terça-feira, 18 de agosto de 2009

O Tigre Branco - Aravind Adiga


Não restam dúvidas da qualidade deste romance, vencedor do Man Booker Prize 2008, logo a partir da leitura das primeiras páginas. Originalidade na organização da narrativa, violenta força discursiva que chega mesmo a ferir o leitor com a ironia e sarcasmo peculiares, ora esboçando-lhe um sorriso de surpresa ora sentindo um apertado nó no estômago – como, de resto, é referido na nota crítica de USA Today - “ Um dos mais poderosos livros que li em décadas. Sem exagero, este romance de estreia atingiu-me como um murro no estômago”.
Nestas férias de verão resolvi que visitaria a Índia e o Brasil (para além de umas voltas pela nossa capital à socapa) através da literatura. Foi o que eu fiz de melhor. Não resultou num bronzeado que possa exibir na rua, no entanto tudo o que vi me deu um prazer tão singular, que não me arrependo da minha brancura.
Primeiramente, visitei a Índia como estrangeira, pelas mãos de António Tabbucchi e logo a seguir, empurrada pelas imagens e palavras tempestuosas de Aravind Adiga, reconheci-me em casa. Quanto ao Brasil e à cidade de Lisboa, ficam para mais tarde.
O Tigre Branco ou Balram é o nosso narrador e personagem protagonista que revela, sem dó de ninguém, a violenta miséria em que foi criado na aldeia de Laxmangarh. Desde logo se assume como suspeito do homicídio do seu patrão (o Sr. Ashok, rico comerciante de carvão), num total de seis noites e duas manhãs, as quais perfazem os oito capítulos epistolares dirigidos ao Primeiro-Ministro Chinês (Sua Excelência Wen Jiabao) em que a narrativa surge originalmente moldada. Toda a obra explica as razões do golpe que o leva a matar o patrão com as suas próprias mãos e o auxílio de uma garrafa de whisky despedaçada. O melhor é relembrar alguns excertos do livro que são como brasas:
1º excerto

Já está.
Tenho os olhos novamente abertos.
11h 52m da noite – e já vão sendo horas de começar.
Uma advertência regulamentar – como as que aparecem nos maços de cigarro – antes de começarmos.
Certo dia, quando eu ia a conduzir os meus antigos patrões Sr. Ashok e Madame Pinky no seu automóvel Honda City, o Sr. Ashok pousou-me uma mão no ombro e disse-me: «Encosta à berma.» Enquanto eu obedecia a esta ordem, ele inclinou-se tanto para mim que lhe senti o aroma do aftershave – naquele dia, trazia um aroma delicioso, frutado – e acrescentou, com a mesma cortesia de sempre: « Balram, se não te importas, gostaria de te fazer umas perguntas.»
- Com certeza, senhor – respondi-lhe eu.
- Balram – interrogou-me o Sr. Ashok -, quantos planetas há no céu?
Respondi-lhe o melhor que pude.
- Balram, quem foi o primeiro-ministro da Índia?
E depois: - Balram, qual é a diferença entre um hindu e um muçulmano?
E em seguida: - Qual é o nome do nosso continente?
Sr. Ashok recostou-se no assento e perguntou a Madame Pinky:
- Ouviste as respostas que ele deu?
- Estaria a brincar contigo? – indagou ela, e senti o coração a assolapar-se-me, como acontecia sempre que ela dizia alguma coisa.
- Não. Acho que está convencido de que são mesmo as respostas correctas.
Ao ouvir isto, ela soltou uma leve gargalhada; a expressão dele, porém, que eu vi reflectida no espelho retrovisor, era séria.
- O problema é que ele deverá ter andado no máximo…o quê, uns dois ou três anos na escola? Sabe ler e escrever, mas não compreende o que lê. É mal-amanhado. Este país está cheio de gente como ele, disso podes ter a certeza. E nós confiamos a nossa gloriosa democracia parlamentar – dito isto, apontou para mim – a criaturas como esta. A isto se deve a grande tragédia deste país.
Soltou um suspiro.
- Pronto, Balram, podes arrancar.
Nessa noite, deixei-me ficar estendido na cama, a coberto do mosquiteiro, a reflectir nas suas palavras. Ele tinha razão senhor… Eu não gostei da maneira como o Sr. Ashok se referiu a mim, mas não era por isso que deixava de ter razão.
2º excerto

Sabe, no meu primeiro dia de escola, o professor mandou os rapazes porem-se todos em fila e irem até à sua secretária para que ele pudesse anotar os seus nomes no livro de matrícula. Quando eu lhe disse como me chamava, ele ficou a olhar para mim embasbacado:
- Munna? Mas isso não é nome de gente.
Ele tinha razão: significa simplesmente «rapaz».
- É só isso que me chamam, senhor professor – assegurei-lhe eu.
Era verdade. Nunca ninguém me tinha dado um nome.
- A tua mãe não te pôs um nome?
- Ela está muito doente, senhor professor. Passa os dias de cama, a cuspir sangue. Não tem tempo para me pôr um nome.
-E o teu pai?
- Ele é condutor de riquexó, senhor professor. Não tem tempo para me pôr um nome.
- Então e tu não tens uma avó? Tias? Tios?
- Eles também não têm tempo.
O professor deu meia-volta e cuspiu; um jacto de paan vermelha espalhada pelo chão da sala de aula. Humedeceu os lábios.
- Bom, então nesse caso, cabe-me a mim a tarefa, não é verdade? – Passou-me uma mão pelo cabelo e disse: - Vamos chamar-te… Ram. Espera… Não temos já um Ram nesta aula? Não quero dar azo a confusões. Serás Balram. Sabes quem era Balram, não sabes?
- Não, senhor professor, não sei.
- Era o amigo inseparável do deus Krishna. Sabes como é que eu me chamo?
- Não, senhor professor.
Ele riu-se. – Krishna.

2 comentários:

Clara disse...

ótimo livro! acabei de ler...

kithara.azul disse...

Este livro é qualquer coisa. De facto atingiu-me como um murro no estômago...