sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

MICROCONTOS - Autores Portugueses


A Visão desta semana publicou sete microcontos escritos por sete autores portugueses nascidos do desafio de contar uma história em menos de mil caracteres – Dulce Maria Cardoso, Filipa Martins, Gonçalo M. Tavares, José Luís Peixoto, José Mário Silva, Possidónio Cachapa e Ricardo Adolfo.
“ Grandes escritores ensaiaram o microconto, como Kafka, Cortázar, Jorge Luís Borges, Chekov, H. P. Lovecraft, Ray Bradbury e os portugueses Mário Henrique-Leiria com os contos curtos do Gin-Tonic, ou Jorge de Sousa Braga.”

Neste post transcrevo os três melhores microcontos que a meu ver são mais pungentes e consistentemente literários apesar da limitada extensão a que se submeteram.


No início do ano…

NO INÍCIO DO ANO, uma donzela do Oriente diz ao seu amado esposo:
- Não caminhes em direcção ao Leste. Se o fizeres encontrarás a morte.
Mas o amado nada ouviu, pois, nesse momento, pensava numa outra mulher, numa mulher mais jovem, mais bela, mais inteligente.
Seguiu assim o homem em direcção a leste – e não morreu. Pelo contrário, foi recebido em casa pela tal amante mais jovem, mais bela, mais inteligente.
Na manhã seguinte, ao levantar-se, a amante disse-lhe:
-Não caminhes em direcção ao Oeste. Se o fizeres encontrar´
As a morte.
Mas o homem nada ouviu, pois, nesse momento pensava na sua esposa legítima que o esperava.
Seguiu assim o homem em direcção a oeste – e não morreu. Pelo contrário, foi recebido em casa, com alegria e calor, pela sua esposa.
Na manhã seguinte, ao levantar-se, ouviu da sua amada esposa, uma donzela do Oriente:
- Não caminhes em direcção ao Leste. Se o fizeres encontrarás a morte.
Mas o amdo nada ouviu, pois, nesse momento, pensava numa outra mulher, numa mulher mais jovem, mais bela, mais inteligente.
Seguiu assim o homem em direcção a leste e depois a oeste e depois a leste e sucessivamente, dias e dias, meses e meses, anos e anos – e não morreu.
A morte surgiu apenas quando o homem já velho e sem forças ficou incapaz de se mover – quer para leste quer para Oeste.

Gonçalo M. Tavares

Micronarrativa com mulher dentro

UMA MULHER LIVRE resolveu escrever um livro em 45 capítulos que pudesse arrumar confortavelmente no bolso. Esta ideia contudo perturbava-a sem que soubesse ao certo porquê. Durante várias noites não conseguiu dormir a pensar nas razões do seu incómodo. Enquanto se esforçava por adormecer, passavam-lhe diante dos olhos imagens do rosto da mãe, ainda jovem, de saias compridas, colares e longos cabelos. Do pai, quase sempre estendido debaixo de uma luz moribunda de Verão, belo como um deus que se consumisse aos poucos. Ela e os irmãos a correrem descalços e nus em volta de uma piscina de plástico com patos e flores. Ela, sozinha, na faculdade, a fechar a porta do quarto depois de uma noite de sexo amigo, daquele que não prende.
A pintar as paredes da primeira casa, da segunda… enquanto os namorados ficavam estendidos, belos como deuses ainda por consumir. A fechar as portas com dor. Uma mulher livre quis escrever um livro com a ligeireza do ar e descobriu que era cega. Como se fosse verão.

Possidónio Cachapa


O Futuro

DERAM-LHES CARTA BRANCA para fazer o que desejassem, como desejassem, sem limites orçamentais. Junto à costa, os terrenos expropriados eram uma espécie de tábua rasa, estendendo-se até ao horizonte longínquo. «Construam o futuro, aqui e agora», pediu-lhes o Presidente, num discurso inflamado, solene, feito para impressionar os Presidentes dos países vizinhos. Então, eles chegaram. Os melhores arquitectos. Os melhores engenheiros. Os melhores empreiteiros. Nos projectos que pousavam em cima das elegantes mesas de vidro, estava o futuro. O Futuro, com maiúscula. Uma cidade perfeita, ecologicamente sustentada, exemplar. A cidade-síntese. A cidade ideal. Então, o Presidente morreu, em circunstâncias misteriosas. A primeira decisão do sucessor foi embargar o Futuro, dirigir as verbas para outros fins. Os alicerces do Futuro ficaram expostos ao vento, consumidos pelo salitre. Ainda hoje podem vistos, junto a costa, por entre enormes extensões de areia, detritos e urtigas.

José Mário Silva

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

ODE TRIUNFAL de Álvaro de Campos para NUNO CANELAS

Nuno Canelas, Gravura s/ título

Como prometido, ofereço um excerto do poema Ode Triunfal do Engenheiro Naval Álvaro de Campos ao Nuno Canelas para que ele se inspire na sua criação artística que muito aprecio.

Deixo o endereço do seu site para que possam conhecer a sua obra num clicar de rato:
http://web.mac.com/nunocanelas/Site_2/site_de_nuno_canelas.html


Ode Triunfal


À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica

Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.



Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!




Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical —
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força —
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro.
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
há Platão e Virgíllo dentro das máquinas e das luzes eléctricas
porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinqüenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.



Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
(...)



Álvaro de Campos



segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Ondjaki e Max Richter


Devaneio por entre a poesia de Ondjaki que sabiamente me ofereceste e acompanha essa minha leitura a música de Max Richter. Como pude estar cega durante tanto tempo? Como pude desconhecer este compositor? Obrigada amiguinha por não me manteres na ignorância!
Para ti, lindíssima amiga, uma música linda de Max R. a acompanhar a chuva que cai e o poema que teima em ficar... do meu Ondjaki...










SEM TRÉMULOS BARULHARES, A CHUVA


convidei uma chuva silenciosa
a fazer aparição num poema.

[tive que pedir licença ao assobiador. ele acedeu].
era uma chuva quase triste,
vivia consumida de se esvair.
"chego sem fazer barulho pra ninguém
se lembrar de me evitar".
era uma chuva quase bonita.
tinha muita tendência poética
-isto me parecia óbvio.
tinha também alguma incapacidade para entender
o desejo humano
de pisar um chão seco.
depois de o assobiador eixar aquela aldeia
calculei que ninguém mais fosse acariciar
aquela chuva.
era uma chuva carente
-isso me pareceu óbvio também.
lhe atribui este lar provisório
e logo se verá
o daqui pra frente.
isso me espanta nas coisas
que não pertencem ao foro das pessoas:
a chuva aceitou ficar.
vive actualmente
na leitura [mesmo que desatenta]
de um poema.

o barulhar dessa chuva
é uma espécie de pequena mentira.

dizem que as crianças lhe conseguem escutar.
dizem que os gambozinos lhe pressentem
e nela, por vezes,
se deixam vislumbrar.

dizem.


Ondjaki, Materias para confecção de um espanador de tristezas

A Última Colina - Urbano Tavares Rodrigues



É muito agradável a leitura de todos os contos d' "A Última Colina" de Urbano Tavares Rodrigues, este escritor tão sensível à poesia das coisas. Como se pode ouvi-lo dizer neste breve videoclipe, cheio de serenidade e ternura, são várias os estilos cultivados nos diversos contos, desde aqueles de pendor mais realista como "Judas", onde se questionam os problemas sociais mais actuais até àqueles que tocam o onirismo e o realismo mágico (os meus preferidos) nos quais se constroem personagens que explicam a beleza e a essência da vida como por exemplo o narrador do conto “O Cavalo da Noite” (conto editado para um público infanto-juvenil, pela Dom Quixote, na colecção “Moinho de Vento” com ilustrações de Raffaello Bergonse muito fieis ao texto). Vale a pena conhecer os contos mais recentes (2008) deste nosso querido e valeroso escritor.


"Apareceu de madrugada e ninguém sabia de onde vinha. Era um cavalo tão preto que parecia azul, da cor das noites profundas. Tinha corrido sem destino pelas planícies do Alentejo. Quando avistou a brancura do «nosso» monte, parou. Veio depois bater com a pata à porta grande da cozinha.

Fui eu que o ouvi primeiro, relinchou, aproximou de mim o focinho e lambeu-me a testa e os cabelos. Tinha nos olhos muito pretos uma água de amizade. (...)"

O Cavalo da Noite

domingo, 3 de janeiro de 2010

Max Richter - Written in the Sky


Fiquei recentemente muito entusiasmada com Max Richter, compositor que o Paulo me apresentou por saber que poderia bem fazer-me esquecer (por me lembrar muito) do meu adorado Phiplip Glass, possibilitando-me, assim, dar-lhe um pouco de descanso. As faixas de piano são fabulosas e por isso não posso deixar de te oferecer uma de que gosto muito (a começar pelo título que transpira a emoção da escrita... ou da música (???) - "Written in the sky")


Na semana passada encontrei um comentário a este CD de Max Richter no Actual (suplemento do jornal Expresso) que transcrevi para ti por saber que gostas de ler acerca do que ouves. Aqui vai, querida amiga:

"Lançado em 2002 e agora reeditado, o primeiro álbum em nome próprio do músico e compositor Max Richter sobrevive aos anos passados. Gravado com a BBC Philharmonic Orchestra, "Memoryhouse" segue um conceito usado e muito abusado nos anos 1990, o da banda sonora para um filme imaginário. Sucede que Richter fá-lo com uma eloquência e precisão (da recorrência de motivos sonoros aos títulos funcionais) que impelem o ouvinte a "uma consulta infrutífera, do Internet Movie Data Base. O filme que se ouve em "Memoryhouse" é guiado pelo minimalismo. Paisagens devastadas, geladas e monocromáticas pairam no ar das 18 faixas. A palavra-chave é "memória": esta é uma obra que evoca um século XX europeu em estado de pós-guerra, repleto de fantasmas que ditam a vida dos sobreviventes. Chuva cai durante "November". Um estertor de "voz" a uivar sufoca em "Sarajevo". Há um tecto de nuvens cor de chumbo que nunca levanta deste álbum, nem quando esporádicos loops rítmicos entram num frenesim larvar. Uma obra austera, pungente e invernosa, de um compositor de carreira breve mas consistente."
Jorge Manuel Lopes

Aqui te deixo a faixa que anuncia o álbum do post, mas vale bem a pena ouvir todas as músicas dele:

http://www.youtube.com/watch?v=q0CVMpaQoVY

Andrew Bird - Tables and Chairs


Ana Bela Ana, sigo o teu exemplo e para abrir o ano de 2010, deixo uma música de um CD magnífico de Andrew Bird que ouço, nestes dias carregados de inverno, vezes sem conta e entendo como um livro dividido em partes... sinto-lhe um fio condutor (com o som belíssimo do violino que tanto me encanta!) que nos leva a diferentes recantos de uma mesma história. Vê se a entendes assim (que lindo som o do xilofone...) e ouve-a vezes sem conta, com o frio e a chuva à espreita lá fora. Sonha muito, muito, linda amiga, tanto ou mais, se possível, do que mereces...

http://www.youtube.com/watch?v=UjKpHnF_sRg


Já agora, dá uma espreitadela a um concerto de Andrew Bird e à interpretação deste mesmo tema.

 http://www.youtube.com/watch?v=RfoOvJuQuC0

A entrevista de Eduardo Lourenço ao JL

Amiguinha, gostei bastante desta última edição do JL que pede a diversas personalidade portuguesas uma opinião sobre o que de melhor se pasoou nesta década que agora findou (2000-2009).
Destaco em primeiríssimo lugar a entrevista que foi feita ao sábio Eduardo Lourenço que me surpreende sempre! Vou deixar aqui algumas palavras saborosas que retive da entrevista a propósito do seu próprio balanço:




"O HOMEM É O VÍRUS DO COSMOS"


"NINGUÉM PODE EXISTIR SENÃO EM FUNÇÃO DESSA CRENÇA, DO POSITIVO SENÃO A HUMANIDADE SUICIDAR-SE-IA. VIVEMOS EM FUNÇÃO DESSA IDEIA DE QUE O AMANHÃ É MELHOR DO QUE O HOJE. MAS ESSA É UMA HISTÓRIA DE LOUCOS, CONTADA POR LOUCOS. NÃO MELHORÁMOS"
(a propósito da frase de Nietzche: A alegria é mais profunda do que o que eu penso à noite)

La última entrevista a García Lorca

Li uma notícia que achei particularmente curiosa, sobre a última entrevista que García Lorca deu antes de ser fusilado.  http://www.laopinioncoruna.es/cultura/2010/01/03/ultima-entrevista-garcia-lorca/347503.html

Decido transcreve-la e partilhá-la contigo, amiguinha....


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Dos meses antes de su muerte, el escritor confesaba sus inquietudes al ilustrador Bagaría: "Execro al hombre que se sacrifica por una idea nacionalista sólo porque ama a su patria con una venda en los ojos"
El 10 de junio de 1936, en las páginas del diario'El Sol' se publicaba el resultado de un encuentro entre dos de las personalidades más populares de la cultura de la España republicana: el bohemio periodista y caricaturista Luis Bagaría y Federico García Lorca. Bajo el título de 'Diálogo con García Lorca', el texto ha pasado a la posteridad como la última entrevista realizada al poeta, si bien hay que aclarar que el texto -recuperado en el libro 'Caricaturas republicanas' editado por Rey Lear-, reproduce más bien un intercambio de impresiones en el que ambos personajes se preguntan el uno al otro acerca de cuestiones diversas

 SALVADOR RODRÍGUEZ (INTRODUCCIÓN Y TRASNCRIPCCIÓN)
A CORUÑA Al paso de los años, aquella entrevista ha ido adquiriendo un valor insospechado. No debemos olvidar que tan sólo un mes y ocho días después de su publicación estallaba la Guerra Civil: el 19 de agosto de 1936 Federico García Lorca era asesinado y, para evitar que le ocurriese lo mismo, a Luis Bagaría no le quedaría otra salida que emprender el camino del exilio, primero a París y después a La Habana, donde falleció en 1940.

Obviando las preguntas que Lorca también efectuó a su amigo (comprobará el lector que el estilo dista mucho de lo que hoy pudiera considerarse lenguaje periodístico), a continuación transcribimos un extracto de las más interesantes opiniones y reflexiones vertidas por el malogrado literato en aquel diálogo entre camaradas celebrado y difundido a poco más de dos meses de la muerte del dramaturgo y poeta granadino:



-Luis Bagaría: ¿Crees tú, poeta, en el arte por el arte, o, en caso contrario, el arte debe ponerse al servicio de un pueblo para llorar cuando él llora y reír cuando este pueblo ríe?

-García Lorca: Este concepto del arte por el arte es una cosa que sería cruel si no fuera, afortunadamente, cursi. Ningún hombre verdadero cree ya en esta zarandaja del arte puro. En este momento dramático del mundo, el artista debe llorar y reír con su pueblo. Hay que dejar el ramo de azucenas y meterse en el fango hasta la cintura para ayudar a los que buscan las azucenas. Particularmente, yo tengo un ansia verdadera por comunicarme con los demás. Por eso llamé a las puertas del teatro y el teatro consagró toda mi sensibilidad.


-L.B.: ¿Crees tú que al engendrar la poesía se produce un acercamiento hacia un futuro más allá, o al contrario, hace que se alejen más los sueños de otra vida?                                



-G.L.: La creación poética es un misterio indescifrable, como el misterio del nacimiento del hombre. Se oyen voces no se sabe dónde, y es inútil preocuparse de dónde vienen. Como no me he preocupado de nacer, no me preocupo de morir. Escucho a la naturaleza y al hombre con asombro, y copio lo que me enseñan sin pedantería y sin dar a las cosas un sentido que no sé si lo tienen. Ni el poeta ni nadie tiene la clave del mundo. Quiero ser bueno. Sé que la poesía eleva, y siendo bueno con el asno y con el filósofo, creo firmemente que si hay un más allá tendré la agradable sorpresa de encontrarme con él. Pero el dolor del hombre y la injusticia constante que mana del mundo, y mi propio cuerpo y mi propio pensamiento, me evitan trasladar mi casa a las estrellas.



-L.B. : ¿No crees, poeta, que sólo la felicidad radica en la niebla de una borrachera, borrachera de labios de mujer, de vino, de bello paisaje, y que al ser coleccionista de momentos de intensidad se crean momentos de eternidad, aunque la eternidad no existiera y tuviera que aprender de nosotros?



-G.L.:Yo no sé en qué consiste la felicidad. Si voy a creer al texto que estudié en el Instituto, del inefable catedrático Ortí y Lara, la felicidad no se puede hallar más que en el cielo; pero si el hombre se ha inventado la eternidad, creo que hay en el mundo hechos y cosas que son dignos de ella, y por su belleza y trascendencia, modelos absolutos para un orden permanente.



-L.B.: ¿No crees que tenía más razón Calderón de la Barca cuando decía 'Pues el delito mayor/del hombre es habr nacido' que el optimismo de Muñoz Seca?



-G.L.: El optimismo es propio de las almas que tienen una sola dimensión: de las que no ven el torrente de lágrimas que nos rodea, producido por cosas que tienen remedio.

-L.B.: ¿No crees Federico, que la patria no es nada, que las fronteras están llamadas a desaparecer? ¿Por qué un español malo tiene que ser más hermano nuestro que un chino bueno?



-G. L.: Yo soy español integral, y me sería imposible vivir fuera de mis límites geográficos; odio al que es español por ser español nada más. Yo soy hermano de todos y execro al hombre que se sacrifica por una idea nacionalista abstracta por el solo hecho de que ama a su patria con una venda en los ojos. El chino bueno está más cerca de mí que el español malo. Canto a España y la siento hasta la médula; pero antes que esto soy hombre de mundo y hermano de todos. Desde luego, no creo en la frontera política.


A continuacion Bagaría inquiere a Lorca por las dos 'cosas' que, a su juicio, 'tienen más valor en España: el canto gitano y el toreo'. Al respecto de este último, responde el poeta:


-G.L.: El toreo es, probablemente, la riqueza poética y vital mayor de España, increíblemente desaprovechada por los escritores y artistas, debido principalmente a una falsa educación pedagógica que nos han dado y que hemos sido los hombres de mi generación los primeros en rechazar. Creo que la de los toros es la fiesta más culta que hay hoy en el mundo. Es el drama puro, en el cual el español derrama sus mejores lágrimas y sus mejores bilis. Es el único sitio donde se va con la seguridad de ver la muerte rodeada de la más deslumbradora(sic) belleza.



-L. B.: ¿Qué poetas te gustan más de la actualidad española?

-G. L.: Hay dos maestros: Antonio Machado y Juan Ramón Ramón Jiménez. El primero, en un plano puro de sinceridad y perfección poética; poeta humano y celeste, evadido ya de toda lucha, dueño absoluto de su prodigioso mundo interior. El segundo, gran poeta,turbado por una terrible exaltación de su yo, lacerado por la realidad que lo circunda, increíblemente mordido por cosas insignificantes, con los oídos puestos en el mundo, verdadero enemigo de su maravillosa y única alma de poeta




sábado, 2 de janeiro de 2010

e ainda... Regina Spektor



Embora mais comercial do que os anteriores músicos, Far, de Regina Spektor não deixa de ser uma sonoridade interessante. Mais uma vez, aqui deixo a opinião de quem sabe destas coisas...

"É absolutamente esmagadora a criatividade interpretativa de Regina Spektor. Pouco nos interessa se as canções soam parecidas, há ali um duende vocal que torna tudo sublime(...). A flexibilidade vocal mais do que surpreendente é espectacular, o seu uso não é exibicionista mas perfeito para o contexto que serve (...). A cantora nova-iorquina de origem russa escreve as letras, as músicas e acompanha-se a si própria ao piano. Esse é o alicerce comum do álbum. Mas que cresce graças ao cuidado de arranjos múltiplos.", Manuel Halpern, JL

FUCK BUTTONS


Ainda à volta de novas sonoridades... recolhendo a opinião de Manuel Halpern do JL. Talvez conheças o grupo- o teu Paulinho de certeza e irá rir-se da minha ignorância-mas mesmo assim arrisco...

"A cidade costeira de Bristol tem créditos firmados na música electrónica. Foi lá que nasceu um dos mais importante movimentos musicais dos anos 90. E não é por acaso que dali emerge este duo que é uma autêntica lufada de ar fresco para a electrónica em plena viragem da década(...). A dupla de Andrew Hung e Benjamin Power foi do que melhor aconteceu em 2009" .

JL, 30 Dez-12 Janeiro 2010

http://fuckbuttons.co.uk/

DANÇAS OCULTAS, prazeres ocultos



A primeira vez que soube da existência deste grupo musical português foi no JL de 4-17 Novembro, mas não lhe dei grande importância apesar de o título do artigo ser sugestivo (prazeres ocultos). Contudo, na semana passada fui confrontada com uma música fabulosa que acompanhava uma entrevista na Antena 2. Foi aí que percebi que o entrevistado era o mentor de Danças Ocultas, e aquela música era do seu mais recente álbum: TARAB.


Aqui deixo a música possível que encontrei no youtube. Não sei sequer se faz parte de Tarab mas vale a pena ouvir e apreciar. Deixo ainda o sítio do grupo na internet.
http://dancasocultas.weblog.com.pt

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

PINTAR O TEU ANIVERSÁRIO com 3 pintores


Simon Hemmer, The Fury, 2008



                                Albert Oehlen

Loris Lombardo

O primeiro quadro, de Simon Hemmer, pintor-seguidor-aprendiz de Albert Oehlen, exprime a desintegração (ou a integração, tu decides...) do universo, todo ele em pleno alvoroço destrutivista ou criacionista ( ???) e foi nesta fúria metafísica que encontrei o motivo da oferta desta obra de arte onde a cor prepara a implosão final numa espécie de névoa emergente que impressiona o espectador num contraste cromático que quase vicia o olhar. Podes vê-lo em exposição algures (não fixei o nome da galeria!) na cidade de Amesterdão. Vamos lá um destes dias?

O segundo quadro, de Albert Oehlen, o pintor alemão considerado o grande revolucionário da arte abstracta contemporânea, foi a primeiríssima escolha para a decoração deste post dedicado ao teu aniversário. A obra dele encontra-se em exposição (intitulada “ Realidade Abstracta”) em Paris no Museu de Arte Moderna e é interessantíssima... Na revista Vogue de Dezembro (na edição espanhola) Oehlen dá-se a conhecer numa interessante entrevista. A sua trajectória no mundo da pintura é diversificada, recheada de mudanças e constantes transgressões. Passou do estilo figurativo para o abstracto, da colagem para o chamado “computer painting”, valendo mesmo a pena conhecer as suas obras tão ricas e multifacetadas. Com excesso de humildade (que na voz e nos gestos de alguns “fora de série” me irrita em demasia), Oehlen confessa, logo no início da entrevista, algumas palavras inesperadas :“É impossível pintar pior (…) Não tenho nenhuma garantia de que no final me tomem a sério.”


A pintura que dele escolhi para dar cor ao teu aniversário não tem maior pretensão do que oferecer-te um ramalhete de flores abstractas, num gesto artístico em que leio muita amizade. O corpo da figura humana representada, apesar de parecer masculino, é comprovadamente feminino pelo poder transfigurativo da palavra que o pintor lhe inscreve, à maneira de Magritte. Achei isto genial. Isto e tudo o resto, feito de tinta e imaginação. Só comprovei uma vez mais que mais do que a beleza de um rosto, o que interessa é o coração e os gestos que o animam.

O terceiro quadro, do pintor napolitano Loris Lombardo, agradou-me por me lembrar de um qualquer nascimento. Talvez devido à expressão de uma forte desprotecção que essa criança exibe e, por extensão, da impotência com que qualquer ser humano se vê confrontado perante a desajustada luta entre o frio e a completa nudez. A meu ver, a primeira roupa devia vir agarrada à pele. Isto seria o ideal para precaver a situação da criança que nasce na pobreza ou que tem uma mãe ou um pai loucos. A morte é, neste aspecto, mais confortável, pois não vamos nus para debaixo da terra… Há sempre alguém com a coragem e a bondade de vestir o morto. Agradou-me a expressão inexpressiva da criança a contrastar com a sua posição cruzada dos braços, funcionando como uma invocação desesperada e agónica e apaziguando toda a falta de expressividade humana. Adoro as cores de fundo que pintam o real, a chuva geométrica, multicolor e angulosa e, finalmente, o aspecto estranho de um cabelo vivo que mais parece uma vista parcelar do globo terrestre.

Espero que gostes tanto como eu destas três pinturas, destes três pintores, que te dizem, cada qual à sua maneira, “Parabéns Anabela”!



Uma Flor do outro Mundo - um Poema de Aniversário para 29/12/09



Num só verso pode nascer uma flor do outro mundo.
basta regá-lo com palavras estranhas
bem nas entranhas
deste poema de aniversário.
líquidas
iridiscentes
vítreas
nascem pétalas incertas a empurrar esta data.
são dessa flor estrangeira feita de sílabas
que soletram o nascer. novo ser.
basta cantar-lhe poesia. vê-la neste telescópio
criado mesmo agora para a poder ver:
T E L E S C Ó P I O
e ao espreitar a límpida lente vê
todo o espaço em branco da não escrita
todo o espaço negro que o universo não ocupa
e uma flor do outro mundo
impressa a tinta tão espessa
que o teu nome quase não se lê
por detrás dos estames
deste poema de aniversário.

PARABÉNS ANABELA!

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Só para mim, Luís Miguel Nava



«Queria ter o sol só para mim.
tê-lo de forma a dele poder de vez em quando ceder parte apenas a um dos meus mais íntimos amigos.»


(À Pat que me faz sentir a melhor das amigas. O poema foi retirado do livro que me ofereceu... Obrigada doce amiga)

domingo, 20 de dezembro de 2009

O Senhor Walser - Gonçalo M. Tavares



A leitura de O Senhor Walser (Robert Walser, o famoso contista suiço), o vizinho mais periférico do bairro de Gonçalo M. Tavares, fez uma das delícias do meu sábado. Este "avatar filosófico" é um verdadeiro concentrado do poder narrativo (e imaginativo) de M. Tavares, que consegue através deste personagem misantropo corroborar a tese de que não há invasão mais violenta do que a da nossa própria intimidade, a do nosso espaço físico privado. A casa novíssima que o Senhor Walser constrói na floresta, esta última anunciada no desenho da capa pelos espessos e concêntricos círculos negros que inviabilizam uma visão perfeita do azul do céu, é invadida contra as maiores expectativas do personagem (que se imaginava a ser visitado por Thereza M., a quem esperava beijar brevemente no seu sofá cinzento ) por uma série de técnicos especializados em diversas avarias e remendos. Um atrás de outro lhe entram em casa, derrubam e constroem paredes a seu bel-prazer, deitam abaixo janelas que tapam provisoriamente recorrendo a cartões que fixam à parede com fita-cola forte, sobem andaimes até ao telhado rumo a uma fenda imprevista, levantam o soalho em vários compartimentos devido a problemas de infiltração, retiram rodapés, etc., etc., etc., passando a noite inclusivamente no seu espaço, já irreconhecível, dormindo no chão e onde lhes parecia mais cómodo de forma a evitar a escuridão que tinham que percorrer durante vários quilómetros, a uma hora já tardia, até ao bairro mais próximo. Mas para além de um enredo promissor, que se impõe por uma focalização inovadora relativamente aos aspectos mais rotineiros e desapercebidos dos "narradores normais" como, por exemplo, a forte sugestividade de uma torneira pousada no soalho, destaca-se a genialidade de uma escrita que faz cintilar o pormenor linguístico nos diferentes modos de expressão, tornando-o tão grande e importante como o motivo central que parece ter estado na génese desta obra. Assistimos, de resto, à celebração da simplicidade e da acutilância da palavra a par de um tema e de um nome da literatura alemã que não quer deixar esquecidos.




O caos imposto pela Natureza (a floresta) e pela sociedade (os vizinhos do bairro) de que aparentemente o senhor Walser se quer afastar acaba por ultrapassar a distância a que o mesmo se colocou, derrubando a barreira entre o saber comum e a intelectualidade esteta ao entrar pela porta da sua casa inaugural, com a forma humana de sucessivos canalizadores, electricistas, carpinteiros e demais técnicos de (re)construção do seu projecto de vida...que pela enorme casa concebida, seria pleno de expectativas discordantes das peripécias aqui descritas. Agradeço à Anabela este belo presente cheio da amizade dela, inscrita numa dedicatória que nunca esquecerei, como incentivo para a cura de alguns dos meus problemas existenciais que facilmente me tornam noutra pessoa, mais triste e ausente...



E agora não posso dispensar palavras deste escritor que nunca deixa de me causar espanto, de resto como a minha amiga Ana Bela Ana. Aqui seguem palavras que valem a pena ler e reler que remetem para o momento anterior à odisseia do ultimar técnico da casa, ainda quando Walser se regozijava de tanto usufruir de todas as suas novidades domésticas e decorativas:

"Na cozinha, Walser passava a mão curiosa pelos ladrilhos de parede. Um ou outro mais para fora e outros (claro) demasiado metidos para dentro, mas no geral todos no mesmo plano. (...) Abriu então a torneira e sem utilizar qualquer copo, inclinando como na infância o pescoço, bebeu a mais saborosa água de que se recordava. Com a mão limpou os ingos que lhe caíam do queixo e quase soltou um urro de contentamente por aquele tempo, finalmente, de clara solidão.Por ali, nem um único ruído de homem.


E os rodapés, por toda a casa, que perfeitos! Mais: que sentido estético! Que entendimento exacto da maneira como cor e forma se devem misturar como se existissem já assim (os rodapés) na natureza, desde o início.


Suspira, então, fundo, Walser, com a sensação de que encontrou algo de que jamais poderá abdicar.


Não se poderá acusar pois como excessivo esse movimento de quase dança com que Walser acaricia mobílias, roda manípulos de portas, se senta e levanta das várias cadeiras. Depois, deixa-se afundar no sofá cor de cinza, para dois, imaginando já a sua companheira, a forma como lhe afastaria os cabelos, como se aproximaria dela. O terreno está conquistado. A sua nova morada!


Walser senta-se então à mesa da sala e escreve a carta que há muitos anos lhe parece indispensável, dirigida a Thereza M. Nas suas linhas descreve, de modo contido, o espaço, e convida-a, com os mais recatados termos, para ua visita. Quanto tempo demorou a escrever aquela carta? Muito. Cada palavra no seu sítio, escrita cada letra como se da sua forma dependesse a própria estrutura da casa, as suas fundações. Que concentração, a de Walser!


Por fim, se bem que a morada estivesse bem clara no exterior do envelope, Walser não se coibiu de a repetir, bem como de desenhar na carta um mapa rudimentar com um enorme X assinalando o local. Queria ter a certeza de que ela - a "sua" Thereza - alcançaria, sem desvios ou equívocos, a porta da sua casa nova." (p. 18)

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A Mulher que Prendeu a Chuva - Teolinda Gersão



"A mulher que prendeu a chuva" é mais uma micronarrativa de Teolinda Gersão que merece a atenção por proporcionar uma reflexão sobre o poder que os mitos exercem sobre o ser humano. Neste conto que dá o título a esta colectânea, é um mito africano que inebria por completo, durante precisamente 7 minutos,  o personagem principal, um viajante em negócios que se hospeda num hotel de luxo lisboeta e ouve a história da mulher que prendeu a chuva, pela voz de uma empregada de limpeza  negra, enquanto esta trabalha na sala contígua com uma colega de trabalho. O pensamento mágico cruza-se com um modo de pensar e de agir formatado pelo Ocidente, chocando com este.  Este texto faz lembrar que também na Idade Média a mulher era sacrificada por motivos idênticos, sendo vista como a encarnação do Mal. Mais uma vez a mulher ocupa um lugar de destaque na diegese Gersiana.

Sobre a escritora Teolinda Gersão, Vergílio Ferreira disse um dia: «É uma cúmplice, nesta loucura de encher a vida a escrever romances. Como se numa multidão indiferente alguém erguesse a voz para me saudar. Como se num deserto alguém esperasse para lhe passar o testemunho. Como se de repente eu fosse menos louco».

Também eu me sinto feliz e menos louca ao ler estas palavras do grande Vergílio Ferreira.... e sobretudo feliz por pressentir que o mundo da literatura de ficção arrasta cumplicidades tão fortes e amizades tão sinceras como se vê raramente. Como se a linguagem de uns e de outros escritores fosse ela própria  pessoas que nos fascinam, pessoas inesquecíveis, com olhares profundos sobre as coisas que acontecem sem palavras que as descrevam. Rostos com quem falamos sem sermos vistos. Verdades brancas. 

Mostro um excerto em que estão presentes as duas vozes narradoras das quais se sobreporá a voz africana que abrirá naquele quarto uma geografia exótica, "um pedaço de África intacto, como um pedaço de floresta virgem", onde o primeiro narrador, um narrador europeu, se perdeu.



"Foi então que percebi que falavam . Uma delas sobretudo, era a que falava, a outra limitava-se a lançar interrogações, ou a emitir sons, de quando em quando. Eram duas vozes diferentes, que se manifestavam de maneira desigual.


A chuva, ouvi dizer uma delas. Foi por causa da chuva (...)


Foi por causa da chuva, repetiu.


Não chovia há muito tempo e tudo tinha começado a morrer. Até as árvores e os pássaros. As pessoas tropeçavam em pássaros mortos. (...).


Tudo tinha secado, a terra abria fendas, ouvi a mulher dizer ainda. Gretada de falta de água. A terra tinha feridas na pele. Animais morriam. Pessoas morriam. Crianças morriam. O ribeiro secou. O céu secou. As folhas torciam-se, nas árvores, e depois também as árvores secavam. (...)


Então começaram vozes, nas pessoas da aldeia (...)


Alguém era culpado pela seca. E depois começaram as vozes, na aldeia, de que a culpada era aquela mulher. Outros diziam que não. Ninguém sabia ao certo. Mas a seca não acabava, e tudo continuava a morrer.


Até que chamaram o feiticeiro. Acenderam o lume e queimaram ervas e ele bebeu o que tinha que beber e ficou toda a noite a murmurar palavras que ninguém entendia. Pela manhã vieram os Mais Velhos e ele disse que era por causa da mulher. Foi isso que ele disse e todos ouviram: Aquela mulher prendeu a chuva.


Então os Mais Velhos entenderam o que se ia passar e olharam para o chão, porque tinham piedade da mulher que vivia sozinha, afastada da aldeia. Muito tempo antes o marido tinha-a abandonado e morrera-lhe um filho e ela tinha chorado tanto que o seu corpo tinha secado, os seus olhos tinham secado, toda ela se tinha tornado um tronco seco, dobrado para o chão. Tinha-se tornado bravia como um animal, nunca se ouvia falar, só gemia, e gritava às vezes de noite.


Essa mulher, repetiu o feiticeiro olhando para o chão.


Acendeu o cachimbo e soprou devagar o fumo: Ela prendeu a chuva.


Mas ninguém queria matá-la. E também o feiticeiro disse que não era por sua vontade.


Ficaram parados, como se esperassem. Todos os da aldeia, sentados debaixo de uma árvore. E o tempo também parou, e não passava.(...)


Então um jovem ofereceu-se. Eu vou, disse. Como se fosse igual matar a mulher, ou ser morto.(...)


Ele foi ter com ela à cabana e passou a noite com ela. Dormiu com ela e fez amor com ela. Passou-lhe as mãos no sexo, nos seios, nos cabelos, acariciou-a com ternura e depois apertou-a com os braços, como se fosse outra vez fazer amor com ela, apertou mais e mais, em torno do pescoço até sufocá-la. E depois veio cá fora da cabana, com a mulher morta nos braços e deitou-a na terra e todos caminharam em silêncio em volta. (...)


E então começou a chover, disse a mulher. Então começou a chover."




Teolinda Gersão, A Mulher que Prendeu a chuva, Sextante Editora




terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O Tempo e as Coisas - Um olhar sobre o Tempo e a Fotografia


É áspero o tempo
como a palavra que nos agride em indiferença altiva.





Partem-se os vidros 
atirando-lhes um punhado de tempo aos reflexos.

domingo, 13 de dezembro de 2009

O meu ruído preferido - texto produzido na Oficina de Escrita Criativa 5 estrelas


O texto que transcrevo foi produzido na Oficina de Escrita Criativa 5 Estrelas por duas alunas do 10º ano e teve o objectivo de treinar a ironia e o suspense narrativo.Constitui uma amostra de como na escrita se pode desenvolver a criatividade. Este logotipo foi também criado por um aluno na nossa Oficina.

O meu ruído preferido
É como uma motosserra que está mesmo ao lado do meu ouvido, irritante, assustadora.

O estimulante ruído é sempre impertinente e inconveniente a caminho de casa, na estrada que tomo, depois da escola. Ao fim da tarde, lá vem aquele ruído debilitante, que até me faz arredar num salto, quase caindo no chão com um medo tremendo. Porém adoro aquele barulho ensurdecedor que arrepia os nervos como uma aranha a passear-se lenta à flor da pele, quando não me posso mover.
Que fascínio o raio do ruído me provoca… Qual ruído?!?
É, claro, o VRRRUM-VRRRUM de qualquer mota.



Deixo o endereço da oficina de escrita criativa onde este texto mora:


http://escritacriativa75estrelas.blogspot.com/

Os Cantores de Leitura - Maria Gabriela LLansol

Deixo um excerto que cristalizou uma tarde em que tivemos tempo para a leitura cantada:


Eu,
um de nós, talvez a geométrica flor, tenho experimentado
a sensação - que até agora desconhecia -, que estar
vivo e estar só é um sinal de alegria,
semelhante ao tombar da neve.

Se as espirais delicadas do contacto com os outros (cada
vez mais delicadas) se transformam em mais frágeis à medida
que a sensibilidade aos actos de linguagem - e aos
actos -
cresce,

esta face a face sem intermediários humanos com as coisas
pode fazê-las transparecer num espaço máximo.

É talvez uma fase nova da aprendizagem da leitura - será
preciso entrar nesse espaço em que dos flocos já caem le-
tras para usar finamente o privilégio de ensiná-las aos ani-

mais do Mosteiro, chamamento que aqui demos à sua
contemplação. Mosteiro e monstro - e os caminhos
transitáveis entre eles;
por fim, suponho que o nosso cântico de leitura dará nas-
cimento a híbridos.

Maria Gabriela LLansol, Os Cantores de Leitura, Assírio & Alvim,
p. 22

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books – 35

Doce Pat, roubei para ti... só para ti...





Sacrilégio – A evidência de frases sucessivas. A beleza onde não existe a mancha. A mancha onde não existe a breve beleza. A frase que pareça terminar.


Simultâneo – Nada acontece ímpar e um. Qualquer coisa, mesmo que grande, é apenas uma parte. Um elefante, por exemplo, ou um enorme edifício. Não há vidas separadas de outras, que vão do início ao fim como uma experiência química dentro de tubos de ensaio. Mostrar que a vida é simultânea é indispensável. Não existe a história de um homem: srº Jonas ou de uma família. Existem sim homens com outros homens e mulheres, coisas, vegetais, o cão da vizinha e a linguagem que existe no mundo e é dita por anónimos.
Histórias individuais são violência sobre a linguagem. A linguagem é um organismo que gosta de ângulos e percursos subitamente laterais. É mais sensata a história de um segundo que atravessa o mundo, que a história de um homem que se apaixonou por uma mulher e depois veio outro e. A linguagem é mais lateral que longitudinal. Não é imóvel; move-se imobilizando o tempo, o que é diferente.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Noventa anos após o paradoxo de Valéry

Retirei este excerto do sítio: http://www.pnetliteratura.pt.
Trata-se de um texto que Luís Carmelo publicou,  muito interessante e sobre uma das obras de Valéry (sobre o qual pouco ou nada sei).
Espero que te entusiasme... muitos beijos.


O rosto da Europa é a figuração feliz de um perfil que representa a imagem da Eurásia a despedir-se do mundo, ou seja: do mar e das lendas que ele prolonga. Este olhar inebriado sobre o grande gravitas é o território preferido pelos maiores poetas portugueses, Camões e Pessoa. Aliás, a expressão "rosto da europa", na língua portuguesa, pertence a este último.
Neste meio diagrama meio metáfora, utilizado por Pessoa na Mensagem, a Europa surge como jazendo sobre "os cotovelos", o mais recuado sendo a Itália e o mais avançado a Inglaterra, de onde a mão sustenta o grande rosto (que fita com olhar esfíngico e fatal o oceano, o mundo, o infinito). Para o poeta, "Este rosto que fita é Portugal".

É também na Mensagem que Pessoa identifica o mito como esse “nada que é tudo”, com se fosse “o corpo morto de Deus/vivo e desnudo” que “aportou” em Portugal; e conclui, seguidamente: “As Nações todas são mistério/ Cada uma é todo o mundo a sós”.

Deste modo, o rosto de Pessoa converte-se num mundo inteiro onde terá aportado (e aportar significa encontrar no porto, no cabo, no rosto mais extremo) uma missão, cuja origem se situa no paradigmático Ulisses e no herói fundador Viriato, propagando-se, depois, naquilo que Deus "fadou", já que "o homem e a hora são um só", ou seja, já que o homem providencial e mitológico que espreita do rosto europeu se confunde com o ‘telos’, com o eschaton, com o limite último (o "teu ser é como aquela fria madrugada/E é já o ir a haver o dia").
Estamos aqui numa espécie de limbo entre a metafórica da neblina do cabo e o dia pleno da vida (metaforizando o prenúncio de um qualquer ‘ser universal’).

É precisamente este limbo que Paul Valéry em, La Crise de l’esprit (escrito em 1919, vinte anos antes da Mensagem de Pessoa), designa por paradoxo. Diz o autor: “A minha impressão pessoal sobre a França” (...) “é a de crermos, de nos sentirmos universais - quero dizer: homens do universo... Observem o paradoxo: ter por especialidade o sentido do universal”. No seu ensaio, Valéry também encara a Europa - no seu todo – como um rosto, um cabo, uma cabeça que tem olhos e que vigia o horizonte: “um apêndice ocidental da Ásia que olha naturalmente para Oeste. A sul orla um mar ilustre cujo papel foi maravilhosamente eficaz na elaboração” de um propósito, ou de um projecto.
Sobre a tese de Valéry, Derrida escreveu em O outro cabo: "A Europa reconheceu-se sempre a si mesma como um cabo", fosse a ponta extrema do continente, "a oeste e ao sul (o limite das terras, a ponta avançada da finisterra, a Europa do Atlântico ou das orlas grego-latinas-ibéricas do Mediterrâneo)", enquanto ponto de partida para a descoberta e para invenção; fosse o próprio "centro desta língua em forma de cabo, a Europa do interior, apertada, isto é, comprimida ao longo de um eixo greco-germânico, no centro do centro do cabo".
A Europa confundiu a sua imagem, continua o autor, com a "ponta dianteira de um falo" que comandou o mundo, que erigiu uma obra e a espalhou sob a forma da cultura. Contudo, quer face ao cumprimento da empresa mítica e – portanto – impossível de Pessoa, quer face ao ter sido da múltipla empresa europeia no mundo, é necessário ter em conta que, hoje em dia, a cultura do rosto se tornou subitamente numa cultura do rizoma e de imprevisto labirinto.

O limite do rosto já não se exercita e desafia no contacto distante com o outro, fosse ele o Preste João ou o Négus da Abissínia; o rosto da actualidade já está em todo o lado, cindindo com ele mesmo no quadro de um globário instantâneo. Nesse sentido, Derrida, na sua obra sobre o rosto de Valéry, recorda-nos e sugere-nos um novo étimo para o dever. Trata-se do "dever de responder ao apelo da memória europeia, de lembrar o que se prometeu em nome da Europa, de re-identificar a Europa" como "dever sem denominador comum com tudo o que geralmente se entende sob este nome". É um dever que exige que outros cabos e rostos se abram dentro do mais antigo rosto actuante do mundo.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Dicionário de Gonçalo M. Tavares


Posição – Um texto não deverá ter posições, mas sim esconderijos não detectáveis. A posição é uma visibilidade evidente e um texto literário deverá ter apenas indícios de visibilidades. A única evidência será a sua invisibilidade.Mas claro que a invisibilidade total torna impossível o contacto. Diremos que o que se recomenda são invisibilidades intermédias. Ou: visibilidade intermédia. O que deverá permanecer escondido, sem posição visível? O mais importante. O que deverá ser a parte visível? Aquilo que leve o leitor a fazer mais coisas. O texto que trabalha mais é o texto que faz trabalhar mais.E uma personagem não deverá ter uma posição fixa. Se o tiver não é uma pessoa, mas um objecto. Uma personagem não tem posições, mas in-dis-posições: comportamentos em modificação permanente. Uma indis-posição é um momento que não sabemos como terminará. E uma posição nem sequer é um momento. É um não-momento. Um não-acontecimento. 
Na literatura como na guerra: a posição do texto deverá ser um mistério, algo que requer investigação.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Sobre Boris Pasternak - Gonçalo M. Tavares


Foto Uma árvore não é assim tão branca (H.P. Ahnit Nof)



Hoje a Anabela entrou pela minha casa dentro em formato de jornal. Transformou a sua ternura e a beleza do seu pestanejar em cada edição do JL que quinzenalmente recebo, tão feliz, no espaço mais íntimo que tenho.Edito o texto da biblioteca dedicado nesta quinzena ao poeta russo e autor do imortal "Dr. Jivago", que achei mais uma manifestação da inteligência e sensibilidade invulgares de M. Tavares. Obrigada Anabela, pela felicidade que me trazes a toda a hora.

Sobre Boris Pasternak

De um lado, a neve. Do outro, a neve.
Podes partir para um lado ou para outro.
Encontrarás o mesmo.
Se ficares no mesmo sítio, só esperando alguns meses deixarás de ter neve. Se te mexeres, só esperando alguns meses deixarás de ter neve.
Que estranho, pensa ele.
Andando ou ficando parado: tens de esperar.


(Que lindo caminho que Gonçalo M. Tavares constrói para comunicar coisas tão simples como esta: há cicunstâncias em que o único remédio é aguardarmos por um dia melhor...A neve como elemento constrangedor da resolução humana e a perplexidade criada à volta do personagem, que todos nós somos, foram opções estupendas do autor para conseguir um texto, aparentemente redundante, porém essencialmente fascinante.Fico pasmada com o facto das frases serem reproduzidas pelo processo de repetição, ainda que partindo de expressões instauradores de contraste, de forma a causarem a mesma sensação de irresolução, de impotência que um nevão produz naquele que quer decidir-se pelo caminho melhor,quando todo ele é invencível. Boris Pasternak teve na realidade que esperar para ter reconhecimento no seu próprio país pois a obra Dr Jivago foi proibida na URSS por mostrar como se vivia o comunismo. O autor não pode, inclusive, receber o prémio nobel da literatura por razões políticas criadas pelo seu próprio país. Neve e mais neve que até se derreter - em 1989 com a queda do muro - o levou a ver passar como uma paisagem quase toda a sua vida.)


Deixo ainda um poema sublime de Boris Pasternak:


Também a vida é só um instante,
apenas um dissolver-se,
de nós mesmos nos outros,
Como um dom que se faz.

Apenas um rumor de bodas que,debaixo,
irrompe pelas janelas,
nada além de um canto, um sonho,
uma pomba azul-cinzentada.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

75 anos de Mensagem



Doce Pat, o Paulo sugeriu-nos o sítio que deixo de seguida. O Gonçalo M. tavares escreve lá regularmente. Aproveitei a navegação para roubar esta notícia para ti...
http://www.pnetliteratura.pt


Passam hoje, dia 1 de Dezembro, 75 anos sobre a publicação da primeira edição de Mensagem de Fernando Pessoa. Para assinalar a efeméride, a Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), a Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas e a Câmara Municipal de Lisboa promovem uma sessão comemorativa no anfiteatro da BNP com a presença de Eduardo Lourenço, Manuel Alegre e Vasco Graça Moura.
Ler tudo aqui:http://www.bnportugal.pt

A minha irmã é uma embarcação em descoberta

A minha irmã é uma embarcação em descoberta. As suas mãos são brancas e esvoaçam cada vez que fala. Dedos de nuvens vogam sobre a sua voz segura e oscilante. Apontam a rota do sentido absoluto das coisas. Os meus olhos acompanham essa levitação e aí descobrem a explicação do universo. Aí encontram os seus órgãos vitais suspensos lado a lado com os cometas, com as estrelas, com os planetas. E é tudo a mesma pele que brilha nessa escuridade. Nesse buraco fundo chamado medo. É tudo a mesma força transtemporal.
Por dentro da viagem que domina, encontro o instante em que habitei no seu ventre. Não me perguntem como foi isto possível… Sinto-o no espaço da prega rente ao corpo do seu vestido de lã. Num prenúncio do seu umbigo encoberto, que me surge repentinamente, como um ouvido. Acontece-me um umbigo-búzio. É de lá que ouço os meus segredos em maré cheia. Encontro o meu ser primitivamente balbuciante, ainda sob flutuações sem quaisquer palavras. O meu princípio.
Fiz-me da língua frenesi que ela fala. Desse amor que se desprende dos seus lábios, do avesso das suas pálpebras fechadas, vindo de um âmago infinitamente belo, como nunca se viu.

Acerca de Estar Doente - Virginia Woolf

Virginia Woolf, Vanessa Bell

Passo a transcrever uma das frases de maior fôlego de toda a literatura de que tenho memória, carregada de complexidade e genialidade, que aparece no início do ensaio de Virginia Woolf - esta escritora que tanto admiro e nunca me canso de ler- intitulado "Acerca de estar doente". Como vejo verdade no que ela diz e na sua hipocondria, semelhante em tudo à minha...
Para além disto adoro frases assim tão longas e tão perfeitamente compreensíveis (esta tem 166 palavras!) que parecem mesmo auto-representarem-se em forma de diagrama. Gertrude Stein (poeta e feminista genial!) escreveu, um dia: " Não conheço realmente nada mais excitante do que fazer diagramas de frases." Escusado será dizer que quando encontrei este parecer, me rendi aos encantos da frase longa e elegante em que podemos avaliar cada palavra à luz da secreta modificação que cada frase incute no nome, no prazer da descoberta dos antecedentes concretos de cada uma das suas inúmeras orações... o desenho do mapa de um tesouro.

"Considerando como a doença é comum, como é tremenda a mudança espiritual que traz, como é espantoso quando as luzes da saúde se apagam, as regiões por descobrir que se revelam, que extensões desoladas e desertos da alma uma ligeira gripe nos faz ver, que precipícios e relvados pontilhados de flores brilhantes uma pequena subida de temperatura expõe, que antigos e rijos carvalhos são desenraizados em nós pela acção da doença, como nos afundamos no poço da morte e sentimos as águas da aniquilação fecharem-se acima da cabeça e acordamos julgando estar na presença de anjos e harpas quando tiramos um dente, vimos à superfície na cadeira do dentista e confundimos o seu «bocheche... bocheche» com saudação da divindade debruçada no chão do céu para nos dar as boas-vindas - quando pensamos nisto, como tantas vezes somos forçados a pensar, torna-se realmente estranho que a doença não tenha arranjado um lugar, juntamente com o amor, as batalhas e o ciúme, por entre os principais temas da literatura."



Virginia Woolf

Devia Morrer-se de Outra Maneira - José Ferreira Gomes

Devia morrer-se de outra maneira. Transformarmo-nos em fumo, por exemplo. Ou em nuvens. Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos os amigos mais íntimos com um cartão de convite para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje às 9 horas. Traje de passeio". E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir à despedida. Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio. "Adeus! Adeus!" E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento, numa lassidão de arrancar raízes... (primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... ) a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se em fumo... tão leve... tão subtil... tão pólen... como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono ainda tocada por um vento de lábios azuis...
(Poesia III)
Subscrevo este desejo de metamorfose da morte, como se tivesse sido eu própria a pedi-lo, mesmo que com outras palavras.