terça-feira, 6 de outubro de 2009

As Asas Crescem Devagar - Texto de Memórias

Não posso deixar de mostrar um excerto do livro de Maria Rosa Colaço que surge no manual escolar do 10º ano que é um autêntico sucesso de recepção, lido e interpretado na sala de aula na última sexta-feira, dia 2 de Outubro. Tem uma beleza e uma riqueza semântica singulares e toca aos alunos na medida em que é da morte que se fala despudoradamente, dessa referência incompreendida no universo de ilusão e inocência da criança. Comove-me este pequeno texto, lido expressivamente e com todo o silêncio que nos merece o prazer da leitura. Ora leiam:

As Asas Crescem Devagar
Quando eu era pequena, a minha maior alegria era semear coisas. Semeava tudo: caroços de laranja, de nêsperas, pevides de melão, raízes ínfimas de violetas, pétalas de cravo, olhinhos amarelos de malmequeres. Semeava nos vasos, nos canteiros da escola e, sobretudo, debaixo de uma nespereira enorme que havia no quintal da minha casa de infância. As sementes transformavam-se. Primeiro eram folhas tenras, depois, plantas que cresciam, às vezes trepavam, às vezes… não acontecia nada.Um dia, o meu canário morreu.
Logo, não percebi muito bem o que lhe tinha acontecido. Depois, descobri que alguma coisa diferente, silenciosa, fria e inesperada, interrompia a vida. Então, fui também semear o canário.
Durante dias e dias aguardei, debaixo da nespereira, que o canário voltasse. Primeiro seria o bico. Depois, os olhitos e, depois ainda, um voo rápido e uma canção.Passaram-se muitos anos.
Quando olho lá para trás sei que descobri que a vida é um milagre.
Semear qualquer coisa que fique, que cresça, que deixe um sinal, mesmo pequenino, deve ser o sentido dos nossos dias. E, em certas horas, ainda acredito que o canário voltará. É talvez uma semente que demora um pouco mais que as outras porque tem asas e as asas crescem devagar. Mas eu sei, tendo a certeza que um dia, de repente, no alto duma árvore qualquer eu avistarei essa ave. E conto com vocês que me lêem para me ajudarem a descobri-la. Está bem? "


Maria Rosa Colaço, in De que são feitos os sonhos?, Areal Editores

4 comentários:

Anabela disse...

querida amiguinha

o texto ´´e ternurento e repleto de mensagens. concordo com a tua apreciaçao. Um unico senao: parece-me um texto demasiado simples para o 10ºano, o que te parece? nao seria exig´´ivel para essa faixa etariatextos mais complexos?
Muitos beijos a acompanhar este meu cometario repleto de erros ortograficos porque hoje nao consigo coloca-los convenientemente (erro do sistema?)
Anabela

Ana Arminda Azevedo disse...

Olá queridas amigas,
Fiquei arrepiada, enquanto viajava neste mar revolto de palavras quentes e avassaladoras, envoltas na magia da música e na exuberância das telas...Que moldura perfeita!!!Que harmonia tão bela!!!
Obrigada, por este pequeno prazer, e parabéns pela iniciativa.
Estou convosco!
Bjs
Ana Arminda

Anabela disse...

Ola querida Ana Arminda

Como temos saudades tuas...
O mundo virtual tem destas coisas, encontramos alguem quando menos esperamos. obrigada pela tua opiniao tao sentida sobre o blog... gostaria muito que te juntasses a esta loucura...
pensa no assunto.
muitos beijos
Anabela

Nuno disse...

Este texto marcou-me muito especialmente porque, como actualmente milhares de alunos o têm estudado eu também o estudei. Só que ao mesmo tempo que o estudava passava pela situação de perder uma avó. E sim, ... Coincidência ou não, tive o primeiro contacto com este texto ao mesmo tempo que tive contacto com a morte...