PELA NOITE - Herberto Helder
Alfredo Coelho, Quatro Cavalossegunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Casa da Música - Transmissões ao vivo e em directo

sábado, 9 de janeiro de 2010
O Fazedor de Viúvas - Valter Hugo Mãe
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de viúvas porque se metia com mulheres casadas que, breve tempo depois, enterravam os maridos. ninguém podia garantir que as incentivasse a livrarem-se deles, ao menos não até a dona hortência ter sido presa e saído de casa em braços do polícia tito mata aos berros aflitos, que ele, o zequelino cutelo, é que lhe tinha deixado um veneno para ratos nas mãos, que ele, o fazedor de viúvas, é que tinha posto louca, uma mulher tão simples enganada por um homem tão perigoso.era o que ele queria. Não queria mais nada. só que elas matassem os maridos. como se depois disso lhes perdesse o desejo, ou, de certeza, nem desejo algum lhes tivesse, só as queria deitar em perdição. Sim, porque sabia que andara com esta e com aquela e, ainda que viúvas em liberdade sem o azar da dona hortência, ele já não as queria. Mal o cornudo fosse à terra, ele desaparecia de beira delas. a minha avó, que pouco opinava sobre a amizade do meu avô com tão suspeito homem, no dia em que a dona hortência foi presa disse alto à entrada da sala, esse homem é um assassino, não o quero em minha casa. o meu avô silenciou-se como se fosse culpado e ouviu, comigo, o bater da porta da frente. A minha avó saíra para ver a algazarra na praça. (…) pp. 131, 132








