domingo, 20 de dezembro de 2009

O Senhor Walser - Gonçalo M. Tavares



A leitura de O Senhor Walser (Robert Walser, o famoso contista suiço), o vizinho mais periférico do bairro de Gonçalo M. Tavares, fez uma das delícias do meu sábado. Este "avatar filosófico" é um verdadeiro concentrado do poder narrativo (e imaginativo) de M. Tavares, que consegue através deste personagem misantropo corroborar a tese de que não há invasão mais violenta do que a da nossa própria intimidade, a do nosso espaço físico privado. A casa novíssima que o Senhor Walser constrói na floresta, esta última anunciada no desenho da capa pelos espessos e concêntricos círculos negros que inviabilizam uma visão perfeita do azul do céu, é invadida contra as maiores expectativas do personagem (que se imaginava a ser visitado por Thereza M., a quem esperava beijar brevemente no seu sofá cinzento ) por uma série de técnicos especializados em diversas avarias e remendos. Um atrás de outro lhe entram em casa, derrubam e constroem paredes a seu bel-prazer, deitam abaixo janelas que tapam provisoriamente recorrendo a cartões que fixam à parede com fita-cola forte, sobem andaimes até ao telhado rumo a uma fenda imprevista, levantam o soalho em vários compartimentos devido a problemas de infiltração, retiram rodapés, etc., etc., etc., passando a noite inclusivamente no seu espaço, já irreconhecível, dormindo no chão e onde lhes parecia mais cómodo de forma a evitar a escuridão que tinham que percorrer durante vários quilómetros, a uma hora já tardia, até ao bairro mais próximo. Mas para além de um enredo promissor, que se impõe por uma focalização inovadora relativamente aos aspectos mais rotineiros e desapercebidos dos "narradores normais" como, por exemplo, a forte sugestividade de uma torneira pousada no soalho, destaca-se a genialidade de uma escrita que faz cintilar o pormenor linguístico nos diferentes modos de expressão, tornando-o tão grande e importante como o motivo central que parece ter estado na génese desta obra. Assistimos, de resto, à celebração da simplicidade e da acutilância da palavra a par de um tema e de um nome da literatura alemã que não quer deixar esquecidos.




O caos imposto pela Natureza (a floresta) e pela sociedade (os vizinhos do bairro) de que aparentemente o senhor Walser se quer afastar acaba por ultrapassar a distância a que o mesmo se colocou, derrubando a barreira entre o saber comum e a intelectualidade esteta ao entrar pela porta da sua casa inaugural, com a forma humana de sucessivos canalizadores, electricistas, carpinteiros e demais técnicos de (re)construção do seu projecto de vida...que pela enorme casa concebida, seria pleno de expectativas discordantes das peripécias aqui descritas. Agradeço à Anabela este belo presente cheio da amizade dela, inscrita numa dedicatória que nunca esquecerei, como incentivo para a cura de alguns dos meus problemas existenciais que facilmente me tornam noutra pessoa, mais triste e ausente...



E agora não posso dispensar palavras deste escritor que nunca deixa de me causar espanto, de resto como a minha amiga Ana Bela Ana. Aqui seguem palavras que valem a pena ler e reler que remetem para o momento anterior à odisseia do ultimar técnico da casa, ainda quando Walser se regozijava de tanto usufruir de todas as suas novidades domésticas e decorativas:

"Na cozinha, Walser passava a mão curiosa pelos ladrilhos de parede. Um ou outro mais para fora e outros (claro) demasiado metidos para dentro, mas no geral todos no mesmo plano. (...) Abriu então a torneira e sem utilizar qualquer copo, inclinando como na infância o pescoço, bebeu a mais saborosa água de que se recordava. Com a mão limpou os ingos que lhe caíam do queixo e quase soltou um urro de contentamente por aquele tempo, finalmente, de clara solidão.Por ali, nem um único ruído de homem.


E os rodapés, por toda a casa, que perfeitos! Mais: que sentido estético! Que entendimento exacto da maneira como cor e forma se devem misturar como se existissem já assim (os rodapés) na natureza, desde o início.


Suspira, então, fundo, Walser, com a sensação de que encontrou algo de que jamais poderá abdicar.


Não se poderá acusar pois como excessivo esse movimento de quase dança com que Walser acaricia mobílias, roda manípulos de portas, se senta e levanta das várias cadeiras. Depois, deixa-se afundar no sofá cor de cinza, para dois, imaginando já a sua companheira, a forma como lhe afastaria os cabelos, como se aproximaria dela. O terreno está conquistado. A sua nova morada!


Walser senta-se então à mesa da sala e escreve a carta que há muitos anos lhe parece indispensável, dirigida a Thereza M. Nas suas linhas descreve, de modo contido, o espaço, e convida-a, com os mais recatados termos, para ua visita. Quanto tempo demorou a escrever aquela carta? Muito. Cada palavra no seu sítio, escrita cada letra como se da sua forma dependesse a própria estrutura da casa, as suas fundações. Que concentração, a de Walser!


Por fim, se bem que a morada estivesse bem clara no exterior do envelope, Walser não se coibiu de a repetir, bem como de desenhar na carta um mapa rudimentar com um enorme X assinalando o local. Queria ter a certeza de que ela - a "sua" Thereza - alcançaria, sem desvios ou equívocos, a porta da sua casa nova." (p. 18)

2 comentários:

Anabela disse...

doce amiga

ainda bem que gostaste do livro! também eu quando o li fiquei surpreendida com a história! Corrobora perfeitamente com a interpretação que fizeste da obra e de facto os muros/limitações muitas vezes estão em nós e fugir para reencontrar a libertação de nada serve! Os muros seguir-nos-ão...
muitos, muitos beijos
anabela

Djabal disse...

Eu havia experimentado algumas obras do Gonçalo M. Tavares e não me acertei com o ritmo narrativo. Graças à resenha que li, tomei gosto de ler a história do Senhor Walser. Aliás, um autor pouco conhecido por aqui, mas que me agrada muito. Leio todos os dias uma página do Escrito à lápis. Inspirador. Resta-me agradecer a sua narrativa de bom gosto e bem escrita. Felicidades. Sempre.