terça-feira, 18 de agosto de 2009

O Tigre Branco - Aravind Adiga


Não restam dúvidas da qualidade deste romance, vencedor do Man Booker Prize 2008, logo a partir da leitura das primeiras páginas. Originalidade na organização da narrativa, violenta força discursiva que chega mesmo a ferir o leitor com a ironia e sarcasmo peculiares, ora esboçando-lhe um sorriso de surpresa ora sentindo um apertado nó no estômago – como, de resto, é referido na nota crítica de USA Today - “ Um dos mais poderosos livros que li em décadas. Sem exagero, este romance de estreia atingiu-me como um murro no estômago”.
Nestas férias de verão resolvi que visitaria a Índia e o Brasil (para além de umas voltas pela nossa capital à socapa) através da literatura. Foi o que eu fiz de melhor. Não resultou num bronzeado que possa exibir na rua, no entanto tudo o que vi me deu um prazer tão singular, que não me arrependo da minha brancura.
Primeiramente, visitei a Índia como estrangeira, pelas mãos de António Tabbucchi e logo a seguir, empurrada pelas imagens e palavras tempestuosas de Aravind Adiga, reconheci-me em casa. Quanto ao Brasil e à cidade de Lisboa, ficam para mais tarde.
O Tigre Branco ou Balram é o nosso narrador e personagem protagonista que revela, sem dó de ninguém, a violenta miséria em que foi criado na aldeia de Laxmangarh. Desde logo se assume como suspeito do homicídio do seu patrão (o Sr. Ashok, rico comerciante de carvão), num total de seis noites e duas manhãs, as quais perfazem os oito capítulos epistolares dirigidos ao Primeiro-Ministro Chinês (Sua Excelência Wen Jiabao) em que a narrativa surge originalmente moldada. Toda a obra explica as razões do golpe que o leva a matar o patrão com as suas próprias mãos e o auxílio de uma garrafa de whisky despedaçada. O melhor é relembrar alguns excertos do livro que são como brasas:
1º excerto

Já está.
Tenho os olhos novamente abertos.
11h 52m da noite – e já vão sendo horas de começar.
Uma advertência regulamentar – como as que aparecem nos maços de cigarro – antes de começarmos.
Certo dia, quando eu ia a conduzir os meus antigos patrões Sr. Ashok e Madame Pinky no seu automóvel Honda City, o Sr. Ashok pousou-me uma mão no ombro e disse-me: «Encosta à berma.» Enquanto eu obedecia a esta ordem, ele inclinou-se tanto para mim que lhe senti o aroma do aftershave – naquele dia, trazia um aroma delicioso, frutado – e acrescentou, com a mesma cortesia de sempre: « Balram, se não te importas, gostaria de te fazer umas perguntas.»
- Com certeza, senhor – respondi-lhe eu.
- Balram – interrogou-me o Sr. Ashok -, quantos planetas há no céu?
Respondi-lhe o melhor que pude.
- Balram, quem foi o primeiro-ministro da Índia?
E depois: - Balram, qual é a diferença entre um hindu e um muçulmano?
E em seguida: - Qual é o nome do nosso continente?
Sr. Ashok recostou-se no assento e perguntou a Madame Pinky:
- Ouviste as respostas que ele deu?
- Estaria a brincar contigo? – indagou ela, e senti o coração a assolapar-se-me, como acontecia sempre que ela dizia alguma coisa.
- Não. Acho que está convencido de que são mesmo as respostas correctas.
Ao ouvir isto, ela soltou uma leve gargalhada; a expressão dele, porém, que eu vi reflectida no espelho retrovisor, era séria.
- O problema é que ele deverá ter andado no máximo…o quê, uns dois ou três anos na escola? Sabe ler e escrever, mas não compreende o que lê. É mal-amanhado. Este país está cheio de gente como ele, disso podes ter a certeza. E nós confiamos a nossa gloriosa democracia parlamentar – dito isto, apontou para mim – a criaturas como esta. A isto se deve a grande tragédia deste país.
Soltou um suspiro.
- Pronto, Balram, podes arrancar.
Nessa noite, deixei-me ficar estendido na cama, a coberto do mosquiteiro, a reflectir nas suas palavras. Ele tinha razão senhor… Eu não gostei da maneira como o Sr. Ashok se referiu a mim, mas não era por isso que deixava de ter razão.
2º excerto

Sabe, no meu primeiro dia de escola, o professor mandou os rapazes porem-se todos em fila e irem até à sua secretária para que ele pudesse anotar os seus nomes no livro de matrícula. Quando eu lhe disse como me chamava, ele ficou a olhar para mim embasbacado:
- Munna? Mas isso não é nome de gente.
Ele tinha razão: significa simplesmente «rapaz».
- É só isso que me chamam, senhor professor – assegurei-lhe eu.
Era verdade. Nunca ninguém me tinha dado um nome.
- A tua mãe não te pôs um nome?
- Ela está muito doente, senhor professor. Passa os dias de cama, a cuspir sangue. Não tem tempo para me pôr um nome.
-E o teu pai?
- Ele é condutor de riquexó, senhor professor. Não tem tempo para me pôr um nome.
- Então e tu não tens uma avó? Tias? Tios?
- Eles também não têm tempo.
O professor deu meia-volta e cuspiu; um jacto de paan vermelha espalhada pelo chão da sala de aula. Humedeceu os lábios.
- Bom, então nesse caso, cabe-me a mim a tarefa, não é verdade? – Passou-me uma mão pelo cabelo e disse: - Vamos chamar-te… Ram. Espera… Não temos já um Ram nesta aula? Não quero dar azo a confusões. Serás Balram. Sabes quem era Balram, não sabes?
- Não, senhor professor, não sei.
- Era o amigo inseparável do deus Krishna. Sabes como é que eu me chamo?
- Não, senhor professor.
Ele riu-se. – Krishna.

O pequeno-almoço do Sargento Beauchamp

A propósito de Vasco Graça Moura, "O pequeno-almoço do sargento Beauchamp" foi a última novela que li do autor durante as minhas férias.
Trata das aventuras ou desventuras de Jacinto, eterno enamorado, durante o período das invasões francesas. Notei o enorme apreço que o autor nutre pelas gentes do Porto que fielmente resistiram aos franceses (daí o epíteto atribuído à cidade ainda hoja- A INVICTA). Ao ler esta novela recordei o estilo mordaz do Eça de Queirós, pois o autor põe a nu o mundanismo que grassava e o aparente riquismo daquela sociedade! Nem os reis defendiam o seu povo, atrasado, e na primeira oportunidade fugiram para um Brasil... Gostei da história mas a questão que me atormentava durante a leitura era: mas afinal quem é o Beauchamp? E o que tem de relevante o seu pequeno-almoço? Bem... é preciso chegar às últimas páginas e só aí o segredo é desvendado! Li o livro de um fôlego (aliás bem pequeno e com capítulos curtos) e valeu a pena! A ler...

Luzes pela noite dentro - Fotografia


Assim que começaram as "férias grandes" lancei um desafio cá em casa: qual de nós será o melhor fotógrafo das luzes da noite? Como todos gostamos de fotografia, interiorizámos, cada um às escondidas do outro, que havíamos de ganhar esta espécie de concurso familiar, logo que a noite chegasse às varandas do apartamento, iluminada pela lua.


Uma noite, pronta para testar as provas dos meus adversários, convidei-os a sairmos com a máquina "às claras", a captarmos fotos em velocidade de cruzeiro, enquanto passeávamos de janela aberta (ou fechada) de carro e a andarmos na nossa própria rua, passando uns aos outros a dita máquina, por iniciativa própria e sem fazer fisgas atrás das costas, à descoberta das luzes mais distintamente apropriadas para a iniciativa fotográfica aceite por todos. Assim garanti o fim do concurso, possibilitando a entrada na etapa final: a escolha do vencedor. Passo a mostrar as fotos sem o nome do seu autor para assim não condicionar a escolha dos meus amigos ou familiares. Espero que todos gostem (em especial das minhas!)


Luzes pela noite dentro - 1


Luzes pela noite dentro - 2

Luzes pela noite dentro - 3



Luzes pela noite dentro - 4


Luzes pela noite dentro - 5


Luzes pela noite dentro - 6

Luzes pela noite dentro - 7

Luzes pela noite dentro - 8


Luzes pela noite dentro - 9



Luzes pela noite dentro - 10

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Vasco Graça Moura - Coração

Fotografia de Sévérine Cousot aka Sey
Coração de mar e vento
Que aos corações lanças redes
E és perpétuo movimento
Na guitarra do paredes ,

Pões esperança e amargura,
Vibras sombra e luz nas notas,
E em surdina tens gaivotas
De saudade e de aventura,

Coração tumultuário,
Ó faminto coração,
Solidário e solitário,
A prender nuvens ao chão,

Coração da melodia,
Coração em que murmuram
Sol e lua e se misturam
Em funda melancolia,

De tantas fomes e sedes
Coração terno e violento,
És perpétuo movimento
Na guitarra do paredes
.
Tenho saudades da minha amiga Anabela que nunca mais regressa das suas férias de verão e de todas as coisas dela por isso me lembrei de publicar um poema que ela me ofereceu no final deste ano lectivo. Carinhosamente emprestou-me um cd de homenagem a Carlos Paredes (que para mim é um génio!) para que pudesse ouvir este poema de Vasco Graça Moura cantado por Mísia.
Querida amiga, fazes-me falta! Quando vi esta fotografia de Séverine vi-te naquela nuvem capturada pela chuva e percebi que viver sem amigos é acabar de vez com as nuvens do céu.

Joaquim Pessoa - Quero-te para além das coisas justas

Fotografia de Anselm Adams - Landscape
Quero-te para além das coisas justas
e dos dias cheios de grandeza.
A dor não tem significado quando ma roubam as árvores,
as ágatas, as águas.
O meu sol vem de dentro do teu corpo,
a tua voz respira a minha voz.
De quem são os ídolos, as culpas, as vírgulas
dos beijos? Discuto esta noite
apenas o pudor de preferir-te
entre as coisas vivas.

Joaquim Pessoa

O poeta diz tão simplesmente o quanto ama alguém quando a noite chega...

Gonçalo M. Tavares - O Senhor Juarroz

Elogiar Gonçalo M. Tavares com as palavras que o nosso Prémio Nobel da Literatura lhe dedica no seu blog é a melhor forma que arranjo para confessar toda a admiração e amor literário que sinto quando o leio (qualquer um dos seus textos me deixa ficar num canto qualquer onde me encontre – casa, escola, café, … - de olhos incrédulos com as suas ideias e expressão escrita inusitadas… ainda para mais é para mim uma alegria, verdadeira alegria, saber que ele é da minha geração, nascido no meu distrito de Aveiro, admirador de tantas figuras literárias que também eu admiro… tão próximo de mim em tudo que é inevitável comprar e ler tudo o que vem dele.). Eis as palavras de Saramago que justificaram a aquisição do seu “O Caderno”, obra onde compila os textos escritos para o referido blog, de Setembro de 2008 a Março de 2009.



Março de 2009-08-14
Dia 2
“A nova geração de romancistas portugueses, refiro-me aos que estão agora entre os 30 e os 40 anos de idade, tem em Gonçalo M. Tavares um dos seus expoentes mais qualificados e originais. Autor de uma obra surpreendentemente extensa, fruto, em grande parte, de um longo e minucioso trabalho fora das vistas do mundo, o autor do Sr. Valéry, um pequeno livro que esteve durante muitos meses na minha mesa-de-cabeceira, irrompeu na cena literária portuguesa armado de uma imaginação totalmente incomum e rompendo todos os laços com os dados do imaginário corrente, além de ser dono de uma linguagem muito própria, em que a ousadia vai de braço dado com a vernaculidade, de tal maneira que não será exagero dizer, sem qualquer desprimor para os excelentes romancistas jovens de cujo talento desfrutamos actualmente, que na produção novelesca nacional há um antes e um depois de Gonçalo M. Tavares. Creio que é o melhor elogio que posso fazer-lhe. Vaticinei-lhe o Prémio Nobel para daqui a trinta anos, ou mesmo antes, e penso que vou acertar. Só lamento não poder dar-lhe um abraço de felicitações quando isso suceder.”
pp.209, 210

Também eu tenho pena de não poder dar um abraço de felicitações ao grande Saramago por estas palavras inteligentes que tanto gostei de ler.

Da colecção que intitulou O bairro apetece-me pensar n’ O Senhor Juarroz (o poeta argentino autor do poema “A veces me parece …”).
Gonçalo M. Tavares construiu um projecto de um bairro com os nomes de intelectuais de diversos domínios da cultura universal, não se cingindo apenas à literatura, ( Sr. Rimbaud; Sr. Balzac; Sr. Henri M.; Sr. Corbusier; Sr. Calvino; Sr. Valéry; Sr. Lorca; Sr. Breton; Sr, Wittgenstein; …). Apresenta Pessoa como vizinho de Juarroz e de Pirandello (que fantástico!). É assim que se apropria de nomes de valor incontornável, reconstruindo-os em histórias cheias de humor e ironia, num imaginário que não descura algumas das mais características linhas temáticas das suas obras, reinventando-lhes personalidades. Assim, obtemos de todos esses senhores com "esses" maiúsculos, dados novos, instaurados no universo “deslogicizado” próprio deste autor português incomparável, que os ligam para todo o sempre em ruas vizinhas e os rememoram de maneira única. Apetece-me dizer: Parabéns Sr. M. Tavares pelo seu bairro tão bem arquitectado de palavras. O Sr. M. Tavares supera, afinal, qualquer outro senhor do bairro. Esta é a verdade.

Seleccionei três dos vinte e oito pequenos textos geniais do caderno O Senhor Juarroz que passo a inscrever nesta página (por ordem de preferência):


O relógio

O senhor Juarroz pensou num relógio que em vez de mostrar o tempo mostrasse o espaço. Um relógio onde o ponteiro maior indicasse no mapa o local preciso onde a pessoa se encontrava num determinado instante.
- Então, e o ponteiro pequeno? Que indica? – perguntou a esposa.
- A localização de Deus – respondeu o senhor Juarroz.




A Biblioteca
O senhor Juarroz gostava de organizar a sua biblioteca de maneira secreta. Ninguém gosta de revelar segredos íntimos.
O senhor Juarroz primeiro organizara a biblioteca por ordem alfabética do título de cada livro. Rapidamente, porém, foi descoberto.
O senhor Juarroz organizou depois a sua biblioteca por ordem alfabética, mas tendo em conta a primeira palavra de cada livro.
Foi mais fácil, mas ao fim de algum tempo alguém disse: já sei!
A seguir o senhor Juarroz reordenou a sua biblioteca, mas agora por ordem alfabética da milésima palavra de cada livro.
Há no mundo pessoas muito perseverantes, e uma delas, depois de muito investigar, disse: Já sei!
No dia seguinte, assumindo este jogo como decisivo, o senhor Juarroz decidiu arrumar a biblioteca a partir de uma progressão matemática complexa que envolvia a ordem alfabética de uma determinada palavra e o teorema de Godel.
Assim, para estranheza de muitos, a biblioteca do senhor Juarroz começou a ser visitada, não por entusiastas da leitura, mas por matemáticos. Alguns passaram tardes a abrir os livros e a ler certas palavras, utilizando o computador para longos cálculos, tentando assim encontrar a todo o custo a equação matemática capaz de desvendar a organização da biblioteca do senhor Juarroz. Era, no fundo, um trabalho de descoberta da lógica de uma série, semelhante a
2/ 9/ 30/ 93
Pois bem, passaram dois, três, quatro meses, mas chegou o dia. Um reputado matemático, completamente vermelho e eufórico, segurando, na mão direita, um bloco gigante coberto de números, disse: Já sei!, e apresentou depois a fórmula da série que baseava a organização da biblioteca.
O senhor Juarroz ficou desanimado e desistiu desistir do jogo. Basta!
No dia seguinte pediu à sua esposa para organizar a biblioteca como bem entendesse. Por ele estava farto.
Assim foi. Nunca mais ninguém descobriu a lógica da organização da biblioteca do senhor Juarroz.



Os nomes e as coisas

Para mostrar que não se submetia à ditadura das palavras o senhor Juarroz todos os dias dava um nome diferente aos objectos.
Metade do seu dia de trabalho passava-o assim a atribuir nome às coisas.
Por vezes, ficava tão cansado com essa tarefa inaugural, que passava a segunda parte do dia de trabalho a descansar.
Quando adormecia os novos nomes das coisas misturavam-se, nos sonhos, com os antigos nomes, e por vezes o senhor Juarroz acordava tão baralhado que deixava cair a primeira coisa que tentava segurar, e essa coisa, da qual por momentos não sabia o nome, partia-se.


De todos os textos, ficaram, com tristeza minha, invisíveis onze dos textos que considero tão geniais como estes, por isso nomeio-os e tiro-lhes os parênteses como se fossem o meu chapéu preferido - O aborrecimento; A gaveta e a utilidade, Viagem longa; Sombras e esconderijos; A música; Duas cadeiras; O árbitro; O cinema; A morte de Deus; A Concentração.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Roberto Juarroz - "A veces me parece"


Segundo Juarroz, a poesia é a explosão do ser por debaixo da linguagem. Rendo-me a esta ideia pegando no seu livro " Poesia Vertical" e procurando apenas essas explosões como uma chuva de meteoritos.



A veces me parece...

A veces me parece
que estamos en el centro
de la fiesta
sin embargo
en el centro de la fiesta
no hay nadie.
En el centro de la fiesta
está el vacío.
Pero en el centro del vacío
hay otra fiesta.


Não resisto à tradução para encontrar novas sonoridades:















Às vezes parece-me
Que estamos no centro
Da festa
No entanto
No centro da festa
Não há nada
No centro da festa
Está o vazio
Porém no centro do vazio
Há outra festa.







quarta-feira, 12 de agosto de 2009

O Amante Japonês - Armando Silva Carvalho


Tive a sorte de me deparar inesperadamente com O Amante Japonês de Armando Silva Carvalho na livraria Bertrand e de poder desfrutar da sua poesia singular e intensamente humana.

Com esta obra poética o autor venceu, unanimemente, o Grande Prémio da Poesia 2008 da Associação Portuguesa de Escritores/CTT. Entre Lisboa e Peniche, de Outubro de 2007 a Fevereiro de 2008, o poeta criou 67 poemas cujo motivo se encontra sobretudo na problemática existencial e no amor desmascarado de qualquer pudor ou preconceito social. Apresenta alguns poemas que partem de personalidades várias por quem demonstra absoluta admiração tais como Camilo Pessanha, Herberto Hélder, Novalis, William Blake, Ricardo Wagner, Luiz Pacheco, Carlos de Oliveira, Manuel Freitas e também Apóstolo João.
Inscrevo nesta página dois poemas que muito me impressionaram pela sua dimensão humana tocante inscrita numa verdade poética retumbante que lhes confere uma universalidade inquestionável. Os dois poemas entendem-se lado a lado, justificando o título escrupuloso desta magnífica colectânea onde, noutros tantos poemas, pude verificar muita influência de Pessoa-Campos.


1º poema:


Seishu, um nome tão ligeiro na voz
Que o vento cedo levou para as colinas
Onde se esconde o choro
E o desespero tem uma morada
Filosófica.

Como posso falar-te,
Sem cheirar a matéria ardida,
Da sua destreza em aplainar
A eriçada pele dos meus sentidos?

Nesses anos dourados, o Japão era um livro
De minúcias, jardins de pedra e areia,
E toda a natureza me servia
A delicada chuva de uma estranha ciência
Em pétalas pelo meu corpo.

Tu ficavas de fora, como animal antigo
Preso ao saibro estéril do mundo inferior,
Ligado ao útil, rasteiro, arsenal dos artefactos.
Sem luz interior.

Repito dentro de ti o seu nome
Seishu.

Para que aprendas comigo a língua da lembrança,
A que traz consigo a mágoa de nos sabermos
Deixados no porão dos sonhos e sem mãos que nos busquem
No correr da água irrepetível.

2º poema:

A primeira vez que te raptaram
Andava eu a pensar trocar-te por algo de mais novo
E atraente.

Contigo cantei outros. Contigo desejei outros.
Contigo obediente à minha ambição
Descontrolada
Acenava a mão prostituída aos que nos viam passar
Num silêncio pesado de amantes
Desavindos.

Parecíamos um casal de velhos ilegais e sem família,
De leões amargos e cativos
Lambendo e exibindo ao sol as suas feridas.

Não sabia sequer como pedir-te
Que fosses pelo mundo em pobre serventia
A levar-me aos enterros, à casa dos amigos atrasados
Que não te ouvem sequer quando tens sede.
Vergonha de mim próprio, ao usar-te em casamentos
Como parente e pelintra.

A primeira vez que te raptaram
Eu quase endoideci à chuva da manhã
Ao olhar o teu lugar vazio na rua.
Senti-me tão pequeno e nu o sexo murcho
Olhado assim parado pela vizinhança.

Eras a minha Europa e eu não via o toiro em fuga.
Ou nada disso: Morrias
Sem que eu te visse o rosto, as quatro rodas tristes,
O volante ardido pelo sol baço da vida.
Tu eras o país que me fugia.

Como primeira morte de paixão funesta
Eu não tinha respiração para regressar ao mundo
Não sabia andar, criança de mim mesmo
Às cegas, cobria-me de insultos.



terça-feira, 11 de agosto de 2009

Her morning Elegance - Oren Lavie

Ao Afonso
A manhã é o tempo da mais forte
expectativa frente ao dia que começa.
Da janela, tudo se esconde por detrás
dos dedos em leque que cobrem o primeiro
rasgo de um jacto no céu. O ar do verão é
ainda tão leve na sua queda que se apega
aos meus ombros negros da noite e
lhes lambe as últimas cinzas. De braços
levantados num telhado pontiagudo,
dou sinal de mim e de ti
aos raros automobilistas
que circundam a rotunda,
que seguem sem luzes,
num trajecto puramente mecanizado,
sem ver o acordar das árvores. O meu acenar
mais alto toca a espuma das nuvens e empurra-as
para o outro lado da cidade adormecida.
Hoje não quero chuva.
A tua manhã é diferente. Tem uma luz
mais dourada porque filtrada pela portada
entreaberta do sonho e ao ver-te sossegado
na tua pequena caminha,
pressinto que este dia vai ser maior
do que os outros
só por ser o dia do teu aniversário.

sábado, 8 de agosto de 2009

Nocturno Indiano - Antonio Tabucchi


Acabei de ler recentemente Nocturno Indiano, traduzido por Gaëtan Martins de Oliveira, com revisão do próprio António Tabucchi e confesso que gostei de muitos pormenores deste romance. A epígrafe que abre a obra, da autoria de Maurice Blanchot, merece ser relida:

" Les gens qui dormente mal apparaissent toujours plus ou moins coupables: que font-ils? Ils rendent la nuit présente."

(As pessoas que dormem mal parecem sempre mais ou menos culpadas. O que fazem elas? Tornam a noite presente.)

Talvez seja esta a grande culpa de Roux, a personagem principal deste romance, um homem que vai à Índia sob o pretexto de saber de um antigo amigo desaparecido, Xavier Janata Pinto, vivendo a noite indiana de forma intensa, num trajecto espiritual de procura de si mesmo. O texto está escrito em primeira pessoa, numa espécie de registo diarístico das pequenas histórias que vão surgindo, protagonizadas por este viajante em constante deslocação e pelas personagens caricatas com que se vai cruzando.

Numa nota introdutória António Tabucchi deixa claro que “este livro, mais do que uma insónia, é também uma viagem”, também realizada pelo próprio autor, pelo que lhe pareceu bem fornecer um índice dos lugares por que passou, cedendo ao leitor um registo topográfico que vai construindo o romance, desde a morada dos hotéis, aos apeadeiros rodoviários ou até mesmo às praias. Uma página que poderá ser bastante útil para quem pretenda reconhecer na Índia esta leitura de Tabbuchi.

Entre a miséria explícita logo nas primeiras páginas e o luxo exclusivo de poucos, Roux tenta encontrar-se neste mistério inequívoco, em muito possibilitado pela magia dos vários personagens com quem vai dialogando - Vanila Sar, uma prostituta do Hotel Khajuraho, um médico com o nome de um deus com rosto de elefante, um devoto jainista às portas da morte, Margareth, o Director de Theosophical Society, um monstro Arant com seu irmão, o próprio fantasma do vice-rei da Índia, um ex-carteiro de Filadélfia,Tommy e finalmente Christine, uma fotógrafa simpática. De Bombaim a Goa este viajante vai atrás, afinal, de si mesmo, encontrando-se nas palavras dele e nas dos outros, desconhecidos. Algumas também acabam por fazer o leitor encontrar-se a si própria nesta leitura.

«O corpo humano poderia perfeitamente não passar de uma aparência. Esconde a nossa realidade, pesa sobre a nossa luz ou a nossa sombra.»

«Referia-me aos corpos (...) talvez sejam uma espécie de malas, transportando-nos a nós próprios.»

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

A Borboleta de Nabokov

Fotografia de Lia G.
A fotógrafa espanhola Lia G., que está em exposição na Colorida Galeria de Lisboa até dia 14 de Agosto, consegue surprender-nos com uma foto simplesmente bela. Apetece-me comentar que quando a beleza é absoluta dá vontade de prová-la. De resto, a mim também me apetece ir ver esta exposição, intitulada "Íntimas" que apresenta muitas fotografias interessantes como esta.
Lembrei-me da borboleta de Nabokov e da alegria que deve ser aliar a paixão da escrita à obsessão por borboletas, como acontece com Vladimir Nabokov. Transcrevo parte da crónica de António Mega Ferreira sobre a borboleta azul:
"A Borboleta de Nabokov
No princípio dos anos quarenta o escritor Vladimir Nabokov descobriu, ao acaso dos seus passeios por uma ampla zona de pinhal próxima de Albany, no estado de Nova Iorque, que uma espécie de borboletas especialmente abundante na área ainda não estava classificada. Chamou-lhe Lycaeides melissa samuelis, e com isso, antes mesmo que a celebridade o consagrasse com a publicação do seu romance Lolita, em 1958, Nabokov entrou na história da entomologia. Trinta anos depois, no princípio da década de setenta, Nabokov estava convencido de que a sua descoberta era bastante mais revolucionária do que pensara: a borboleta azul, a Karner azul, não era apenas uma variante de uma família mais vasta, mas uma espécie autónoma, relacionada especificamente com o habitat do pinhal de Albany.
Em 1988, mais de dez anos após a morte de Nabokov, um artigo publicado pela revista Natural History lançou o grito de alarme: a borboleta de Nabokov poderia estar ameaçada, a prazo mais ou menos previsível. A construção de um complexo comercial em parte da área onde tradicionalmente a Karner se desenvolvia viria perturbar o equilíbrio ecológico de forma tão dramática, que as fontes de subsistência e de desenvolvimento da raríssima espécie acabariam por desaparecer – e, com elas, a própria Karner, que, segundo os especialistas, sobreviveu às profundas transformações ambientais verificadas há 12 mil anos, mas não seria capaz de escapar ao cataclismo dos bulldozers e do cimento."
António Mega Ferreira, A borboleta de Nabokov, Editorial Notícias
Para mais curiosidades sobre a investigação levada a cabo por Nabokov, cientista, veja-se a página: http://www.nabokovmuseum.org/en/news/17/

Encontro a casa num tronco - Fiama Hasse Pais Brandão


50
Encontro a casa num tronco,
A habitação que me surpreende.
É um corpo estranho na árvore.
A floresta está tão próxima
Que é lisa como um reposteiro.
Morro sem esta exalação
da garganta das folhas.
As línguas que elas agitam
Que lançam um bafo verde exaltante.
As gavinhas que sustentam
o soalho rodeiam-me o tornozelo.
Assim estou no ar mas equilibro-me.
Não sendo igual a uma ave
Envolvo-me na folhagem. Para dormir
acordo. O cicio das paredes,
que era como o das folhas.

O musgo, símbolo do chão,
Está quente como a pele. As comparações
Obcecam-me. Não aprendo deste
modo as essências. Mas está tudo
aqui. Tudo, mesmo
na ignorância. Tudo pegado
a tudo. Ao odor, às vespas.
A inteligência que se orienta
neste labirinto. As coisas que
estão e se deterioram. Bicas
de água límpida, chumbo.

Este poema pertence a um dos livros de poesia mais preciosos que guardo em casa. "Obra Breve" (título aparentemente irónico), com um prefácio de Eduardo Lourenço (outra preciosidade do livro). Com a publicação de Obra Breve (1991), Fiama reorganiza toda a sua obra poética, incluindo alguns inéditos, imprimindo-lhe a ideia de poesia como processo vivo. As suas páginas impedem-nos de sair de casa sem o remorso de não ler estes poemas ininterruptamente. Cito palavras do prefácio de Eduardo Lourenço em que vejo toda a verdade: "Ninguém entra na hermética paisagem de Fiama como em casa. (...) A poesia de Fiama é tão clara e obscura como o mundo onde se descobre como olhar misteriosamente intruído pelo percurso que o solicita. Um mundo ao mesmo tempo anterior ao olhar e esperando por ele para ser decifrado. Esse mundo não é um cosmos pleonasticamente harmonioso, desde sempre votado à contemplação e a um óbvio sentido. É só um mundo escrito em hieróglifos, finito e inesgotável na sua minúcia. O poema não vem elucidar o mistério da realidade sem cessar bifurcante onde a atenção de Fiama desembarca como no mais desconhecido dos mundos: vem reconhecê-la. Um mundo anterior ao verbo que o descreve e convoca, que nunca foi nomeado fora da voz que no-lo diz. Melhor seria dizer, do poema que o cria pela sua própria respiração." Nunca sei (perdoe-me Fiama!) quando leio estas e outras palavras de Eduardo Lourenço, se me apetece retomar o texto poético de que fala ou lê-lo e relê-lo, a ele, crítico da literatura, até à exaustão. Mas é o poema 50 que interessa e um videoclipe de uma intérprete fantástica ( que também pode irritar alguém a qualquer momento, acredito nisso!), chamada Joanna Newson, que nos chama a atenção para o facto de que a realidade também interessa. Um vídeo lindíssimo, com uma harpa que remonta às origens da poesia.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Nocturno de David Mourão-Ferreira

Fotografia de Edgar Martins




NOCTURNO

Eram, na rua, passos de mulher.
Era o meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral o espinho de uma rosa brava...


Era, no copo, além do gim, o gelo;
além do gelo, a roda de limão...
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste verão.

Era no gira-discos, o Martírio
de São Sebastião, de Debussy....
Era, na jarra, de repente, um lirio!
Era a certeza de ficar sem ti.


Era o ladrar dos cães na vizinhança.
Era, na sombra, um choro de criança...


Um nocturno assim tão simples mostra-nos que a noite desenha a perda e, em simultâneo, o encontro do poeta consigo próprio. Não era necessário Debussy para este poema ser uma música para os meus sentidos.

Às fotos de Edgar Martins (de quem tanto gosto) escrevo este apontamento:

"Qualquer coisa contra a noite ganha o seu tamanho."

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Luz Indecisa




Sou admiradora das crónicas que José Mário Silva escreve para a revista Ler. Gosto da sua expressão criativa que nunca se anula em detrimento do assunto ou da personalidade maior sobre que se debruça. Como um avião a jacto que sobrevoa uma cidade à noite, entre o texto literário e o noticioso, ele vai dando um espectáculo de luzes e velocidade a que vale sempre a pena assistir. Foi por isso que comprei o último livro de poesia dele com alguma pressa.



De todos os poemas de Luz Indecisa houve dois de que gostei particularmente: Primeiro Soneto Nocturno e Segundo Soneto Nocturno. Os títulos convocam, com originalidade, sonetos como música clássica e um tempo de solidão absoluta para lê-los ou ouvi-los. A memória do sujeito poético deixa de ser uma "luz indecisa" para se voltar com um afecto desprendido, nomeadamente na reprodução em discurso directo das palavras de quem ama, para tristezas instantâneas de um quotidiano que captou num sofrimento que faz também seu. O tema da morte na poesia nem sempre é tratado com esta beleza.
Houve um momento em que hesitei em dizer que preferia o Segundo Soneto Nocturno pois achei que a sua beleza era um prolongamento do Primeiro. No entanto a referência ao texto dentro do texto, as duas vozes poéticas entrecruzadas, a assunção desoladora da personagem (que adivinho feminina) da inutilidade da poesia, a linguagem metapoética a questionar o seu sentido, a metáfora do anjo, a surpresa rasgada do "sismógrafo" para revelar a pequenez de que nos revestimos, ..., empurram-me para este soneto, que de soneto só preserva o exacto número de versos em cada estrofe. A ler.


Primeiro soneto nocturno


Dizias: nunca da esperança verei o rosto,
nem do medo o corpo vago e fugidio.
Dizias: a noite é a escuridão em todas
as janelas, gatos e lixo, o candeeiro


da rua (com a lâmpada partida). Sobre
o tampo da mesa, na cozinha, alinhavas
os comprimidos pelas cores: vermelho,
azul, malva, cores da madrugada tão


distante como as árvores da infância,
cheias de corvos. Dizias: esta doença
é a própria noite, um cão a devorar-me


as entranhas dentro do escuro. Lá fora
o som das ambulâncias transportando,
aflitas, outros mortos mais solícitos.


Segundo soneto nocturno

Dizias; a poesia não nos protege
nem salva, é só um consolo inútil.

As folhas rasgadas ardiam melhor,
o fogo contorcia as estrofes, brilho



negro o destas cinzas. Dizias: foi
ontem que o anjo me veio arrancar
os olhos, amanhã virá à procura do
coração. Na tua voz, restos de vidro


moído, metal gasto, ferrugem. Lá
em cima as estrelas continuavam
a cintilar, indiferentes. Nenhuma


catástrofe que nos aconteça ficará
registada nos sismógrafos. Dizias:
afinal não há anjo, são só palavras.


Apetece-me chamar Hélène Grimaud, que vestida de negro, interpreta como ninguém (esta é a verdade!), sem pudor artístico, numa entrega demiúrgica, Bach.


Hélène Grimaud - Bach

Flor de papel dourado





Mad Rush - Philip Glass

Flor de papel dourado

O romper da madrugada
Banha-me o corpo
Num cantar de aves
Em círculo fechado
Que vai vagarosamente
Baixando o seu voo
E pousa como um tesouro
Sobre o meu ventre escavado
Uma flor de papel dourado
Lembrando a tua chegada.




Este é um poema inspirado no belo nome do café que frequentava Magritte. Este pássaro de céu e nuvens também está lá. "Mad Rush" de Philip Glass, envolve-o na perfeição.



Le Séducteur, Magritte, 1953

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

La Fleur en Papier Doré - Rue Alexiens 55, Brussels, Bélgica








Que lindo café que Magritte frequentava. Li numa página da net consagrada a este lugar de culto que Fleur en papier doré foi remodelado mas que se manteve com inteligência a sua alma de "bistrot" histórico. Foi fundado por G. Van Bruaene como uma espécie de cabaré e num passado recente era habitualmente frequentado por Magritte e tido como ponto de encontro dos surrealistas de Bruxelas (Plisnier,Marien,Scutenaire, Mesens,...). O seu interior conserva uma decoração heteróclita feita de "objectos-disparates", colagens e caricaturas. Funcionou como abrigo dos encontros " Permanences Poétiques" e foi de 1981 a 2000 sede social da Associação "Grenier Jane Tony". Que sítio encantador para beber uma taça de vinho com amigos... A arte surrealista desprende-se das paredes e dos objectos em exposição de forma explícita. E o tom dourado do papel de baptismo deste café invade o ambiente e transporta-nos para um templo antigo com cheiro a pétalas de rosa.

A excentricidade e a provocação de Magritte lêem-se neste café num aviso artístico que é assim ( e faz lembrar a obra "Os dois Mistérios" onde pinta um cachimbo e o nega como realidade, imediatamente a seguir com a frase: "Ceci n'est pas une pipe."):

Magritte faz equivaler as palavras às imagens e parte do pressuposto de que "Palavras ou imagens é a mesma coisa." Acrescenta que se a poesia é uma arte particular baseada na linguagem (tal como disse Paul Valéry), isso deve ser válido tanto para a poesia escrita como para a poesia em imagens. Magritte aposta em muitos trabalhos artísticos na inversão plausível do sentido habitual das coisas, provocadas por paradoxos, tal como na poesia escrita. Nele encontramos duas posturas pois para si " a inteligência da exactidão não impede o prazer da inexactidão". Gosto particularmente da maneira como ele institui a verdade na arte e como torna a realidade numa fantasia absoluta. Um pedaço de nuvem a entrar pela porta entraberta de sítio nenhum. (Se pudesse pendurava este quadro no quarto da minha amiga Anabela para ela ter sempre à cabeira a nuvem que a deslumbra e uma porta aberta para a sua metafísica. Cedo-o em ponto grande para impressionar bastante.)

Magritte fascina-me tanto com a sua obra como a verdadeira poesia. E é a sua procura constante de pontes entre a realidade e o mistério que o torna naturalmente poético. Nas páginas do Livro Magritte de Jacques Meuris, editado pela Tashen (que ofereci ao Paulo para me ofertar a mim mesma, confesso) tive a oportunidade de conhecer mais um pouco da sua personalidade artística e apercebi-me, entusiasmada, de que ele se correspondeu com André Breton (o autor do Manifesto Surrealista) durante muito tempo. No entanto nos finais dos anos 50, Magritte decepciona-se fortemente com Breton pois acha que ele deixou de procurar a "pedra filosofal" desta estética, revelando-se assim um guardião do surrealismo mais dogmático do que ele. O facto de em tempo de desilusão, nascida do contexto de guerra, Magritte fazer prevalecer na sua obra o sol sobre a noite, confere-lhe uma força revolucionária tão grande que o distingue das obras de muitos outros pintores surrealistas.Fiquei a gostar ainda mais dele por sentir que as suas convicções artísticas ultrapassam o domínio da arte, invadindo a sua vida de forma que não se distingue a convicção artística da convicção humana. Gosto quando ambas se confundem porque pressinto que só dessa forma ela é pura.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

PRECISÃO

Precisão, Clarice Lispector

O que me tranquiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.

Chuva Oblíqua


Requiem for an umbrella / Séverine Cousot aka Sey

II

Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça...
Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,
E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro...
O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes
Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar...
Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a água no fato de haver coro...
A missa é um automóvel que passa
Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste...
Súbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe
Com o som de rodas de automóvel...
E apagam-se as luzes da igreja
Na chuva que cessa...

Fernando Pessoa


A fotógrafa Séverine Cousot aka Sey, conseguiu esta foto simplesmente soberba, a partir da simples armação de um guarda-chuva, comemorando assim um dia de chuva igual a outros tantos. As tonalidades do edifício captado por detrás da armação do guarda-chuva são as mesmas de um triste fim de tarde outonal. Para acompanhar esta fotografia não há nenhum "poema com chuva dentro" que supere o virtuosismo poético conseguido por Pessoa em "Chuva Oblíqua", o poema que inaugura um novo modo de enunciar em Pessoa, o chamado Interseccionismo. Que bom poder juntar Pessoa à japonesa Séverine.

O excerto transcrito corresponde à segunda das seis partes com que o poema se faz. Cada uma das partes é autónoma e fantasticamente conseguida neste estilo único que tentou na poesia e que tanto se assemelha ao cubismo na pintura.(partilhando as suas técnicas de recorte, colagem, intersecção ...). Acho isto simplesmente genial!

É também curioso saber que Pessoa em carta dirigida a Adolfo Casais Monteiro sobre a gésese dos seus heterónimos refere que num dia triunfal, após ter escrito mais de 30 poemas de O Guardador de Rebanhos e a Ode Trinfal com que nascem Alberto Caeiro e Álvaro de Campos, respectivamente, cria Chuva Oblíqua como reacção dele próprio contra a sua inexistência nas criações anteriores.

Portanto Chuva Oblíqua é poema-regresso (!!), de Fernando Pessoa a ele próprio, depois de passar pelo êxtase da despersonalização literária. Isto dito por ele, com outras palavras. É também magnífico detectar no poema a série de técnicas de escrita completamente inovadores para a altura. As oposições categóricas (som/silêncio; dentro/fora; luz/escuridão); a inusitada concretização de substantivos abstractos que funde realidades completamente distintas; a sintaxe da indiferenciação como em " Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste; o simultaneísmo expresso pela contiguidade de acontecimentos cujos espaços e tempos não se equivalem ("o automóvel que passa enquanto a missa decorre"). É magnífico verificar como o sujeito poético comparece em ambos os espaços e tempos simultaneamente (é um verdadeiro ser superior!); a dinamização de substantivos estáticos (a missa passa como um automóvel que circula no exterior da igreja!) e a experiência da transparência através do olhar oblíquo do sujeito poético que tudo atravessa (como a chuva, daí chuva metaforizar o seu olhar) como lemos no verso "E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça // [...] E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro...". Todo o poema consegue alcançar um terceiro plano, o da intersecção, que não é mais do que que a clarividência, a transparência das coisas e dos seres. Poema invencível. Poeta inultrapassável. Uma estátua da poesia universal, pelas mãos do nosso Pessoa.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Sobre o mar

Paul Nash, Winter Sea

Sobre o mar

Sobre o mar imenso, o voo das gaivotas.
Sabe que te amo.
Mais longe, os ventos das
Tempestades sentem por mim
O que sinto por ti.


Mais perto, a brisa dos ventos
Acaricia-te a face
Como se fossem as minhas mãos.
Junto a ti, o meu olhar beija o teu olhar e na areia
Encontro beijos para te cobrir o corpo.


Sobre o mar que finda na praia,
Lá andam as gaivotas guardando o segredo
Lá está a força dos ventos e as suas brisas,
Lá vêm as minhas mãos húmidas e
Os beijos guardados na areia salgada.
Tudo por causa de ti.

HPF

Este é um poema quase tão belo como quem o criou. Surgiu do espaço-nada, numa folha em branco manuscrita e dobrada com ternura, a partir de mim. Quando não acredito no ser humano, leio-o para sentir um amor que é só meu. Espero lê-lo sempre com a mesma esperança e vaidade.
Paul Nash é um surrealista inglês com grandes pinturas que retratam sobretudo as duas grandes guerras. Esta ilustra o mar de inverno, distante e misterioso na sua frieza.

Magritte O criador de mistérios (Notícia "Público" de 30/07/2009)

O maior dos pintores surrealistas belgas tem finalmente um museu, em Bruxelas. São mais de 250 obras e documentos que mostram como Magritte passou a vida a subverter a realidade. Estão lá os pássaros-céu, as mulheres enigmáticas, os cartazes elegantes que anunciam tardes de tango
O Museu Magritte, o mais recente pólo do Museu de Belas-Artes da Bélgica, na Place Royale, em Bruxelas, tem apenas dois meses, mas é já apresentado como um caso de sucesso, com os seus 75 mil visitantes.Para Virginie Devillez, directora de projecto deste museu que nasceu em 2005 na cabeça de Michel Draguet, director do Museu de Belas-Artes, e de Charly Hersovici, presidente da Fundação Magritte, e que começou a ser montado três anos mais tarde, o êxito não é surpreendente. "Bruxelas é uma cidade pequena, mas com pessoas de toda a Europa, com um nível cultural elevado", explica ao P2 por telefone. Muitas dessas pessoas estão habituadas à obra de René Magritte (1898-1967) - em livros e catálogos, na publicidade e no cinema - e algumas até já tiveram oportunidade de estar frente a uma das suas obras, e
m museus europeus ou americanos, mas "não querem perder a oportunidade de ver tantos quadros juntos de um dos pintores mais reproduzidos do mundo".O novo Museu Magritte tem a maior colecção de obras do pintor surrealista belga. São 250 pinturas, esculturas, desenhos, posters, fotografias e outros documentos, incluindo dezenas de manuscritos e até pautas ilustradas, distribuídos por três níveis de exposição (ao todo são 2500 metros quadrados), segundo um programa que procurou aliar a organização temática à cronológica, apostando na componente cenográfica, inspirada na obra do próprio pintor.

Magritte nasceu no Sul da Bélgica, em 1898, numa família de baixos recursos, com um pai alfaiate e uma mãe modista de chapéus. Por natureza calado e tímido, Magritte e os seus dois irmãos mudaram frequentemente de casa com os pais, que procuravam dar-lhes uma vida melhor. Adeline, a mãe, preocupava-se com a educação dos seus três rapazes, mas cedo deixou de os acompanhar - suicidou-se quando Magritte era ainda um adolescente (teria 13 ou 14 anos, os dados divergem). As memórias mais fortes desses primeiros anos, haveria de contar mais tarde, diziam respeito a uma caixa cheia de objectos que ficava sempre junto ao seu berço, a um balão de ar quente pousado no telhado da sua casa, e ao rosto da mãe coberto por um pano quando retiraram o seu corpo do rio (há quem veja uma relação evidente entre este momento e quadros como Os Amantes, de 1928). É a pintar que Magritte se sente livre. Começara a estudar pintura em 1910, em Châtelet, e continuara, três anos mais tarde, em Charleroi, quando já começava a ser evidente o poder que tinham sobre ele as aventuras de Fântomas, as viagens de Robert Louis Stevenson e o universo literário de Edgar Allan Poe. Já andava na Academia de Belas-Artes há mais de dois anos quando decidiu fazer os primeiros quadros, inicialmente cubistas, depois futuristas. Começa a dar-se com alguns pintores e poetas, entre os quais E.L.T. Mesens, marca duradoura na sua vida e no seu trabalho, tal como Marcel Leconte. Enquanto estuda e anda pelos cafés de Bruxelas, em tertúlias e discussões políticas (aderiu duas vezes ao Partido Comunista, para o qual chegou a desenhar cartazes, que nunca foram aceites), Magritte vai formando o seu imaginário, em que a realidade aparece invertida.

"Quer mostrar o mistério da vida", explica Devillez, "mas só para provar que ela é estranha e importante."

Na fachada de um dos cafés que Magritte e o seu grupo frequentavam - La Fleur en Papier Doré, na Rue des Alexiens - brinca-se com a histórica ligação do maior dos surrealistas belgas (é assim que é descrito) àquele pequeno espaço que ainda mantém a decoração original, com a sua lareira rude e velhas molduras nas paredes amareladas, cobertas de colagens e de frases encorajadoras: "Todo o homem tem direito a 24 horas de liberdade por dia.""Isto não é um museu: aqui consome-se...", diz a parede exterior, que fica colada à da florista. Há ruas e praças do centro da cidade, como as do bairro de Le Sablon, em que o pintor do chapéu de coco - imagem de marca de Magritte (lembram-se do quadro Le Fils de L'Homme, de 1964, que aparece no filme O Caso Tomas Crown?) - se instalou na montra de livrarias, lojas de chocolate e clubes de xadrez, paixão que o autor de L'Oiseau de Ciel (1966, símbolo da companhia aérea Sabena) partilhava com Man Ray e Marcel Duchamp. Mas havia paixões que Magritte não partilhava.Georgette, sempre Georgette. Ela está por todo o lado. Nos quadros, nas fotografias, nas cartas e nos poemas. Mesmo quando não temos a certeza de que é a ela que Magritte se refere, Georgette está lá, com os olhos grandes, claros, entrando nas sessões fotográficas do marido - com um cachimbo sobre a cabeça pousada na areia ou enrolada num lençol branco amarrotado, divertida - ou como destinatária invisível de uma mensagem, de um esboço.

"No museu há um lindo poema de amor, que provavelmente seria para Georgette, mas não temos certeza", lembra a directora do projecto. A meio do papel amarelecido, escrito à mão, pode ler-se: "Tenho o coração desta mulher. (...) A dois, o nosso poder serve-nos para inventar um empreendimento surpreendente...""Magritte era louco por ela, isso sabemos. Há uma carta de 1922 em que admite que não consegue trabalhar por estar demasiado apaixonado. Não consegue pensar em mais nada."

Magritte e Georgette conheceram-se em 1913, escreve Marcel Paquet em René Magritte: O Pensamento Tornado Visível. Ele tinha 15 anos e ela não chegara ainda aos 13. Foi nesse dia, em Charleroi, que andaram pela primeira vez de carrossel (não sabemos se René se atreveu a segurar-lhe na mão). Reencontraram-se em 1920, no Jardim Botânico de Bruxelas, e nunca mais se separaram - Georgette passou a ser o seu modelo e, dois anos mais tarde, também sua mulher."Estavam sempre juntos", diz Devillez. "Passamos horas a ler os documentos e chegamos à conclusão de que eles não viviam um sem o outro. Parece um filme. Magritte faz-lhe as vontades, muda de casa porque ela quer um jardim, muda de país porque ela se sente sozinha [foi assim durante a Segunda Guerra Mundial, quando troca o Sul de França por Bruxelas, onde ela ficara]..." Aparentemente, o pintor não tinha dúvidas de que valia a pena. "Feliz aquele que atraiçoa as suas convicções pelo amor de uma mulher", escreve.

Profundamente influenciado pela obra de De Chirico - outro dos grandes do surrealismo -, Magritte desenvolve um universo muito singular, opondo-se por vezes às directrizes da "escola" francesa, liderada pelo poeta André Breton, com quem mantém uma tensa relação de amizade, desde 1927, quando o belga se muda para Paris e os dois partilham horas de trabalho e boémia com o pintor Marcel Duchamp e outro poeta, Paul Éluard. Nos três anos parisienses do casal Magritte, o pintor torna-se mais livre. Graças a um contrato com uma galeria tem um ordenado e não precisa de perder tempo a trabalhar em publicidade.

"Aqui consolida-se a sua forma de pensar a pintura. O que lhe interessa nela não é a técnica, mas a poesia", explica Devillez. "Magritte não é um espontâneo. Quando começa a pintar, sempre muito lentamente, tem o quadro todo na cabeça, sabe exactamente que tipo de reacção procura do observador." É um "criador de mistérios" que dizia muitas vezes que pintar era cansativo porque implicava pensar de mais.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

O MAR DE SOPHIA

Esta foto é uma das muitas espectaculares da colecção do francês Philippe Ramette que gosta de tirar fotos a si próprio em contextos surreais como... no fundo do mar. Que bela foto para acariciar o poema de Sophia que a seguir transcrevo.

FUNDO DO MAR


No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.


Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.


Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.


Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.

Sophia de Mello Breyner Andresen
Obra Poética I
Este é um dos meus poemas predilectos dos 14 livros de poesia que Sophia editou. Cada vez que o leio encontro-lhe sons marítimos profundos diferentes, cores de matizes variantes como no mar de Espinho e uma beleza intocável que me faz lembrar que ela é um reino muito pequeno, como disse há muitos séculos atrás Sócrates. Para mim ela é o próprio mar. Adoro o título que o inicia - "Fundo do Mar" - e o torna misteriosamente apetecido como se para o compreendermos necessitássemos de uma leitura subaquática com máscara de oxigénio, barbatanas gigantes e olhos abertos para as maiores surpresas: encantos e desencantos. Cada vez que leio este poema, ganho consciência da efemeridade da própria beleza do mundo, dos outros... e sei que também dentro de mim há um fundo a que nem eu chego. Gosto de lê-lo em voz alta aos meus meninos porque é também um verdadeiro poema da nossa infância.



terça-feira, 28 de julho de 2009

CORAÇÃO DO DIA, Eugénio de Andrade


Não resisto: tenho que colocar este magnífico poema de Eugénio de Andrade! Foi uma prenda da minha amiguinha tão linda!


Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavrasou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.


Eugénio de Andrade(Coração do dia)

CHÃO MÃE

Procurei um poema do Zé Alexandre. Lembrei-me deste "Chão Mãe" pois na altura que o li o poema deixou-me tão feliz por ser tão simples e pelar às raízes, ao nosso estado bruto. No fundo, somos todos poeira! Poeira de estrelas! Os átomos, protões, electrões, gluões, quarks, são exactamente os mesmos que constituem as estrelas! Não é impressionante?

Quando a luz me foge
e a dor me sobra,
lavo-me nas lágrimas soltas,
corridas do espírito,
caídas no chão.
“Chão mãe”, vaso imenso,
de tudo cheio,
onde a vida fica,
em espera final.
Se o sofrimento alcança a resignação
e o mutismo,
toma de mim a indiferença,
respiro o cheiro da terra,
trago-a para perto,
chamo-lhe casa
e lá pernoito como peregrino,
como mendigo.

Mária Kovalszki

"Sob os dedos ágeis de Mária Kovalszki/ Em que procuras a escuridão onde a música/ Se esconde com teus pés feitos de luz"

segunda-feira, 27 de julho de 2009

No.3 Clair de Lune



À Anabela Coelho
No. 3 Clair de Lune


Nos caminhos que o luar abre no asfalto
Pintam teus pés as pedras as brechas
As bermas as sinalizações absurdas
Pintam teus pés os degraus dos universos
Sem dares conta sangrentos no cinzento
Ferozes por tudo por todos que os prendem

E sobes das amarras plenamente intuitiva
Com teus pés brancos de lua
Suspensa nas notas da sinfonia de Debussy

Aí pintam teus pés em negro orbital
O teclado de um qualquer piano clássico
Onde sempre te acalmas embevecida
Sob os ágeis dedos de Mária Kovalszki
Em que procuras a escuridão onde a música
Se esconde com teus pés feitos de luz.