domingo, 7 de março de 2010

Os Objectos Chamam-nos, Juan José Millás

Mais um livro de Juán José Millás cheio do seu humor característico, prova da sua inteligência e sensibilidade na escrita. Parte de uma ideia fabulosa: criar uma história para cada objecto que o marcou na vida. Esses objectos causam inúmeras reflexões interessantes, servindo de ponto de partida para revelações sobre o narrador e aqueles que o rodeavam na mágica infância, com especialíssimo destaque para a mãe que apresenta como personagem tão rica como caricata. Cada capítulo, de reduzida extensão (página e meia a duas páginas) é consagrado a um objecto  que tem o poder de nos chamar, também a nós, para sempre. A verdade é certa: os nossos objectos, explicam-nos!

Um mistério


A minha mãe passou por várias fases, como Picasso, só que ela, em vez
de pintar, andava de cá para lá. A meio da manhã dirigia-se ao mercado. Às vezes deixava-me acompanhá-la (nem sempre, porque também gostava de estar sozinha ou era o que dizia) e eu entretinha-me,como quase todos os rapazes, nos talhos, fascinado com os corpos dos animais abertos de cima a baixo. Como não  acreditava na morte, pensava que aquelas vacas esfoladas ainda estavam vivas, embora não tivessem maneira de o expressar porque lhes tinham arrancado os nervos. Hoje posso dizê-lo com toda a tranquilidade e com toda a segurança às pessoas que duvidem como eu duvidava: as vacas dos talhos estão mortas, completamente mortas, e já não lhes dói que as cortem em bifes ou as transformem em carne picada. Os cordeiros também estão mortos, e os coelhos e os porcos. Às vezes, até o próprio talhante está morto. Digo isto porque o do talho do mercado do meu bairro tinha os olhos esbugalhados, como os das vacas sem pele, e uma palidez geral que metia medo. Quando vi o meu primeiro filme de zombies, compreendi o assunto. Um dia, a minha mãe comprou um frango inteiro, com todos os miúdos, cada qual colocado no seu lugar, embora estivesse completamente morto. Depois voltámos para casa e cada um pôs-se a fazer as suas
coisas. À hora de almoço, eu esperava ver o animal aparecer na mesa, mas em vez disso comemos uns ovos estrelados. Fiquei surpreendido,mas nada disse. Pensei que o frango era para o jantar ou para o dia seguinte. Mas nem ao jantar, nem no dia seguinte, nem no outro, nem no que veio a seguir o bicho apareceu.
Naquela época não se congelavam os alimentos, porque os frigoríficos não tinham estrelas, de modo que o assunto era de difícil explicação. – O que aconteceu ao frango, mamã? – perguntei passadas uma ou duas semanas.
– Esquece-te do frango.
– Porquê? – insisti.
– Porque sim, porque é isso que te estou a dizer.
Como eu não era um rapaz especialmente difícil, obedeci e esqueci-me do frango até a minha mãe morrer. Ela tinha no terraço um vaso muito grande, com umas sardinheiras que tratava cuidadosamente. Quando esvaziámos a casa, disse aos meus irmãos que gostava de ficar com aquele vaso, e esvaziei‑o para o transportar até à minha casa, pois mesmo sem terra era muito pesado.Ao esvaziá‑lo,encontrei os restos ósseos dofrango, que fora evidentemente enterrado ali havia muitos anos. Por que razão a minha mãe fez aquilo com aquele animal? Jamais o saberei.Os pais, quando se vão, deixam mais mistérios que bens materiais.

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