sábado, 20 de março de 2010

À Volta de Epígrafes



Do mesmo romance de Tabucchi, Tristano Morre:

"Quem testemunha pela testemunha?"
Paul Celan

É caso para perguntar Afinal onde está a verdade absoluta?  A testemunha final, irredutível, iniludível? Onde está a justiça das coisas? A tua palavra vale mais do que a minha? É necessário pesar as palavras em balanças várias? Quem são os juízes dos juízes dos juízes? Poderemos ser testemunhas de nós próprios? É útil olharmos para dentro de nós num momento crucial de crime ou pecado? Testemunhar será apenas ver? Afinal, quem é a última testemunha? Só as palavras testemunham, cegas? E as palavras que se perdem pela sala de audiência? E aquelas que ficaram no local implicado? Neste caso, há que convocar os sítios? Os objectos? Os animais circunstantes? Os pedintes ou apenas os polícias? As crianças e os velhos poderão testemunhar sem lhes medirem cada palavra soletrada e insegura? E os vidros dos cafés onde parte da verdade se reflectiu? Levam-se vidros sujos para o Tribunal? Poderão eles espelhar a decisão final? O arvoredo com os seus pássaros escondidos, calados só para ouvirem passar o abominável? Arranca-se pela raíz, carrega-se cantante aos ombros dos homens que nada sabem para testemunhar pela testemunha? De quem é a última questão? De quem é a última palavra? O último ponto final? É sempre bom perguntar.

2 comentários:

Hélder disse...

Um conto oriental, sobre a relatividade da verdade:

Certo dia, o rei preocupado com a falta de verdade dos seus cidadão, mandou chamar um conhecido ermita que vivia na floresta e perguntou-lhe o que podia fazer para que as pessoas fossem melhores.
- Posso dizer-lhe, majestade, que as leis não bastam para tornar as pessoas melhores. Os Homens têm de cultivar certas atitudes baseadas na compaixão e na claridade da mente, para alcançar a verdade de ordem superior, que nada tem a ver com a verdade comum. - respondeu o ermita.
Desconcertado, o rei reagiu:
- Do que não há dúvida é que posso conseguir com que digam a verdade, posso obrigá-las a isso.
O sábio sorriu timidamente.
Dias depois, o monarca mandou montar um cadafalso na ponte que dava acesso à cidade e um esquadrão revistava e interrogava todos os que quisessem passar. «Se disser a verdade entrará; se mentir, será conduzido ao cadafalso e enforcado», eram as ordens do rei.
Ao raiar do dia, e após uma noite de meditação, o ermita dirigiu-se à cidade. Avançou para a ponte quando o capitão da guarda se interpôs no seu caminho para o interrogar:
- Onde vais?
- Vou a caminho da forca, para que me possam enforcar - respondeu o sábio serenamente.
- Não me parece - duvidou o capitão
- Então, capitão, se menti, enforque-me.
- Mas se te enforcamos por teres mentido - replicou o capitão -, teremos tomado certo o que disseste e, nesse caso, não te teremos enforcado por mentir, mas por dizer a verdade.
- É isso mesmo - afirmou o sábio. - Agora sabe o que é a verdade... a sua verdade! Informe sua majestade sobre isto..
Deu meia volta e os seus passos dirigiram-se à frondosa floresta onde vivia.

Leitores SOS Murça disse...

Olá Hélder,

obrigada pela história que nos trazes. Gostei muito de a ler como gosto, aliás, de quase todos os contos orientais que já li. Bom fim-de-semana!

Patrícia