terça-feira, 5 de outubro de 2010

TUDO O QUE EU TENHO TRAGO COMIGO - HERTA MÜLLER


Mais um romance de Herta Müller cheio de uma poesia singular, no qual a acção evolui através das sucessivas imagens arrabatadoras que vai lançando às suas 290 páginas. Narra-se a vida do jovem Leo Auberg, de 17 anos, oriundo de uma minoria alemã da Transilvânia,  que é deportado para um campo de trabalho russo. Um romance que se alimenta do medo, do terror, do absurdo humano, em que conseguimos ver transformados estes sentimentos extremos em absoluta beleza. Deixo um excerto que o prova:


«Enquanto se fazia a chamada, eu treinava a esquecer-me de mim em sentido e a não separar uma da outra, a inspiração e a expiração. E a rolar os olhos para cima, sem levantar a cabeça. E a procurar no céu o canto de uma nuvem em que pendurar os ossos. Quando já me tinha esquecido de mim e encontrado o cabide celestial, ele segurava-me.
Muitas vezes não havia nuvens, só o mesmíssimo azul, como um lago sem fim.
Muitas vezes as nuvens corriam e não havia um cabide que ficasse quieto. Muitas vezes a chuva ardia nos olhos e colava-me a roupa ao corpo.
muitas vezes o gelo corroía-me as entranhas.
Nesses dias, o céu revirava-me o globo dos olhos para cima, a chamada puxava-os para baixo e os ossos penduravam-se constantemente só em mim.
O capataz dos deportados, o kapo Tur Prikulitsch, circulava empertigado entre nós e o comandante Chichtvanionov, as listas listas deslizavam-lhe pelos dedos, amarrotadas de tanto folhear. Todas as vezes que chamava um número, o peito dele sacudia como nos galos. Ainda tinha mãos de criança. As minhas mãos tinham crescido dentro do campo, quadradas, duras e rasas como duas tábuas.
Quando algum de nós, depois da chamada, se enchia de toda a coragem que tinha e perguntava a um dos natchalniks, ou mesmo ao comandante de campo Chichtvanionov, quando poderíamos voltar para casa, diziam lacónicos: SKORO DOMÓIE. Significava: Em breve partem.»

pp.29, 30

3 comentários:

Caridee disse...

E aqui estou eu, mais uma vez a escrever o que muito provavelmente virá a ser um comentário com um tamanho considerável, porque eu posso não falar mt, mas posta a escrever é difícil parar :)
Quando nos apresentou esse livro fiquei bastante interessada, não só por se tratar do facto de a autora ter sido premio Nobel mas também por falar sobre a 2ªGuerra Mundial. Já li um número considerável de livros que retractam essa época, é certo que por vezes chego a sofrer ao lê-los, mas é um tema que me desperta bastante atenção.
Adorei o excerto que li, tendo como único pensamento poder ler o resto do livro.
Bjinho

Leitores SOS Murça disse...

Ainda bem que sofres. Quando a literatura nos abala, crescemos como pessoas (no nosso caso não era bom ficarmos mais altas!!!). Quando acabar de o ler, ficà à disposição. Bjinho

Patrícia

Anabela disse...

Amiguinha do coração
De facto a escrita da Herta é de uma beleza invulgar e repleta de poesia... pendurar os ossos numa qualquer nuvem é uma imagem fortíssima... quantos de nós em situações de crise, mas de menor intensidade!!!, o desejam! Essa leveza ou quase suspensão etérea é de uma beleza estonteante!
Obrigada pelo magnífico trecho que colocaste, com a sabedoaria e sensibilidade que tão bem te caracterizam , minha amiga do coração... bjs
Anabela